segunda-feira, 27 de abril de 2015

O Romance do Gramático


Ficção, história, pedagogia e atualidade
no enciclopédico O Romance do Gramático
de Ernesto Rodrigues

Norberto Veiga


Nada consola mais o autor de um romance do que a descoberta de leituras
em que não havia pensado, e que os leitores lhe sugerem.
Umberto Eco, Porquê «O Nome da Rosa», Difel, Lisboa, 1984, pág. 11.

Começo este breve apontamento sobre o enciclopédico romance de Ernesto Rodrigues, O Romance do Gramático (Gradiva, 2011), tecendo alguns comentários sobre os elementos paratextuais que o compõem e que estão intimamente relacionado entre si, laborando para formar um todo harmonioso em que acabou por se traduzir o livro.
Assim, segundo creio, encontramos na obra seis paratextos, a saber: O título, a “Notícia” (5-10), a epígrafe (11), o “Parecer” (141-144), estes na primeira parte da obra; as “Advertências” (149-150) e, por fim, o “Argumento” (151-156).
Todos estes elementos concorrem para a estrutura, fortemente programada, da obra, mas são também significativos, segundo Genette[1], cumprindo capitais funções para a descodificação da mensagem que o autor quer transmitir ao leitor. O título do romance cumpre a missão de apresentar, desse logo, o assunto [Genette, 1997: 76]. Contudo a identificação não é completa, mesmo tendo em conta a capa do livro, na qual aparece a página de rosto da obra de Fernão de Oliveira. Desta feita, só com a leitura da epígrafe, retirada da Gramática da Linguagem Portuguesa, é que o leitor pode, sem margem para dúvidas, descodificar o título [cf. Genette, 1997: 144-160]
Ato contínuo, encontramos o que para mim é o principal paratexto, “Notícia” (5-10). Começo por referir que, na minha ótica, o romance O Nome da Rosa[2] de Umberto Eco é o hipertexto, segundo Gérard Genette, Palimpsestes, desta obra de Ernesto Rodrigues. Desde logo, pelo recurso ao manuscrito e à efabulação que o mesmo permite estabelecer entre realidade e ficção, tornando, assim, a narrativa verosímil [cf. Eco, 1980: 11-21]. É, pois, neste elemento paratextual que o autor/narrador explica e introduz o leitor no texto. Aqui são audíveis ecos autobiográficos do escritor: “Eu tinha, como Fernando, vinte e cinco anos” (p. 10). Este texto informa o leitor do tempo histórico do romance, que é o século XVI, e, ainda, do protagonista do mesmo (o gramático Fernão de Oliveira). Saliento, de novo, o valor matricial deste paratexto para todo o romance, pois cria a ilusão de que, em pleno século XX (tempo da escrita), o autor/narrador recebe um documento entregue pela personagem feminina na Hungria, que vai ser, apenas, atualizado. Ora, esse manuscrito vai materializar-se na parte consubstancial do romance, intitulada Recto / Index.
A primeira parte do livro termina com o paratexto “Parecer”, que, segundo creio, serve dois desígnios: o primeiro, certificar a historicidade da ação narrada, uma vez que, na época, todos os livros tinham de ter o parecer prévio do censor[3]; o segundo facilita a construção ficcional da obra, a nível da legitimação do pergaminho, pedra-angular da primeira parte do texto. Termino com a referência à desconstrução textual do manuscrito, servindo-me das próprias palavras do autor: “Pareceu-me ser necessário advertir que o Autor usa de uma ficção que não é poesia e fingimento.” (141, sublinhado meu)
Passando aos dois paratextos da segunda parte, encontramos, a seguir ao subtítulo «Uma História Mal Contada» e da referência espácio-temporal «1510-1581, Lisboa, Portugal», o paratexto “Advertências”, que inicia com a citação de Filippo di Strata: “É virgem esta pena, a imprensa, meretriz.” (149) É um parecer favorável à publicação do livro; note-se posição contrária do censor no “Parecer” da primeira parte da obra. Destaco, ainda, a cristalizada forma, usada pelos censores do século XVI: “Este livro é digno de se imprimir, e o autor mostra nele muito engenho e muita erudição nas ciências humanas.” (149) [cf. Os Lusíadas] Abro um pequeno parênteses para realçar a posição do autor sobre a obra, que vai na senda da que defendo, “tela e figura desfazem-se, ao tocá-las visão única.” (150) Assim, a “tela”, segundo creio, corresponde à primeira parte da obra e a “figura” à segunda, que apenas associadas fazem sentido, formando uma acabada obra, ou, nas palavras do autor, “visão única”. (150) Julgo, também, interessante registar que essa unidade é fortalecida pela existência destes dois “pareceres”, pois, se a primeira parte termina com um não que parece definitivo, a segunda inicia com um sim que tudo promete, restabelecendo, assim, a unidade do fio narrativo.
Por último, encontramos o elemento paratextual “Argumento” (151-156), que legitima, contextualiza, esclarece e encerra as questões escalpelizadas nos textos anteriores, que tenho vindo a dilucidar.

Arrumadas as questões paratextuais, passo a apresentar a minha proposta de “leitura” deste romance tão enciclopédico e “culto”[4]. Para o efeito, decidi estabelecer oito tópicos, que enumero: 1. romance fortemente estruturado, 2. romance histórico, 3. unidade na diversidade, 4. ficção versus realidade, 5. pendor pedagógico, 6. presente da escrita, 7. louvor e defesa da Língua Portuguesa, 8. jornada humana.

1. Como já tive ensejo de referir, O Romance do Gramático de Ernesto Rodrigues é uma obra fortemente organizada tanto a nível da estrutura externa como interna. Assim, externamente, a primeira parte ‒ que responde pelo título de “Recto/ Index”, situando-se a intriga, em termos de espaço e tempo, em 1532, em Bled, na Eslovénia ‒ é composta por quinze capítulos, mais os paratextos mencionados acima. A segunda por sete passos que reenviam a memória cristã do leitor para as estações da via-sacra de Jesus identificando a existência terrena, neste caso, a vida de Fernão de Oliveira, como um rol de trabalhos e canseiras, onde a única certeza possível é a da morte, ou, como assevera o autor, a “Queda”, último capítulo do livro. Esta queda, com ressonâncias de Camus, que representa metaforicamente a derrota do homem na luta contra as forças visíveis e invisíveis do planeta, é personificada, no romance, pelo gramático Fernão de Oliveira, que por sinédoque representa todo o ser humano. Corroboram esta leitura as seguintes passagens do texto: “Porque o justo cairá sete vezes, verdade é que ele não era tal, se mais vezes não caiu.” (159); “Porque o justo cairá sete vezes [cf. Provérbios 24:16] verdade é que nenhum deles era tal, se mais vezes não caíram.” (227, sublinhado meu) Constata-se, assim, que há uma evolução do primeiro passo para o último, isto é, passa-se do individual para o coletivo, ou melhor, do “eu” para o “nós”. Daí que se entenda, agora, que Oliveira representa, no final da obra, todos os mortais.
Quanto à estrutura interna, ela é assegurada pelos vários paratextos, escalpelizados atrás. A primeira parte inicia com os conselhos ao leitor no apartado “Notícia” e a segunda em “Advertências”, seguida de “Argumento”, que funciona como leitmotiv da última parte.

2. O leitor mais distraído não terá dificuldades em nomear este romance de “histórico”, mesmo tendo em conta toda a carga subjetiva que o adjetivo transporta. Creio que o objetivo do autor passa por criar um esboço o mais nítido possível do primeiro gramático português e, desta forma, reabilitar a imagem, por vezes, tão maltratada pela investigação histórico-literária, de Fernão de Oliveira. Outra razão que poderá ser convocada é o facto de ambas as partes/histórias se situarem cronologicamente no século XVI, um século a todos os títulos significativo. Outro elemento histórico encontra-se na alusão do ataque Otomano à Hungria que foi previsto por Sá de Miranda, introdutor do soneto em Portugal. (18) Este acontecimento é relatado com mais pormenor na página 55, na qual se enaltece a luta contra o infiel, que queria tomar a Hungria. Assinalo, ainda, as várias referências ao Concílio de Trento e à sua ação no mundo religioso e a figura do Infante Santo Fernando cativo em Fez, por razões de Estado, que, sem dúvida, enformam historicamente a obra. (20)
Todo o “Argumento” da segunda parte tece um retrato de Lisboa que é atual, embora se reporte ao passado (152). Também, a narração do processo (187) que a Inquisição moveu a Fernão de Oliveira (sendo tudo falso e as testemunhas orquestradas contra ele), para além do indubitável valor histórico, pode ser lida como uma cáustica crítica à administração da justiça nos tempos hodiernos.
Nomeio, por último, não querendo ser exaustivo, a grande peste que assolou Lisboa, em 1569 (narrada no sexto passo, 207), onde encontramos expressões como “grande mortandade” e “Se conto assim é porque fugi, fui mau, sobrevivi.” (208), que, segundo penso, remetem para a primeira parte do poema “Nós” de Cesário Verde.

