segunda-feira, 30 de março de 2026

terça-feira, 17 de março de 2026

Golpe de Estado: sinopse e desenvolvimento

 

Golpe de Estado é um romance político que mergulha o leitor nos bastidores do poder, onde ambição, manipulação e extremismo se entrelaçam.

Quando um poderoso oligarca promete resolver a dívida externa do país, o que parece ser um gesto patriótico revela-se uma estratégia calculada para minar o governo e capturar o poder. Desmascarado, passa a financiar movimentos neonazis e a fomentar um golpe de Estado. Mas há quem resista: um tradutor e escritor policial segue pistas improváveis, enquanto um inspector determinado traz à superfície crimes do passado capazes de derrubar esta teia.

Num crescendo de tensão, a narrativa expõe as engrenagens da desinformação e o avanço de agendas radicais – remigração, insegurança, nacionalismo identitário –, revelando como a democracia pode ser corroída por dentro.

Misturando distopia política, história de amor e investigação criminal, este tríptico romanesco combina ritmo cinematográfico, diálogos incisivos e uma escrita intensa que não abdica da emoção.

Golpe de Estado é uma leitura actual, provocadora e inquietante – um romance que desafia, alerta e prende até à última página.

[Contracapa]



 

Alegando assumir a dívida externa do país, um oligarca mina a acção do governo. O projecto de reversão democrática falha, não o apoio a grupos neonazis que ensaiam um golpe de Estado, contrariado por deduções de um tradutor e autor policial. Num terceiro momento, esse mentor investe no monopólio da desinformação: entre ataques à Esquerda, corrobora as bandeiras da extrema-direita – remigração, insegurança, nacionalismo identitário –, mas crimes antigos levam um inspector a cortar a cabeça desta hidra.

Dezenas de personagens convivem neste tríptico romanesco, alertando para a ascensão de um extremismo sem valores, qual Polifemo de um só olho, impondo a sua verdade, única. Quando a democracia formal se tornar eufemisticamente iliberal, os bárbaros – afirmadas ‘pessoas de bem’ ou ‘verdadeiros patriotas’, no desprezo das minorias e de quem é contra – entraram na cidadela.

Sem o jogo das relações interpessoais, contudo, este romance seria um libelo. Distopia política, história de amor e solução detectivesca organizam-se em narrativas de primeira e terceira pessoas segundo montagem cinematográfica apoiada em diálogos vivos, onde a brevidade e secura do verbo não rasuram as emoções que nos alimentam.      

 

Um narrador-protagonista conta, na primeira pessoa, como Nelson C., director e proprietário do semanário digital Última Hora, acolitado pelo chefe de redacção Bernard De Vasconcelos, chantageia o governo de coligação tripartida, servindo-se do ministro das Finanças, a quem oferece entrada em casa eufemisticamente dita de massagens, um segmento de vasto império. Simultaneamente, promete saldar a DÍVIDA EXTERNA (título da primeira parte, primeiro golpe), impondo medidas draconianas: reduzir a pressão da água, a potência da luz, o fluxo de gás e a velocidade dos transportes públicos, nestes triplicando o preço dos bilhetes; um imposto sobre os bens de consumo; decuplicar o estado policial; e uma série de abusos legais, para recreio dos tudólogos. Visa, afinal, a presidência do Banco nacional.

Não olha a meios, seja mandar matar o ministro da Juventude e Desporto ou o redactor César Ruiz, responsável pelas páginas de Cultura e alegado autor do folhetim Os vendilhões da pátria. Mata-se em causa própria, fazendo crer vingança do Estado, a fim de criar uma atmosfera constrangedora de governação também promíscua na relação sentimental do primeiro-ministro com a líder do segundo partido coligado. Em síntese, «O novo governador do Banco nacional arrastou secretário e guarda-costas: detentor de parte substancial da dívida externa do país, está nas suas sete quintas, após obrigar à demissão do primeiro-ministro (por razões de saúde, segundo comunicado), a que se alcandorou, acumulando, o ministro das Finanças. Em dois meses, minaram o governo e o país.» 

O narrador, estagiário de 25 anos redactor de Lazer e Entretenimento, percebe, através da namorada, Eugénia Santos, estagiária em escritório de advogados, que partem daqui as leis governamentais decididas por Nelson C.; cumpliciado com a designer Eulália Sepúlveda, que o reconhece da comum orfandade em internato, e temendo má sorte, passam-se ao jornal da deputada Giselle Santos Brown, onde, com aquele mesmo título, sai noveleta-denúncia, que desfaz os projectos do predador.

