segunda-feira, 3 de junho de 2019

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

No adeus a João Bigotte Chorão




A Pedro Mexia

Vai a enterrar João Bigotte Chorão (Guarda, 1933), que faleceu anteontem, 23, em Lisboa. Despedimo-nos na igreja do Campo Grande; mas lembrarei, sempre, a tarde que Teresa e eu passámos em sua casa, em 20 de Dezembro, numa esperançosa conversa com a esforçada Mulher, Maria José Mexia.
João Bigotte Chorão é celebrado como camilianista. Com efeito, é exemplar a diligência do seu Camilo. Esboço de Um Retrato (1989), 2.ª edição revista de Camilo. A Obra e o Homem (1979). Propõe-se, no Prefácio, aproveitar da vida de Camilo «o que for indispensável ao conhecimento da obra». Recusando, por um lado, «o biografismo exaustivo e anedótico» e, por outro, «o texto completamente autonomizado do autor», reconhece que «Este livro não é uma biografia, nem um ensaio de interpretação literária, nem uma tese universitária», mas «uma síntese da vida e da obra de Camilo». Explicitamente, convoca «esse leitor, estudante ou homem da rua, tantas vezes perdido no labirinto camiliano».
Para melhor o conhecer, talvez se deva começar pelo álbum de família, por eleição espiritual, que é Galeria de Retratos (2000), onde retoma o desenho de O Escritor na Cidade (1986). Por ordem cronológica, apresenta sínteses de Camões, Vieira, Garrett, Camilo, Carlos Malheiro Dias, Almada, Francisco Costa, Régio, Torga, Moreira das Neves, Álvaro Ribeiro, António Quadros, Afonso Botelho, antes de passar a brasileiros (Alceu Amoroso Lima, Drummond, Lúcio Cardoso, diaristas, Marcos Barbosa, Nelson Rodrigues), um castelhano (Unamuno), italianos (Papini, Piero Bargellini), romenos (Eliade, Vintila Horia).
Textos saídos na Imprensa entre 1971 e 1998, afora dois inéditos, somente o primeiro, «Camões, poeta para um tempo de desastre», de 1976, cede ao ar do tempo, na analogia com «época de sabotagem moral em que parece que é proibido ser português em Portugal» (p. 12). Outro modo de lermos esta colectânea encontra-se na reiterada afirmação de uma vívida portugalidade, mesmo quando nos apresenta estrangeiros. Neste ponto, a notícia de um diário inédito de Mircea Eliade sobre os seus anos portugueses (p. 227) é uma revelação.
Seja qual for a opção de leitura, podemos circunscrever três nomes e avaliá-los segundo trabalhos de Bigotte Chorão: Camilo, aqui na complexa relação com as mulheres e, em especial, Ana Plácido; Malheiro Dias, que curou em Carlos Malheiro Dias na Ficção e na História (1992), retomado enquanto destinatário de carta inédita de Amoroso Lima; e Garrett, recuperado de prefácio às Viagens na Minha Terra (1998), esse «livro seminal» (p. 39).
Quanto ao diarista, podemos começar por vê-lo num arco temporal que vem de 1958 a 1999.
Dos cinco «livros» que compõem Diário Quase Completo (2002), três eram conhecidos: O Discípulo Nocturno, 1965, com que se usa referir a estreia do autor; Aventura Interior, 1969; O Reino Dividido, 1999, sobre que se debruça a páginas 584-586. A demais bibliografia de Bigotte Chorão percorre nomes aqui e ali retomados: João de Araújo Correia, Carlos Malheiro Dias, Tomaz de Figueiredo e, sobretudo, Camilo Castelo Branco, única ‘família’ a que reconhece pertencer; por extensão, a «honrada família dos que na solidão da agonia gritam ao distante céu nocturno o seu abandono» (p. 27).
Isto tem consequências na atitude do criador, em exílio interior e no seu país, bem como na recepção de uma obra, com lembretes e retratos que também definem a nossa realidade cultural. Mas outros encontros se sucedem: Aquilino, Almada, Ferreira de Castro, Francisco Costa, Joaquim Paço d’Arcos, João Maia, etc., além de brasileiros, italianos e romenos. A Itália de Papini vai de seduzi-lo, já inebriado por tantos artistas e cidades, em particular Florença, que lhe arranca as melhores páginas. O também diarista Vintila Horia exilado em Espanha é-nos apresentado como um aristocrata do espírito, essoutra linhagem de que todos desertam. A grande inspiração nacional, que desagua em memorável convívio, chama-se, porém, Torga: ideologicamente diversos, provada fica a triste pendência de uma nação dividida (e tanto se critica o marxismo como certos meios católicos ou de direita); dentro da memorialística, é nome regular no debate sobre a expressão do diário, a partir dos seus melhores cultores.
Esta poética convoca ainda, além de Soffici, Pavese, Mircea Eliade, Ionesco, Léautaud, Ernst Jünger e Lúcio Cardoso, a trindade Montaigne, Amiel e Gide, «que apenas quiseram ser espectadores do grande teatro do mundo» (p. 33), cujo «totalitarismo» e mesmo insinceridade se recusa. Em contrapartida, o Journal de Julien Green, «itinerário para o invisível» – já «maior empenho social» (p. 41) no de Torga – fá-lo diarista regular. Considerado o «mais híbrido» dos géneros, dele aproveita J. Bigotte Chorão «a crítica impressionista, [...] o plano de ensaio, a reflexão intemporal, o comentário circunstancial», incluindo a confissão «na terceira pessoa» (p. 38).
Sem exigir uma ordem na leitura, e acompanhando momentos altos de duas gerações, o desassombro desta prosa cuidada e a variedade do homem de cultura são companhia excelente para os nossos dias. João Bigotte Chorão ascendeu à galeria dos grandes diaristas.
…E um Amigo nunca nos deixa.