3. A estrutura bífida do romance pode ser deduzida numa primeira leitura, até porque o escritor não se cansa de o repetir em várias passagens.
Como já referi acima, o romance apresenta duas partes: a primeira intitulada “Recto / Index” e a segunda denominada “Verso / Uma História Mal Contada”, onde a ficção anda de mãos dados com a realidade/verdade histórica. Registe-se o facto de o dominicano que veta o lançamento do livro “Recto / Index” ser o mesmo que narra o “Verso / Uma História Mal Contada,” segunda parte da obra. No entanto, a mão do copista, ou melhor, do autor, é visível ao longo da narrativa, como patenteia o excerto seguinte: “Digo que a escrevo aos vinte e cinco anos, com factos históricos que só ocorreram depois, e um amigo, Duarte Nunes, acabado de nascer (em 1530?), completará, se quiser”. (139) Neste capítulo, que é o último da primeira parte, narrado na primeira pessoa, Fernão de Oliveira fala, em jeito de autobiografia, das obras que já publicou. (139) Quero, também, destacar a preocupação do gramático em escrever “este discurso em romance” (idem), o que enalteceria e ajudaria a Língua Portuguesa a autonomizar-se e a impor-se, definitivamente, ao Latim. (139, 40) Veja-se, a este propósito, o discurso parentético sobre a sua obra A Arte da Navegação, que passo a citar: “Perdeu-se; mas também era em latim…” (140)
Outro argumento que posso convocar para a unidade da obra cumpre-se nesta passagem da segunda parte do romance: “Do que Fernando dá nota […] no recto de um manuscrito, que desejava nosso primeiro romance em prosa.” (154, sublinhado meu) Não será difícil passar o determinante do plural para o singular, corroborando, em meu juízo, o “estratagema” do manuscrito e toda a sua envolvência, como atrás demonstrei. Acrescento, apenas, que estas e demais passagens escalpelizam a intenção, a sageza e a ars deste soberbo escritor/romancista que é Ernesto Rodrigues.
Encerro este tópico carreando mais três exemplos. O primário diz respeito à menção de um filho que Oliveira não conheceu, com que termina a primeira parte do texto: “Com este manuscrito de Index, encontrava-se roupa de mulher – a qual guardava (Deus da Salvação!) sinal evidente do filho que ele não conheceu.” (144) A chave deste mistério o leitor só a encontrará no final da segunda parte. Também as referências às missões em que partira Fernando de Oliveira são idênticas em ambas as partes, a saber: preferia ruas de Castela à cela lusitana, fuga amorosa e razões de Estado em missão secreta (154). O derradeiro segmento textual que convoco encontra-se na página 170, quando se relata a história do crocodilo que emprenhou uma jovem: “Não seria ele o crocodilo? Judite, a mulher formosa? E labirinto, aquele labirinto e romance da sua vida, que sumulou em poucos dias de Setembro de 1532, como diz?” Este excerto, para além de estabelecer a ligação com a primeira parte do romance, apresenta-nos, igualmente, traços autobiográficos do protagonista da obra.

4. Todo o romance, e por defeito o histórico, assenta na simbiose entre realidade e ficção, tornando, desta forma, o texto verosímil e a intriga mais apelativa e interessante para o leitor. Digamos que à ficção cabe a função de embelezar e suavizar (semelhante à mitologia nas epopeias) os dados ou a verdade histórica. É, sem dúvida, desta luta titânica que germinam os grandes e imortais romances.
Dado que sobre a vertente/realidade histórica já me pronunciei, o meu enfoque centrar-se-á, agora, na ficção. Atendendo ao que já foi escrito, não devem subsistir dúvidas de que estamos na presença de um romance autobiográfico. A obra assenta na tríade: Eu / Fernão / Laura. (cf. Petrarca) Estranharão, porventura, o pronome pessoal. No entanto, o escritor/Ernesto Rodrigues desvela-se na obra nas múltiplas alusões aos seus dados biográficos, que, como são deveras conhecidos, dispensam-me a obrigação de os apresentar.
Outro dado ficcional, de grande relevância para a organização interna da primeira parte do romance, materializa-se na figura do “cristo do ano”. Neste momento, o narrador, recorrendo à ironia, apresenta-nos uma outra visão de Cristo, que nos traz à memória o capítulo III de A Relíquia, de Eça. Refira-se, a este propósito, que o autor se revela um profundo conhecedor do texto bíblico, nas várias referência, citações e alusões que dele faz, associadas à figura de Cristo [cf., a título de exemplo, as páginas 36, 45, 47, 48 e 92]. Cristo, ou melhor, os vários concorrentes ao concurso “cristo do ano”, é-nos apresentado como um simples humano que vagueia em alto mar em vez do deserto até à “queda definitiva”. Também, o cristo-político, que chega com a sua assessora e o seu guarda-costas (60), configura uma alusão clara e sarcástica à prática democrática quotidiana. A Igreja e os seus dirigentes também não são poupados, quando lemos: “Cristãos, é certo, mas nada apostólicos.” (143)
Refiro, de seguida, alguns dados que auxiliam o leitor a desfazer a teia urdida, de forma ficcional, pelo autor, quando divulga as datas da biografia de Fernão de Oliveira (139).

No capítulo catorze, “Índice”, que pode ser lido como o desenlace da primeira parte, o relator desfaz o tecido, qual Penélope, que tecera no início e revela ao leitor que tudo não passou de uma ficção: “Ficámos num ah. O leitor, perplexo, que não era para menos. Fora enganado.” (130) Este tópico é retomado no início da segunda parte, corroborando o que afirmamos acima sobre a unidade da obra, em que o narrador interpela diretamente o leitor, à semelhança de Garrett nas Viagens…, ao afirmar: “Eu avisei-te, leitor.” (149) O autor/narrador, no seu intuito de codificar o texto, para de certa forma ofuscar a lente, joga com a escrita, afirmando: “se não escondesse, entre anátemas ao leitor, é que a minha vida não faria sentido.” (185)
Outro aspeto ficcional que enriquece o texto encontra-se nas razões que presidiram à saída de Portugal de Fernão de Oliveira, uma vez que, sendo múltiplas, não são claras. Para além das três, já referidas, menciono, ainda, vigiar a Europa que fazia concorrência a Portugal, em especial na arte de marear. (154)
O derradeiro aspeto ficcional que indico prende-se com o censor que redigiu o “Parecer”. Parece-me que, para acentuar mais a ficção, o leitor é conduzido ao pensamento de que este censor poderá ser o mesmo Frei Bartolomeu Ferreira que escreveu o parecer de Os Lusíadas e que, segundo reza a lenda, teria um gosto literário apurado, caso raro nessas funções, tendo salvado vários livros da Inquisição, no século XVI. Por fim, no sétimo passo, o narrador, ao referir-se, de forma condoída, ao conceito de fim da pátria, em 1580 (225), reafirma, dando a palavra a Fernão de Oliveira, que o que permanece é a escrita e, dentro desta, sobretudo a ficção: “A ficção consegue esse milagre. Transformou-me no que não tive coragem de ser, por cobardia, dando-me, pouco antes de morrer, a coragem de me salvar aos olhos de dois amigos.” (226)

5. Outra característica que ressalta à vista, da leitura desta obra, é o seu pendor moralizante ou pedagógico, sempre orientado para a positividade da vida. O narrador começa por afirmar: “A dúvida marcou-me.” (17) E acrescenta: “Tem de haver razão forte para se continuar na mentira.” (17) A importância destas sentenças prende-se com a filosofia de vida que podem dar ao leitor, auxiliando a sua autognose e o conhecimento do mundo em que vive. Na página 28, encontramos: “Tem cada homem seus caprichos; e, se pudermos, não sejamos infelizes.” Aliás, a procura da felicidade é o ideal de todo o ser humano. A felicidade associada à tranquilidade e à paz de espírito auxiliam a caminhada terrena, como lemos nesta passagem: “É injusto não viver tranquilo.” (51) E como “Nunca sabemos para que funções estamos guardados.” (88), “Não podemos ser tão mudáveis.” (65), e, para a consecução desse desígnio, “A velha amizade, o melhor caminho”. (64)
 Noutros momentos regista-se a desilusão do autor com a postura e a mentalidade dos seus concidadãos, que tendem a valorizar o que é estranho: “É prática antiquíssima ir buscar fora o que não há dentro.” (36) Tudo isto são consequências da liberdade em que vivemos e que deve ser continuamente repensada e defendida: “Tê-la-íamos, à liberdade, sem tantas imposições?” (57) Encontram-se, ainda, conselhos relacionados com os livros, isto é, o alimento do espírito: “O amor vai bem na falta de livros. Cresce em prazer.” (67); e, também, “Onde falta pão faltará livro.” (88)
Para concluir, arrolo: “É muito antiga esta miséria portuguesa de não saber dar lugar às virtudes, nem engradecer honrosos pensamentos, antes acanhá-los em modas, e desprezá-los, contentando-se da glória de seus passados.” (167) Esta afirmação em jeito de desabafo, ao estilo de Saramago, enfatiza a realidade portuguesa, tanto passada como presente, visto que somos tão eficazes a reconhecer e a louvar os de fora como a rebaixar os de dentro. Só deste modo se pode compreender o desabafo do narrador: “A vida é triste; nem sermos bons nos alegra por dentro.” (185)