Esta parte decorre entre 3 de Janeiro e 15 de Março. A segunda, “Golpe de Estado”, sucede entre 17 de Março e 1 de Maio, ou a reincidência de um perdedor apoiando neonazis, cujas contradições teóricas (História nacional colectora de imigrantes, ao contrário do que julgam) e práticas (tráfico e prostituição de estrangeiras) aquele narrador, em terceira pessoa, desvela, numa prosa mais dialogada.

Começa com a perseguição do líder do grupo 1128, Marco, a duas imigrantes indocumentadas da Crimeia ocupada, Larysa mãe e Larysa filha, de oito anos. Mal saídas de comboio matinal, avenida fora, aquela abandona a filha a um transeunte que volta a casa do passeio. É Gonçalo Santos, autor de policiais reconhecido (ver a emoção da jovem Teresinha e pais), que se socorre do amigo João Meneses – médico, detentor de clínicas associado a uma viúva nórdica, Ingrid –, para consulta à menina. Ingrid Larsen conhece Gonçalo Santos de nome, enquanto tradutor do seu pai, relação que se cimenta até ao final da obra, entre redescoberta do amor, feitos de gratidão e de generosidade no campo da saúde.

Essa manhã, contudo, com ataques país fora do partido de extrema-direita Alto! assente em grupelhos supremacistas, é ensaio para algo maior, mais perigoso, anunciado por outras perseguições. Superintende um apelido agora completo, e significativo: Nelson Camarilha. Gonçalo começa a perceber isso ao ler, em semanário, textos codificados de incitação à luta armada assinados por Maria Marcês Faustina, uma comunista ex-companheira de faculdade, agora ideóloga neofascista.

A narrativa conta as suas diligências para alertar as autoridades, em especial, o director nacional da polícia e o secretário-geral do Serviço de Informações de Segurança. Fá-lo através da amiga e influente Joana Pessanha, separada de João Meneses, enfim colocando o país de sobreaviso contra um golpe de Estado. Confirmam-se as deduções de Gonçalo Santos, que explicará o seu raciocínio em jantar na casa de João e Joana, de novo reunidos, a que acorrem aqueles responsáveis e o Presidente da República.

“Manipulação” vai de 20 de Outubro a 1 de Novembro, ou como comprometer David Brown na morte de uma adolescente, Amanda, filha dos separados Bernard Alvarez de Vasconcelos (filha que não vê há 14 anos) e Olívia de Vasconcelos (antiga aluna de David), neta de Camarilha, que prefere o genro à filha, e Elisabeth, que não acredita no crime. A montagem é perfeita, com prisão, julgamento por tenro juiz (no final, corajoso) e termo e residência do ex-docente universitário, cuja filha, Giselle, e o filho adoptivo Victor Guimarães, inspector da Judiciária, vão salvar.

Sobrepõe-se a guerrilha da desinformação em várias frentes, alimentada por Bernard e pelo jornalista Lucas Evangelista (de facto, Gabriel Martim), filho de Camila Evangelista, técnica de saúde. Esta personagem revela-se em modo diferido, tardio, percebendo-se, então, a sua importância no entrecho. Mais presente, Bianca Ruiz, secretária de Camarilha e sobrinha do assassinado jornalista César Ruiz, tem a sua história e um desígnio, felizmente atalhado por Victor Guimarães. O passado de ambos, conhecido de Camarilha e David Brown, é revelado por este.

Uma adolescente estrangeira, também sequestrada em quinta, aparece morta. Ainda desaparecida Amanda, a amiga de escola Andrea, filha de Alice Norton, sente-se cúmplice, com remorsos, e sucida-se. Somam-se ataques à Esquerda das vaidades alegadamente representada em David Brown; juntam-se à festa de demolição de carácter os nacionalistas de Camarilha, quase sempre intermediado pelo também traficante de droga Bernard Alvarez, promotor da trama, melhor, tramóia.

A pouco e pouco, a investigação policial transmitida a Giselle Brown equilibra o enredo, resolve a equação em risco com uma atenta dona Celestina, vizinha de Lucas Evangelista, ilumina a conspiração e seus motivos, celebra-se sentença judicial (reunindo em almoço Eulália Sepúlveda, etc.), até ao desenlace frente à campa de Eduardo Guimarães, colega de David Brown…

Está aprazado almoço natalício com Victor e Bianca, Giselle e David Brown, o cunhado Gonçalo Santos e mulher Ingrid, a há muito afastada filha Eugénia Santos e namorado-narrador, «modesto organizador destas prosas». Giselle e Ingrid vão surpreender David com o regresso da esposa separada, assim espelhando a conjugação João Meneses e Joana Pessanha, por arte de Gonçalo Santos.       

