quinta-feira, 9 de julho de 2026

FASTIGÍNIA

 



FASTIGÍNIA alicerça uma renovada visão da novelística portuguesa, enquanto questiona a identidade nacional em tempo de Monarquia Dual brilhando em Valladolid (1605). Um narrador privilegiado assiste ao nascimento do futuro Filipe IV, III de Portugal, e às cerimónias, festas, banquetes, torneios e jogos que acompanham a alegria de Império também a ratificar pazes com a Inglaterra, assim emergindo um olhar agudo sobre a política doméstica e internacional. Desde 1884, rasgos cervantescos vindos a lume em tradução parcial de manuscrito londrino por Pascual de Gayangos fizeram desta obra compósita e luxuriante a voz primeira na recepção mundial do Quijote.

Esta e outras razões justificavam a edição de Sampaio Bruno, Fastigimia (1911), texto assente num só manuscrito, mas inçado de erros desde o título, deficiências que a tradução de Alonso Cortés (1913; em livro, 1916) veio atenuar. Aquando da reedição fac-similada de Bruno (1988, 2009), eram conhecidos nove manuscritos. Assentou em 13 manuscritos e quatro impressos (dois, parciais) a nossa edição de 2011, agora revista na base de 17: 13 em Portugal, e em Madrid, Paris, Londres, Bloomington (Indiana).

«Qué libro tan ameno y entretenido!», exclamou D. Marcelino Menéndez Pelayo. E Hernâni Cidade: «Tomé Pinheiro da Veiga deve ser considerado como um dos melhores escritores do seu tempo.» Sentirá isso quem ler este polifónico Turpim, «notável escritor, mais próximo da língua coloquial do que Rodrigues Lobo ou Fr. Luís de Sousa», da envergadura de D. Francisco Manuel de Melo, como disse António José Saraiva.

Peso1,560 kg
Dimensões (C x L x A)23,7 × 16 × 5 cm
ISBN

9789897356780

Edição

julho de 2026

Idioma

Português

Encadernação

Capa dura

Páginas

1054

Editora

Letras Lavadas

quarta-feira, 20 de maio de 2026

domingo, 3 de maio de 2026

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Lançamento de GOLPE DE ESTADO

 

CONFERÊNCIA-APRESENTAÇÃO PELO AUTOR

 

GOLPE DE ESTADO: LITERATURA E POLÍTICA

 

14 DE MAIO, 18 HORAS

 

FNAC

AVENIDA DE ROMA, 11-A, LISBOA

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Ler GOLPE DE ESTADO

Nenhum jornalista ou comentador sabe dizer o nome de Péter Magyar. Como vão citá-lo várias vezes, seria altura de aprender essa pronúncia. No intervalo, ganham muito em ler o romance GOLPE DE ESTADO (Gradiva, 2026, 254 p.), que a Hungria e outras democracias iliberais inspiraram.



segunda-feira, 30 de março de 2026

terça-feira, 17 de março de 2026

Golpe de Estado: sinopse e desenvolvimento

 

Golpe de Estado é um romance político que mergulha o leitor nos bastidores do poder, onde ambição, manipulação e extremismo se entrelaçam.

Quando um poderoso oligarca promete resolver a dívida externa do país, o que parece ser um gesto patriótico revela-se uma estratégia calculada para minar o governo e capturar o poder. Desmascarado, passa a financiar movimentos neonazis e a fomentar um golpe de Estado. Mas há quem resista: um tradutor e escritor policial segue pistas improváveis, enquanto um inspector determinado traz à superfície crimes do passado capazes de derrubar esta teia.

Num crescendo de tensão, a narrativa expõe as engrenagens da desinformação e o avanço de agendas radicais – remigração, insegurança, nacionalismo identitário –, revelando como a democracia pode ser corroída por dentro.

Misturando distopia política, história de amor e investigação criminal, este tríptico romanesco combina ritmo cinematográfico, diálogos incisivos e uma escrita intensa que não abdica da emoção.

Golpe de Estado é uma leitura actual, provocadora e inquietante – um romance que desafia, alerta e prende até à última página.

[Contracapa]



 

Alegando assumir a dívida externa do país, um oligarca mina a acção do governo. O projecto de reversão democrática falha, não o apoio a grupos neonazis que ensaiam um golpe de Estado, contrariado por deduções de um tradutor e autor policial. Num terceiro momento, esse mentor investe no monopólio da desinformação: entre ataques à Esquerda, corrobora as bandeiras da extrema-direita – remigração, insegurança, nacionalismo identitário –, mas crimes antigos levam um inspector a cortar a cabeça desta hidra.