6. É um lugar-comum afirmar que o escritor escreve para o presente, embora o tema, a ação do romance verse sobre o passado ou o futuro. O mesmo se infere das palavras de Umberto Eco: “Haverá algum escritor que escreva apenas para as gerações futuras? Não, nem pode sequer afirmá-lo porque, como não é Nostradamus, só pode conceber os leitores futuros a partir do modelo daquilo que sabe dos contemporâneos.” [Eco, 1984: 41]
Ora, com este romance, Ernesto Rodrigues quer filar a mente dos seus contemporâneos e auxiliá-los na sua via-sacra terrena, como vimos no apartado anterior, para que os mesmos se tornem cidadãos mais cônscios, conscientes dos seus direitos e deveres. Desta forma, o leitor não estranhará o facto de se criticar, sempre com ironia, predicado do autor, o aproveitamento que as pessoas fazem da vida nos dias de hoje, que jogam golfe e desperdiçam o tempo nestas e noutras distrações mundanas, em vez de se dedicarem a causas mais nobres e que deem sentido à existência: “Além do termalismo, estes metem bolas em buracos verdes e disputam-se canoas, com afogamentos à mistura. É uma forma de passar a vida.” (52, sublinhado meu) Note-se o verbo passar, que me parece ser sinónimo de gastar/perder a vida, ao invés de a ganhar, salvando-se a si e ao próximo.
Outro exemplo de que o escritor está preocupado com o presente da escrita pode ver-se na referência que faz às lutas intestinas entre os membros da Igreja, que, pelo poder, tudo realizam até matar e abandonar quem lhes possa fazer frente. “O provincial, setentão, conquistara o lugar a troco de subornos. Leiloaram almas, uma a uma, e, bom, em cinquenta anos de nenhuma oração rezada de cabo a rabo, vira desertar uns para o Céu, outros para o século, chantageando restantes. Sem amigos. O que esperava? Fazer-se cortesão. Cuidar imagem. Subir ao céu possível.” (78) Isto se poderia dizer, sem trocar vírgula, da política portuguesa atual, como o leitor, facilmente, deduzirá. Nem eu concebo retrato mais sagaz e acabado da sociedade contemporânea. A denúncia e a condenação da homossexualidade e dos abusos execráveis pelos membros da Igreja, que infelizmente estão na ordem do dia, encontram-se forjadas nestas linhas: “O adjunto concedia-lhe favores carnais. «Carne de sua carne», e riam.” (79) A intemporal aliança e cumplicidade entre a política e religião é aflorada em várias passagens; cito esta, a título de exemplo: “fosse um mártir da fé ou cativo por razões de Estado. Fé e política irmanavam-se.” (134,5) A administração da justiça e o comportamento dos magistrados davam/dão mau exemplo ao estrangeiro, repercutindo-se esse facto, de forma negativa, nas relações de Portugal com outros países: “Disto se segue que muitos dos nossos infelizes compatriotas, mareantes e mercadores, entre aqueles e outros povos, sofrem ofensas por falta de cautela dos magistrados deste reino, cuja prudência por modo algum atende aos negócios externos.” (201)
Contudo, esta aguarela portuguesa só fica completa com as tintas da ignorância e da desinformação, porque o saber é encarado como um perigo para quem governa, que não gosta de ver questionado o seu poder discricionário. Esta postura remete-nos para as palavras, sempre atuais, de D. Miguel, na obra Felizmente Há Luar!, de Luís Sttau Monteiro: “Sonho com um Portugal próspero e feliz, com um povo simples, bom e confiante, que viva lavrando e defendendo a terra, com os olhos postos no Senhor. […] Não concebo a vida, Excelências desde que o taberneiro da esquina possa discutir a opinião d’el-rei, nem me seria possível viver desde que a minha opinião valesse tanto como a de um arruaceiro.”[5]
 O tríptico completa-se com as cores do silenciamento e da uniformização, isto é, do pensamento único, ou melhor, da rejeição do mesmo, sendo preferível seguir as ideias do “chefe” de forma acéfala, muito em voga na atualidade. Tal como lemos no romance: “Tudo se faz para que um homem não duvide. A pensar no bem de quem?” (134); “O latim é útil, se traz o silêncio dos ignorantes e a mastigação corre de boca em boca fechada.” (107, sublinhado meu)
A terminar esta parte, apresento, à guisa de conclusão, este excerto que sintetiza o pensamento do autor sobre o assunto, que corroboro: “Nós somos criação divina, não criadores. Partes de uma obra que nos pede louvor, sem a interrogar. Viver rotinas educa-nos a acção e desbota as cores fabulosas da imaginação, que não é ofício próprio de quem reza para o mesmo lado.” (162)

7. A defesa da língua Portuguesa é uma questão que atravessa todo o romance e o seu elogio ou ataque é colocado nos lábios de vários personagens. Assim, encontramos várias posições, desde logo, a de Fernão de Oliveira, que a sustentava abnegadamente, em pleno tribunal da Inquisição, combatendo a posição desta, que defendia a ideia de que “a nossa língua é um empecilho; maior, só mesmo quem a mastiga.” (181) Perante esta tese, é impossível não pensar nos ataques que, de forma mais ou menos velada, se fazem, no presente, à língua de Camões. Lembro, ainda, o grande enfoque que se tem dado ao Inglês nos últimos anos, mais parecendo que basta sermos proficientes nessa língua. Ouçamos, de novo, em jeito de reflexão final, o autor: “Eu juraria que quem folga de ouvir língua estrangeira na sua terra não é amigo de sua gente, nem conforme à música natural dela.” (180)
Outra agressão, em minha opinião, que deixou marcas insanáveis na Língua Portuguesa, aconteceu com o último acordo ortográfico, agora em vigor, e no pouco cuidado que os teóricos manifestaram perante as sensibilidades do idioma pátrio. Esta atitude parece-me mais consentânea com a da Inquisição, referida antes. Talvez seja por essa ordem de razões que o autor Ernesto Rodrigues não segue a nova ortografia.
Saliente-se, ainda, o interesse e a valorização das letras pelos cidadãos, pois os nobres da época deixaram de convidar João de Barros por este não os citar nas suas Décadas. (cf. 191, 2) O assunto não pode sem mais atual, uma vez que os elogios, por norma, se fazem por interesse e não por mérito. Este episódio traz-nos à memória os decassílabos do canto V, estância 97, d’Os Lusíadas, “Sem vergonha o não digo: que a razão / De algum não ser por versos excelente / É não se ver prezado o verso e a rima, / Porque quem não sabe arte, não na estima.”[6]
Na senda desta inquietação encontramos este exemplo: “Fernando contou de Júlio César, que, embora clemente, despediu «um legado consular, por lhe escrever em uma carta um icsi por epsi».” (202) De seguida, desabafa: “E agora tem-se tão pouco respeito ao bom ou ao mau escrever…” (202) Creio que, se o leitor encontrasse estas palavras descontextualizadas, não teria dificuldade em atribuí-las ao presente, tal é a sua atualidade. Foi por estas e outras semelhantes atitudes que o protagonista da obra padeceu, como se depreende da leitura, em dois momentos, os suplícios do Santo Ofício, sendo vítima da inveja, da religião e do tempo, que o odiavam pelas suas ideias vanguardistas para a época.
Apresento um outro exemplo que ilustra o pioneirismo do gramático Fernão de Oliveira, no qual defende a ideia de se escrever como soa (cf. 194). Esta proposição é, hoje, a pedra de toque da linguística moderna e do novo acordo ortográfico. Por último, refiro esta citação: “alimentava-se de pão e tinta.” (216) ‒ confirmando a grande afeição que Fernão de Oliveira/Ernesto Rodrigues dedicam à Língua Portuguesa.

8. A peregrinação terrestre sempre esteve associada ao sacrifício e ao cumprimento de regras e preceitos. Desde o fardo bíblico ‒ “comerás o pão com o suor do teu rosto” (Gen. 3,19) ‒ até aos nossos dias, a vida terrena é feita de trabalhos e canseiras que só podem ser suavizados pela disciplina e pelas regras, estando o ser humano em constante devir.
Assim, o homem é ajudado pela disciplina e pelos ensinamentos que adquire sentado à mesa de trabalho, imitando São Jerónimo: “onde erguera estante breve para imitar São Jerónimo.” (123) Conclui-se, deste modo, que o labor intelectual é austero, duro e sem distrações supérfluas.
No capítulo “Final”, verificamos que o homem é transformado pela caminhada: “Olhando para trás, estes dias são eternidade, e o que vejo está um pouco antes, na juventude feita dúvida, naqueles olhos que não louvei bastante, quando se entrefechavam no supremo prazer que só o amor admite.” (133) Estas palavras podem remeter o leitor para os versos “caminhante não há caminho faz-se caminho ao andar”, de António Machado. No entanto, o percurso cultural e moral do homem é atribulado e feito de dúvida e de conhecimento: “Eu duvidava, não de Deus, ainda” (48) Nesse itinerário, o homem dispõe da ajuda da mulher que lhe prepara a fuga para o levar para longe e amá-lo, sem intrigas, invejas (63) e longe dos enredos civis e religiosos. (64) A mulher, ou melhor, o cristo-mulher inspirado na figura bíblica de Judite, não é mais do que um instrumento da justiça divina para o bem e para o mal. (134)
 A caminhada é árdua, mas o homem/narrador não se dá por vencido; “Eu estive lá. Saí derrotado, mas não vencido.” (154) Creio que estas palavras partilham da filosofia de vida do velho Santiago de O Velho e o Mar de Ernest Hemingway, que afirma: “Um homem pode ser destruído, mas não derrotado.”[7] O narrador/autor, para não claudicar, exercitava uma disciplina férrea que o subjugava: “A disciplina custava-lhe, como a todos nós.” (162) Próximo do fim declara, num tom mais intimista e até confessional, que amou e que nunca prejudicou terceiros, e, por isso, segue em paz com a sensação de dever cumprido, embora se queixe da indiferença de que é difícil libertarmo-nos: “Vou pacificado, mártir ou santo de circunstância. Cada um dirá de mim parte dos seus receios.” (140)

Termino esta proposta de leitura convocando, em minha defesa, as palavras de Eduardo Lourenço: “O crítico é o leitor que se crê autorizado a decidir por imaginar ter descoberto os critérios, os pontos de referência, o sistema capazes de introduzir uma ordem no caos da criação.”[8]
Nem outro foi o meu propósito, sempre norteado pela sentença de Sá de Miranda: “Quantos os ledores, tantas as sentenças.”