domingo, 21 de outubro de 2018

'Um Passado Imprevisível': resumo

Regressado a Budapeste e ao convívio com um velho professor universitário, vê-se o herói em busca forçada do passado – imprevisível. Os seus passos, quando julgava despedir-se de tudo, são cuidados por outrem ‒ do que ele não se dá conta. Menos distraído, o destino reserva-lhe surpresas, e ele a si mesmo se descobre filho de quem o dirige.
O que sabemos da vida que julgamos ter vivido, se nem sempre assistimos às consequências dos nossos actos? Conhecemos quem está ao nosso lado e o efeito que, na nossa ausência, sobre ele produzimos? Quando pensamos ter quebrado todas as amarras, não será cada movimento condicionado por outrem?
Sujeito renascendo entre dois mundos – Hungria e Moçambique –, cujas feridas saram em encontros felizes, são também os perigos de hoje (violência, arbítrio, tráfico de crianças...) crua e subtilmente desvelados, nesta terra de verdade que é a ficção.
Memória de tempos, personagens e lugares sobre o Danúbio do antigo leitor de Português na Universidade de Budapeste (1981-1986) – quando aí vicejava um doce «sono comunista» procurando diluir os acontecimentos trágicos de 1956 – e visitante de Maputo, edita-se Um Passado Imprevisível após Uma Bondade Perfeita, Prémio PEN Clube Português – Novelística, em 2017.
Vou resumir a história, para que possam apreciar melhor, atenta e sensualmente, a linguagem.

