quinta-feira, 11 de junho de 2020
Literatura Europeia e das Américas
Outubro de 2019
ISBN–978-989-8916-91-4 (edição em papel); 978-989-8916-90-7(edição em formato electrónico)
domingo, 22 de março de 2020
Pandemia
Um vírus
atravessa continentes.
Tem incubação
lenta, como se
fosse este
poema. Não se trata
de morrer à
nascença, o que só
aos pobres
acontece. Nem é fome,
que alimenta
vidas de milhões.
Clima, poluição,
bombas, também
lhes fazem mal.
O nosso mundo,
todavia, é
outro. Treme, porque
um vírus mau, de
súbito, engana
quem não vê, não
quer ver, foi apanhado
na teia que lhe
dava mais-valias.
Assim, somos
milhões dentro de casa,
temendo-nos de
monstro invisível.
Os sem-abrigo
fogem para onde?
onde refugiados,
infelizes
de mundo que
julgávamos alheio?
Há um barco
somente, um dilúvio
geral,
distribuído por nós todos.
Gotículas que
matam serão nossa
respiração, se
dermos um abraço
a outrem, à
limpeza de mãos, à
higiene da alma.
Nesta rede,
cai oceano, não
um peixe triste.
Ninguém está
preparado para guerra
que se julgava
breve; mas subtil
é este inimigo:
mata menos
do que poluição,
onde se gasta
sem cuidar do futuro;
menos do
que fósseis
suicidas, ditaduras
de sorriso
lavado em petróleo.
Atinge-nos,
porém, sem ver a quem,
nessa cegueira
que se não distingue
do enlevo
narciso recriado
por uns tantos
senhores invisíveis.
Humanidade não é
isto, sim
um concerto de
vozes dissonantes,
com que um novo
tipo de progresso
tenha lugar. A
dor de uns é nossa,
cedo ou tarde.
Nada serve curto
prazo de gozo,
diluído em
seis, sete zeros
à direita, se
deixamos tudo,
nem memória fica.
Vive, poema,
quarentena grave,
té reverteres ao
Verão, ao Sol,
Ao Vento,
energias do porvir.
Não afastes do
centro brancos, negros,
onde devera ser
um arco-íris.
Precisa guerra –
combater um vírus,
que maldade,
inconsciência criam.
A vitória será
desigual, inda
aí; seja lição,
o egoísmo
turve-se, que em
pântano reflecte.
Quando a
História contar da pandemia,
veremos se há
números, se homens.
Resta louvar
quem, médicos e outros,
não olha ao quê,
age porque sim.
Humilhação: ou
mudas pra melhor,
ou virão novas.
Testes positivos
devem arrepiar humanidade.
segunda-feira, 3 de junho de 2019
Na morte de Agustina Bessa-Luís
Agustina
Bessa-Luís (15 de Outubro de 1922), que lembramos na sua jamais temida morte (3
de Junho de 2019), mostrou como as mulheres da região Norte lutam contra os
valores patriarcais, se define a arrogância de burgueses endinheirados,
enquanto reflecte sobre o poder (O comum
dos mortais, 1998) e não evita um olhar conservador sobre a emancipação
feminina (Jóia de família, 2001).
Gerações de estudantes conheceram-na em A Sibila (1954), mas,
entre as dezenas de títulos desde 1948, salientaríamos O mosteiro
(1980), em que se coroa a sua «agressividade de imaginação», incomum no meio
português.
Sejam
biografias romanceadas ou romances-biografias subentendendo ou adaptando
realidades nacionais diversificadas, a arte da composição assenta em
apontamentos narrativos e aforismos, num olhar agudo sobre as relações
província/cidade, emigração, a força da televisão, o pícaro, o passional no
século XIX (na admiração por Camilo), a confissão como género, a defesa do
desejo, o elogio da velhice, quando não é sarcástica sobre os escritores, a
ditadura, no que se diz do país, onde «a família é a única perversão possível»
(O mosteiro, p. 71). Há crueldade na
junção de opostos, caracterizando os seres no seu calculismo: «brutalidade
honesta», «atroz simpatia», «doçura drástica»...