[1] GENETTE, Gerard, Paratexts: Thresholds of Interpretation, Cambridge University Press, 1997.
[2] ECO, Umberto, O Nome da Rosa, Difel, Lisboa, 1980.
[3] Refiro o exemplo do parecer de Os Lusíadas, que poderá ter funcionado como modelo para o autor, visto que é o mesmo frei (Bartolomeu Ferreira) que assina os dois “documentos”.
[4] ECO, Umberto, Porquê «O Nome da Rosa», Difel, Lisboa, 1984. Na página 35 desta obra, podemos ler: “Só me apercebi disso dois anos mais tarde, justamente ao tentar encontrar uma explicação para o facto de o livro também ser lido por pessoas que não podem naturalmente gostar de livros tão «cultos».”  
[5] MONTEIRO, Luís de Sttau, Felizmente Há Luar!, Areal Editores, 1999, pág. 69.
[6] Camões, Os Lusíadas, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Júlio da Costa Pimpão. Apresentação de Aníbal Pinto de Castro. ICALP, Ministério da Educação, Lisboa, 1989, pág. 147.
[7] HEMINGWAY, Ernest, O Velho e o Mar, Tradução de Jorge de Sena, Livros do Brasil, Lisboa, S. d., P.109.
[8] LOURENÇO, Eduardo, O Canto do Signo Existência e Literatura, Editorial Presença, Lisboa, 1994, P. 21.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Ernesto Rodrigues
em tertúlia, 15 de Abril, quarta-feira
Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro
Campo Pequeno, 50-3.º Esq.

18h00 – Abertura, pelo Presidente Nuno Aires
18h10 – Apresentação do Guião, por Jorge Golias

18h15 – Apresentação pelo próprio – Ernesto Rodrigues,
             incluindo o lançamento dos seus livros Passos Perdidos
             e Lisboa em Baptista-Bastos

19h00 – Leitura de poemas por Ana Maria Calado, Elsa Bidarra, João Vicente.         
Interpretação do conto “Um dia”, por Eduardo Botelho, Carlos Cordeiro e Elsa Bidarra

19h30 – Momento musical, por João Rocha, que interpretará duas
             canções


19h45 – Debate/Conversa 

sábado, 14 de março de 2015

Da Lacailândia lusa, ou a ficção como verdade

Parabéns por um tão raro discurso nesta casa. Tudo isto é ficção, a que se rende realidade.
Ernesto Rodrigues, Passos Perdidos

Vamberto Freitas

Numa das recentes apresentações deste seu romance, de título e significado inevitavelmente polissémicos, Passos Perdidos, Ernesto Rodrigues traçou dois fios condutores da trama ficcional por ele urdida – o diálogo com algumas obras canónicas portuguesas, com Camilo Castelo Branco (A Queda De Um Anjo) e Eça de Queirós (O Primo Basílio) em primeiro plano, e ainda alusões ou citações de alguns outros ficcionistas e poetas, com Camões ao centro e logo nas primeiras páginas através de versos mais do que pertinentes aqui (Os bons vi sempre passar/no mundo graves tormentos), e depois a também inevitável “realidade” política que desde há décadas subverte todo o projecto que foi a Revolução de Abril de 1974, ou melhor dito, todo o liberalismo ou democraticidade que saiu da nossa guerra civil de Oitocentos. Não há qualquer “ansiedade de influência” nestes gestos do autor, mas sim a continuidade que uma grande Tradição literária e discursiva nunca deixa de provocar nas melhores obras de arte que partem de uma mesma língua e/ou geografia de afectos e comunidades imaginárias, e sobretudo de identidades partilhadas. Um escritor sem memória histórica terá muito pouco ou nada a dizer a outros num acto de criação, por mais “artifício” que se lhe reconheça. Palavras cruzadas também requerem algum conhecimento vocabular e noções de cultura geral, mas são de todo vazias e significam absolutamente nada. Alguma ficção pós-modernista, a partir doa nos 70, tinha pouco mais do que o umbigo próprio para descrever ou auto-mortificar-se, a sua comédia raramente passando das patéticas biografias reinventadas e da confusão que é estar-se vivo sem uma ideia de rumo pessoal ou comunitário, ou então fechado no egoísmo de rapazes e raparigas privilegiadas nas sociedades ocidentais. Pouco já os lêem, depois de passados os quinze minutos de fama e estrelato. Aliás, também os anos de suposta ou falsa inocência social do pós-Guerra já passaram, foram implacavelmente desmontados neste últimos tempos, estando de regresso, creio, a arte literária que tem a sociedade como tema, que volta a ser a fonte de beleza e interpretação, de ideias e reflexões, e na qual só se distingue a forma se o conteúdo a merecer. A arte literária é, sempre foi, esse gesto à procura do diálogo, a estética oferecida como afirmação ou sugestão do estado ou da condição humana, vivida e testemunhada num determinado lugar e tempo. “Política e literatura” é o mesmo que dizer “sociedade e literatura”, e em língua portuguesa as obras primas de ficção, a partir do século XIX, a partir precisamente dos dois nomes insistentemente convocados por Ernesto Rodrigues nesta sua obra, Camilo e Eça, estabeleceram as suas temáticas e, até, o seu olhar, quase sempre pela sátira pura, a paródia, a fábula carregada de humanidade.
Esqueçamos a trama de Passos Perdidos – uma tentativa de corrupção legislativa na que ainda chamamos “a casa da democracia” por parte de determinados interesses financeiros – e destaquemos alguns momentos, dizeres e personagens que giram em volta da Assembleia da República e arredores, especialmente políticos, banqueiros e jornalistas, o triângulo de tudo e todos que fazem da vida pública o meio principal de levitação, horizontal quase sempre, aos céus, à glória e ao enriquecimento por “qualquer meio necessário”. Os personagens do romance são poucos,  mas necessariamente todos relacionados por laços secretos e de sangue, de sugas-várias, ou por outras prosmicuidades nas quais a cama é de somenos importância e honradez, na maior parte dos casos. Um autor com a formação académica e intelectual e a obra literária ou de investigação de um Ernesto Rodrigues não podia construir uma narrativa “política” da nossa actualidade que não fosse esta. Para além do referencial muito português atrás referido, digamos que o romance funciona não somente como uma espécie de súmula do muito quanto já foi dito e escrito ao longo de quase toda a nossa história nacional, como ainda partilha afinidades com outros escritores e obras além-fronteiras. Não sendo Passos Perdidos um romance futurista ou sobre o totalitarismo histórico, não deixa de fazer lembrar um George Orwell, particularmente o do já tão clássico como profético 1984 – a corrupção semântica generalizada de um simples vocábulo e ainda mais das linguagens em tudo referentes às sociedades e seus “negócios” resulta da corrupção generalizada de quem tem o poder de fazer, refazer, dizer e redizer as acções de quem governa simplesmente para se governar, o poder pelo poder (freudianamente entendido), a noção de civismo ou de “comunidade” uma qualidade – uma “fábula” – nunca lembrada pelos servidores dos seus patrões, ou pelos trepadores da glória pessoal, sem um mínimo de ética ou pudor. Dir-me-ão que assim sempre foi, e provavelmente sempre será. Responderei que os que constituem bolsas de resistência ao descaramento e comportamento atávico de governantes e outros agentes poderosos das finanças que se escondem por detrás de linguagens, uma vez mais, corrompidas, portanto sem qualquer sentido transmissor da verdade e muito menos do bem comum, tal como se tem tentado defini-lo desde o Iluminismo, serão sempre os escritores, os sucessores dos antigos “cronistas” que adivinhavam o analfabetismo dos seus senhores mandantes para, tantas vezes entre linhas e em metáforas brilhantes, avisarem as gerações vindouras da canalha a quem serviam, e tinham de servir. Nem todos são Velhos do Restelo, e antes fossem no que diz respeito ao sentido de nação ou pátria. A beleza deste género de literatura também reside aí – a confirmação de que a imperfeição humana nunca deixa de ir aos seus extremos, que a riqueza de uns é a opressão e vitimização de todos os outros, e cabe precisamente à arte não esquecer a dialéctica da história em busca de uma síntese racional, que poderíamos ainda redefinir simplesmente como “decência cívica”. A longa epígrafe deste romance vem de a Arte de Furtar,“Dos que furtam com unhas políticas”. Uma sátira política tem as suas regras: o riso é cruel, é “o pisar e repisar da vítima”, como diria entre nós José Martins Garcia. Só que a “vítima” somos nós, os que não lêem juntamente com os que lêem sofisticados romances como este. Atravessamos os Passos Perdidos rumo às sessões plenárias com os que para lá vão, sentam-se sem nada dizer anos fora, alguns os predadores e predadoras profissionais, outros os “borboletas” da moda, hoje em dia em estilo fino e próprio, conforme a vontade Armani e afins, a comédia humana uma encenação que vem de longe, os narradores recorrendo a discursos de séculos passados, nestas páginas comicamente repescados como se originais ou corajosos fossem, as suas generalidades dirigidas a todos e a ninguém. Tal e qual – é só ligarmos o telejornal num dia qualquer.
“Sodomizaram-no?” – pergunta em entrevista uma jornalista ao deputado conservador e  que durante quarenta anos não abrira boca, a propósito de outro colega seu, mas cujas andanças estão em causa. “Ele não sabia – deduz o narrador do momento – o que isso era, pois o vocábulo não frequentava o hemiciclo (ao menos, a horas decentes), não subira à tribuna de honra nem o recordava dos códigos, audições ou debates, logo, não constava do diário das sessões, cujo vocabulário mais terso ele registava em caderninhos azuis de folhas quadrículas, na falta de palavras cruzadas, que se recusaria a buscar na Imprensa profana, com que os colegas adormeciam. Na capa, inscrevera DLP, que julgavam dicionário da língua portuguesa; era, sim, da lábia parlamentar”.
Passos Perdidos é essa narrativa meio clara meio obscura, um jogo de sombras e espelhos entre todos os seus personagens, e muito especialmente uma interpelação sobre o que constitui ou não a nossa identidade, pessoal e colectiva. Quem somos, e que povo somos?  De onde veio esta geração em tempos já pós-modernos e pós-revolucionários, que nos governa e assalta como se nada tivessem aprendido do passado, como se história tivesse sido totalmente apagada, ou pelo menos nunca aprendida? “Corrupção” ainda quer dizer alguma coisa entre nós? Será que os teóricos literários mais radicais têm razão quando falam já numa idade pós-humana, não se referindo, supõe-se, exclusivamente às tecnologias hiper-avançadas que parecem fazer de nós meros instrumentos de quem as detém e mobiliza na luta pela supremacia absoluta? Ernesto Rodrigues já viu e viveu muito mundo para além do país da sua nascença, já muito escreveu sobre história e discurso público, que também dão pelo nome de “jornalismo” e “política”. Este seu romance é uma outra transfiguração de todos esses saberes e percursos, os nossos próprios dias projectados em literatura, que é sempre o testemunho mais duradouro e, sim, verdadeiro.
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Ernesto Rodrigues, Passos Perdidos, Âncora Editora, Lisboa, 2014.

