terça-feira, 8 de junho de 2021

Uma história em família

 A Terceira Margem

(Lisboa, Guerra & Paz, 2021)

 


Pedro Álvares Cabral (1956) nasceu no Rio de Janeiro, aonde regressa com a mãe centenária, no significativo 7 de Setembro de 2022, e quando se perfazem 266 anos de uma linhagem luso-brasileira contada em A Terceira Margem.

Ainda criança, trocou o Rio por Lisboa, levado pelo avô (1870-1966). Neste, desembocam as memórias da dinastia familiar – àquele transmitidas –, desde um juiz do crime (Lisboa, 1756-1852), cujo nome só tardiamente se revelará, e Pedro Álvares (Torre de Dona Chama, 1756-1822), lavrador, que deu à filha Maria Cabral (1782-1831) o apelido da esposa descendente do descobridor do Brasil.

O discurso começa em 1876, quando, acompanhado pelo escravo Congo, o avô do narrador, agora menino de seis anos, leva uma carta do pai, Francisco António (Rio de Janeiro, 1822-1888), a figura enigmática protestando contra a escravatura na redacção do Jornal do Commercio, na Rua do Ouvidor. Congo é comprado no dia seguinte e, durante 90 anos, interroga-se o portador se a carta não era anúncio de venda de escravo… Veremos como essa criança deu o salto para a terceira margem, a da dignidade, assente nas epígrafes do padre António Vieira – «Oh trato desumano, em que a mercancia são homens!» – e da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A segunda geração assenta no casapiano Pedro Álvares (Lisboa, 1782-Torre de Dona Chama, 1851), que deserta na Guerra das Laranjas (1801) e encontra guarida nesta vila, casando com Maria Cabral. Nasce Pedro Álvares Cabral (Torre de Dona Chama, 1802-Rio de Janeiro, 1876): com dez anos, o abade da terra, das relações daquele juiz, emprega-o em tipografia de Lisboa. Abade e juiz têm duas mancebas, mãe e filha, respectivamente: a vingança daquela será a tragédia desta, em que arrasta esse padre cura, o pai, um irmão desconhecido e sobrinho, entre outros, disseminando-se em intriga camiliana…

Espíritos liberais, juiz e jovem tipógrafo fogem do reino no dia dos mártires da Pátria (18-10-1817). Desembarcam no Rio na hora da coroação de D. João VI (6-2-1818), para, esquivando os festejos, terem o primeiro choque: um italiano vendia escravo acorrentado. O juiz não só o negoceia, como lhe encontra companheira e adquire sobrado para os quatro.

Com a independência, faz-se capitalista: adquire terras, liberta escravos e relaciona-se com o imperador D. Pedro II. Após visita a Santos Marrocos, emprega o afilhado na tipografia oficial. O jovem Pedro Álvares Cabral sofre na composição de anúncios que prolongam o esclavagismo. Apaixona-se, entretanto, por Iara Maria de Santa Teresa (Rio de Janeiro, 1802-1831), que lhe dá Maria Álvares Cabral (1822-1888), quando também nasce o amigo Congo, filho do primeiro casal liberto.

Mal na pele de português que a independência do país não fez brasileiro, enviuvando cedo, Pedro Álvares Cabral entrega a filha ao ex-juiz do crime, para acompanhar o ex-imperador D. Pedro I até França, onde conhece Garrett, Herculano, e integra os 7 500 bravos do Mindelo.  Dos Açores ao Porto liberal sucedem-se aventuras, logo descido a Lisboa, onde contacta outros intelectuais A. P. Lopes de Mendonça, António Rodrigues Sampaio, etc. , lutando pela abolição da pena de morte, na peugada de Herculano contra Castilho. Angustiado por não receber novas do Brasil, e mais pela notícia do crime que envolveu o pai e quem se descobriu irmã deste (1851), despede-se de Torre de Dona Chama e de Lisboa.   

Na chegada ao Rio, vê mal o casamento da filha, Maria Álvares Cabral, com o filho daquele italiano, Francesco Schiavo, ou Francisco António. Este, sempre ausente, representa a fina-flor esclavagista, revertendo as decisões do ex-juiz abolicionista – em cujo palacete de Botafogo se fez rei e senhor e afastando o sogro para o centro do Rio. Vê abolicionistas nos republicanos e alerta para golpes imaginados nas viagens europeias de D. Pedro II.