Na sequência das perseguições estalinistas dos anos 50, o Professor Z foge para Lisboa, onde se apaixona. Regressa a Budapeste para viver a revolução de 1956, e só em 1961 revê, em passagem breve, essa mulher e uma criança que não sabe seu filho. 
Vinte anos depois, à sombra do Instituto Italiano da Universidade de Budapeste, o docente de eslavística e professores daquele instituto convivem com o leitor de Português.
Passa um quarto de século, quando, aos 50, desencantado, autor de um só livro best-seller e agora treinado em artes marciais, o antigo leitor se despede de velhas memórias, visitando, de comboio, o passado entre Itália e a República Checa.
O encontro inicial é preparado pelo Professor Z, que (saberemos depois) veio de Lisboa, onde reatou relações com a mãe do protagonista. Informado desse percurso, ‘apanha-o’ em Ljubljana e convence-o a visitá-lo, após regresso de Praga. Hesitante, vencido pela curiosidade, acede ao convite.
O Professor tem segunda jogada preparada, no dia seguinte: fazer com que o visitante reconheça a filha Andrea, nascida de relação com namorada deste nome, que fora aluna de ambos, e trabalha em organização não governamental em Moçambique. Ela ensinou à filha, no primeiro ano da faculdade e sob tutela de Z, os tiques e preferências do pai, e ofereceu-lhe esse livro com dedicatória. «Andrea conhecia-me melhor do que eu julgava. Dos lugares à bebida, e, decerto, em fotografia. Mais importante, nos matizes da voz, que podia ter interiorizado por arte da mãe, se não ouvira gravação de aula ou emissões de rádio.» Ele reconhece-se nesses percursos de outrora, físicos e comportamentais; e compreende que, traduzido em Madrid e Barcelona, a demanda da filha por terras de Espanha era já atrás de si – enquanto não tocava nos direitos, intactos, em conta bancária. Os dias seguintes confirmam o ar de família.
Em contexto diverso, eu já imaginara tais lances n’O Romance do Gramático (2011: 54): «Há uns olhos no meu horizonte, nesse passado imprevisível.» A meio da redacção deste livro – entre 28 de Maio de 2004 e 5 de Junho de 2006 –, a minha vida pessoal sofreu algo semelhante ao que narrava: a filha mais velha, nascida em Budapeste, decidiu, aos 15 anos, vir viver comigo.
O ex-leitor fica para a jubilação de Z, cuja primeira noite fora de casa, em jantar oficial de consagração, denuncia a tristeza do lugar, e como também ele, fugido ao amor, se sacrificou a 50 anos de insónias literárias, preenchendo uma grosa de cadernos azuis, em que as novas páginas em branco retomavam, sumariando até ao osso, uma vida igualmente triste. Dito de outro modo, o seu estranho nome contém todas as letras do alfabeto, e não há aí nada de gratuito: quem não entreler um indestrinçável nome eslavo, entenderá que é com essas letras, na plenitude do que somos, que se faz literatura. Incompreensível (como se não deve dizer da arte abstracta, de certa música, dos sonetos senianos de Afrodite Anadiómena, etc.) é a sua fuga ao passado.
Promete reencontro na Eslovénia, mas parte para Lisboa e segue para Moçambique, pois sabe que o ex-leitor, a pedido da filha, vai encontrar-se com a mãe desta, Andrea.
Não o encontrando na Eslovénia, este passa por Lisboa, onde encontra mãe não menos feliz, que ele julga explicar-se pelo abandono de um traste. Fecha a primeira parte.
O remorso faz adiar o encontro penitencial com Andrea, pelo que desembarca na cidade da Beira. Mimando os passos de Camões, Diogo do Couto e tanta posteridade literária, vai conhecer a Ilha de Moçambique, onde toma um navio de loucos, que julga cruzeiro ameno. É um huis clos terrível, que desentranha o pior da condição humana. Sabemos, agora, que ele se chama J. C., e sente-se obrigado a proteger uma jovem médica, Nídia, que vai de Lisboa ao encontro da mãe, também Nídia, e médica. Este nome sobressalta-o. São salvos por helicóptero, e encerra a segunda parte.
Esta segunda parte foi a primeira a ser escrita, após visita à consulta do viajante, em vésperas de me estrear em Moçambique. Atendido por uma jovem chamada Nídia, as suas explicações, entretanto passadas a papel (que ainda conservo), eram de uma sistematicidade e rigor que me encantaram. Foram vazadas no meu texto. Ora, eu já publicara, em A Flor e a Morte (1983), um conto intitulado “Turista”, onde aparecia Nídia, universitária que vira uma só vez, no café, nos anos 70. Nem esta, nem aquela vi segunda vez. Mas estou-lhes grato.
No último instante, enquanto os ocupantes do navio são salvos, J. C. vislumbra um caderno azul do Professor, pelo que decide ficar, para redobrado tormento, salvando-se a instâncias da jovem Nídia e de um guia amigo da Ilha de Moçambique. Entra em cena a respeitada médica-chefe do hospital de Maputo.
Transportado para a capital, o seu espírito é ‘turvação’, título da terceira parte: doente no sobrevoo do país, dependente de outrem, sente-se entregue a destino indefinível que julgava controlar. Não sabe que horas são, quem vê, quem lhe leva roupa nova ao hotel. E, quando busca Andrea – razão de ir ao sul de África –, é esfaqueado por um dos sobreviventes do navio, crime encomendado pela vingativa mãe Nídia, antiga namorada que jamais revelou à filha quem era o pai.
O seu álibi é perfeito, pois está no Kruger Park, na África do Sul, apoiada pelos dois falsos turistas do navio, a fim de resgatar bebé trazido pela grávida e seu protector conhecidos nesse malfadado cruzeiro.
Conduzido ao hospital por Andrea, que fora avisada dos seus passos pelo recepcionista do Rovuma, onde ela reside, é a mesma Andrea que, por precaução, o traz de volta ao hotel.
Aí se encontram todas as personagens no derradeiro dia – a médica-chefe, Nídia mãe, Nídia filha –, Andrea, para a revelação de que esta Nídia é também sua filha.
Andrea, por seu lado, informa que o Professor viera confirmar algo que trazia de nova visita a Lisboa: que certo menino visto, aos cinco anos, em álbum de fotografias era efectivamente ele, J. C. Donde, filho do Professor Z, o qual voltara à Hungria, a fim de estar com a neta Andrea…

