sábado, 24 de abril de 2021

Teatro, arte da respiração

 

No ano em que me estreei em livro (Inconvencional, poesia, 1973), escrevi a primeira de onze peças, agora reunidas em Teatro (Lisboa, Edição do Autor, 2021, 572 páginas). Era o sonho de uma arte participada por todos, como se exigia para uma diferente respiração nacional, politicamente moribunda. A Pedra metaforizava a opressão desse tempo, na figura de polícia que vem prender jovem universitário rebelde, escrevendo peça com o mesmo título, enquanto pai emigrante sufoca, sem perspectivas de amanhã, sob o cinismo do regime.  Voto colectivo, homens, mulheres e crianças abrem esta «penetragédia» (seja, quase tragédia, nas soluções corais), transformando um regresso de funeral em manifestação de protesto, em cujos cartazes se lê «Queremos respirar!».

Longe de mim pensar que, 47 anos depois, iria escrever Pandemia, em que a respiração tudo suspende, dos abraços à liberdade. Nestas cem páginas entre camilianas e detectivescas, adensa-se cada psicologia, e não sei se deva realçar oportunismos, as relações intrafamiliares, a construção de uma amizade, a abnegação e o bem morrer. Em off, um narrador enquadra as cenas: imagino projecção no cenário de quanto vemos diariamente nos ecrãs.

Entre estas duas peças, não deixei de questionar outros avanços – na estrutura do Poder, tantas vezes cruel e dissoluto, em que incluo conflitos interpessoais –, também da dramaturgia. Assim, Faca no Sol (1974) debruça-se sobre a construção de uma sociedade sem escravos, em que se arrisque a esperança. Escrita no pós-25 de Abril, troca, no final, o hieratismo do tom pela discussão solta entre os actores (já não as personagens) e o público.

O Golpe (1975) desenvolve A Pedra, no que tem de guerrilha efectiva a um governo de Direita autoritária bajulada pela sua Direita extrema. Quem manda, afinal? O desafio da liberdade, ainda num impasse, como nesse Verão Quente de esquerdas totalitárias e satélites, é compensado por quadros delirantes, validando o à-vontade de encenador imaginoso.

Duas personagens (e um empregado pouco falador) protagonizam Jardim (1977), que já publicara como conto em A Flor e a Morte (1983). O diálogo é a forma suprema de respiração: sem diálogo, asfixiamos. Tento por esta via, desde sempre, uma ficção facilmente adaptável à cena, e mais quando sabemos da dificuldade nacional em ‘falar naturalmente’. Mas deixando, por agora, o risco de contaminação entre géneros, direi da surpresa em ler aí a guerra entre genes masculinos e femininos, e como, em cada um de nós, se disputam, algo que deveria acalmar quem supinamente ignora fundamentos da genética.

Vinte e um anos depois, voltei à nossa condição de mortais: Acidente (1998-2000) começa por ser uma conversa sobre a actualidade entre dois mortos na morgue, cujos gavetões abrem e fecham, a par de existências comentadas por vivos, assim misturando memórias. O absurdo está na vida, nos vícios ou síndromes privados, como divertidamente mostro em Delírio (2015). Cada pausa anuncia uma explosão do sentido. Além de um teatro parco de meios e agentes – e as minhas personagens são mais indicações do que nomes próprios, capazes de desdobramentos, se um encenador quiser seguir esse guião –, junte-se boa disposição, além de um pé no quotidiano que nos afecta.

Diferente das cinco que antecedem e seguem, O Divino (2002) narra os últimos momentos de Almeida Garrett. Há restos de um conflito conjugal, de amores fugidos, da amizade reatada com Alexandre Herculano, eu sei lá! Conheço tão bem este autor, que preferi olhar ao homem, do qual, por vezes, me julgo companheiro. Ele é o nosso primeiro intelectual, cosmopolita por excelência, que sabe vestir bem, unindo coragem e génio brincado. Dá nome a praças, e à mais central de Bragança, que, todavia, não nos lembra. Espoliado da pátria, soube, também soldado, recuperá-la.

A mais longa, Sábado (2012-2013), assenta neste dia de reflexão, véspera do voto. Como ganhar uma eleição contra sondagens e evidências? Deve ligar-se a Doença (2016-2017), inaugurada com longo comício, em que um decrépito Pai da Pátria sobrevive à custa de sósias. Do jornalismo venal a um atentado gratuito, vale tudo, neste pântano e seus miasmas. À atenção, pois, de leitores e eleitores. Outra forma de sobrevivência, cínica e abjecta, é propor uma Guerra Civil (2019). Nesta trilogia, com micro-histórias onde, a par da denúncia, não deixo de exaltar valores, está a violência do nosso tempo, manipulador, em que se respira menos do que julgamos.

Deve a arte, entretanto, opor-se a qualquer veio de tirania; dizê-lo claramente em palco, a bem da nossa saúde.         

sexta-feira, 5 de março de 2021

Teatro

 Acabo de editar Teatro, 11 peças escritas entre 1973 e 2020, num total de 570 páginas.