[Açoriano Oriental, 13-III-2015.]

quarta-feira, 11 de março de 2015

Dedicatória: relação e discurso

Inscrição peculiar do universo artístico, da arquitectura à música (Souriau, 1999: 553-555), tem a dedicatória mais largo curso no domínio bibliográfico. Em artigo no número 13 de Românica (Rodrigues, 2004), esbocei um esquema sobre o assunto em epígrafe agora refundido:


  1. Dedicatória impressa; 2. dedicatória manuscrita
  2. introdução: dedicatória de obra e de exemplar; pública e privada; 1. 1. como parte integrante da épica; 1. 1. 1. lugar e extensão da dedicatória; 1. 2. como elemento peritextual; 1. 2. 1. título-dedicatória (ou título dedicatório); 1. 2. 2. prólogo, proémio e prefácio-dedicatória; 1. 2. 3. carta-dedicatória; 1. 2. 4. formas em verso; 1. 2. 5. lugar; 1. 2. 6. Língua; 1. 2. 6. 1. bilingues; 1. 3. momento; 1. 3. 1. razão e função da dedicatória: necessidade e reconhecimento, admiração e proximidade; 1. 3. 2. relações dedicador (autor, impressor, editor, editor literário...)-dedicatário, e caracterização destes: mecenas, senhor, poderoso; 1. 3. 3. dupla dedicação, e dobrada ou multiplicada; 1. 3. 4. subscrição; 1. 4. na moderna lírica; 1. 4. 1. estrutura organizacional; composição avulsa; 1. 4. 2. cultores; 1. 4. 2. 1. na ficção; 1. 5. trocas e rasuras; 1. 6. conclusão.
  3. ementas para a história da dedicatória manuscrita: de D. Pedro (1418) a exemplos pós-oitocentistas; 2. 1. local, data e assinatura; 2. 1. 1. falsificações; 2. 1. 2. valor da dedicatória e da assinatura; 2. 2. o modo institucional; 2. 2. 1. sessões de autógrafos; 2. 2. 2. indicações de catálogo e outras; 2. 3. dedicatória-inédito (poema, carta...), à entrada e no texto; noutros suportes; 2. 3. 1. artísticas; 2. 3. 2. dedicatória rasgada, riscada.

  1. Esta proposta diverge da avançada por Gérard Genette em Seuils (1987: 110-133), que distingue entre «dédicace d’œuvre» – o verbo é dédier – e «dédicace d’exemplaire” – o verbo é dédicacer[1]. Maria José Meira (1999: col. 1409) propôs dedicatória pública («o dedicador indica o dedicatário») e privada, ou de exemplar. Maria Isabel Faria e Maria da Graça Pericão (1999: 175) oferecem ‘dedicatória’ autoral e ‘dedicatória autografada’, sendo esta «da autoria do próprio autor da obra ou de uma pessoa que a oferece a outra».
Espanto maior ao ler G. Genette não é que “Les dédicaces” não justifiquem bem-disposto capítulo, mesmo quando nos serve exemplos pouco liminares; mas que não aprofunde a riqueza da forma (que será género traduzido por Jorge de Sena em Dedicácias[2], termo ausente, como ausente está ‘dedicatário’, dos melhores dicionários) enquanto elemento fora do paratexto.
  1. 1. A dedicatória é parte indissociável de alguma épica, avulsa ou integradamente recuperada na lírica moderna, mas o ensaísta limita-se a quatro linhas sobre Orlando Furioso e Jerusalém Libertada. Se evocarmos o molde camoniano, algumas questões ficam de pé: quem dedica, autor ou narrador? A que Rei se dirige? Se D. Sebastião, não há mostras de desrespeito que confundem o sentido – seja, o que não é indicado – deste terceiro gesto na ordem das quatro partes? Como justificar treze estâncias (I, 6-18) em vésperas de Gerusalemme Liberata (1575), com duas (I, 4-5) em vinte cantos? Onde e quando foi o Poema redigido, e, especificamente, as três partes iniciais? Das não-épicas Geórgicas virgilianas a Valério Flaco, de Ariosto à Araucana (três partes – 1569, 1578, 1589 – reunidas em Madrid, 1590), de Alonso de Ercilla, dirigida a Filipe II, de Luís Pereira Brandão (Elegíada, Lisboa, 1588, dedicada ao cardeal Alberto, governador filipino de Portugal) e Francisco de Andrade (O Primeiro Cerco Que os Turcos Puseram à Fortaleza de Diu nas Partes da Índia. Coimbra, 1589) a Gabriel Pereira de Castro, cuja Ulisseia ou Lisboa Edificada (Lisboa, 1636) não exagera no preito a Filipe IV (I, 3-8), há um trabalho a empreender, que reverte aquela tipologia, ou limita o estudo da dedicatória enquanto segmento peritextual. Ficam de fora casos como o de uma dedicatória-livro[3].

  1. 2. Esta executa-se título subsumindo género (por exemplo, carta em verso: Epistola ad Pisones) ou aproveita-o, na duplicação frontispicial, para celebrar alguém tido por ajuda, nem sempre confirmada. Grosso modo, a tradição aristocrática viria até à queda do Antigo Regime, quando se passa ao alinhamento burguês e a dedicatória se perfila manifesto ou apologia, capaz de substituir prefácio, prólogo, etc. Num terceiro momento, a dedicatória simplifica-se, reduzida a parcas linhas – escapa Gomes Leal, “Dedicatória a Fauchette” (Mefistófeles em Lisboa, 1907), conjunto de três sonetos – em mostras de afecto, amizade, admiração, camaradagem literária. Ora, estas modalidades confundem-se nos tempos, pelo que não nos serve tão fácil cronologia. As dedicatórias fictícias, as paródicas e as que agravam quem, alegadamente, seduziriam também diluem a diacronia.
A designação simples – Dedicatória, à cabeça – é poucas vezes declarada, por tautológica: se Francisco de Sá de Miranda abre a égloga Basto com informação saturada, mas, ao tempo, compreensível – “Dedicatória / A Nuno Alvares Pereira”, em quatro ou cinco décimas[4] –, e semelhantemente Matias Pereira da Silva, que edita os póstumos Apólogos Dialogais (1721) de D. Francisco Manuel de Melo, inscrevendo «Ao Senhor D. Antonio Estêvão da Costa / […] / Dedicatória»; se, ao editar Comedias Famosas Portvguesas (1622) de Sá de Miranda e António Ferreira, António Álvares coloca à cabeça do fólio, no verso, «Dedicatoria», como percebêramos desde o título e recto do fólio, «Dedicadas a Gaspar Seuerim de Faria», e “Dedicatória” à princesa do Brasil se explicita a do criptónimo e «fidelissíma escrava» Dorothea Engrassia Tavarede Dalmira (=Teresa Margarida da Silva e Orta, Máximas de Virtude e Formosura, 1752; 2.ª ed., Aventuras de Diófanes, Lisboa, 1777), já Herberto Helder opera marcação que só à segunda o satisfaz: assim, ao reunir poemas “De «Photomaton & Vox»“ em Poesia Toda (Lisboa, 1990: 403), o primeiro texto avisa: «(é uma dedicatória)». Ao refundir aquela em Ou o Poema Contínuo (Lisboa, 2004: 359), substitui essa parte e ‘livro’ Photomaton & Vox por Dedicatória, sem mais avisos. 
A par, existe a designação simples de carta (“Carta sua a Garcia de Resende”, endereça Duarte de Resende [1982], em 1531) ou existem as designações compostas, proémio-dedicatória, prólogo-dedicatória e carta-dedicatória. Há, também, sequência de dedicatória e carta-dedicatória, como em António de Oliveira Cadornega, Descrição de Vila Viçosa: ao nome do destinatário, lugar e data de 1683, num oferecimento neutro, sucede o nome completo do autor em quatro parágrafos de justificação dirigidos ao “Excelentíssimo Senhor, da Ericeira Conde”.
O prólogo-dedicatória é uma especialidade seiscentista, geralmente reduzida a ‘Prólogo’. Separados os termos, distinguem-se pela destinação, respectivamente, colectiva e individual, olhando, além, ao leitor ou leitores coloquialmente atraídos, e, aqui, ao ilustre hiperbolizado. Alguns exemplos daquele em regime de captatio benevolentiæ ilustrariam Garrett: «Aos beneuolos leitores», «Ao Pio Leitor», «Ao Deuoto Lector», «Prologo ao agradecido Leitor». Lucília Gonçalves Pires (1980: 47-48) analisou «dois textos em que confluem características destes dois géneros». Desejado explicitamente indiviso, aí está Compendio das mais notaveis cousas qve no reyno de Portugal acontecerão desde a pera dl Rey D. Sebastião até o anno de 1627. [...] // Composto por Lvis de Torres de Lyma. / Em Coimbra / [...] 1654. Prologo / dedicatorio ao Rey- / no, & Nobresa delle. Em Catastrophe de Portvgal na deposição d’El Rei D. Afonso o Sexto, [...], por / Leando Dorea Caceres e Faria (Lisboa, 1669), nome que esconde o de Fernando Correia de Lacerda na “Dedicatoria / ao / Leitor: «Esta he a primeira vez que o prologo, & a Dedicatoria Se naõ separão, ou he dedicatoria o mesmo prologo.» (p. 3)
Enquanto forma explicitada, o proémio-dedicatória é raro, assim expresso em Lusitânia Transformada (Lisboa, 1607): «Ao marquês de Vila Real / Proémio Dedicatório». Seguem nove oitavas.
Entre as mais famosas cartas-dedicatórias, temos uma de Erasmo a D. João III, datada de Basileia, 24 de Março de 1527, anteposta à 1.ª ed. das Chrysostomi Lucubrationes, e já traduzida do latim. É uma prática regular do segundo quartel de Quinhentos. Centrando-nos em Sá de Miranda, a comédia em prosa Os Estrangeiros, escrita por 1527-1528 (1559), cria a incerteza do dedicatário, se o infante D. Henrique, se D. Duarte, como assinala Carolina Michaëlis de Vasconcelos (p. XVII, nota). De facto, a edição de 1561 ou a inclusa nas citadas Comedias Famosas Portvguesas explicitam o «Iffante Cardeal Dom Anrique (1561)[5]. Mas a verdade é que, na seara de nomes, de títulos nobiliárquicos, militares, religiosos, etc., persiste, não raro, a indefinição. Aliás, não menos ambiguamente o verbo dirigir substitui dedicar em manuscrito das Obras de Francisco de Sá de Miranda Dirigidas ao príncipe nosso senhor que lhas mandou pedir (p. 1), sendo logo o “Soneto I. / Ao príncipe nosso senhor” (p. 3) –, por onde se vê que não há só obra e exemplar, mas se alcança, já, forma ou espécie particular, podendo esta assumir-se obra, quando mais extensa. Identicamente, «Dirigidos a Este Reino», traz D. Francisco Child Rolim de Moura, em Os Novíssimos do Homem / Poema em Quatro Cantos (Lisboa, 1623), entre muitos outros. Reforça-se a fórmula em «oferecido e dedicado», ou «que dedica, & offerece» [«Á Soberana e Clementissima Senhora de Todas as Creaturas / Maria»], para citar Luz e Calor (Lisboa, 1696), de Manuel Bernardes. Deus ‒ «Ó Deus, Supremo Artífice Divino / Da humana construção maravilhosa,» está em “Dedicatória” precedendo “Sete salmos penitenciais ao Ente Supremo” de Bingre, o qual, sob o mesmo título “Dedicatória”, reúne dois “Sonetos aos heróis da independência of’recidos à glória” (2003: 202, 262).
São epístolas em verso, justamente, as mais dedicadas em Sá de Miranda: seis cartas referem destinatários precisos, que problematizam a distinção genetteana dos dedicatários privados e públicos:

