domingo, 21 de outubro de 2018

'Um Passado Imprevisível': resumo

Regressado a Budapeste e ao convívio com um velho professor universitário, vê-se o herói em busca forçada do passado – imprevisível. Os seus passos, quando julgava despedir-se de tudo, são cuidados por outrem ‒ do que ele não se dá conta. Menos distraído, o destino reserva-lhe surpresas, e ele a si mesmo se descobre filho de quem o dirige.
O que sabemos da vida que julgamos ter vivido, se nem sempre assistimos às consequências dos nossos actos? Conhecemos quem está ao nosso lado e o efeito que, na nossa ausência, sobre ele produzimos? Quando pensamos ter quebrado todas as amarras, não será cada movimento condicionado por outrem?
Sujeito renascendo entre dois mundos – Hungria e Moçambique –, cujas feridas saram em encontros felizes, são também os perigos de hoje (violência, arbítrio, tráfico de crianças...) crua e subtilmente desvelados, nesta terra de verdade que é a ficção.
Memória de tempos, personagens e lugares sobre o Danúbio do antigo leitor de Português na Universidade de Budapeste (1981-1986) – quando aí vicejava um doce «sono comunista» procurando diluir os acontecimentos trágicos de 1956 – e visitante de Maputo, edita-se Um Passado Imprevisível após Uma Bondade Perfeita, Prémio PEN Clube Português – Novelística, em 2017.
Vou resumir a história, para que possam apreciar melhor, atenta e sensualmente, a linguagem.

Na sequência das perseguições estalinistas dos anos 50, o Professor Z foge para Lisboa, onde se apaixona. Regressa a Budapeste para viver a revolução de 1956, e só em 1961 revê, em passagem breve, essa mulher e uma criança que não sabe seu filho. 
Vinte anos depois, à sombra do Instituto Italiano da Universidade de Budapeste, o docente de eslavística e professores daquele instituto convivem com o leitor de Português.
Passa um quarto de século, quando, aos 50, desencantado, autor de um só livro best-seller e agora treinado em artes marciais, o antigo leitor se despede de velhas memórias, visitando, de comboio, o passado entre Itália e a República Checa.
O encontro inicial é preparado pelo Professor Z, que (saberemos depois) veio de Lisboa, onde reatou relações com a mãe do protagonista. Informado desse percurso, ‘apanha-o’ em Ljubljana e convence-o a visitá-lo, após regresso de Praga. Hesitante, vencido pela curiosidade, acede ao convite.
O Professor tem segunda jogada preparada, no dia seguinte: fazer com que o visitante reconheça a filha Andrea, nascida de relação com namorada deste nome, que fora aluna de ambos, e trabalha em organização não governamental em Moçambique. Ela ensinou à filha, no primeiro ano da faculdade e sob tutela de Z, os tiques e preferências do pai, e ofereceu-lhe esse livro com dedicatória. «Andrea conhecia-me melhor do que eu julgava. Dos lugares à bebida, e, decerto, em fotografia. Mais importante, nos matizes da voz, que podia ter interiorizado por arte da mãe, se não ouvira gravação de aula ou emissões de rádio.» Ele reconhece-se nesses percursos de outrora, físicos e comportamentais; e compreende que, traduzido em Madrid e Barcelona, a demanda da filha por terras de Espanha era já atrás de si – enquanto não tocava nos direitos, intactos, em conta bancária. Os dias seguintes confirmam o ar de família.
Em contexto diverso, eu já imaginara tais lances n’O Romance do Gramático (2011: 54): «Há uns olhos no meu horizonte, nesse passado imprevisível.» A meio da redacção deste livro – entre 28 de Maio de 2004 e 5 de Junho de 2006 –, a minha vida pessoal sofreu algo semelhante ao que narrava: a filha mais velha, nascida em Budapeste, decidiu, aos 15 anos, vir viver comigo.
O ex-leitor fica para a jubilação de Z, cuja primeira noite fora de casa, em jantar oficial de consagração, denuncia a tristeza do lugar, e como também ele, fugido ao amor, se sacrificou a 50 anos de insónias literárias, preenchendo uma grosa de cadernos azuis, em que as novas páginas em branco retomavam, sumariando até ao osso, uma vida igualmente triste. Dito de outro modo, o seu estranho nome contém todas as letras do alfabeto, e não há aí nada de gratuito: quem não entreler um indestrinçável nome eslavo, entenderá que é com essas letras, na plenitude do que somos, que se faz literatura. Incompreensível (como se não deve dizer da arte abstracta, de certa música, dos sonetos senianos de Afrodite Anadiómena, etc.) é a sua fuga ao passado.
Promete reencontro na Eslovénia, mas parte para Lisboa e segue para Moçambique, pois sabe que o ex-leitor, a pedido da filha, vai encontrar-se com a mãe desta, Andrea.
Não o encontrando na Eslovénia, este passa por Lisboa, onde encontra mãe não menos feliz, que ele julga explicar-se pelo abandono de um traste. Fecha a primeira parte.
O remorso faz adiar o encontro penitencial com Andrea, pelo que desembarca na cidade da Beira. Mimando os passos de Camões, Diogo do Couto e tanta posteridade literária, vai conhecer a Ilha de Moçambique, onde toma um navio de loucos, que julga cruzeiro ameno. É um huis clos terrível, que desentranha o pior da condição humana. Sabemos, agora, que ele se chama J. C., e sente-se obrigado a proteger uma jovem médica, Nídia, que vai de Lisboa ao encontro da mãe, também Nídia, e médica. Este nome sobressalta-o. São salvos por helicóptero, e encerra a segunda parte.
Esta segunda parte foi a primeira a ser escrita, após visita à consulta do viajante, em vésperas de me estrear em Moçambique. Atendido por uma jovem chamada Nídia, as suas explicações, entretanto passadas a papel (que ainda conservo), eram de uma sistematicidade e rigor que me encantaram. Foram vazadas no meu texto. Ora, eu já publicara, em A Flor e a Morte (1983), um conto intitulado “Turista”, onde aparecia Nídia, universitária que vira uma só vez, no café, nos anos 70. Nem esta, nem aquela vi segunda vez. Mas estou-lhes grato.
No último instante, enquanto os ocupantes do navio são salvos, J. C. vislumbra um caderno azul do Professor, pelo que decide ficar, para redobrado tormento, salvando-se a instâncias da jovem Nídia e de um guia amigo da Ilha de Moçambique. Entra em cena a respeitada médica-chefe do hospital de Maputo.
Transportado para a capital, o seu espírito é ‘turvação’, título da terceira parte: doente no sobrevoo do país, dependente de outrem, sente-se entregue a destino indefinível que julgava controlar. Não sabe que horas são, quem vê, quem lhe leva roupa nova ao hotel. E, quando busca Andrea – razão de ir ao sul de África –, é esfaqueado por um dos sobreviventes do navio, crime encomendado pela vingativa mãe Nídia, antiga namorada que jamais revelou à filha quem era o pai.
O seu álibi é perfeito, pois está no Kruger Park, na África do Sul, apoiada pelos dois falsos turistas do navio, a fim de resgatar bebé trazido pela grávida e seu protector conhecidos nesse malfadado cruzeiro.
Conduzido ao hospital por Andrea, que fora avisada dos seus passos pelo recepcionista do Rovuma, onde ela reside, é a mesma Andrea que, por precaução, o traz de volta ao hotel.
Aí se encontram todas as personagens no derradeiro dia – a médica-chefe, Nídia mãe, Nídia filha –, Andrea, para a revelação de que esta Nídia é também sua filha.
Andrea, por seu lado, informa que o Professor viera confirmar algo que trazia de nova visita a Lisboa: que certo menino visto, aos cinco anos, em álbum de fotografias era efectivamente ele, J. C. Donde, filho do Professor Z, o qual voltara à Hungria, a fim de estar com a neta Andrea…