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019
No adeus a João Bigotte Chorão
A Pedro Mexia
Vai a enterrar João Bigotte Chorão (Guarda, 1933),
que faleceu anteontem, 23, em Lisboa. Despedimo-nos na igreja do Campo Grande; mas
lembrarei, sempre, a tarde que Teresa e eu passámos em sua casa, em 20 de
Dezembro, numa esperançosa conversa com a esforçada Mulher, Maria José Mexia.
João Bigotte Chorão é
celebrado como camilianista. Com efeito, é exemplar a diligência do seu Camilo. Esboço de Um Retrato (1989), 2.ª edição revista de Camilo. A Obra e o Homem (1979).
Propõe-se, no Prefácio, aproveitar da vida de Camilo «o que for indispensável
ao conhecimento da obra». Recusando, por um lado, «o biografismo exaustivo e
anedótico» e, por outro, «o texto completamente autonomizado do autor»,
reconhece que «Este livro não é uma biografia, nem um ensaio de interpretação
literária, nem uma tese universitária», mas «uma síntese da vida e da obra de
Camilo». Explicitamente, convoca «esse leitor, estudante ou homem da rua,
tantas vezes perdido no labirinto camiliano».
Para melhor o conhecer, talvez
se deva começar pelo álbum de família, por eleição espiritual, que é Galeria de Retratos (2000), onde retoma
o desenho de O Escritor na Cidade
(1986). Por ordem cronológica, apresenta sínteses de Camões, Vieira, Garrett,
Camilo, Carlos Malheiro Dias, Almada, Francisco Costa, Régio, Torga, Moreira
das Neves, Álvaro Ribeiro, António Quadros, Afonso Botelho, antes de passar a
brasileiros (Alceu Amoroso Lima, Drummond, Lúcio Cardoso, diaristas, Marcos
Barbosa, Nelson Rodrigues), um castelhano (Unamuno), italianos (Papini, Piero
Bargellini), romenos (Eliade, Vintila Horia).
Textos saídos na Imprensa
entre 1971 e 1998, afora dois inéditos, somente o primeiro, «Camões, poeta para
um tempo de desastre», de 1976, cede ao ar do tempo, na analogia com «época de
sabotagem moral em que parece que é proibido ser português em Portugal» (p.
12). Outro modo de lermos esta colectânea encontra-se na reiterada afirmação de
uma vívida portugalidade, mesmo quando nos apresenta estrangeiros. Neste ponto,
a notícia de um diário inédito de Mircea Eliade sobre os seus anos portugueses
(p. 227) é uma revelação.
Seja qual for a opção de
leitura, podemos circunscrever três nomes e avaliá-los segundo trabalhos de
Bigotte Chorão: Camilo, aqui na complexa relação com as mulheres e, em
especial, Ana Plácido; Malheiro Dias, que curou em Carlos Malheiro Dias na Ficção e na História (1992), retomado
enquanto destinatário de carta inédita de Amoroso Lima; e Garrett, recuperado
de prefácio às Viagens na Minha Terra
(1998), esse «livro seminal» (p. 39).
Quanto ao diarista, podemos
começar por vê-lo num arco temporal que vem de 1958 a 1999.
Dos cinco «livros» que
compõem Diário Quase Completo (2002),
três eram conhecidos: O Discípulo
Nocturno, 1965, com que se usa referir a estreia do autor; Aventura Interior, 1969; O Reino Dividido, 1999, sobre que se
debruça a páginas 584-586. A demais bibliografia de Bigotte Chorão percorre
nomes aqui e ali retomados: João de Araújo Correia, Carlos Malheiro Dias, Tomaz
de Figueiredo e, sobretudo, Camilo Castelo Branco, única ‘família’ a que
reconhece pertencer; por extensão, a «honrada família dos que na solidão da
agonia gritam ao distante céu nocturno o seu abandono» (p. 27).
Isto tem consequências na
atitude do criador, em exílio interior e no seu país, bem como na recepção de
uma obra, com lembretes e retratos que também definem a nossa realidade
cultural. Mas outros encontros se sucedem: Aquilino, Almada, Ferreira de
Castro, Francisco Costa, Joaquim Paço d’Arcos, João Maia, etc., além de
brasileiros, italianos e romenos. A Itália de Papini vai de seduzi-lo, já
inebriado por tantos artistas e cidades, em particular Florença, que lhe
arranca as melhores páginas. O também diarista Vintila Horia exilado em Espanha
é-nos apresentado como um aristocrata do espírito, essoutra linhagem de que
todos desertam. A grande inspiração nacional, que desagua em memorável
convívio, chama-se, porém, Torga: ideologicamente diversos, provada fica a
triste pendência de uma nação dividida (e tanto se critica o marxismo como
certos meios católicos ou de direita); dentro da memorialística, é nome regular
no debate sobre a expressão do diário, a partir dos seus melhores cultores.