J’entends par dédicataire privé une personne, connue ou non du public, à qui une œuvre est dédiée au nom d’une relation personelle; amicale, familiale ou autre. […] Le dédicateur public est une personne plus ou moins connue, mais avec qui l’auteur manifeste, par sa dédicace, une relation d’ordre public: intellectuel, artistique, politique ou autre. (p. 123)

Além de se não compreender o exclusivo de «une personne», quando animais irracionais, nomes colectivos e abstractos se disputam, nem se atender a jogos de fingimento e protocolos narrativos (como autor, pseudónimo, heterónimo ou personagem dedicarem obra a personagem, autor, amigo, etc.), fica ainda a imprecisão daquele «plus ou moins connue»… A incerteza quanto à relação de ordem pessoal ou pública não é menor em leitura de hoje: qual seria a de Miranda com «El Rei nosso senhor» (regressado na “Fabula do Mondego”), João Ruiz de Sá de Meneses (que merecerá carta-dedicatória em verso), Pero Carvalho, seu irmão Mem de Sá, António Pereira (retomado na égloga “Nemoroso” e em epístola solta) e Dom Fernando de Meneses? Que reputação teriam estes, efectivamente?
Eis algumas razões para a dedicatória mudar frequentemente de lugar, desobrigada do título e de frontispício, ora avançando para a página ímpar após este, ou, hoje, inclusive, para o verso da folha de rosto ou das guardas. Mais: doravante, encontramo-la em final de poema, romance, ensaio, etc. Tomaz de Figueiredo, em A Toca do Lobo (2005), fecha com dedicatória «À Memória, que sempre em mim vive, da nossa criada Maria Rodrigues […]» (p. 577). Quando um volume reúne ‘livros’, o lugar varia, naturalmente. O mesmo pode acontecer em obra de vários tomos: as Memórias (Lisboa, I, 1919; II, 1925; III, 1933) de Raul Brandão são dedicadas «Aos Mortos», «A Teixeira de Pascoaes», «A Luís da Câmara Reys».
Entre lugar e momento, a língua tem desmaios e canta dobres: André Falcão de Resende soneteia “À vila de Madrid, em quatro línguas” – latim, italiano, castelhano, francês –, regular este no Cavaleiro de Oliveira, caso de Mémoires de Portugal avec la Bibliothèque Lusitane de Diez… (Amsterdam, 1741), e em Júlio de Castilho, Memorias de Castilho (Coimbra, 21928: 142), com soneto em francês.
Diferente é o caso da mesma, bilingue, sob dois textos diferentes. Brincando com a mesma fórmula, José de Almada Negreiros (2001), em “Mimi-Fataxa”, propõe: «A ti [,] para que não julgues que a dedico a outra.» Mas, em “Histoire du Portugal par cœur”, surpreende: «A Toi, pour que tu ne crois que je vais le dédier à une autre.» 
      