Amo Budapeste, onde mais próximo estive do paraíso. Dedico o romance a dois amigos – um deles, decisivo na minha vida, já falecido –, e entram outros nomes próprios, apaixonados por um bom charuto, futebol e xadrez. Evoco o reencontro, em 2006, tempo da história, de também professores que, líricos laureados, eu mesmo traduzira e editara em Portugal, em 1985. No entretecer de velhos «idos socialistas» e novos tempos, agora com sua «linguagem neoliberal», vou opinando, desagradado, e não só sobre a qualidade do café: «Nessa época, éramos contemporâneos da História.»
Há seis personagens com o passado alterado. Na conta, não entra Nídia mãe, cuja revelação final é um pedido de perdão pela autoria moral de crime falhado. O Professor Z e Andrea mãe sabem quem é o pai de Andrea filha, o que explica a felicidade da mãe de J. C., a qual não só recupera Z, como rejubila em ser avó. Andrea filha é activa: apoiada por Z, refaz-se imagem antiga sedutora e conduz o pai ao lugar do crime, para o comprometer; a irmã mais velha é rigorosa e decidida, mas fechada num navio e sem apoio materno. Se Z e velha paixão acrescentam esta segunda neta à conta, a verdadeira revolução dá-se com J. C.: «Preparei, sem querer, há vinte anos, degustando Pinot Noir, este lance que, mal eu sabia, me dava a volta à vida e ao mundo? Eram os nossos actos que nos controlavam, ou poder superior? E, mesmo se eu não quisesse recuar ao primeiro não, não estavam já lançados os dados sabe-se lá para que destino? Porque me torturavam estas sortes de alma, a que eu quisera fugir? Até onde é que eu me conhecia, ou fazia por isso? Fora apanhado no meu labirinto.» Ainda ignora que, tendo abandonado Nídia antes de abandonar Andrea, uma primeira filha viera ao mundo.
O primeiro desenlace tem o seu quê de subtil e melodramático, na tensão do diálogo. A aceitação da filha explica-se no parágrafo seguinte: «Simultaneamente, sentia um alívio terrível, sossego duro e sofrido, na transição de mundos que se me antolhavam. Habituava-me, ainda; o caminho perdido na busca de filhos tinha, afinal, outra solução: alguém nos procurava. Ora, se eu via sinais um pouco por todo o lado, porque não dizer-me que, escrevendo aquelas aventuras de seres, eu preparava este desenlace, único verdadeiro? Teria reagido como agora, se não me tivesse experimentado em várias ficções sobre a minha realidade?»
Eis a terra da verdade, onde vale a mentira bem pactuada com o leitor (é isso a ficção); outra mentira perdeu, em 1956, um professor esquivo, cuja fuga ou abandono o filho repetirá. Assim, entre perda e salvação desenrola-se a história de uma recomposição familiar em três gerações. Vencida a culpa do mais velho, reequilibra-se o presente. Devemos, contudo, pensar nisto: «Ninguém antecipa o alcance dos seus actos. Somos seres do imediato, bebendo tudo da fonte do instante, que nem sabemos se voltará a encher.» Por isso, que passado aguarda cada um de nós?  