Amo Budapeste, onde mais próximo estive do paraíso. Dedico o romance a dois amigos – um deles, decisivo na minha vida, já falecido –, e entram outros nomes próprios, apaixonados por um bom charuto, futebol e xadrez. Evoco o reencontro, em 2006, tempo da história, de também professores que, líricos laureados, eu mesmo traduzira e editara em Portugal, em 1985. No entretecer de velhos «idos socialistas» e novos tempos, agora com sua «linguagem neoliberal», vou opinando, desagradado, e não só sobre a qualidade do café: «Nessa época, éramos contemporâneos da História.»
Há seis personagens com o passado alterado. Na conta, não entra Nídia mãe, cuja revelação final é um pedido de perdão pela autoria moral de crime falhado. O Professor Z e Andrea mãe sabem quem é o pai de Andrea filha, o que explica a felicidade da mãe de J. C., a qual não só recupera Z, como rejubila em ser avó. Andrea filha é activa: apoiada por Z, refaz-se imagem antiga sedutora e conduz o pai ao lugar do crime, para o comprometer; a irmã mais velha é rigorosa e decidida, mas fechada num navio e sem apoio materno. Se Z e velha paixão acrescentam esta segunda neta à conta, a verdadeira revolução dá-se com J. C.: «Preparei, sem querer, há vinte anos, degustando Pinot Noir, este lance que, mal eu sabia, me dava a volta à vida e ao mundo? Eram os nossos actos que nos controlavam, ou poder superior? E, mesmo se eu não quisesse recuar ao primeiro não, não estavam já lançados os dados sabe-se lá para que destino? Porque me torturavam estas sortes de alma, a que eu quisera fugir? Até onde é que eu me conhecia, ou fazia por isso? Fora apanhado no meu labirinto.» Ainda ignora que, tendo abandonado Nídia antes de abandonar Andrea, uma primeira filha viera ao mundo.
O primeiro desenlace tem o seu quê de subtil e melodramático, na tensão do diálogo. A aceitação da filha explica-se no parágrafo seguinte: «Simultaneamente, sentia um alívio terrível, sossego duro e sofrido, na transição de mundos que se me antolhavam. Habituava-me, ainda; o caminho perdido na busca de filhos tinha, afinal, outra solução: alguém nos procurava. Ora, se eu via sinais um pouco por todo o lado, porque não dizer-me que, escrevendo aquelas aventuras de seres, eu preparava este desenlace, único verdadeiro? Teria reagido como agora, se não me tivesse experimentado em várias ficções sobre a minha realidade?»
Eis a terra da verdade, onde vale a mentira bem pactuada com o leitor (é isso a ficção); outra mentira perdeu, em 1956, um professor esquivo, cuja fuga ou abandono o filho repetirá. Assim, entre perda e salvação desenrola-se a história de uma recomposição familiar em três gerações. Vencida a culpa do mais velho, reequilibra-se o presente. Devemos, contudo, pensar nisto: «Ninguém antecipa o alcance dos seus actos. Somos seres do imediato, bebendo tudo da fonte do instante, que nem sabemos se voltará a encher.» Por isso, que passado aguarda cada um de nós?  