 

Ameaça-nos um reino ubuesco desde a primeira palavra, evocando o MERDRE de Alfred Jarry. É um retrato cru e triste de país leiloado, de interior vazio, vendido às praias, que, apesar dos esforços tentaculares e criminosos de figurantes radicais, entra nos eixos, evitando mais sangue e cumprindo justiça. Do mundo inconsequente dos artistas à política de alcova, da promiscuidade entre judiciário balofo e um polícia corrupto, da violência mobilizadora ao comentário unívoco (mas cómico, na dona Gardénia, no professor Zandinga), da encenação religiosa ao jornalismo enganoso vai um passo – e o abismo logo ali.

A moral esconde-se na linguagem hipócrita, censória, exclusiva (mais sensível no tocante à raça e ao género, à distinção entre bons e maus patriotas), alfobre de insultos ideológicos e baixos instintos. Em defesa de um 25 de Abril dignificador, que um estilo irónico e partidário acompanha, vela-se pela liberdade em segurança e combate-se o retrógrado: «Uma deputada do Alto! não conseguia calar a fúria, fervendo em bocas baixas, e, pedindo a palavra, considerou a necessidade de manter a mulher em casa, mãe e educadora, ser corpo amável ao dispor do marido, libertando os empregos, donde viria sustento suficiente.»

Nos meus romances, há um processo de vida dos mesmos romances: a visão oblíqua, à Escher, que nos obriga a um lento recentramento. Não devemos tirar conclusões imediatas, pois o que parece não é. O foco incide sobre todos, mas só ilumina a verdade muito à frente. O caso mais evidente é a tensão entre Bianca Ruiz e Victor Guimarães. No final, águas ideológicas separadas, faz-se justiça.           

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

GOLPE DE ESTADO

                     Nas livrarias, em 24 de Março de 2026



sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Ensaio, Edição, Tradução

 


 

Cinco décadas de crítica, ensaio, dicionarística, antologias, edição e tradução estão resumidas em dez volumes, disponíveis em papel e/ou pdf [Garamond, corpo 11]:

 

1. Ensaios de Cultura [2016], 2023, 644 páginas.

Os 28 Ensaios de Cultura assentam na complementaridade entre historiador e analista da cultura face a conjuntos culturais diversos. Convocados elementos visuais (arte rupestre, origens da escrita, vitral, artes plásticas, pequena escultura) e sonoros (fonógrafos, gramofones), domina o livro enquanto meio de comunicação impresso, suas dedicatórias e seus brancos. Olha--se, desde a Idade Média, ao conto popular, à viagem, ao desporto, aos óculos, ao almanaque, à polémica, ao elogio dos bombeiros e aos quadros propondo ‘A Virgem e o Menino’ na Cultura Portuguesa; desde a Roma antiga, à fortuna dos nomes Célia e Lídia. A ilustração do idioma – após 1536, e antológica de seiscentistas – decorre até hoje, ora dissecando o discurso político em 1976, ora intervindo em debates ortográficos ainda acesos.

Que personalidade cultural será, porém, a nossa, e que mitos alimenta? Como, no corpo nacional, se executa, ao longo dos séculos, a ‘pátria breve’ transmontana e alto-duriense, seja em figuras maiores, ou na aventura conjugal bragançana de Pedro e Inês? Essas mais longas reflexões decorrem do texto inaugural, qual introdução ao estudo da Cultura, que também sinaliza os princípios orientadores de uma entrega de décadas à investigação e ao ensino.

 

2. Estudos de Literatura Portuguesa, 371 p.

Gil Vicente e a edição crítica de Exortação da Guerra, João de Barros e Ropicapnefma, o processo inquisitorial de Fernando Oliveira, Luís de Camões (de «Um mover d’olhos, brando e piadoso» a larga matéria sobre Os Lusíadas e sua edição da princeps), André Falcão de Resende, vário António Vieira, Filinto Elísio e Bocage têm parte maior neste conjunto desde a lírica trovadoresca até à passagem de Setecentos para Oitocentos, seja, dentro do Velho Regime.