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Na entrega do Prémio PEN Clube, em 21 de Novembro, na SPA, a Uma Bondade Perfeita

Clemente, um carrasco de 26 anos, tem por tarefa executar a mãe, Alcina. Recorre a um frade, Filodemo, cujo passado de jornalista ilumina existência crua e vingativa de Menigno, director da prisão. Nesta prisão ¬ (após salvar a filha), acaba de morrer quem compensou Clemente da ausência materna ¬ Ágata, raio de bondade entre os refugiados do Afeganistão, onde Menigno, apoiado num Ocidente cínico, erigira império do mal.
A história alterna na voz de Clemente e Filodemo, desde o cair do dia até à madrugada em que tudo se decide, com vitória da razão.
Em atmosfera de contra-informação e terrorismo, seguida, já na pátria amável (com beira-mar proibida), de reunião de familiares destinados à morte, mostra-se o cálculo de um psicopata, em cuja teia as próprias vítimas colaboram. Raras embora, a humanidade encontra sempre, todavia, uma praia do bem.
Assim, quem nos salva é, não o altruísmo mecânico de mãe biológica – Alcina, que dirige uma ONG –, mas Ágata (bondosa, em grego), que, erguida entre as maiores violências, persegue o bem supremo da paz de consciência, e culmina neste Séneca dirigindo-se a Lucílio: «Sabes o que eu chamo ser bom: ser de uma bondade perfeita, absoluta, tal que nenhuma violência ou imposição nos possa forçar a ser maus.»
Dito de outra forma: a humanidade não se salva se o mal nos torna maus, pois seremos iguais a quem nos venceu. É isso a escalada da guerra, não raro alimentada pelos media e seus manipuladores. Ser inteligentemente defensivo é outra coisa, e, desde logo, obviar à iniquidade, nem que a única saída, sempre em aberto, seja a morte – morte digna, como a de Ágata.
Esta figura condensa a imagem que tenho de minha Mãe e da sua irmã, minha tia, Maria de Lourdes. Trago comigo a voz e o sorriso delas. À Teresa, que ainda conheceu aquela, e aos meus primos [presentes, Manuel das Neves Doutel e Domingos Doutel] dedico este momento, rodeado de tantos amigos [Ana Diogo, D. Celeste, João de Deus Rodrigues, José Mário Leite, José Luís Lopes da Mota, Manuel Frias Martins, Maria Carlos S. Aldeia, Paula Trindade, Vera Prescott, Victor Rodrigues, etc.], de iguais premiados [Fernando Pinto do Amaral, Rui Miguel Mesquita], do mecenato governamental [Silvestre Lacerda], de um júri [Teresa Cadete / Teresa Salema, Helena Barbas, Francisco Belard] que algum mérito viu nesta prosa tensa e fílmica, editada por chancela muito particular no nosso panorama [Gradiva: Guilherme Valente, Rodolfo Begonha, Fátima Carmo, Helena Rafael], a quem eu pedira não candidatar-me a prémios… Verdade é que estou profundamente grato a todos.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Uma Bondade Perfeita vence Prémio PEN Clube de Narrativa

Ernesto Rodrigues venceu, com o romance Uma Bondade Perfeita (Lisboa, Gradiva, 2016) – já traduzido em romeno –, o Prémio PEN Clube Português na categoria de Narrativa, cuja entrega será no dia 21 de Novembro, às 18h, na Sociedade Portuguesa de Autores.
Tendo como pano de fundo o drama dos refugiados, Uma Bondade Perfeita narra os desatinos de um psicopata e mostra que quem nos salva é, não o altruísmo mecânico de uma qualquer mãe biológica, mas Ágata (bondosa, em grego), a qual, erguida entre as maiores violências, persegue o bem supremo da paz de consciência, culminando neste Séneca: «Sabes o que eu chamo ser bom: ser de uma bondade perfeita, absoluta, tal que nenhuma violência ou imposição nos possa forçar a ser maus.»
A humanidade não se salva se o mal nos torna maus, pois seremos iguais a quem, assim, nos venceu. É isso a escalada da guerra, não raro alimentada pelos media. Ser defensivo é outra coisa, e, desde logo, obviar à iniquidade, que conduz à servidão, nem que a única saída, sempre em aberto, seja uma morte digna.
Os prémios PEN Clube, também em Poesia e Ensaio, têm o apoio da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

domingo, 19 de março de 2017

The Novel of the Grammarian


The Novel of the Grammarian [O Romance do Gramático, Gradiva, 2011] is the transcription of a manuscript the author discovered in the possession of a Jewish-Hungarian family in 1981.
An ex-monk, Fernão de Oliveira, narrates the strange occurrences in a convent on the island of Bled (Slovenia) in 1532, with Christian Europe threatened by the Turks. The novel follows the adventurous life of the first Portuguese grammarian (1507-1581) who was a sailor in the service of France, who when a prisoner in England met Henry VIII and who was also persecuted by the Portuguese Inquisition.
With pages enriched by facts and figures from the 16th Century, by intrigue and liberty of thought, the rebellion and good humour of this tale are the best response to today’s sad times.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Do Movimento Operário e Outras Viagens




Do movimento operario e outras viagens  de Ernesto Rodrigues[1]



Foi com prazer e grande surpresa que li este livro que me levou a descobrir a poesia de Ernesto Rodrigues, autor que só conhecia do ensaio e da narrativa de ficção, sobretudo como romancista.
Impõe-se desde já assinalar nos poemas deste livro um diálogo fecundo com alguns dos maiores poetas da nossa tradição lírica, bem como das poéticas contemporâneas: com Camões, com algum Cesário Verde, no registo coloquial, com Fernando Pessoa, sobretudo com a obra ortónima e as odes de Ricardo Reis, naqueles poemas mais curtos e próximos, de certo teor aforístico, por vezes. No seu aspecto formal, deparamos essencialmente com uma escrita poética num registo de cariz narrativo, registo que entre nós ganhou algum fôlego a partir do trabalho poético dos autores do Grupo de Poesia 61. 