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Na entrega do Prémio PEN Clube, em 21 de Novembro, na SPA, a Uma Bondade Perfeita

Clemente, um carrasco de 26 anos, tem por tarefa executar a mãe, Alcina. Recorre a um frade, Filodemo, cujo passado de jornalista ilumina existência crua e vingativa de Menigno, director da prisão. Nesta prisão ¬ (após salvar a filha), acaba de morrer quem compensou Clemente da ausência materna ¬ Ágata, raio de bondade entre os refugiados do Afeganistão, onde Menigno, apoiado num Ocidente cínico, erigira império do mal.
A história alterna na voz de Clemente e Filodemo, desde o cair do dia até à madrugada em que tudo se decide, com vitória da razão.
Em atmosfera de contra-informação e terrorismo, seguida, já na pátria amável (com beira-mar proibida), de reunião de familiares destinados à morte, mostra-se o cálculo de um psicopata, em cuja teia as próprias vítimas colaboram. Raras embora, a humanidade encontra sempre, todavia, uma praia do bem.
Assim, quem nos salva é, não o altruísmo mecânico de mãe biológica – Alcina, que dirige uma ONG –, mas Ágata (bondosa, em grego), que, erguida entre as maiores violências, persegue o bem supremo da paz de consciência, e culmina neste Séneca dirigindo-se a Lucílio: «Sabes o que eu chamo ser bom: ser de uma bondade perfeita, absoluta, tal que nenhuma violência ou imposição nos possa forçar a ser maus.»
Dito de outra forma: a humanidade não se salva se o mal nos torna maus, pois seremos iguais a quem nos venceu. É isso a escalada da guerra, não raro alimentada pelos media e seus manipuladores. Ser inteligentemente defensivo é outra coisa, e, desde logo, obviar à iniquidade, nem que a única saída, sempre em aberto, seja a morte – morte digna, como a de Ágata.
Esta figura condensa a imagem que tenho de minha Mãe e da sua irmã, minha tia, Maria de Lourdes. Trago comigo a voz e o sorriso delas. À Teresa, que ainda conheceu aquela, e aos meus primos [presentes, Manuel das Neves Doutel e Domingos Doutel] dedico este momento, rodeado de tantos amigos [Ana Diogo, D. Celeste, João de Deus Rodrigues, José Mário Leite, José Luís Lopes da Mota, Manuel Frias Martins, Maria Carlos S. Aldeia, Paula Trindade, Vera Prescott, Victor Rodrigues, etc.], de iguais premiados [Fernando Pinto do Amaral, Rui Miguel Mesquita], do mecenato governamental [Silvestre Lacerda], de um júri [Teresa Cadete / Teresa Salema, Helena Barbas, Francisco Belard] que algum mérito viu nesta prosa tensa e fílmica, editada por chancela muito particular no nosso panorama [Gradiva: Guilherme Valente, Rodolfo Begonha, Fátima Carmo, Helena Rafael], a quem eu pedira não candidatar-me a prémios… Verdade é que estou profundamente grato a todos.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Uma Bondade Perfeita vence Prémio PEN Clube de Narrativa

Ernesto Rodrigues venceu, com o romance Uma Bondade Perfeita (Lisboa, Gradiva, 2016) – já traduzido em romeno –, o Prémio PEN Clube Português na categoria de Narrativa, cuja entrega será no dia 21 de Novembro, às 18h, na Sociedade Portuguesa de Autores.
Tendo como pano de fundo o drama dos refugiados, Uma Bondade Perfeita narra os desatinos de um psicopata e mostra que quem nos salva é, não o altruísmo mecânico de uma qualquer mãe biológica, mas Ágata (bondosa, em grego), a qual, erguida entre as maiores violências, persegue o bem supremo da paz de consciência, culminando neste Séneca: «Sabes o que eu chamo ser bom: ser de uma bondade perfeita, absoluta, tal que nenhuma violência ou imposição nos possa forçar a ser maus.»
A humanidade não se salva se o mal nos torna maus, pois seremos iguais a quem, assim, nos venceu. É isso a escalada da guerra, não raro alimentada pelos media. Ser defensivo é outra coisa, e, desde logo, obviar à iniquidade, que conduz à servidão, nem que a única saída, sempre em aberto, seja uma morte digna.
Os prémios PEN Clube, também em Poesia e Ensaio, têm o apoio da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