Dezenas de personagens convivem neste tríptico romanesco, alertando para a ascensão de um extremismo sem valores, qual Polifemo de um só olho, impondo a sua verdade, única. Quando a democracia formal se tornar eufemisticamente iliberal, os bárbaros – afirmadas ‘pessoas de bem’ ou ‘verdadeiros patriotas’, no desprezo das minorias e de quem é contra – entraram na cidadela.

Sem o jogo das relações interpessoais, contudo, este romance seria um libelo. Distopia política, história de amor e solução detectivesca organizam-se em narrativas de primeira e terceira pessoas segundo montagem cinematográfica apoiada em diálogos vivos, onde a brevidade e secura do verbo não rasuram as emoções que nos alimentam.      

 

Um narrador-protagonista conta, na primeira pessoa, como Nelson C., director e proprietário do semanário digital Última Hora, acolitado pelo chefe de redacção Bernard De Vasconcelos, chantageia o governo de coligação tripartida, servindo-se do ministro das Finanças, a quem oferece entrada em casa eufemisticamente dita de massagens, um segmento de vasto império. Simultaneamente, promete saldar a DÍVIDA EXTERNA (título da primeira parte, primeiro golpe), impondo medidas draconianas: reduzir a pressão da água, a potência da luz, o fluxo de gás e a velocidade dos transportes públicos, nestes triplicando o preço dos bilhetes; um imposto sobre os bens de consumo; decuplicar o estado policial; e uma série de abusos legais, para recreio dos tudólogos. Visa, afinal, a presidência do Banco nacional.

Não olha a meios, seja mandar matar o ministro da Juventude e Desporto ou o redactor César Ruiz, responsável pelas páginas de Cultura e alegado autor do folhetim Os vendilhões da pátria. Mata-se em causa própria, fazendo crer vingança do Estado, a fim de criar uma atmosfera constrangedora de governação também promíscua na relação sentimental do primeiro-ministro com a líder do segundo partido coligado. Em síntese, «O novo governador do Banco nacional arrastou secretário e guarda-costas: detentor de parte substancial da dívida externa do país, está nas suas sete quintas, após obrigar à demissão do primeiro-ministro (por razões de saúde, segundo comunicado), a que se alcandorou, acumulando, o ministro das Finanças. Em dois meses, minaram o governo e o país.» 

O narrador, estagiário de 25 anos redactor de Lazer e Entretenimento, percebe, através da namorada, Eugénia Santos, estagiária em escritório de advogados, que partem daqui as leis governamentais decididas por Nelson C.; cumpliciado com a designer Eulália Sepúlveda, que o reconhece da comum orfandade em internato, e temendo má sorte, passam-se ao jornal da deputada Giselle Santos Brown, onde, com aquele mesmo título, sai noveleta-denúncia, que desfaz os projectos do predador.

Esta parte decorre entre 3 de Janeiro e 15 de Março. A segunda, “Golpe de Estado”, sucede entre 17 de Março e 1 de Maio, ou a reincidência de um perdedor apoiando neonazis, cujas contradições teóricas (História nacional colectora de imigrantes, ao contrário do que julgam) e práticas (tráfico e prostituição de estrangeiras) aquele narrador, em terceira pessoa, desvela, numa prosa mais dialogada.

Começa com a perseguição do líder do grupo 1128, Marco, a duas imigrantes indocumentadas da Crimeia ocupada, Larysa mãe e Larysa filha, de oito anos. Mal saídas de comboio matinal, avenida fora, aquela abandona a filha a um transeunte que volta a casa do passeio. É Gonçalo Santos, autor de policiais reconhecido (ver a emoção da jovem Teresinha e pais), que se socorre do amigo João Meneses – médico, detentor de clínicas associado a uma viúva nórdica, Ingrid –, para consulta à menina. Ingrid Larsen conhece Gonçalo Santos de nome, enquanto tradutor do seu pai, relação que se cimenta até ao final da obra, entre redescoberta do amor, feitos de gratidão e de generosidade no campo da saúde.

Essa manhã, contudo, com ataques país fora do partido de extrema-direita Alto! assente em grupelhos supremacistas, é ensaio para algo maior, mais perigoso, anunciado por outras perseguições. Superintende um apelido agora completo, e significativo: Nelson Camarilha. Gonçalo começa a perceber isso ao ler, em semanário, textos codificados de incitação à luta armada assinados por Maria Marcês Faustina, uma comunista ex-companheira de faculdade, agora ideóloga neofascista.