Esta poética convoca
ainda, além de Soffici, Pavese, Mircea Eliade, Ionesco, Léautaud, Ernst Jünger
e Lúcio Cardoso, a trindade Montaigne, Amiel e Gide, «que apenas quiseram ser espectadores
do grande teatro do mundo» (p. 33), cujo «totalitarismo» e mesmo insinceridade
se recusa. Em contrapartida, o Journal de Julien Green, «itinerário para o
invisível» – já «maior empenho social» (p. 41) no de Torga – fá-lo diarista regular.
Considerado o «mais híbrido» dos géneros, dele aproveita J. Bigotte Chorão «a
crítica impressionista, [...] o plano de ensaio, a reflexão intemporal,
o comentário circunstancial», incluindo a confissão «na terceira pessoa» (p.
38).
Sem exigir uma ordem na leitura, e acompanhando momentos altos de duas
gerações, o desassombro desta prosa cuidada e a variedade do homem de cultura
são companhia excelente para os nossos dias. João Bigotte Chorão ascendeu à
galeria dos grandes diaristas.
…E um Amigo nunca nos deixa.
domingo, 21 de outubro de 2018
'Um Passado Imprevisível': resumo
Regressado a Budapeste e ao convívio com um velho professor universitário, vê-se o herói em busca forçada do passado – imprevisível. Os seus passos, quando julgava despedir-se de tudo, são cuidados por outrem ‒ do que ele não se dá conta. Menos distraído, o destino reserva-lhe surpresas, e ele a si mesmo se descobre filho de quem o dirige.
O que sabemos da vida que julgamos ter vivido, se nem sempre assistimos às consequências dos nossos actos? Conhecemos quem está ao nosso lado e o efeito que, na nossa ausência, sobre ele produzimos? Quando pensamos ter quebrado todas as amarras, não será cada movimento condicionado por outrem?
Sujeito renascendo entre dois mundos – Hungria e Moçambique –, cujas feridas saram em encontros felizes, são também os perigos de hoje (violência, arbítrio, tráfico de crianças...) crua e subtilmente desvelados, nesta terra de verdade que é a ficção.
Memória de tempos, personagens e lugares sobre o Danúbio do antigo leitor de Português na Universidade de Budapeste (1981-1986) – quando aí vicejava um doce «sono comunista» procurando diluir os acontecimentos trágicos de 1956 – e visitante de Maputo, edita-se Um Passado Imprevisível após Uma Bondade Perfeita, Prémio PEN Clube Português – Novelística, em 2017.
Vou resumir a história, para que possam apreciar melhor, atenta e sensualmente, a linguagem.
Na sequência das perseguições estalinistas dos anos 50, o Professor Z foge para Lisboa, onde se apaixona. Regressa a Budapeste para viver a revolução de 1956, e só em 1961 revê, em passagem breve, essa mulher e uma criança que não sabe seu filho.
Vinte anos depois, à sombra do Instituto Italiano da Universidade de Budapeste, o docente de eslavística e professores daquele instituto convivem com o leitor de Português.
Passa um quarto de século, quando, aos 50, desencantado, autor de um só livro best-seller e agora treinado em artes marciais, o antigo leitor se despede de velhas memórias, visitando, de comboio, o passado entre Itália e a República Checa.
O encontro inicial é preparado pelo Professor Z, que (saberemos depois) veio de Lisboa, onde reatou relações com a mãe do protagonista. Informado desse percurso, ‘apanha-o’ em Ljubljana e convence-o a visitá-lo, após regresso de Praga. Hesitante, vencido pela curiosidade, acede ao convite.