domingo, 19 de março de 2017

The Novel of the Grammarian


The Novel of the Grammarian [O Romance do Gramático, Gradiva, 2011] is the transcription of a manuscript the author discovered in the possession of a Jewish-Hungarian family in 1981.
An ex-monk, Fernão de Oliveira, narrates the strange occurrences in a convent on the island of Bled (Slovenia) in 1532, with Christian Europe threatened by the Turks. The novel follows the adventurous life of the first Portuguese grammarian (1507-1581) who was a sailor in the service of France, who when a prisoner in England met Henry VIII and who was also persecuted by the Portuguese Inquisition.
With pages enriched by facts and figures from the 16th Century, by intrigue and liberty of thought, the rebellion and good humour of this tale are the best response to today’s sad times.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Do Movimento Operário e Outras Viagens




Do movimento operario e outras viagens  de Ernesto Rodrigues[1]



Foi com prazer e grande surpresa que li este livro que me levou a descobrir a poesia de Ernesto Rodrigues, autor que só conhecia do ensaio e da narrativa de ficção, sobretudo como romancista.
Impõe-se desde já assinalar nos poemas deste livro um diálogo fecundo com alguns dos maiores poetas da nossa tradição lírica, bem como das poéticas contemporâneas: com Camões, com algum Cesário Verde, no registo coloquial, com Fernando Pessoa, sobretudo com a obra ortónima e as odes de Ricardo Reis, naqueles poemas mais curtos e próximos, de certo teor aforístico, por vezes. No seu aspecto formal, deparamos essencialmente com uma escrita poética num registo de cariz narrativo, registo que entre nós ganhou algum fôlego a partir do trabalho poético dos autores do Grupo de Poesia 61. 

Trata-se de um livro que apresenta uma estrutura discursiva com variações de registo e um cruzamento de linhas num jogo de vozes, mas também de imagens e memórias, constituindo uma experiência visual, num misto de celebração e angústia do sujeito poético, além da grande intensidade que comporta o plano da sua dimensão intertextual. E neles, na sua maioria, uma linha que liga à nossa memória colectiva,  à História, um elemento de interseção dos poemas. E por essa via se inscreve, de  certo modo, paradoxalmente, a modernidade deste discurso poético, nos termos que assinalou Jean-Marie Domenach (em O Regresso do trágico), como forma de visitação poética ou cosmogonia que tem, fixados no intertexto, plurais vasos comunicantes com uma literatura de exigência de reflexão.
A dominante maior deste discurso poético é a sua consciência histórica  (que é uma consciência feliz), precisamente porque a escrita poética, tendo neste autor uma dimensão ética fortíssima, torna-se ao mesmo tempo testemunho e garantia da não-existencia daquilo que designamos por má-consciência.
Lemos no poema “Proposição” (p. 50):

«A luz, a cor, o dom de minha terra
canto, no tempo mau em que navego.
Queria perceber, na forma nova, 
dor que rondou milénio, sobre mim,
e faz do verso vate justo, cego,
eco de homem, sua mesma prova;  
olhar de perto como sou – assim, 
nosso chão canto, bom, que Céu encerra.»