 

3. Tomé Pinheiro da Veiga, Fastigínia, 2011, 1064 p.

Cem anos após Fastigimia (1911), editei Fastigínia, agora revista, face a novos manuscritos – 17, no total – e a uma recepção cada vez mais significativa de obra-prima (1605) em que, pela primeira vez, ecoam D. Quixote e Sancho Pança, no quadro do nascimento do futuro Filipe IV de Espanha e de Valladolid em festa.

Às CCC páginas de introdução seguem-se 24 páginas de frontispícios ou, na falta destes, de inícios de manuscritos, a par de documentação autógrafa. O texto da obra ocupa 1-420 páginas, seguindo 421-738 páginas em corpo 9 de Variantes e Notas. Em pdf, 827 p.

 

4. Cultura Literária Oitocentista [1999], 2022, 842 p.

As relações entre Literatura e Jornalismo no quadro da História nacional vêm fundando os meus trabalhos de Cultura Portuguesa. A componente da Língua é reforçada na investigação de um tempo sob os Filipes, pontuando leituras desde Quinhentos, como se mostra em Ensaios de Cultura. 

Essas quatro disciplinas concorrem nos ensaios sobre matéria oitocentista aqui reunidos. A Imprensa periódica é a via real. Se a Literatura subsumir o Teatro e não nos distrairmos da Instrução – para que o Jornalismo (em particular, via folhetim) tão proficuamente concorreu –, temos a «utensilagem mental» (Lucien Febvre) decisiva no século XIX. O conhecimento do canónico não me distrai do periférico, e defendo movimentos subterrâneos que iluminem caminhadas. Fundado em exemplos bastantes com que alargar horizontes, há interpretações consequentes de um tempo, conceito, linguagem, escola, autor, obra, etc., visando conhecer melhor o demorado regime mental de que ainda participamos. 

Imaginação de ficcionista, sempre me interessou a vivência quotidiana dos povos, procurando entrever a cultura literária material em que assenta a prática dos oficiantes. Assim, reforçada por Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal, delineia-se a instituição, que inaugurava e deu título a Cultura Literária Oitocentista (1999).

A “Introdução” resume 1801-1850, que Giulia Lanciani traduziu no seu Storia della Letteratura Portoghese, II, Roma, 2014. Sucedem sínteses sobre o Ultra-Romantismo e a Geração de 70, num esforço de clarificação. Matérias novas alargam a primeira parte, precedendo Garrett, acrescentado de Herculano e de balanço castiliano. Os capítulos seguintes vão além dos originários António Augusto Teixeira de Vasconcelos, Santos Nazaré e Júlio Dinis, ou do Junqueiro romântico, de algum Eça, vasto Ramalho Ortigão e Trindade Coelho. Saliento um poema inédito de Cesário Verde.

 

5. A Queda Dum Anjo [2001, 2015] e Novas Páginas Camilianas, 2023, 770 p.

Duas dezenas de trabalhos Camilo Castelo Branco, desde 1973, entre notas de jornal, prefácios, edição de novelas, verbetes de personagens, antologia poética ou alguma farpa inédita, talvez façam de mim um camiliano. Entre as edições que preparei, saliento a edição crítica d’A Queda Dum Anjo, bem como antologia da poesia.

 

6. Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal / Crónica Jornalística. Século XIX [1998 / 2004, 2017], 2022, 1086 p.

Um clássico sobre o nascimento da Imprensa de massas e tipologia do jornalismo cultural oitocentista.

 

7. Da Corte Luso-Brasileira à República [quatro livros de 2008, 2008, 2010, 2012: A Corte Luso-Brasileira no Jornalismo Poertuguês (1807-1821); O Século de Lopes de Mendonça: O Primeiro Jornal Socialista; 5 de Outubro – Uma Reconstituição; O Jornalista Republicano Alves Correia. Antologia; seguidos de quatro artigos], 476 p.

 

8. Verso e Prosa de Novecentos [2000, 2018], 768 p.

Poesia, ficção, teatro, diarística, ensaio e recensões de autores portugueses do século XX e alguns acenos no séc. XXI.

 

9. Literatura Europeia e das Américas, 2019, 264 p.

Sade, Sarte e Lukács, espanhóis, italianos, centro-europeus, Bulgakov, e, entre latino-americanos, alguns brasileiros e Jorge Luis Borges.

 

10. Hungarica, 2022, 520 p.

Principal tradutor de húngaro em língua portuguesa durante 40 anos, trato das relações entre os dois países, ofereço uma breve história da literatura húngara e, a par de novas ficções, dou antologia da poesia desde o séc. XV.