Com excepção da dedicada a Almeida Garrett, O Divino, abordam questões de Poder - desde a vigilância policial no estertor do Estado Novo às relações interpessoais -, manipulação e vingança. São histórias que, mesmo em suspenso ou nas soluções delirantes, deixam germinar um grão de dignidade. 

   

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

 

Justiça: notas de um inocente (3)

 

Ernesto Rodrigues

 

«A justiça é a grandeza das nações.» (Provérbios, 14: 34)

 

Gosto de ler estas peças jurídicas, à cata de personagens romanescas. Inspira-me Stendhal, cujas Chroniques Italiennes (1855) emergem de manuscritos sobre matéria julgada em tribunal. Repetem-se parágrafos inteiros, há milhares de vírgulas perdidas, pequenas gralhas e construções de arrepiar («Tratam-se de», «Um Passaporte trata-se de um documento»). A prosa ganhava em síntese, e mais se os critérios fossem regulares, no que já vai excesso ou falta de respeito: pasmo com a linguagem carregada de «Venerando Desembargador» ou «Venerando Tribunal», enquanto diminuímos outros desembargadores, ao reduzi-los a Sr., ao nome completo e reduzido, ao primeiro nome. O pensamento também se contradiz, faz-se incompleto, escamoteia razões. Nem por isso deixo de passear com mil cautelas neste quase milheiro de páginas, sem contar anexos.

Custa-me, porém, ver (não espiolho) as transacções bancárias dos acusados, que podiam ser dadas em súmula, e discriminação em anexo a que só acedessem as partes. Mas nem todos as contas visitadas ajudam – e isso obrigará o Ministério Público a provar que «benefício» houve Luís Vaz das Neves, ou que «vantagem» tiveram Luís Filipe Vieira e colaboradores.

Rui Rangel protagoniza esta saga, espiolhado até ao tutano. Tem uma actividade e relações frenéticas, para lá do dever de exclusividade. A linguagem dos seus emails desafia a decência. Será obrigado, com outros, a prestar contas ao Fisco. A acusação já faz cálculos de dívida.

Acontece, todavia, que os acusadores seleccionam quem se aproximou de Rangel, e, se for um presidente, melhor; se forem dois, perfeito. É assim que Luís Filipe Vieira entra na história, onde está como Herodes no credo.

     Parte interessada em quase dois milhões de euros a reaver, contra um Fisco sugador, aguardava decisão do Tribunal Administrativo e Fiscal de Sintra. Quando a lei mal ou tardiamente cumprida nos penaliza, é legítimo dizê-lo alto. Ora, se o cidadão levanta a voz, o Ministério Público (MP) chama a isso «recebimento indevido de vantagem». O que terá recebido, além do devido?

A actuação de Rui Rangel junto do tribunal de Sintra não é empenhada. Promete, adia, falha, e, entretanto, vai requerendo bilhetes (paga alguns) e acompanha a equipa lá fora. A tribuna presidencial é a sua obsessão, e fico a saber, por tão douto processo, que essa tribuna «Tem cadeiras confortáveis, estofadas», entre outras virtudes que me comovem... Vieira é cada vez menos interlocutor; Jorge Barroso e Fernando Tavares, nem sempre informando aquele, vão respondendo ao consócio.

 Subitamente, Rangel mete ao barulho a conselheira Conceição Gomes, que, por sua vez, pede à desembargadora Rosa Vasconcelos «para diligenciar pela obtenção da informação pretendida por Rui Rangel» (p. 321, n.º 1825). Esta diligencia, transmite à conselheira, que transmite a Rangel, que passa a Vieira as informações aguardadas.

Conclusão do MP: «Não se inibiu de usar os seus conhecimentos pessoais, de amizade, para conseguir obter informações sobre o estado dos autos do processo […]. // Prevalecendo-se das funções que exercia e do ascendente que elas lhe permitiam.» (p. 323, n.os 1844, 1845) Ascendente sobre uma conselheira do Supremo?

Curioso: estas duas senhoras juízas estão arroladas na acusação. Mandava o bom senso do MP que o empenho de ambas viesse incriminado, ou, no mínimo, censurado. Eu, não, não censuro – quando justiça é feita.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

 

Justiça: notas de um inocente (2)

 

Ernesto Rodrigues

 

«A justiça é a grandeza das nações.» (Provérbios, 14: 34)

 

O Ministério Público troca, em muitos casos, a reserva pudica dos seus actos pela esfera comunicacional. Quando assim é, não se presume inocente. E, se não investiga o crime até às últimas consequências, torna-se cúmplice.

O presidente do Supremo Tribunal de Justiça, entrevistado por jornal, atirou pedras às «maçãs podres», mas interpela uma colega conselheira que exprimiu pontos de vista nas redes sociais.

