sexta-feira, 5 de março de 2021

Teatro

 Acabo de editar Teatro, 11 peças escritas entre 1973 e 2020, num total de 570 páginas.

Com excepção da dedicada a Almeida Garrett, O Divino, abordam questões de Poder - desde a vigilância policial no estertor do Estado Novo às relações interpessoais -, manipulação e vingança. São histórias que, mesmo em suspenso ou nas soluções delirantes, deixam germinar um grão de dignidade. 

   

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Ensaios


Literatura Europeia e das Américas




Outubro de 2019
ISBN–978-989-8916-91-4 (edição em papel); 978-989-8916-90-7(edição em formato electrónico)

domingo, 22 de março de 2020

Pandemia






Um vírus atravessa continentes.

Tem incubação lenta, como se

fosse este poema. Não se trata

de morrer à nascença, o que só

aos pobres acontece. Nem é fome,

que alimenta vidas de milhões.

Clima, poluição, bombas, também

lhes fazem mal. O nosso mundo,

todavia, é outro. Treme, porque

um vírus mau, de súbito, engana

quem não vê, não quer ver, foi apanhado

na teia que lhe dava mais-valias.



Assim, somos milhões dentro de casa,

temendo-nos de monstro invisível.

Os sem-abrigo fogem para onde?

onde refugiados, infelizes

de mundo que julgávamos alheio?

Há um barco somente, um dilúvio

geral, distribuído por nós todos.

Gotículas que matam serão nossa

respiração, se dermos um abraço

a outrem, à limpeza de mãos, à

higiene da alma. Nesta rede,

cai oceano, não um peixe triste.



Ninguém está preparado para guerra

que se julgava breve; mas subtil

é este inimigo: mata menos

do que poluição, onde se gasta

sem cuidar do futuro; menos do

que fósseis suicidas, ditaduras

de sorriso lavado em petróleo.

Atinge-nos, porém, sem ver a quem,

nessa cegueira que se não distingue

do enlevo narciso recriado

por uns tantos senhores invisíveis.

Humanidade não é isto, sim



um concerto de vozes dissonantes,

com que um novo tipo de progresso

tenha lugar. A dor de uns é nossa,

cedo ou tarde. Nada serve curto

prazo de gozo, diluído em

seis, sete zeros à direita, se

deixamos tudo, nem memória fica.

Vive, poema, quarentena grave,

té reverteres ao Verão, ao Sol,

Ao Vento, energias do porvir.

Não afastes do centro brancos, negros,

onde devera ser um arco-íris.



Precisa guerra – combater um vírus,

que maldade, inconsciência criam.

A vitória será desigual, inda

aí; seja lição, o egoísmo

turve-se, que em pântano reflecte.

Quando a História contar da pandemia,

veremos se há números, se homens.

Resta louvar quem, médicos e outros,

não olha ao quê, age porque sim.

Humilhação: ou mudas pra melhor,

ou virão novas. Testes positivos

devem arrepiar humanidade.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Na morte de Agustina Bessa-Luís


Agustina Bessa-Luís (15 de Outubro de 1922), que lembramos na sua jamais temida morte (3 de Junho de 2019), mostrou como as mulheres da região Norte lutam contra os valores patriarcais, se define a arrogância de burgueses endinheirados, enquanto reflecte sobre o poder (O comum dos mortais, 1998) e não evita um olhar conservador sobre a emancipação feminina (Jóia de família, 2001). Gerações de estudantes conheceram-na em A Sibila (1954), mas, entre as dezenas de títulos desde 1948, salientaríamos O mosteiro (1980), em que se coroa a sua «agressividade de imaginação», incomum no meio português.
Sejam biografias romanceadas ou romances-biografias subentendendo ou adaptando realidades nacionais diversificadas, a arte da composição assenta em apontamentos narrativos e aforismos, num olhar agudo sobre as relações província/cidade, emigração, a força da televisão, o pícaro, o passional no século XIX (na admiração por Camilo), a confissão como género, a defesa do desejo, o elogio da velhice, quando não é sarcástica sobre os escritores, a ditadura, no que se diz do país, onde «a família é a única perversão possível» (O mosteiro, p. 71). Há crueldade na junção de opostos, caracterizando os seres no seu calculismo: «brutalidade honesta», «atroz simpatia», «doçura drástica»...