Direi, portanto, abreviando um pouco, que nos situamos perante um discurso poético que se movimenta no quadro de uma consciencia histórica, sendo esta o eixo estruturante do discurso e das suas viagens. Viagens que surgem como testemunho ou ofício do sujeito lírico enquanto operário de palavras desse seu edifício que vai construindo, ou, se quisermos, das viagens necessárias ao percurso próprio desse universo. Vejamos o exemplo, a este título, do poema “Do movimento operário e outras viagens” (p.7):

« Não deixa de ser curioso como, a tremer de frio, vou encontrar, num museu, a forja de meu
                                                                                                                                                      pai.
Ele emigrou em finais de 66, não consoou já connosco, nesse natal. No baixo,
continuava tudo igual: cheiro a ferros, o coração do fole em repouso, a bigorna
em recolhimento. Em dezembros seguintes, quando voltava,
não dei por que houvesse mudanças. De facto,
a minha educação não descia à oficina e, por isso, martelares sob a sala
onde eu escrevia, demoras do pai na comida que arrefece, nunca
gostei de trabalho escravo ─ e  quanto a mãe se ralava! No entanto,
ele era um artista de primeira. Solda mais perfeita! mãos mais empreendedoras!
Com elas eu lia, estudei, dali fugi. Ontem (tão fora de natal, ainda),
como de volta a casa de meu pai, reconheci
que vasto sopro se acalenta na ferrugem dos materiais,
trazidos de rupturas várias, despertando em cada consciência. Eis porque,
agora que de vez emigrou para a sua própria casa, não encontrará, na oficina,
as brasas extintas ao cabo de quinze anos. Nem, para exercer o gesto cuidado,
os seus instrumentos. Ganhou riquezas caras: almoço a horas certas;
o prazer de, num domingo, dar um salto ao museu fazer perguntas aos objectos.
Confirmarei termos doado a forja, tenazes, o coração do fogo, bigorna, martelos.
As devolvidas mãos eu pedirei, coisa de segundos, a meu pai.
O tempo de, sem os irmãos verem, lhas
beijar; depois, beber um copo à saúde.»
   
A carga afectiva dos objectos de memória transforma-se numa função  heurística intrínseca a este discurso poético, neste quadro.
E daí resulta uma dimensão mais complexa desta escrita: é uma poética que integra a viagem como premissa do fazer poético, sendo a própria escrita a imagem de uma viagem para o desconhecido, para o questionamento, essencialmente, como neste fragmento do poema “Democracia” (p. 66):

 «Nós não sabemos a origem do poema.

Como se faz? Nasceu de quem? – Assim é
um país, filho de um querer desvairado,

sem razão própria, sonho de família,
de sobrevivos, aptos para quanto
for erigido. Entre sol e sono, 
 […]»

Aqui se constata que a relação com a História não é mera evocação do passado, porque surge neste discurso como forma de viagem com um especial cariz: o passado impõe-se como pretexto para interrogar o presente ou, mais concretamente, o real  do poema.
E o questionamento persiste,  prossegue, na página 53:
  
«A luz, a cor, o dom
de minha terra,
canto,
no tempo mau em que navego.
Queria perceber,
na forma nova,
dor que rondou milénio, 
sobre mim,
e faz do verso
vate justo, cego, 
eco de homem,
sua mesma prova;»

O contraste entre “a luz, a cor, / o dom”  e o “tempo mau” potencia a imagem de uma passagem para algo. Talvez se possa assinalar de imediato aqui, entre outras linhas de trabalho que se abrem à leitura destes poemas, a passagem da ideia de deserto como referente.
A referência ao deserto do sujeito poético é elemento contíguo à imagem de isolamento, do silêncio, também. O que testemunha, neste contexto, que a escrita poética resiste nestes poemas contra uma certa angústia humana do presente.  Relembro aqui, de forma oblíqua, Baudelaire, precisamente na sua referência ao deserto.  Baudelaire  foi o  autor que colocou a imagem do deserto no plano ontológico e a trouxe para a literatura (em Le Peintre de la Vie Moderne / O Pintor da vida moderna) há um século e meio, quando se referiu ao “grande deserto de homens”, na sociedade do século XIX, entre os elementos que o artista apreende no meio em que vive.
 E a imagem do deserto aparece explícita nestes textos, até com certo registo irónico, por exemplo, no poema «Narrações” (p. 57):  

 «Um deserto de ser 
– que bom um deserto!
Sem uma árvore, nem sombra vã,
sem de areia um grão, sem
a ideia, mesmo, de deserto.»