 

 

Contacto: 123.ernesto@gmail.com

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Luís Naves: A excelência de "Almas Artificiais"


Luís Naves estreou-se na ficção com O Silêncio do Vento (1999), uma prosa impecável, vibrante, de rara qualidade estilística. Sentíamo-nos à vontade, na pena do então jornalista do Diário de Notícias, num espaço de sobriedade que os livros inaugurais nem sempre conseguem, e recuperamos em Almas Artificiais (2025) - recolha de 14 contos singulares -, com a diferença de que, agora, os registos da fala são mais variados, abarcam as vicissitudes de um quotidiano nada exaltante e soltam-se, mesmo, em variantes dialogais violentas e epítetos baixos, sem descer à baixeza.

Prosa entre realista e fantástica, científica quais os contos de Zoltán Fekete, prefiro olhar ao efeito de estranheza com que a vida nos brinda e se faz a melhor literatura desde Kafka. A partir de algo reconhecível, sentimo-nos deslocados, sem controlo sobre os acontecimentos, qual desvio óptico ou erro de paralaxe, quando a situação inicial podia ser monotonamente glosada. Ora, é a partir deste estado zero que tudo se desequilibra, que prefixos de negação se impõem.

A insegurança mina estas páginas, como tantas vidas. Consubstancia-se, por exemplo, em violência, desemprego, resignação, desastre, ou em formas mais graves, como não reconhecer outrem, nem sermos reconhecidos. É já o assunto do primeiro conto, “Máscaras”, em que, retiradas estas após séria pandemia, se percebe um novo estado, e, na invencível solidão de quem raramente escuta «os rumores da sua modesta existência» (p. 7), questionamos quanto julgávamos acerca dos outros, causa impressão ter desaparecido o hipalagético «bigode tímido» (p. 9) de vizinho. Todas as vidas relatadas serão modestas, fantasmáticas, almas artificiais ou reduzidas a substitutos, humilhadas quando se confrontarem com as novas tecnologias, salvo no intitulado “Substituído” e em “A última greve”: naquele, Elon, o andróide-sósia que ocupa o lugar de narrador agora mais leve, sente-se a sufocar, na prisão. Voltando ao primeiro conto, há um «fora do lugar» (p. 19), recusa de coabitação, fuga à realidade, com retorno à máscara que nos individualiza.

Outro evento já familiar é «o grande apagão». Na geral confusão, em que os «taxistas aproveitadores» (p. 27) integram a galeria de certos grupos sociais tornados pasto da má-língua nacional (como os políticos, etc.), um casal entra em casa e depara com um morto desconhecido, electrocutado, «silencioso e rígido. Mais morto do que aquilo era impossível.» (p. 28) Quando se espera uma solução policial para este humor seco (também derramado por outras páginas), e para demonstrar que «As mulheres têm sempre mais juízo» (p. 36), ou lá se vai um tesouro escondido «livre de impostos» (p. 29), dona Lúcia de Meneses desvela-se uma criminosa a sério, tal o desfasamento do desenlace gótico com o título neutro do segundo conto, “As flores do jardim”.

No terceiro, “Os sem-abrigo”, um processo à maneira de Italo Calvino desloca-nos para o desencontro de um jornalista em serviço com dois robôs que lhe obstruem o caminho. Um ainda pede desculpa; mas não o intelectual insolente atrás dos óculos, maltratado com vocábulos fora de qualquer livro de estilo, ao repórter lançando «um olhar feroz de diplomado recente» (p. 42). O desemprego toca a todos, e, como há tráfico de órgãos humanos, porque não «a máfia das peças» (p. 49)? O reiterado «talvez» em que balançam os narradores, assim problematizando os casos, tem aqui um desfecho que sobreavisa para relações inquietantes com a tecnologia.

Entre insolente e insólito, veja-se um título tão acessível e hoje discutido como “O problema da habitação”. O que fazer quando nos ocupam parte da casa? E seremos nós proprietários? A contingência é outro rosto da insegurança.