Trata-se de um livro que apresenta uma estrutura discursiva com variações de registo e um cruzamento de linhas num jogo de vozes, mas também de imagens e memórias, constituindo uma experiência visual, num misto de celebração e angústia do sujeito poético, além da grande intensidade que comporta o plano da sua dimensão intertextual. E neles, na sua maioria, uma linha que liga à nossa memória colectiva,  à História, um elemento de interseção dos poemas. E por essa via se inscreve, de  certo modo, paradoxalmente, a modernidade deste discurso poético, nos termos que assinalou Jean-Marie Domenach (em O Regresso do trágico), como forma de visitação poética ou cosmogonia que tem, fixados no intertexto, plurais vasos comunicantes com uma literatura de exigência de reflexão.
A dominante maior deste discurso poético é a sua consciência histórica  (que é uma consciência feliz), precisamente porque a escrita poética, tendo neste autor uma dimensão ética fortíssima, torna-se ao mesmo tempo testemunho e garantia da não-existencia daquilo que designamos por má-consciência.
Lemos no poema “Proposição” (p. 50):

«A luz, a cor, o dom de minha terra
canto, no tempo mau em que navego.
Queria perceber, na forma nova, 
dor que rondou milénio, sobre mim,
e faz do verso vate justo, cego,
eco de homem, sua mesma prova;  
olhar de perto como sou – assim, 
nosso chão canto, bom, que Céu encerra.»

Direi, portanto, abreviando um pouco, que nos situamos perante um discurso poético que se movimenta no quadro de uma consciencia histórica, sendo esta o eixo estruturante do discurso e das suas viagens. Viagens que surgem como testemunho ou ofício do sujeito lírico enquanto operário de palavras desse seu edifício que vai construindo, ou, se quisermos, das viagens necessárias ao percurso próprio desse universo. Vejamos o exemplo, a este título, do poema “Do movimento operário e outras viagens” (p.7):

« Não deixa de ser curioso como, a tremer de frio, vou encontrar, num museu, a forja de meu
                                                                                                                                                      pai.
Ele emigrou em finais de 66, não consoou já connosco, nesse natal. No baixo,
continuava tudo igual: cheiro a ferros, o coração do fole em repouso, a bigorna
em recolhimento. Em dezembros seguintes, quando voltava,
não dei por que houvesse mudanças. De facto,
a minha educação não descia à oficina e, por isso, martelares sob a sala
onde eu escrevia, demoras do pai na comida que arrefece, nunca
gostei de trabalho escravo e  quanto a mãe se ralava! No entanto,
ele era um artista de primeira. Solda mais perfeita! mãos mais empreendedoras!
Com elas eu lia, estudei, dali fugi. Ontem (tão fora de natal, ainda),
como de volta a casa de meu pai, reconheci
que vasto sopro se acalenta na ferrugem dos materiais,
trazidos de rupturas várias, despertando em cada consciência. Eis porque,
agora que de vez emigrou para a sua própria casa, não encontrará, na oficina,
as brasas extintas ao cabo de quinze anos. Nem, para exercer o gesto cuidado,
os seus instrumentos. Ganhou riquezas caras: almoço a horas certas;
o prazer de, num domingo, dar um salto ao museu fazer perguntas aos objectos.
Confirmarei termos doado a forja, tenazes, o coração do fogo, bigorna, martelos.
As devolvidas mãos eu pedirei, coisa de segundos, a meu pai.
O tempo de, sem os irmãos verem, lhas
beijar; depois, beber um copo à saúde.»
   
A carga afectiva dos objectos de memória transforma-se numa função  heurística intrínseca a este discurso poético, neste quadro.
E daí resulta uma dimensão mais complexa desta escrita: é uma poética que integra a viagem como premissa do fazer poético, sendo a própria escrita a imagem de uma viagem para o desconhecido, para o questionamento, essencialmente, como neste fragmento do poema “Democracia” (p. 66):

 «Nós não sabemos a origem do poema.

Como se faz? Nasceu de quem? – Assim é
um país, filho de um querer desvairado,

sem razão própria, sonho de família,
de sobrevivos, aptos para quanto
for erigido. Entre sol e sono, 
 […]»

Aqui se constata que a relação com a História não é mera evocação do passado, porque surge neste discurso como forma de viagem com um especial cariz: o passado impõe-se como pretexto para interrogar o presente ou, mais concretamente, o real  do poema.
E o questionamento persiste,  prossegue, na página 53:
  
«A luz, a cor, o dom
de minha terra,
canto,
no tempo mau em que navego.
Queria perceber,
na forma nova,
dor que rondou milénio, 
sobre mim,
e faz do verso
vate justo, cego, 
eco de homem,
sua mesma prova;»

O contraste entre “a luz, a cor, / o dom”  e o “tempo mau” potencia a imagem de uma passagem para algo. Talvez se possa assinalar de imediato aqui, entre outras linhas de trabalho que se abrem à leitura destes poemas, a passagem da ideia de deserto como referente.
A referência ao deserto do sujeito poético é elemento contíguo à imagem de isolamento, do silêncio, também. O que testemunha, neste contexto, que a escrita poética resiste nestes poemas contra uma certa angústia humana do presente.  Relembro aqui, de forma oblíqua, Baudelaire, precisamente na sua referência ao deserto.  Baudelaire  foi o  autor que colocou a imagem do deserto no plano ontológico e a trouxe para a literatura (em Le Peintre de la Vie Moderne / O Pintor da vida moderna) há um século e meio, quando se referiu ao “grande deserto de homens”, na sociedade do século XIX, entre os elementos que o artista apreende no meio em que vive.
 E a imagem do deserto aparece explícita nestes textos, até com certo registo irónico, por exemplo, no poema «Narrações” (p. 57):  

 «Um deserto de ser 
– que bom um deserto!
Sem uma árvore, nem sombra vã,
sem de areia um grão, sem
a ideia, mesmo, de deserto.»