A narrativa conta as suas diligências para alertar as autoridades, em especial, o director nacional da polícia e o secretário-geral do Serviço de Informações de Segurança. Fá-lo através da amiga e influente Joana Pessanha, separada de João Meneses, enfim colocando o país de sobreaviso contra um golpe de Estado. Confirmam-se as deduções de Gonçalo Santos, que explicará o seu raciocínio em jantar na casa de João e Joana, de novo reunidos, a que acorrem aqueles responsáveis e o Presidente da República.

“Manipulação” vai de 20 de Outubro a 1 de Novembro, ou como comprometer David Brown na morte de uma adolescente, Amanda, filha dos separados Bernard Alvarez de Vasconcelos (filha que não vê há 14 anos) e Olívia de Vasconcelos (antiga aluna de David), neta de Camarilha, que prefere o genro à filha, e Elisabeth, que não acredita no crime. A montagem é perfeita, com prisão, julgamento por tenro juiz (no final, corajoso) e termo e residência do ex-docente universitário, cuja filha, Giselle, e o filho adoptivo Victor Guimarães, inspector da Judiciária, vão salvar.

Sobrepõe-se a guerrilha da desinformação em várias frentes, alimentada por Bernard e pelo jornalista Lucas Evangelista (de facto, Gabriel Martim), filho de Camila Evangelista, técnica de saúde. Esta personagem revela-se em modo diferido, tardio, percebendo-se, então, a sua importância no entrecho. Mais presente, Bianca Ruiz, secretária de Camarilha e sobrinha do assassinado jornalista César Ruiz, tem a sua história e um desígnio, felizmente atalhado por Victor Guimarães. O passado de ambos, conhecido de Camarilha e David Brown, é revelado por este.

Uma adolescente estrangeira, também sequestrada em quinta, aparece morta. Ainda desaparecida Amanda, a amiga de escola Andrea, filha de Alice Norton, sente-se cúmplice, com remorsos, e sucida-se. Somam-se ataques à Esquerda das vaidades alegadamente representada em David Brown; juntam-se à festa de demolição de carácter os nacionalistas de Camarilha, quase sempre intermediado pelo também traficante de droga Bernard Alvarez, promotor da trama, melhor, tramóia.

A pouco e pouco, a investigação policial transmitida a Giselle Brown equilibra o enredo, resolve a equação em risco com uma atenta dona Celestina, vizinha de Lucas Evangelista, ilumina a conspiração e seus motivos, celebra-se sentença judicial (reunindo em almoço Eulália Sepúlveda, etc.), até ao desenlace frente à campa de Eduardo Guimarães, colega de David Brown…

Está aprazado almoço natalício com Victor e Bianca, Giselle e David Brown, o cunhado Gonçalo Santos e mulher Ingrid, a há muito afastada filha Eugénia Santos e namorado-narrador, «modesto organizador destas prosas». Giselle e Ingrid vão surpreender David com o regresso da esposa separada, assim espelhando a conjugação João Meneses e Joana Pessanha, por arte de Gonçalo Santos.       

 

Ameaça-nos um reino ubuesco desde a primeira palavra, evocando o MERDRE de Alfred Jarry. É um retrato cru e triste de país leiloado, de interior vazio, vendido às praias, que, apesar dos esforços tentaculares e criminosos de figurantes radicais, entra nos eixos, evitando mais sangue e cumprindo justiça. Do mundo inconsequente dos artistas à política de alcova, da promiscuidade entre judiciário balofo e um polícia corrupto, da violência mobilizadora ao comentário unívoco (mas cómico, na dona Gardénia, no professor Zandinga), da encenação religiosa ao jornalismo enganoso vai um passo – e o abismo logo ali.

A moral esconde-se na linguagem hipócrita, censória, exclusiva (mais sensível no tocante à raça e ao género, à distinção entre bons e maus patriotas), alfobre de insultos ideológicos e baixos instintos. Em defesa de um 25 de Abril dignificador, que um estilo irónico e partidário acompanha, vela-se pela liberdade em segurança e combate-se o retrógrado: «Uma deputada do Alto! não conseguia calar a fúria, fervendo em bocas baixas, e, pedindo a palavra, considerou a necessidade de manter a mulher em casa, mãe e educadora, ser corpo amável ao dispor do marido, libertando os empregos, donde viria sustento suficiente.»

Nos meus romances, há um processo de vida dos mesmos romances: a visão oblíqua, à Escher, que nos obriga a um lento recentramento. Não devemos tirar conclusões imediatas, pois o que parece não é. O foco incide sobre todos, mas só ilumina a verdade muito à frente. O caso mais evidente é a tensão entre Bianca Ruiz e Victor Guimarães. No final, águas ideológicas separadas, faz-se justiça.           

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

GOLPE DE ESTADO

                     Nas livrarias, em 24 de Março de 2026