Contra o terror doméstico, Maria Álvares Cabral chama a si o filho e segura o primeiro casal de escravos, libertos desde 1818, mas que não vêem o filho Congo e perderam uma neta. Convida-os, mesmo, para uma récita teatral, onde debatem com um muito presente Machado de Assis, que já vem das relações tipográficas do pai. O convite para a peça machadiana celebrando Camões no 10 de Junho de 1880 desvela ao avô do narrador, com dez anos, quem era aquela personagem no Jornal do Commercio

O 13 de Maio de 1888 é libertação plena dos escravos e, também, do jovem agora com 18 anos, que reencontra Congo vingando-se do antigo patrão, sem oposição do filho; morre, entretanto, a mãe, e, seguindo os passos imperiais, vem gastar a fortuna na Europa.

Entre um encontro londrino com Jaime Batalha Reis, a Exposição Universal de Paris (1889), uns olhos que persegue até Budapeste, virá gerar em suposta filha da imperatriz Sissi outro Pedro Álvares Cabral (1890-1986), pai do narrador. Mas é o avô cronista que vive os desacertos políticos de Portugal, enquanto a esposa, afastando-se, denuncia atrocidades europeias. Segue-a o filho, com aventuras do coração que só percebemos na última página.

Aos dez anos, por morte do avô (1966), tem o narrador o essencial da história, que a mãe, Teresa Cristina (1922), enfim encontrada, vai completar. Regressam ao Rio natal para celebrar os duzentos anos de uma independência digna – de indivíduos não sujeitos, nem mercancia, e de país livre. É a terceira margem do Atlântico.

Pedro Álvares Cabral, narrador, fora já personagem no romance Torre de Dona Chama (1994). Cosmopolita, mas apreendendo o cheiro do discurso nordestino, avança, recua e conjuga os tempos, como vai das derivas da memória. Constrói-se uma diacronia na eleição de momentos fortes desde finais de Setecentos, em que intervêm figuras conhecidas com textos e falas próprias. O rigor da informação vai a par de sucessos inesperados.  Sentimo-nos em casa, como se as invasões francesas ou o Ultimatum inglês tivessem sido ontem. O sonho de um autor é tornar tudo próximo e reconhecível, para que o leitor faça parte da família. 


domingo, 16 de maio de 2021

A Terceira Margem

     Acaba de sair o meu oitavo romance, A Terceira Margem, Lisboa, Guerra & Paz, 2021, 192 páginas.

A Terceira Margem ficciona sete gerações de uma família luso-brasileira (com pozinhos de Europa Central) entre 1756 e 7 de Setembro de 2022, quando se comemora o bicentenário do Grito do Ipiranga. Nestes 266 anos, ergue-se dinastia com raízes no navegador Pedro Álvares Cabral e em desembargador na Casa da Suplicação centrada no avô (1870-1966) do narrador, em defesa da dignidade humana, margem que recusa a escravatura, a pena de morte, os aljubes do pensamento. Momentos altos e figuras maiores de aquém e além-Atlântico, com a presença especial de Machado de Assis, aproximam-nos de uma História comum que esta prosa singular também celebra.

sábado, 24 de abril de 2021

Teatro, arte da respiração

 

No ano em que me estreei em livro (Inconvencional, poesia, 1973), escrevi a primeira de onze peças, agora reunidas em Teatro (Lisboa, Edição do Autor, 2021, 572 páginas). Era o sonho de uma arte participada por todos, como se exigia para uma diferente respiração nacional, politicamente moribunda. A Pedra metaforizava a opressão desse tempo, na figura de polícia que vem prender jovem universitário rebelde, escrevendo peça com o mesmo título, enquanto pai emigrante sufoca, sem perspectivas de amanhã, sob o cinismo do regime.  Voto colectivo, homens, mulheres e crianças abrem esta «penetragédia» (seja, quase tragédia, nas soluções corais), transformando um regresso de funeral em manifestação de protesto, em cujos cartazes se lê «Queremos respirar!».

Longe de mim pensar que, 47 anos depois, iria escrever Pandemia, em que a respiração tudo suspende, dos abraços à liberdade. Nestas cem páginas entre camilianas e detectivescas, adensa-se cada psicologia, e não sei se deva realçar oportunismos, as relações intrafamiliares, a construção de uma amizade, a abnegação e o bem morrer. Em off, um narrador enquadra as cenas: imagino projecção no cenário de quanto vemos diariamente nos ecrãs.