Neste fragmento fica vincado ainda o contraste entre o problema, de ordem metafísica, do “deserto de ser” e um “bom deserto”, “sem / a ideia, mesmo, de deserto”, e, muito particularmente, através da modalização do discurso pelo sujeito (“– que bom um deserto!”).
 E ainda, no fim do poema (p. 61) :     

« Mar, deserto, cidade – quem procura,
do vagir aos confins, perde-se bem:
no oceano da tarde, que fundura,
coração? Que bravia sombra vem,
ronronante, levando-me por sobre
sonhos gastos de pátria tão pobre?»

       Neste poema, as imagens constituem elementos concretos que nos remetem para a erosão da memória, da memória cultural, porque “quem procura” “perde-se”, defronta-se com “bravia sombra” e “sonhos gastos”. Há aqui uma certa desolação, um certo desacerto identitário também, que podemos aproximar da situação de “grande deserto de homens”, que é expressão que se pode aplicar à erosão que resulta das nossas sociedades contemporâneas, na proporção exacta da avassaladora consolidação da tecnociência e da desumanização crescente. 
Por isso, os textos deste livro surgem como foco de intensidade poética que sugere ausências, veredas, à procura de uma experiência nova, que se nos impõe em cada poema, como uma viagem à volta dessas imagens que nos questionam o tempo presente, que lemos como se fossem páginas de um livro de memórias, livro de questionamentos identitários, não sem alguma auto-ironia na arena da História, como ilustram os poemas “História de Portugal” e  “Pátria”. No primeiro (p. 45), podemos ilustrar esses mesmos veios de questionamento no fragmento seguinte:

A 1128
Sucedeu 43.
O povo não era muito,
foi assim que Deus nos fez.               

Ou no poema “Pátria”, por exemplo (p. 46): 

 «Heróis do mar. Por favor! 
Heróis foram, no entanto.
Partiu-se a barca de espanto,
 vogamos sempre em redor.»

É nesta ideia que vinca uma forte consciência crítica da memória colectiva, de um fazer poético enquanto território de questionamentos, que se inscreve também este livro de Ernesto Rodrigues. Sabendo de antemão que o questionamento pode ter como resposta a ideia de mudança. Mudança que antecipa a imagem do deserto, ou já de resposta à ideia de deserto, como, por exemplo, o fragmento da página 58:

«Tudo muda,
diz a cidade
decadente.
Mas transforma-se
em presente,
que outrem contará.»

Num livro em que o espaço poético provém como explosão de memórias, tão importante quanto a autenticidade e fonte de onde emana o seu discurso, a sua natureza, é essa linha simbólica de demarcação, de um ponto onde se transcende a memória, ou, no plano imanente de uma subjectividade, onde se configura o colectivo em Nação ou em Pátria, questionados objectivamente. São elementos que se tornam neste livro marcadores de linguagem e sustentam o poema como afirmação autónoma ou autografia.
Do sujeito poético e das suas experiências do mundo, em que se cruzam ecos de algum do nosso passado colectivo, se expõe a memória do poema. Trata-se de uma poética marcada por uma linguagem com grande dinâmica de narratividade e por um forte realismo que lhes está implícito, o que surge como problema da objectividade da linguagem.
George Steiner, no seu livro Linguagem e Silêncio, refere-se à importância da objectividade na linguagem, à qual não podem ser alheios os escritores e da qual não escapam os filósofos:

Um dos maiores filósofos modernos é também o que mais se esforçou por escapar à espiral da linguagem […]. Com Wittgenstein, como com alguns poetas, é na luz e não na obscuridade que nós mergulhamos para lá da linguagem[2].

Nestes textos, e nesta manifesta tendência para a objectividade, perpassa alguma leitura,esquematicamente, da imaginação como modo de resistência.
E, ao mesmo tempo, o sujeito poético arrisca aqui um discurso para que se transcenda a si mesmo, operando nessa linha alquímica da questão identitária no ser do poema. O território da palavra poética é aquele em que a imagem de si pode precisamente transmudar-se na escrita como exercício de liberdade enquanto linguagem. E, no caso deste livro, isso acontece pela reiterada implicação da objectivação de que está impregnado este discurso.
Jorge Maximino









[1] Ernesto Rodrigues, Do movimento operário e outras viagens, Lisboa,  Âncora Editora, 2013
[2] George Steiner, Langage et Silence, Paris, Seuil, p. 143.