Quando os procuradores do processo Lex reiteram, referindo-se a desembargadores da Relação de Lisboa, «prejuízo irreparável no Sistema de Justiça português», querem mostrar-se vestais puras? Haja decoro!

Hoje, quero mostrar como Imprensa dita de referência engana leitores no silêncio dos acusadores.

O semanário Expresso de 19 de Setembro traz à primeira página: «Operação Lex faz história ao acusar três juízes (e Luís Filipe Vieira)». Este, dito «mais mediático», já não consta do título da página 5. A entrada reza que o ex-presidente da Relação «é acusado de corrupção […] porque entregou em mãos a Rui Rangel um recurso de um arresto de bens que envolvia o empresário angolano Álvaro Sobrinho. A tese do Ministério Público (MP) é de que Vaz das Neves aceitou entregar o recurso a Rangel sabendo que este iria ser corrompido.»

A expressão «entregou em mãos», ridícula, não é o que o leitor julga, como explicarei. E aceitar «entregar» algo é quando se nos pede, ou nos ameaçam, o que não aconteceu. Tenhamos calma. O insólito da notícia é a omnisciência dos três jornalistas que assinam três colunas. Dizem eles: nós sabemos que o presidente sabia que Rangel ia ser corrompido.

Tenho de concluir isto, quando a acusação nunca afirma tal. Álvaro Sobrinho é citado no ponto 622, p. 176, sem a referência que se julga; e só recuando ao ponto 620 («Em conivência com Rui Rangel, para seu benefício e de um terceiro») é que se poderia extrapolar para o caso Sobrinho. Hoje mesmo, 23 de Setembro, lia-se em rodapé televisivo que Luís Vaz das Neves negava qualquer benefício, como também provarei, ajudado pelo… Ministério Público.

Ora, este, que tanta informação vaza a destempo na Comunicação Social, não vai dizer à trindade que ele, MP, não é Deus omnisciente (embora pareça), e jamais subscreveu o maquiavelismo de que jornalistas ineptos acusam um presidente jubilado.

Fica tudo na paz dos anjos. Nessa paz que leva comentadores do canal público (ontem, no programa O Outro Lado) a generalidades perigosas e a um cenho carregado de quem fala de outiva, sem ter lido a acusação, e menos a defesa. Eu, contribuinte inocente, não quero alimentar papagaios.      

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

 

Justiça: notas de um inocente (1)

 

Ernesto Rodrigues

 

«A justiça é a grandeza das nações.» (Provérbios, 14: 34)

 

Neste retiro sobre o mar, as vagas distraem-me das ondas da vida. Há momentos, porém, em que a injustiça marulha mais alto e, aí, não podemos calar. Viver não é durar: não somos esta rocha em que me sento, nem temos coração de pedra.

Os oceanos (na falta de viagens estelares) são imagem da grandeza que o Homem persegue, desta liberdade fluindo que nenhum chicote silencia. Quando a inquirição vira inquisição, fica em perigo o direito dos indivíduos, treme a democracia. Já iremos ao caso Lex, que justifica estas notas.

O Estado deve presumir inocentes os seus cidadãos – a fortiori, em megaprocessos, que demoram anos, e prejudicam a saúde das pessoas. Essa presunção responsabiliza quem é o rosto do Estado: alguém digno, cuidadoso, inteligente e, mesmo pedindo sanção, generoso. A pena de morte, por exemplo, coarcta-o na humanidade que se lhe exige. Não é inteligente quando não cuida exaustivamente dos factos, ainda que viva paredes-meias com a verdade. E perde dignidade quando se acusa por vingança corporativa ou pessoal.

Prejudicada a inocência desde a primeira fuga para a Imprensa, pergunta-se um cidadão por que razão moral outros se atiram à presa, nem defendida pelo Estado, nem envergonhando os principais actores. Quem não defende o segredo de justiça é incompetente e ineficaz, antes de ser hipócrita. Quem troca o direito à reserva de um indivíduo pela libertinagem da Imprensa devia ser afastado de funções. E, dada pronúncia, quem noticia, comenta, analisa, deve ler aquela no confronto com as defesas. Os filósofos do Direito são mais perigosos que os da bola; e, entre dezenas de rainhas da Inglaterra, há advogados-analistas que minam o bom nome de quem, um dia, no lugar certo, anos depois, será absolvido – mas não ressarcido da mesquinhez de um Estado mal representado, nem pela Comunicação Social predadora, enquanto os enganados no espaço público olham para o lado. Quando se rouba a alguém o direito de cidade, dói assistir à miséria de até o Presidente da República opinar sobre matéria sensível que reporta a outro órgão de soberania.

A isto chegámos. Muito antes da hora verdade, no desprezo dos direitos mais simples, muito bom povo catolicão nem quis esperar: já aplaudiu a matança dos inocentes. Interessa o espectáculo. Nem que se chame Inquisição.  

quinta-feira, 11 de junho de 2020