Neste fragmento fica vincado ainda o contraste entre o problema, de ordem metafísica, do “deserto de ser” e um “bom deserto”, “sem / a ideia, mesmo, de deserto”, e, muito particularmente, através da modalização do discurso pelo sujeito (“– que bom um deserto!”).
 E ainda, no fim do poema (p. 61) :     

« Mar, deserto, cidade – quem procura,
do vagir aos confins, perde-se bem:
no oceano da tarde, que fundura,
coração? Que bravia sombra vem,
ronronante, levando-me por sobre
sonhos gastos de pátria tão pobre?»

       Neste poema, as imagens constituem elementos concretos que nos remetem para a erosão da memória, da memória cultural, porque “quem procura” “perde-se”, defronta-se com “bravia sombra” e “sonhos gastos”. Há aqui uma certa desolação, um certo desacerto identitário também, que podemos aproximar da situação de “grande deserto de homens”, que é expressão que se pode aplicar à erosão que resulta das nossas sociedades contemporâneas, na proporção exacta da avassaladora consolidação da tecnociência e da desumanização crescente. 
Por isso, os textos deste livro surgem como foco de intensidade poética que sugere ausências, veredas, à procura de uma experiência nova, que se nos impõe em cada poema, como uma viagem à volta dessas imagens que nos questionam o tempo presente, que lemos como se fossem páginas de um livro de memórias, livro de questionamentos identitários, não sem alguma auto-ironia na arena da História, como ilustram os poemas “História de Portugal” e  “Pátria”. No primeiro (p. 45), podemos ilustrar esses mesmos veios de questionamento no fragmento seguinte:

A 1128
Sucedeu 43.
O povo não era muito,
foi assim que Deus nos fez.               

Ou no poema “Pátria”, por exemplo (p. 46): 

 «Heróis do mar. Por favor! 
Heróis foram, no entanto.
Partiu-se a barca de espanto,
 vogamos sempre em redor.»

É nesta ideia que vinca uma forte consciência crítica da memória colectiva, de um fazer poético enquanto território de questionamentos, que se inscreve também este livro de Ernesto Rodrigues. Sabendo de antemão que o questionamento pode ter como resposta a ideia de mudança. Mudança que antecipa a imagem do deserto, ou já de resposta à ideia de deserto, como, por exemplo, o fragmento da página 58:

«Tudo muda,
diz a cidade
decadente.
Mas transforma-se
em presente,
que outrem contará.»

Num livro em que o espaço poético provém como explosão de memórias, tão importante quanto a autenticidade e fonte de onde emana o seu discurso, a sua natureza, é essa linha simbólica de demarcação, de um ponto onde se transcende a memória, ou, no plano imanente de uma subjectividade, onde se configura o colectivo em Nação ou em Pátria, questionados objectivamente. São elementos que se tornam neste livro marcadores de linguagem e sustentam o poema como afirmação autónoma ou autografia.
Do sujeito poético e das suas experiências do mundo, em que se cruzam ecos de algum do nosso passado colectivo, se expõe a memória do poema. Trata-se de uma poética marcada por uma linguagem com grande dinâmica de narratividade e por um forte realismo que lhes está implícito, o que surge como problema da objectividade da linguagem.
George Steiner, no seu livro Linguagem e Silêncio, refere-se à importância da objectividade na linguagem, à qual não podem ser alheios os escritores e da qual não escapam os filósofos:

Um dos maiores filósofos modernos é também o que mais se esforçou por escapar à espiral da linguagem […]. Com Wittgenstein, como com alguns poetas, é na luz e não na obscuridade que nós mergulhamos para lá da linguagem[2].

Nestes textos, e nesta manifesta tendência para a objectividade, perpassa alguma leitura,esquematicamente, da imaginação como modo de resistência.
E, ao mesmo tempo, o sujeito poético arrisca aqui um discurso para que se transcenda a si mesmo, operando nessa linha alquímica da questão identitária no ser do poema. O território da palavra poética é aquele em que a imagem de si pode precisamente transmudar-se na escrita como exercício de liberdade enquanto linguagem. E, no caso deste livro, isso acontece pela reiterada implicação da objectivação de que está impregnado este discurso.
Jorge Maximino









[1] Ernesto Rodrigues, Do movimento operário e outras viagens, Lisboa,  Âncora Editora, 2013
[2] George Steiner, Langage et Silence, Paris, Seuil, p. 143.