sábado, 2 de abril de 2016

O autor apresenta Uma Bondade Perfeita


 Caros Amigos e Leitores

Reencontramo-nos na segunda Livraria mais antiga deste país, aonde é sempre bom voltar, gratos ao nosso anfitrião João Paulo. Também regularmente, torno à Gradiva, numa relação que vem de 1988, embora mais intensa desde 2010. Além do editor Guilherme Valente e de Rodolfo Begonha [cuja apresentação agradeço], o trabalho de edição faz-se com Fátima Carmo e sua particular ciência do texto, que nos melhora, logo seguida pela atenta produção de Sónia Rodrigues e a delicadeza de Helena Rafael, nos contactos com o universo da crítica.
Respeito a crítica, enquanto oficial da letra pública desde os 14 anos. Conheço as suas limitações, alcance e bastidores. Não me posso queixar da recepção, desde a primeira novela editada, em 1980. Melhor: desde a estreia em livro, em 1973. Ao mesmo tempo, o historiador da literatura que já fui – hoje, faço história da cultura -, e primeiro responsável pela actualização do Dicionário de Literatura, de Jacinto do Prado Coelho, sabe das contingências da fortuna literária e como, nestas artes, tudo é precário. Vale-nos o quê? A atenção que dedico a, entre outros, o Gil Vicente de Exortação da Guerra, cruzadismo com péssimas consequências nos dias de hoje, um Fernão de Oliveira que deu O Romance do Gramático saído na Gradiva, um Tomé Pinheiro da Veiga e sua Fastigínia, a quem dediquei 23 anos (mas continuo a pensar nele) e me exigiu milhares de euros, um António Pedro Lopes de Mendonça fundando o primeiro jornal socialista em 1848, algum Herculano, Camilo Castelo Branco, de quem acabo de editar criticamente A Queda Dum Anjo, nos seus 150 anos. É como se deparasse com alguém da minha família literária, que gostava de apresentar a tantas presenças, que agradeço fundamente.
No quadro dessa contingente fortuna literária, valem as ligações que eu possa estabelecer com os leitores, talvez despertos para o monólogo final de Molly Bloom, ao lerem as últimas palavras da minha heroína, no fluxo verbal sem pontuação. Ora, é a diferença, na admiração por outrem, que importa: Joyce faz de personagem grosseira uma incontinente; a minha, contida, no verbo e na vida sucinta, acrescenta à moral restrita uma conduta de vida saturada no próprio nome grego, em que Ágata significa bondosa. Este é um exemplo de interposição que o leitor crítico deveria fazer; se o não fizer, se tresler ou nem abrir o livro, está no seu direito. Um autor depende de si mesmo, ou isso defendo, tendo concluído, segundo a história literária, que os favores ao público e mil cedências não trazem amanhãs. Quem me dera que um leitor – um leitor, ao menos -, no crepúsculo dos nossos dias e vidas, pudesse dizer: «A penumbra tecia seus ângulos». Que, frente ao espelho, dissesse: «Este espelho fica-me bem.» Deguste cada um, lentamente, a claridade desta prosa, e isso me basta, se a minha anonimia significar uma frase na boca de alguns. Todos dizem de Portugal «jardim da Europa à beira-mar plantado», e poucos sabem quem assim o definiu; eu repito muitas vezes «A noite cegava os caminhos», e ninguém se lembra ser frase de um conto de cego ilustre, Jorge Luis Borges.
Peço pouco, à medida do prazer insensato que me dá escrever, e dialogar sobre estas matérias, se quiserem interpelar-me, no final.