A estranheza veste-se de ironia narrativa a partir de “Encontros no Rato Cego”, nome de «tasca mal-afamada» (p. 61) entre «luzes chupadas» e «moscas ensonadas» (p. 62) frequentada por um Zoltán Fekete narrado em terceira pessoa, contista de ficção científica. Luís Naves, autor atmosférico, robustece a psicologia do herói através da descrição do sujeito e do lugar; como em títulos anteriores, Zoltán é húngaro, enfrentando não só dois novos robôs, como um andrógino Gabriel, mulher com nome de arcanjo e idade extraordinária. O divertimento assenta na distância de anos (qual Orlando de Virginia Woolf, que eu experimentei n’A Serpente de Bronze) e cria em personagem terra-a-terra este efeito: «A incerteza tornou-se uma comichão nos seus pensamentos.» (p. 69)

Mais intensamente acrónico, no aleatório dos séculos face ao rigor datado de um “Jantar de Natal” com doze à mesa, lamenta-se a décima terceira cadeira vazia, de agente desaparecido «em missão no Eufrates, algures em 2330 antes de Cristo» (p. 87). Vai cada agente memorando feitos próprios em épocas e lugares díspares, tal como se associa um telemóvel ao México de Cortez, até que – surpresa! – chega um telegrama do quinto milénio, reforçando descabo num tempo do discurso já sem telegramas.

A ausência do agente Domingos não foi deceptiva; e o falhanço pode ser instrutivo. O projecto espacial de quatro primos ainda crianças mimando a NASA deu em fracasso, no conto “Baltasar e Joaninha, o primeiro casal no espaço”; mas a lição está em que, singrando nas profissões, existiu um passado a reviver.

Já desastre sem desculpa é a do casado e pícaro sem tusto no banco, que, ao socorrer-se de antiga namorada, «com uma expressão de bovina leiteira» (p. 108), se engalfinha com o homem desta e claque fomada «por cérebros de serradura» (p. 109). Agride um polícia e lá vai ele para a esquadra. O que nos ensina esta anedota? Para lá do cartão que o banco suspende sem avisar, da distribuição de senhas nos serviços públicos, ou andar de metro sem bilhete, há uma reflexão sobre como redigir a notícia do incidente e a necessidade de ouvir as partes. Esta reivindicação,  justa, em nada ajuda narrador indigno de confiança, mas algo se ganha com “A pequena odisseia” de Ulisses desventurado.

Alternando tu cá, tu lá, seja, uma condição terreal entendível e um além perceptível, “Floresta cor de sangue” salpica-nos com terrores planetários, pinta o pesadelo do biólogo Rivaud que vê morrer o colega arqueólogo, e falhar a expedição astronáutica. Rivaud aproxima-se do segredo perseguido, mas deixa-se já «flutuar para a morte» (p. 124). Somos seres inacabados.

Alternância há também no humor. Assim no conto seguinte: “Modelo barato” de engenhoca robótica e publicidade enganosa estragam-nos a paciência, e nem um manual de instruções nos salva. O Faísca, feito para descansar num parque, deixa-se enganar nos trocos, empecilha a vida doméstica, o melhor é desligá-lo e fique a decorar a sala. Tem a vantagem de ter sido barato, como não é “O meu pior amigo”, um Sebastião Silva pedinchão e desempregado que bate na mulher, contado pelo lesado Silva, que dele se afasta e o descobre enfim remexendo contentor.

Outro mendigo, Ákos, tem um dom cassândrico, suficientemente ambíguo nos avisos. Mão estendida na sua cadeira de rodas, «Era como um santinho com caixa registadora» (p. 177) e que ao generoso narrador responde com um mero «“rezo por si” burocrático» (p. 178), que nada significa, mas o deixa em suspenso, temendo o pior. Esta incerteza reforça a insegurança que defini como principal unidade de sentido nesta colectânea.

Se virmos bem, tudo vai do meio de comunicação na Terra e no espaço: máscara, telegrama, carta, jornal e revista, casa, taberna, floresta e, sobretudo, máquina: computador, telemóvel, foguetão, robô. Este, mais presente, é obstáculo, engano, escravo bem-vindo, até que, no derradeiro conto, “A última greve”, em base marciana, os robonautas reivindicando «equidade no trabalho» (p. 185) se sotopõem ao «espírito indomável dos seres humanos» (p. 179) e destes se separam, até, sem energia, irem definhando.

“A última greve” traz, com “Jantar de Natal” e “Substituído”, algum optimismo, mesmo esperança, à incompletude da Humanidade. O assento desta trindade é um universo paralelo, em desejos de, contra a máquina do tempo que nos macera, fundar uma ucronia. A aridez do real é outra história: implicados nas miudezas diárias, queremos ser verdadeiros, reconhecidos, sem problemas. Ora, vinga a prótese (que a máscara é), o expedito, o sucedâneo, o clone, uma série de artifícios com que vamos sobrevivendo. Esta literatura recoloca-nos no olho de furacões que diariamente nos abalam. Sem falsos cometimentos ou truques literários, Luís Naves é um excelente artífice.