O Professor tem segunda jogada preparada, no dia seguinte: fazer com que o visitante reconheça a filha Andrea, nascida de relação com namorada deste nome, que fora aluna de ambos, e trabalha em organização não governamental em Moçambique. Ela ensinou à filha, no primeiro ano da faculdade e sob tutela de Z, os tiques e preferências do pai, e ofereceu-lhe esse livro com dedicatória. «Andrea conhecia-me melhor do que eu julgava. Dos lugares à bebida, e, decerto, em fotografia. Mais importante, nos matizes da voz, que podia ter interiorizado por arte da mãe, se não ouvira gravação de aula ou emissões de rádio.» Ele reconhece-se nesses percursos de outrora, físicos e comportamentais; e compreende que, traduzido em Madrid e Barcelona, a demanda da filha por terras de Espanha era já atrás de si – enquanto não tocava nos direitos, intactos, em conta bancária. Os dias seguintes confirmam o ar de família.
Em contexto diverso, eu já imaginara tais lances n’O Romance do Gramático (2011: 54): «Há uns olhos no meu horizonte, nesse passado imprevisível.» A meio da redacção deste livro – entre 28 de Maio de 2004 e 5 de Junho de 2006 –, a minha vida pessoal sofreu algo semelhante ao que narrava: a filha mais velha, nascida em Budapeste, decidiu, aos 15 anos, vir viver comigo.
O ex-leitor fica para a jubilação de Z, cuja primeira noite fora de casa, em jantar oficial de consagração, denuncia a tristeza do lugar, e como também ele, fugido ao amor, se sacrificou a 50 anos de insónias literárias, preenchendo uma grosa de cadernos azuis, em que as novas páginas em branco retomavam, sumariando até ao osso, uma vida igualmente triste. Dito de outro modo, o seu estranho nome contém todas as letras do alfabeto, e não há aí nada de gratuito: quem não entreler um indestrinçável nome eslavo, entenderá que é com essas letras, na plenitude do que somos, que se faz literatura. Incompreensível (como se não deve dizer da arte abstracta, de certa música, dos sonetos senianos de Afrodite Anadiómena, etc.) é a sua fuga ao passado.
Promete reencontro na Eslovénia, mas parte para Lisboa e segue para Moçambique, pois sabe que o ex-leitor, a pedido da filha, vai encontrar-se com a mãe desta, Andrea.
Não o encontrando na Eslovénia, este passa por Lisboa, onde encontra mãe não menos feliz, que ele julga explicar-se pelo abandono de um traste. Fecha a primeira parte.
O remorso faz adiar o encontro penitencial com Andrea, pelo que desembarca na cidade da Beira. Mimando os passos de Camões, Diogo do Couto e tanta posteridade literária, vai conhecer a Ilha de Moçambique, onde toma um navio de loucos, que julga cruzeiro ameno. É um huis clos terrível, que desentranha o pior da condição humana. Sabemos, agora, que ele se chama J. C., e sente-se obrigado a proteger uma jovem médica, Nídia, que vai de Lisboa ao encontro da mãe, também Nídia, e médica. Este nome sobressalta-o. São salvos por helicóptero, e encerra a segunda parte.
Esta segunda parte foi a primeira a ser escrita, após visita à consulta do viajante, em vésperas de me estrear em Moçambique. Atendido por uma jovem chamada Nídia, as suas explicações, entretanto passadas a papel (que ainda conservo), eram de uma sistematicidade e rigor que me encantaram. Foram vazadas no meu texto. Ora, eu já publicara, em A Flor e a Morte (1983), um conto intitulado “Turista”, onde aparecia Nídia, universitária que vira uma só vez, no café, nos anos 70. Nem esta, nem aquela vi segunda vez. Mas estou-lhes grato.
No último instante, enquanto os ocupantes do navio são salvos, J. C. vislumbra um caderno azul do Professor, pelo que decide ficar, para redobrado tormento, salvando-se a instâncias da jovem Nídia e de um guia amigo da Ilha de Moçambique. Entra em cena a respeitada médica-chefe do hospital de Maputo.
Transportado para a capital, o seu espírito é ‘turvação’, título da terceira parte: doente no sobrevoo do país, dependente de outrem, sente-se entregue a destino indefinível que julgava controlar. Não sabe que horas são, quem vê, quem lhe leva roupa nova ao hotel. E, quando busca Andrea – razão de ir ao sul de África –, é esfaqueado por um dos sobreviventes do navio, crime encomendado pela vingativa mãe Nídia, antiga namorada que jamais revelou à filha quem era o pai.