Terminei Uma Bondade Perfeita em 8-IV-2010. Há seis anos, falava-se pouco de refugiados, mas eu sentia que essa condição em que ciclicamente se vê a humanidade voltaria a assombrar a Europa e o Mediterrâneo. Quando entreguei o original à editora, mal começara drama que é o pão amargo de cada dia.
O pano de fundo de uma catástrofe colectiva remetia-nos, ao tempo, para o Afeganistão. Decidi, assim, colocar aí, numa guerra e lugares indefinidos, com vítimas de carne e osso, as cenas mais atrozes, em que iriam mover-se percursos individuais, determinados por um sujeito moralmente deformado, e seus cúmplices.  A maldade suprema foi despejar bombas sobre uma tenda com centenas de miseráveis em fuga só para matar uma criança, talvez filho: assassinar este seria um crime; mas, se fossem centenas, seria uma estatística, adaptando o perfeccionista Adolf Eichmann. (Em boa verdade, este disse, em Budapeste, que cinco mil mortos eram uma catástrofe e cinco milhões uma estatística.) Nos estados-maiores aliados e nos media corruptos, falar-se-ia em «fogo amigo» e «danos colaterais»… Estamos habituados a este discurso. Se o crime fosse dos outros, seria um acto terrorista. Eis indecências da História, em maiúsculas.
O argumento decorre entre 22 de Fevereiro e 8 de Março de 2010, com missa de sétimo dia por alma da heroína, Ágata, judia que se convertera ao catolicismo e trazia medalha de Nossa Senhora de Fátima, aonde prometera levar nos braços o seu filho do coração. Não cumpriu, por culpa do Céu. Para compreensão do todo, precisamos, todavia, de recuar 26 anos na voz do jovem autobiógrafo Clemente e 40 anos na palavra do ex-jornalista, agora frade, Filodemo, ou amigo do povo, o qual conta as sucessivas paternidades de Menigno e percebe o significado deste nome próprio, a fim de o vencer. Em poucas horas, entre 5 e 6 de Março, essas duas vozes erguem incidentes dos últimos 15 dias e resumem décadas.
Desde Janeiro de 2010, Clemente apanha o penúltimo comboio para um estranho emprego: ser carrasco em prisão vazia, dirigida por um psicopata que dele faz vítima e isco. Este projecta aniquilar cinco filhos e duas mulheres (uma filha também é neta), para, com uma agente secreta inglesa, viver a reforma em beira-mar privativa. Como chegou aí esse filho de pai violento e lúbrico?
Menigno casa com Violeta, de quem tem duas filhas: Irma e Ágata. Responde à mulher com água a ferver, levando-a ao suicídio. Afaga mágoas na viúva dona Mercedes, com dois filhos – o médico Hipócrates e a professora de línguas Alcina -, nela gerando terceiro filho, Benévolo. Ameaçada com a revelação deste rebento, dona Mercedes aceita que Alcina case com Menigno. Mas esta gosta de um jornalista, Filodemo, que investiga a morte de Violeta; e engravida.  
Menigno encontra sentido para a sua vida se se vingar de Alcina, que deserta de casa com o filho, para se dedicar a organização não-governamental de apoio aos refugiados, no outro lado da fronteira afegã, no Paquistão.  A bondade mecânica de Alcina precipita o enredo. Esta personagem vem do Orlando Furioso, passa em Albinoni, desemboca na ópera Alcina (1735), de Händel, e a sua pertinência intertextual fica para os críticos.
A identidade de Clemente é o segredo destas páginas. Até aos dois anos, conheceu, em casa, um homem violento, que talvez justifique fuga da mãe. Desta, além de um cobertor de bebé, guardou um perfume, que, agora, o sobressalta na prisão: recebeu ordem de a executar e, por isso, recorre ao frade. É a cena inicial. Mas nenhum dos narradores sabe a história completa, que só Alcina e a mãe, dona Mercedes, conhecem. A solução está na décima segunda linha a contar do fim.
Dona Mercedes, também na ironia deste nome próprio, foi despojo, e continua presa de Menigno, que nela gerou Benévolo, um infeliz assassinado na estação de comboio, onde tem bar aberto. Quem culpar? Resolvido este passado, dona Mercedes ainda agradece que o filho médico, Hipócrates, tenha emprego inútil na cadeia.
Alcina fora, entretanto, perseguida, já não só por Menigno, mas também pelo coração de Filodemo. Quando troca o jornalismo pela vida monástica, daquela só fica memória pintada por um mestre italiano. Clemente é parecido com esse Menino Jesus, se não é reencarnação, olhando-se sereno, bem alimentado, e já fugitivo nos braços de Ágata. O contraste da capa explicita duas formas – ideal e terrena - de ser mãe. Choca-nos a injustiça que afecta milhões, refugiados ou não. Se «A justiça é a grandeza das nações», como lemos em Provérbios, 14: 34, é caso para concluir: falta grandeza a certas nações; falta grandeza ao Ocidente civilizado. Mas não só de justiça vive o homem.
Entra, na circunstância, uma breve, muito breve, carta 34 de Séneca a Lucílio. Séneca, envelhecendo, alegra-se com os progressos do discípulo: «Tu estás ligado a mim, és obra minha.» Louva-lhe a vontade de ir em frente, pois «o começo é só por si metade da obra». Tudo vai da vontade, «e por isso uma grande parte da bondade consiste em querermos ser bons». Ora, querer não chega, como se diz Clemente.
Alcina reorganiza vidas no lado de lá, na fronteira paquistanesa; de facto, foge a um amor proibido pela mãe, dona Mercedes. Sem vontade própria, mecanicamente altruísta, não persegue o bem supremo da paz de consciência, e, se ajuda uns, abandona o filho aos cuidados de uma jovem funcionária.
Em contraponto, Clemente e Ágata, sua verdadeira mãe, são modelos de um sofrimento que não procuram, atingindo os cimos da bondade, assim expressa por Séneca: «Sabes o que eu chamo ser bom: ser de uma bondade perfeita, absoluta, tal que nenhuma violência ou imposição nos possa forçar a ser maus.» Se acrescentarmos coerência entre palavras e actos, estaremos no «caminho da verdade». É este o propósito de Filodemo, que não abandona o projecto moral de, no antigo jornal, influenciar a verdade. Filodemo triangula essa bondade perfeita ­ jamais obra de um sujeito atomizado ­, ao lutar, magnânimo, pela mulher que dele se afastou.
Menigno, modelo vingador, arquitecta em sete passos assassinos o fim da linhagem. Teve veleidades políticas, que a morte da primeira mulher turvou. Ajudado por quem ajudou a subir na hierarquia dos serviços secretos ingleses, que localizaram Alcina na fronteira asiática, julga dar o golpe final, sem dramas de consciência, se a morte do filho ocorrer entre centenas de refugiados, atraindo, assim, mulher esquiva. Mas o jornalista, que o segue desde Londres, salva a criança…
A maldade retoma-se. Já se livrou do filho Benévolo. Tem na bilheteira da estação a filha e neta Indira, que acusa de homicida, maneira de atrair Ágata à casa da irmã Irma, onde um serventuário espia os contactos com Alcina. Clemente, se não morreu na tenda, sob bombas da aviação aliada, licenciou-se para o desemprego e aceitou, em Janeiro de 2010, o trabalho de carrasco. Não sabe quem é Menigno; não vê a mãe desde os dois anos; ignora que Hipócrates, médico da prisão, é seu tio; que a proprietária da Casa de Vidro é irmã de Ágata. Em 22 de Fevereiro, segunda-feira, ao ir apanhar o comboio, depara com uma loja de espelhos onde fora casa de mau porte. Entrevê um rosto e entra. Na demanda de outrem, vê-se, pela primeira vez, demoradamente, ele que nem espelho tinha para se barbear. Começa a criar uma identidade. Simultaneamente, tem uma visão: se é impossível ser Ágata (mas não há impossíveis; é mesmo ela), porque não o rosto da filha raptada?
Isso confirma no dia seguinte, quando os jornais anunciam a execução desse rosto. Ora, na qualidade de carrasco ele não confirma, e a Imprensa sensacionalista, que não costuma autocriticar-se, reconhece que deu a notícia demasiado cedo: falta o assassínio de Benévolo para, então, sim, incriminar Indira.   
Emerge lição: a humanidade não se salva se o mal nos torna maus, pois seremos iguais a quem nos venceu. É isso a escalada da guerra, não raro alimentada pelos media e seus manipuladores. Ser defensivo é outra coisa, e, desde logo, obviar à iniquidade, que conduz à servidão, nem que a única saída, sempre em aberto, seja a morte – morte digna, como a de Ágata.
Diz Séneca, na carta 70, que «o sábio prolongará a sua vida enquanto dever, e não enquanto puder. […] Deve ter no pensamento a qualidade da vida, não a sua duração. […] Morrer mais cedo, morrer mais tarde ­ é questão irrelevante; relevante é, sim, saber se se morre com dignidade ou sem ela, pois morrer com dignidade significa escapar ao perigo de viver sem ela!» Estas palavras seriam úteis ao debate sobre a eutanásia, enquanto resposta digna a um mal reconhecidamente incurável.
Se o maldoso quer os outros maldosos ­ com que alcança vitória ­, façamos-lhe frente. Assim se executa antigo jornalista, enquanto assiste à vergonha de muitas primeiras páginas manipuladas, noticiando alegada execução de alegada assassina, Indira, filha e neta do psicopata Menigno, repito, que quer, assim, atrair mãe, Ágata, e protectora desta, Alcina, para que seja o filho destas, o carrasco Clemente, a executá-las. É um plano tenebroso.
Ao sair da prisão, subir a colina e socorrer-se do frade, Clemente e Filodemo retrospectivam, alternadamente, várias existências, até à hora madrugadora em que descem, entram na prisão, Filodemo combate Menigno e Clemente liberta a mãe biológica. O romance é qual teia ficcional em que, nos nomes próprios e comportamentos oblíquos, todas as personagens caem, semelhando a maranha urdida por Menigno. Este é ajudado pelos ingleses, em particular, Carmela, e, já neste país nunca citado, de beira-mar proibida, cuja linha de comboio ele também controla, servem-no a ardina Restituta, o chefe da estação e revisor, que ora se chama Sérvulo, ora Sicário, e explora a ingenuidade de Irma, bem como explora o barman Benévolo, vítima desta saga criminosa.
Na agilidade fílmica da prosa, com diálogos vivos e final surpreendente, além de virtudes estilísticas que deixo ao apetite dos leitores, pergunto se a humanidade perdeu a sua raiz vocabular, do adjectivo humano, que, no francês ‘humain’ (c. 1150, ou 1160), já tinha o sentido de ‘compreensivo’ e ‘bondoso’. Quando penso em modelos, lembro duas mães que também eu tive, iguais em virtude: minha Mãe (que prometeu levar-me nos braços a Fátima, e não cumpriu, pois eu cresci depressa) e a irmã primogénita, Maria de Lourdes.
Concluo. Este romance é um alerta contra a desumanidade, eivada de mil injustiças; pede-se inteligência, para que nada nos force a ser maus. Mas falta o essencial, em que António Lobo Antunes me corrobora. Num momento inspirado, disse ele ao Diário de Notícias (5-XII-2015): «Temos a mania de que a inteligência é a maior virtude, mas a bondade é maior.» Sim: se for uma bondade perfeita