  1. 3. O momento é questão mais sensível. Engloba o tempo da edição em vida, póstuma, reedição e refundição, mudança de título e lapso da redacção. Perfilam-se reis; na falta de um rei nacional, nobreza próxima da Casa Real, em minoria face aos Filipes da monarquia dual.
Crónica do Imperador Clarimundo (1522) é prologada «Ao mui alto, e poderoso rei D. João III, deste nome, por João de Barros, seu criado».
Não espanta que o neto, em curto reinado, seja tão epigrafado: há carta em António Tenreiro, Itinerário… (Coimbra, 1560); no Memorial das Proezas da Segunda Tauola Redonda (Coimbra, 1567), Vasconcelos esclarece de vez que é “Prologo a el-Rei, nosso senhor»; outro prólogo «De Andre de Burgos impressor ao muito alto e poderoso Rei dom Sebastiam […]”, no Tratado… (Évora, 1569) de Frei Gaspar da Cruz; Duarte Nunes de Leão só faz o que deve na colecção das Leis Extravagantes e Repertório das Ordenações (Lisboa, 1569); esse «mvito poderoso» está noutro prólogo de Jerónimo Corte Real, Sucesso do Segundo Cerco de Diu (Lisboa, 1574).
Na falta de rei natural, pode ir «Dirigido ao excelentíssimo príncipe D. Theodosio Duque de Bragança», como em, do mesmo Corte Real, Naufragio e Lastimoso Svcesso da Perdiçam de Manoel de Sousa de Sepulveda… (Lisboa, 1594), edição da responsabilidade do sogro, António de Sousa, «com obrigação que tenho de criado» – o que o desculpabiliza face a castelhanizantes.
Outros resignam-se: assim Bernardo de Brito, na ofertória de Monarchia Lvsytana. Parte primeira. Que contém as histórias de Portugal desde a criação do mundo té o nascimento no nosso sñr Jesu Christo. Dirigida ao Catholico Rey Dõ Philippe segundo do nome, Rey de Espanha etc. (Alcobaça, 1597); Fernão Mendes não podia ser tido nem achado para obstar ao nome de Filipe III na Peregrinação (Lisboa, 1614; e de Richelieu, na tradução francesa de 1628, cardeal também dedicatário em Manuel Fernandes de Vila Real, Epítome Genealógico do Eminentíssimo Cardeal Duque de Richelieu…, primeiro, em castelhano, Pamplona, 1641); Manuel de Faria e Sousa, aculturado, oferta a Filipe IV Lusiadas de Camões, principe de los poetas de España. Al Rey nuestro señor Felipe Quarto, el grande. Comentados, etc. (Madrid, 1639).
Desde Barros, criado dizia assaz. Durante séculos, artistas houve simples serviçais de uma casa fidalga. Se o labor intelectual era retribuído, a necessidade económica tingia-se de reconhecimento, forma pessoal de agradecimento ou declaração pública das virtudes do senhor. Com as editoras de Setecentos, a literatura engana a fome fora de portas senhoriais, e Bocage troca versos por comida, sem outras louvações. Mas escrever o nome ao lado do de um patrono ilustre pode trazer proveito. Por isso, quando, na viragem para Oitocentos, se opta pela subscrição (Rodrigues, 1999: 7-11), o autor deseja trocar um produto – o volume que vai pagar, e cujo preço de capa é mais favorável ao subscritor do que ao comprador em livraria (seja, o rico paga menos) – e não uma actividade ainda há pouco reduzida à criadagem e humilhação. Os subscritores, designados um a um (o que não significa pelo próprio nome, pois tanto se indica um estado como profissão, ou mesmo anónimo), convivem numa dedicação colectiva, além de, eventualmente, receberem dedicatória manuscrita. Neste caso, seria dobrada.
Não creio que os dois últimos séculos tenham posto fim à dedicatória interessada, agora, sob múltiplos disfarces. Ou que, antes, ela visasse necessariamente a pedinchice. Razão e função podem divergir, compareça ou não motivação, como homologar a fortaleza ou heroicidade do interpelado, nem sempre tido e achado na história em que o precipitam. Oliveira Cadornega fica descansado, não pela sua obra em si e sua indignidade autoral, mas pelo respeito que lhe votarão enquanto obra «favorecida e emparada da valerosa mão e grandeza de Vossa Senhoria […]» (1982: 21).
Ofuscados pela imprensa recente, os quinhentistas enredam-se num jogo em que irrompe a variedade de relações. Ora, pormenor mirandino é servir-se de um pretexto inédito, qual nas redondilhas I e II: “A Antonio de Sá na fugida de ums [sic] seus criados” (1989: 60; retoma aquele Sá num epitalamio pastoril) e “ Sobre a prisão d’um seu galego. A seu cunhado Manuel Machado […]” (p. 61; este reaparece em carta); ou, na esparsa X, segundo manuscrito: “A Pero Carvalho mandando ũas luvas em Evora ardendo em calmas” (p. 63). Mau grado razões, sequer inócuas, interessa a função, mesmo reconhecendo que “Canção. / A nossa senhora” (p. 87) possa ter outro alcance. “Prologo Á Rainha Nossa Senhora” dará Trancoso nos Contos e Histórias de Proveito e Exemplo (1575).
Epigrafa-se nome alheio aquando de uma oferta ou de carta recebida. Certos corpora de propósito teórico viram ‘resposta’, maneira de dialogar por interposto verso com quem, fingidamente ou não, nos interpela; agradece-se num soneto «A Diogo Bernardes» (p. 453), com elegia «A Antonio Ferreira em resposta de outra sua» (p. 461). Líricos preiteiam Sá de Miranda na parte quinta das Poesias, servindo-se de églogas, sonetos, cartas, elegias, carmina e epitáfios: Bernardim, Dom Manoel de Portugal, Diogo Bernardes, António Ferreira, Jorge de Montemayor, Pedro de Andrade Caminha, André Falcão de Resende, Manoel Machado de Azevedo, D. Sebastianus d’Alfaro, Martim Gonçalvez da Camara. A rede relacional mais completa estará em António Ferreira, que inaugura Poemas Lusitanos com ciclo de sonetos «Aos bons ingenhos» e convoca meia centena de nomes régios e literários – mortos, inclusive – até aos epitáfios terminais.
Percebemos, por conseguinte, uma ligação de dependência, familiaridade, admiração ou respeito de vassalo, uma dedicação que pede a sinónima dedicatória, e leva António Coimbra Martins, ao editar Diogo do Couto, O Primeiro Soldado Prático, a desconfiar «da falta de epístola dedicatória nos livros seus que não a ostentam» (2001, p. 277). O momento político explicá-lo-á? um sentimento de patriota? Mesmo confutando em castelhano, o patriota P. M. Fr. Francisco de S. Agvstin abre Philippica Portvguesa contra la Invectiva Castellana (Lisboa, 1645) com «Epistola Dedicatoria / A El Rey N. Señor / D. Ivan el IV. / El Prometido.» 
Entretanto, observa-se flagrantemente esse olhar para cima nos editores tipógrafos de Setecentos reeditando clássicos. Ao repegar em Duarte Galvão, Chronica d’El-Rei D. Affonso Henriques (Lisboa, 1726), o editor literário Miguel Lopes Ferreira dirige-a ao monarca, D. João V, e a Fernão Teles da Silva (marquês de Alegrete), subrogando neste o ofertório ao rei. O mesmo ao reeditar Francisco Soares Toscano, Parallelos de Principes e Varoens Illustres Antigos (Évora, 1623), dedicado, antes, «Ao Excellentissimo senhor / D. Theodosio / segundo de nome, […]”, e, agora (Lisboa, 1733), “Ao Excellentissimo senhor / D. Francisco / Xavier de Menezes”. Pereniza-se o sentido originário da ‘dedicatio’, enquanto ‘acto de dedicar, de consagrar aos deuses’, desta feita, terrenos, ou meros cortesãos (Maffre, 2008). Com algumas ironias: oferecer a Nuno da Cunha e Ataíde, inquisidor-geral, o tomo primeiro das Cartas (Lisboa, 1735) de Vieira é de arrepiar…
Na dedicatória, seguida de prólogo, à edição de Lisboa, 1785, de Rui Gonçalves, Dos Privilegios & Praerogativas… (Lisboa?, 1557), o «humilde capelão» J. A. opera adaptação (até suprime Dos), e não esconde ao que vem:

Senhora
Este livro que ofereço a Vossa Magestade [sic] há duzentos e vinte sete anos foi dedicado à Sereníssima Rainha de Portugal, a Senhora D. Catarina de gloriosa memória, pelo licenciado Rui Gonçalves, lente da Universidade de Coimbra; e desejando eu que tornasse agora a ser impresso em obséquio a todas as Senhoras Portuguesas, me lembrei consagrá-lo a Vossa Majestade por que [sic] seria repreensível descuido não o fazer assim, […]. / Eu nesta dedicatória não tenho por principal objecto os interesses, as riquezas ou honras com que Vossa Majestade me pode fazer feliz. Obsequiar a minha Augusta Rainha, mostrar aos vindouros que foi Protectora do seu sexo contra as mentirosas opiniões dos antigos escritores é todo o meu empenho. (Gonçalves, 1992: 19)

Acrescente-se que, em 1557, a dedicatória está encimada por ‘Prologo’.
No século XX, optando por lugares diferentes – sendo diferentes os sentidos –, Florbela Espanca abre Livro de Mágoas (1919) num significativo quiasmo formal, «A meu Pai / Ao meu melhor amigo”, e, duas páginas à frente, «À querida Alma irmã da minha, / Ao meu Irmão», 
Historia da Prouincia Sãcta Cruz…(1576), de Magalhães de Gândavo, comporta, precedendo ‘Prologo ao Lector’, dedicatória “Ao Mvito illustre Senhor / Dom Lionis Pereira, / Epistola de Pero de Magalhães”, conjunto precedido por tercetos e soneto de Camões, duplicando ofertório: “Ao muito illustre senhor Dom / Lionis Pereira sobre o liuro que lhe / offerece Pero de Magalhães: […]”. A tal excesso de nomeação, que dá um singular dobrado, contrapõe-se rasura de nomes diferente da de Couto, qual no dedicador Francisco Rodrigues Lobo, ora explicitando interlocutores, ora escondendo nomes de amigos nas epístolas das peças bucólicas.
Caso diverso é termos dois dedicadores e dois dedicatários, simultaneamente, que G. Genette e demais não prevêem: a Cõpilação de 1562 é exemplo de dedicatória dupla. Abre com “Prologo deregido ao muito alto e poderoso rei nosso senhor Dom Sebastião o primeiro do nome, per Luís Vicente» (Vicente, 2002: 11), seguindo-se “Prologo em que o autor deregia esta cópia de suas obras ao muito excelso príncipe El Rei Dom João o Terceiro deste nome em Portugal” (p. 13).
Em contraponto, viceja a falta de identificação, em que se especializam barrocos, anunciados por elegia «A ũa senhora muito lida em nome de um seu servidor» (Miranda, 1989: 341) ou soneto «A ũa dama áspera e fermosa» (p. 421). Soneto “Ao tempo” (p. 422) desloca a interlocução para cambiantes mais profundas, em séculos de incremento do relógio. Mas a rede de confrades é prioritária, retomada em maneiristas: Agostinho da Cruz, André Falcão de Resende, Baltasar Estaço, António de Abreu, Jerónimo Corte Real, Manuel de Portugal, Manuel Soares de Albergaria, Caminha, Quevedo Castelbranco – este encontrou modo de dirigir Discvrso sobre a Vida, e Morte, de Santa Isabel Rainha de Portugal, & Outras Varias Rimas (Lisboa, 1596) a D. Álvaro de Lencastre, 3.º duque de Aveiro. Da falange seiscentista, retenho D. Francisco Manuel de Melo.
 Vai com o tempo: as Epanaphoras de Varia Historia Portvgueza (Lisboa, 1660) são para Afonso VI; as Obras Métricas (Lyon, 1665), para o infante D. Pedro. No limiar da Carta de Guia de Casados […] A Hvm Amigo (Lisboa, 1651), dedicada ao primo D. Francisco de Melo, teoriza: «Para haver no mundo uma dedicatória perfeita, assim havia de ser feita ao descuido.» (Melo, 1965: 21) O impressor Craesbeeck rogava-lhe urgência: «[...] que ou a dedique eu por mim mesmo, ou lhe deixe fazer dela convite a quem a estime e lha agradeça».  Eis a utilidade, também, de um paratexto. Mas há uma surpresa: «Escrevi a um amigo estas observações.» (p. 22) Ou seja: dirigiu a amigo o que dedica a primo, e que os tratadistas não prevêem. É um descaminho na matéria, em que ‘dirigir’ não significa ‘dedicar’.
Outro caso. Escrevendo da «Torre, em 6 de Janeiro de 1650», a Luís de Azevedo, pede-lhe introdução às cartas que intenta reunir, já «prólogo e introdução, ou prólogo que o fosse; e que V. M. houvesse por bem descrever ũa dedicatória da obra ao senhor Rui de Moura Teles, […]» (Melo, 1981: 311). É o momento, a prisão que pesa na decisão de Melo: a confiança suscita uma dedicatória alógrafa, que se autorizam muitos tradutores e editores. De chofre, abre a Primeira Parte das Cartas Familiares, Roma, 1664: “À insigne Academia dos Generosos de Lisboa António Luís de Azevedo, seu académico, deseja perpétua felicidade”, assinando no fim. Segue-se, não assinado, em terceira pessoa, “Aos Discretos” – será dedicatória dobrada –, e, logo, “Carta do autor aos leitores de suas cartas”. O tempo derruiu, como se vê, os merecimentos de Rui de Moura Teles… Tem algumas afinidades o caso da Ulisseia castriana: postumamente editada pelo irmão, Luís Pereira de Castro, que a dedica a Filipe IV, já, na 2.ª ed. (s. l., 1642), pós-Restauração, dedica-a ao príncipe D. Teodósio, e triplica no novidoso “Prefácio-Dedicatória” a D. João V da 3.ª ed., por Matias Pereira da Silva. Caso para, em vez de momento, preferir oportunidade.   