Entre estas duas peças, não deixei de questionar outros avanços – na estrutura do Poder, tantas vezes cruel e dissoluto, em que incluo conflitos interpessoais –, também da dramaturgia. Assim, Faca no Sol (1974) debruça-se sobre a construção de uma sociedade sem escravos, em que se arrisque a esperança. Escrita no pós-25 de Abril, troca, no final, o hieratismo do tom pela discussão solta entre os actores (já não as personagens) e o público.

O Golpe (1975) desenvolve A Pedra, no que tem de guerrilha efectiva a um governo de Direita autoritária bajulada pela sua Direita extrema. Quem manda, afinal? O desafio da liberdade, ainda num impasse, como nesse Verão Quente de esquerdas totalitárias e satélites, é compensado por quadros delirantes, validando o à-vontade de encenador imaginoso.

Duas personagens (e um empregado pouco falador) protagonizam Jardim (1977), que já publicara como conto em A Flor e a Morte (1983). O diálogo é a forma suprema de respiração: sem diálogo, asfixiamos. Tento por esta via, desde sempre, uma ficção facilmente adaptável à cena, e mais quando sabemos da dificuldade nacional em ‘falar naturalmente’. Mas deixando, por agora, o risco de contaminação entre géneros, direi da surpresa em ler aí a guerra entre genes masculinos e femininos, e como, em cada um de nós, se disputam, algo que deveria acalmar quem supinamente ignora fundamentos da genética.

Vinte e um anos depois, voltei à nossa condição de mortais: Acidente (1998-2000) começa por ser uma conversa sobre a actualidade entre dois mortos na morgue, cujos gavetões abrem e fecham, a par de existências comentadas por vivos, assim misturando memórias. O absurdo está na vida, nos vícios ou síndromes privados, como divertidamente mostro em Delírio (2015). Cada pausa anuncia uma explosão do sentido. Além de um teatro parco de meios e agentes – e as minhas personagens são mais indicações do que nomes próprios, capazes de desdobramentos, se um encenador quiser seguir esse guião –, junte-se boa disposição, além de um pé no quotidiano que nos afecta.

Diferente das cinco que antecedem e seguem, O Divino (2002) narra os últimos momentos de Almeida Garrett. Há restos de um conflito conjugal, de amores fugidos, da amizade reatada com Alexandre Herculano, eu sei lá! Conheço tão bem este autor, que preferi olhar ao homem, do qual, por vezes, me julgo companheiro. Ele é o nosso primeiro intelectual, cosmopolita por excelência, que sabe vestir bem, unindo coragem e génio brincado. Dá nome a praças, e à mais central de Bragança, que, todavia, não nos lembra. Espoliado da pátria, soube, também soldado, recuperá-la.

A mais longa, Sábado (2012-2013), assenta neste dia de reflexão, véspera do voto. Como ganhar uma eleição contra sondagens e evidências? Deve ligar-se a Doença (2016-2017), inaugurada com longo comício, em que um decrépito Pai da Pátria sobrevive à custa de sósias. Do jornalismo venal a um atentado gratuito, vale tudo, neste pântano e seus miasmas. À atenção, pois, de leitores e eleitores. Outra forma de sobrevivência, cínica e abjecta, é propor uma Guerra Civil (2019). Nesta trilogia, com micro-histórias onde, a par da denúncia, não deixo de exaltar valores, está a violência do nosso tempo, manipulador, em que se respira menos do que julgamos.

Deve a arte, entretanto, opor-se a qualquer veio de tirania; dizê-lo claramente em palco, a bem da nossa saúde.         

sexta-feira, 5 de março de 2021

Teatro

 Acabo de editar Teatro, 11 peças escritas entre 1973 e 2020, num total de 570 páginas.

Com excepção da dedicada a Almeida Garrett, O Divino, abordam questões de Poder - desde a vigilância policial no estertor do Estado Novo às relações interpessoais -, manipulação e vingança. São histórias que, mesmo em suspenso ou nas soluções delirantes, deixam germinar um grão de dignidade. 

   

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Ensaios


Literatura Europeia e das Américas




Outubro de 2019
ISBN–978-989-8916-91-4 (edição em papel); 978-989-8916-90-7(edição em formato electrónico)