 [Texto da apresentação, em 31-III-2016.]

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Na morte de Kertész Imre

Sem Destino

Passou nas salas portuguesas o filme húngaro Sem Destino (produzido com o Reino Unido e Alemanha, 2005), adaptado de Sorstalanság (1975), com que Imre Kertész (Budapeste, 1929) relança a carreira, até ao Prémio Nobel da Literatura, em 2002.
Fui à antestreia, feliz por ter sido adoptado no filme o título breve que propus em 2003 – saíram quatro edições e, depois desse, traduzi outros quatro do autor –, além de coincidências do guião em que a legendagem me retomava, e curioso, ao mesmo tempo, por ver como o realizador Lajos Koltai resolvia problemas (não vou alargar-me nisso) como a variedade linguística num campo de concentração, que me obrigara a dezenas de notas. Reduziu esse aspecto ao mínimo; não conseguiu transmitir sensações, odores, ironias e ingenuidades que o texto dá; mas, em densos 134 minutos, sai obra digna, mesmo notável, sessenta anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. 
Há uma pergunta a fazer: mais um filme sobre o Lager, sobre os campos de extermínio? É verdade; é possível. Mas este argumento é mais do que isso, pois, sendo trabalhado do ponto de vista de um adolescente judeu de catorze anos e meio (idade do autor em 1944, quando é enviado para Auschwitz, passando, depois, por Buchenwal e Zeitz), transforma-se num outro tipo de crescimento dentro de rotina que é elogio da amizade e camaradagem; mais, ainda: embora sem saída, durante a guerra e no regresso à capital destruída, órfão de pai, György Köves (este apelido significa ‘pedregoso’) sabe que «não há absurdo que não se possa viver naturalmente».
A próxima experiência do mesmo autor, ao querer editar esse livro, contada em A Recusa, reitera tal conclusão, agora em regime de estalinismo doce. Ao jovem sobrevivente, mais do que as vicissitudes ou os «horrores» por que todos lhe perguntam, em cidade afinal demudada e hostil, interessa algo que «se assemelhava à felicidade», «lá, entre as chaminés, nos intervalos do sofrimento» (p. 183). Felicidade, vendo fios de fumo dos fornos crematórios? É verdade.
“O Holocausto como cultura” (título de conferência e livro) será, doravante, o principal tema de Kertész: alarga o conceito à experiência comunista, ao capitalismo selvagem que a esta sucedeu no seu país e a comportamentos sionistas em que se não reconhece. Torna-se, logo, um ser contra esses mundos – já questionando se faz sentido trazer filhos ao mundo, em Kaddish para Uma Criança Que não Vai Nascer –, agarrado à traumática vivência juvenil e a um complexo citacional maioritariamente de língua alemã (de que traduziu alguns dos principais autores), embora também extensivo a, por exemplo, um Bernardo Soares e seu Livro do Desassossego, em epígrafe no livro Um Outro. Crónica de Uma Metamorfose.
De prosa algo pesada, pouco literária – o segundo romance, A Recusa, será o melhor, em termos de composição, apesar de leitura difícil –, e com parca aceitação no seu país (o Nobel foi inesperado para todos), é, todavia, o mais traduzido. Este filme tem, ainda, o mérito de relançar cinematografia bem melhor do que a nossa.

[Reproduzido de Mensageiro de Bragança, 6-7-2006]