segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

«A Casa de Bragança» no «Jornal de Negócios»

Fernando Sobral destaca «A Casa de Bragança», no «Jornal de Negócios» de 27 de Dezembro. Excerto: 
«Ernesto Rodrigues (ensaísta, ficcionista e poeta) assina aqui uma viagem à volta de um enigma (a própria cidade de Bragança) que define muito a essência do que é o mundo transmontano. Viagem ao passado para entender Portugal.»

sábado, 28 de dezembro de 2013

CV

Ernesto Rodrigues (born 1956-) is a Lecturer at the Faculdade de Letras of the Universidade de Lisboa. A former journalist and lecturer in Portuguese at the University of Budapest from 1981-1986, he has published twenty works of both poetry and fiction from his debut in 1973 until his most recent publication Uma Bondade Perfeita in 2016.
Rodrigues has compiled prefaced editions for twenty one Portuguese authors, and translated more than twenty works from Hungarian, including the Nobel Laurete Imre Kertész, Sándor Márai, Desző Kasztolányi and Magda Szabó together with an Anthology of Hungarian Poetry published in 2002. He has compiled eight volumes of essays, of which Mágico Folhetim: Literatura e Jornalismo em Portugal (1998) and Cultura Literária Oitocentista (1999) are of particular mention.

Ernesto Rodrigues (1956) é professore presso la Facoltà di Lettere dell’Università di Lisbona. In passato fu giornalista, lettore di portoghese presso l’Università di Budapest (1981-1986), pubblicò, dal suo esordio (1973), fino al piú recente Uma Bondade Perfeita (2016), 20 titoli di poesie e fizione.
Preparó edizioni, prefazioni, di 21 autori portoghesi, e tradusse una ventina di opere ungheresi, incluso il premio nobel Imre Kertész, Sándor Márai, Dezső Kosztolányi, Magda Szabó, oltre ad un’Antologia della poesia ungherese (2002). Riunì in una raccolta otto volumi di saggi, tra cui Magico Folhetim “Il magico romanzo a puntate”.  Literatura e Jornalismo em Portugal (1998), “Letteratura e Giornalismo in Portogallo” (1998) e Cultura Literária Oitocentista (1999), “Cultura letteraria ottocentista (1999)”.   

Labirinto quinhentista

O Romance do Gramático (Lisboa, Gradiva, 2011)

Na abertura deste romance, Ernesto Rodrigues recorre a um dos mais antigos estratagemas ficcionais: a descoberta de um manuscrito perdido que lança nova luz sobre uma determinada figura histórica. Neste caso, o foco recai sobre Fernando de Oliveira, autor da primeira Grammatica da Lingoagem Portuguesa (1536). Em jeito de preâmbulo, assistimos ao encontro entre um professor de português da Universidade de Budapeste e uma aluna húngara que prepara dissertação sobre João de Barros. Nas suas investigações, a jovem recupera um documento, dobrado em 16 partes, escrito por diferentes mãos, tanto na frente como no verso. Os dois textos, autónomos, causam no professor «admiração, inveja limpa, euforia», na medida em que revelam uma inesperada qualidade romanesca, antecipando «algumas propostas da ficção seiscentista e ulterior».
O primeiro «livro» consiste numa estranha narrativa, passada na ilha de Bled (actual Eslovénia), em Setembro de 1532, quando os turcos voltam a ameaçar a Europa. Enviado pelo papa, Fernando de Oliveira chega a um mosteiro de frades desconfiadíssimos, numa missão pouco clara até para ele próprio. Apresentando-se como censor de livros, tenciona vigiar aquela comunidade fechada e hostil, mas é ele que acaba vigiado.
A ilha surge como um espaço opressivo, longe do mundo, onde se infiltra, por entre as neblinas, uma espécie de irrealidade. Oliveira assiste a crimes horrendos, fugas, conspirações, diatribes teológicas e até a um bizarro «concurso europeu Cristo do Ano», com qualquer coisa de reality show. Há ainda uma biblioteca gótica vazia (gémea siamesa de uma igreja) e um labirinto vegetal onde Oliveira intui princípios de uma «gramática da natureza». Sendo um «homem de sentidos», ele tem muitas dúvidas quanto à sua capacidade de resistência ao pecado, acabando por cair em tentação. Ao envolver-se num festim carnal com uma Judite de contornos míticos, o «discurso em romance», barroco e picaresco, torna-se ainda mais difuso e inverosímil — pelo que não espanta o parecer final do frade que proíbe a obra, alegando que ela contém «muita coisa desonesta, e mal soante, alguma escandalosa e contrária à fé e bons costumes».
O segundo «livro», escrito no verso do primeiro, é supostamente obra deste último dominicano censor, inimigo que acompanhou como uma sombra todo o percurso de Fernando, uma vida agora narrada em fragmentos (sete passos e uma «queda»). Mais do que a trajectória de uma «figura indecisa» e fugidia, «mudando conforme o olhar» que sobre ela incide, importa aqui o cenário em que Oliveira se move: esse século «de ouro sombrio», atravessado por «sismos e pestes, pirataria, perdas do rei e da nação, império ao deus-dará», mais o Santo Ofício e seus julgamentos sumários.
Ernesto Rodrigues constrói O Romance do Gramático como um labirinto em que a autoria dos textos é incerta, bem como a verdade do que neles se conta. Mas o que lhe interessa, para lá das contingências ficcionais, é o retrato de um país à beira do declínio, triste sina que se prolongou até hoje. Isso e o elogio do amor (em jogo de espelhos que atravessa os séculos). Isso e o prazer da escrita, dando corpo ao «luxo de falarmos esta língua».

José Mário Silva, Expresso ‒ Actual, 20 de Agosto de 2011