O seu álibi é perfeito, pois está no Kruger Park, na África do Sul, apoiada pelos dois falsos turistas do navio, a fim de resgatar bebé trazido pela grávida e seu protector conhecidos nesse malfadado cruzeiro.
Conduzido ao hospital por Andrea, que fora avisada dos seus passos pelo recepcionista do Rovuma, onde ela reside, é a mesma Andrea que, por precaução, o traz de volta ao hotel.
Aí se encontram todas as personagens no derradeiro dia – a médica-chefe, Nídia mãe, Nídia filha –, Andrea, para a revelação de que esta Nídia é também sua filha.
Andrea, por seu lado, informa que o Professor viera confirmar algo que trazia de nova visita a Lisboa: que certo menino visto, aos cinco anos, em álbum de fotografias era efectivamente ele, J. C. Donde, filho do Professor Z, o qual voltara à Hungria, a fim de estar com a neta Andrea…
Amo Budapeste, onde mais próximo estive do paraíso. Dedico o romance a dois amigos – um deles, decisivo na minha vida, já falecido –, e entram outros nomes próprios, apaixonados por um bom charuto, futebol e xadrez. Evoco o reencontro, em 2006, tempo da história, de também professores que, líricos laureados, eu mesmo traduzira e editara em Portugal, em 1985. No entretecer de velhos «idos socialistas» e novos tempos, agora com sua «linguagem neoliberal», vou opinando, desagradado, e não só sobre a qualidade do café: «Nessa época, éramos contemporâneos da História.»
Há seis personagens com o passado alterado. Na conta, não entra Nídia mãe, cuja revelação final é um pedido de perdão pela autoria moral de crime falhado. O Professor Z e Andrea mãe sabem quem é o pai de Andrea filha, o que explica a felicidade da mãe de J. C., a qual não só recupera Z, como rejubila em ser avó. Andrea filha é activa: apoiada por Z, refaz-se imagem antiga sedutora e conduz o pai ao lugar do crime, para o comprometer; a irmã mais velha é rigorosa e decidida, mas fechada num navio e sem apoio materno. Se Z e velha paixão acrescentam esta segunda neta à conta, a verdadeira revolução dá-se com J. C.: «Preparei, sem querer, há vinte anos, degustando Pinot Noir, este lance que, mal eu sabia, me dava a volta à vida e ao mundo? Eram os nossos actos que nos controlavam, ou poder superior? E, mesmo se eu não quisesse recuar ao primeiro não, não estavam já lançados os dados sabe-se lá para que destino? Porque me torturavam estas sortes de alma, a que eu quisera fugir? Até onde é que eu me conhecia, ou fazia por isso? Fora apanhado no meu labirinto.» Ainda ignora que, tendo abandonado Nídia antes de abandonar Andrea, uma primeira filha viera ao mundo.
O primeiro desenlace tem o seu quê de subtil e melodramático, na tensão do diálogo. A aceitação da filha explica-se no parágrafo seguinte: «Simultaneamente, sentia um alívio terrível, sossego duro e sofrido, na transição de mundos que se me antolhavam. Habituava-me, ainda; o caminho perdido na busca de filhos tinha, afinal, outra solução: alguém nos procurava. Ora, se eu via sinais um pouco por todo o lado, porque não dizer-me que, escrevendo aquelas aventuras de seres, eu preparava este desenlace, único verdadeiro? Teria reagido como agora, se não me tivesse experimentado em várias ficções sobre a minha realidade?»
Eis a terra da verdade, onde vale a mentira bem pactuada com o leitor (é isso a ficção); outra mentira perdeu, em 1956, um professor esquivo, cuja fuga ou abandono o filho repetirá. Assim, entre perda e salvação desenrola-se a história de uma recomposição familiar em três gerações. Vencida a culpa do mais velho, reequilibra-se o presente. Devemos, contudo, pensar nisto: «Ninguém antecipa o alcance dos seus actos. Somos seres do imediato, bebendo tudo da fonte do instante, que nem sabemos se voltará a encher.» Por isso, que passado aguarda cada um de nós?
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