Não entrevejo novidade em Oitocentos, se não é a introdução maciça da Imprensa periódica, aspecto desprezado em G. Genette, que lhe complicaria a tipologia: artigos em jornal, revista, potenciais obras em folhetim e almanaques, repletos de iniciais e nomes correntes. Tal quantidade, reforçada em volume, apaga a memória de lembretes significativos: Antero de Quental chamado por Guilherme de Azevedo, em A Alma Nova (Lisboa, 1874); Junqueiro, antes de A Farsa brandoniana (1903; “Ao grande Poeta / Guerra Junqueiro”), acompanhando “O sentimento dum ocidental” – pano para larga prosa, que Junqueiro desapareceu no novo livro de Cesário Verde (2006; o qual também dedicava “Ao Diário Ilustrado”). A propósito, veja-se “Dedicatória” de A Musa em Férias (Lisboa, 1879) e “Aos simples” de A Velhice do Padre Eterno (Porto, 1885), que inspirará título de obra (Os Simples, Porto, 1892). Desde finais do séc. XIX, cuida-se do in memoriam, a par de «À memória de», conjugando respeito e saudade. Não sendo pioneiro, Anthero de Quental: In Memoriam (Porto, 1896) é o mais conhecido.
O teor programático e de manifesto, ao ataque e à defesa, circula pelos prefácios, mas não só. Camilo Castelo Branco exigia parte de leão, em matéria de dedicatória, desde O Juízo Final e O Sonho do Inferno (Porto, 1845) à cedência institucional, ao nomear o Imperador D. Pedro II no Livro de Consolação (Porto, 1872). Veja-se, tão-só, a de Eusébio Macário (Porto, 1879), interrogando «querida amiga» sobre se «um velho escritor de antigas novelas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos os ‘tiques’ do estilo realista». Desafio aceite, diz perdida a aposta quem sabe de antemão ter lucrado com essa coisa «oca e fútil» (Castelo Branco, 1975: 446), alvejando o realismo ainda no berço. Simula-se uma adesão que vira sarcasmo contra os cultores da Ideia Nova, reduzidos a «uma adjectivação de casta estrangeira» (“Prefácio da segunda edição”, Castelo Branco, s. d. [1992]: 39-40). Neste, de Setembro de 1879, a leitora amiga da “Dedicatória”, lugar-comum na ficção romântica, é retratada como «pessoa de minha família», ciente daqueles ‘tiques’: «É a tua velha escola com uma adjectivação de casta estrangeira e uma profusão de ciência compreendida na “Introdução aos três reinos”. Além disso tens de pôr a fisiologia onde os românticos punham a sentimentalidade: derivar a moral das bossas, e subordinar à fatalidade o que, pelos velhos processos, se imputava à educação e à responsabilidade.» (p. 40)

  1. 4. A estrutura épica hodierna tem um bom exemplo em Manuel Gusmão, que, desde “A mesa (d) o mar (preparativos de viagem)”, no colectivo Mar (Lisboa, 1979), investia na sintaxe camoniana: proposição, invocação, dedicatória, narração. Em Dois Sóis, a Rosa: Arquitectura do Mundo (Lisboa, 1990) e Teatros do Tempo (Lisboa, 2001), refaz esse percurso.
Avulso, “Dedicatória” é título em lugares vários: Cândido de Figueiredo, Parietárias [Brinde aos Senhores Assignantes do Diario de Noticias em 1870], 1870; expressiva em Luís Quintais, “Dedicatória (um poema de Czeslaw Milosz, Varsóvia, 1943”, Verso Antigo, 2001: 60. Título-dedicatória recobre poemário Dedicado a Eva (S. l., 1983), de Júlio Conrado. Já, em página ímpar inicial, miríade de lusos comunga da fórmula. Outros nomes de Novecentos: Alfredo Brochado, Carlos Cochofel, Nemésio (para carta-dedicatória em Paço do Milhafre [Coimbra, 1924], ver Marques, 2002: 223 ss), Namora, Sophia[6], Almeida Faria, A. Oliveira Cruz, Irene Lucília, José Viale Moutinho, José Manuel Mendes, Fernando-António Almeida, José António Gonçalves, Maria Helena Salgado (= Maria do Rosário Pedreira)… Em catálogos da BN sobre Adolfo Casais Monteiro e Camilo Pessanha (ambos de 2008, respectivamente: p. 26, 234; p. 22, 50, 117-119; neste, dedicatória de Wenceslau de Moraes a João Vasco e Pessanha, p. 104), correm novos exemplos. Mais em Camilo Pessanha, Correspondência, Dedicatórias e Outros Textos (2012: 279-288), seja em volume, seja no verso de fotografia, já longas e justificativas, ou de auto-apoucamento. O olhar de Mário de Sá-Carneiro, em 29-VIII-1912, sobre Pessoa fala acerca dos dois, enquanto, «com um grande abraço», oferece Princípio «Ao seu querido amigo Fernando Pessoa – ao alto espírito, ao artista, ao pensador». 
As trocadas entre José Régio e Jorge de Sena, deste com Vergílio Ferreira e José-Augusto França, vêm registadas nos três volumes de Correspondência organizados por Mécia de Sena (INCM, 1986: 229-238; 1987: 19-24; 2007: 21-31). Enquanto assinala edições modificadas e melhorias, a dedicatória regiana pode acusar a recepção de carta; Sena oscila entre A / Ao / Para, ecoa em auto-referencialidade, aproveita «para renocar Camões, livrando do lixo da pseudo universidade portuguesa» (p. 238). Vergílio Ferreira, temporalmente próximo, vai incorrendo na facilidade, e tem arte de se repetir em obras de 1971, 1975, 1977: «Ao Jorge de Sena com a estima e a camaradagem, do Vergílio Ferreira» (p. 21). Sena, contagiado, pouco altera as fórmulas: com a melhor amizade e camaradagem (duas vezes), com a melhor camaradagem (duas vezes), com a melhor estima, com a melhor estima e a camaradagem (duas vezes), com a velha camaradagem amiga, com a velha estima e camaradagem (duas vezes), com a velha estima e a mais alta camaradagem. Desta passa ao regular «abraço» a França, que o devolve, com variações, subentendidos e reencontros em lugares vários assinalados.
Ficção recente encena o acto dedicatário: no conto “A dedicatória”, Teolinda Gersão (2002: 31-41) dá-nos adquirente que fica para o fim na sessão de autógrafos e, a sós, requer «uma dedicatória, mas não exactamente igual às outras» (p. 33). Crente no sortilégio da palavra, acrescenta: «Com a data de hoje bem visível – porque faz hoje precisamente um ano que ela se foi embora.» (p. 40) Final: «[…] se não voltar é porque a senhora não lhe soube dizer quanto eu a quero e escreveu a dedicatória errada. » (p. 41) Com outra distância, A Blusa Romena, de António Mega Ferreira (2008: 13), faz o processo de «uma lenga-lenga que lembrava as dedicatórias setecentistas: “Ao Senhor Vasco de Almeida-França (o hífen inventou-o ela), insigne Escritor […], que tanto dignifica a República das Letras e, com isso, em muito honra os seus confrades, entre os quais modestamente se conta a autora destes versos, etc.”»
Destilando veneno são as 24 “Egy magyar író dedikációi” [Dedicatórias de um escritor húngaro] do ficcionista e dramaturgo Őrkény István (1912-1979; 1981). De visita ao Museu Tá. Dê. Vê., onde não faltam canetas, cafeteiras e cartões de partidos do «grande realista», prende-se o visitante às obras expostas e respectivas dedicatórias:

  1. À Mamã e Papá, o filho fiel. 2. A Ella. 3. A Bella. 4. A Karolina. 5. Lina. […] 11. A Ostorovics Kornél, crítico extraordinário, autor do ensaio A Prosa de Goebbels. […] 13. Ao Dr. Berény Aladár, pelo seu divórcio genial. […] 16. A Ostorovits Kornél, autor de Sinais de Desviacionismo nas Obras de Juventude de Kautsky. […] 20. A Ostorovits Kornél, corajoso autor de Sufixos Impropriamente Usados na Prosa de Estaline. 21. Minha coelhinha, tu és a única! Ainda perdoarás ao teu Coelhinho? 22. Ao Dr. Hajmási Péter, o grande urologista, o seu doente, reconhecido. 23. Ao Dr. Hajmási Pál, o grande cardiologista, o seu doente, reconhecido. 24. A Ostorovits Kornél. / Ofereço esta obra póstuma do meu marido, agradecendo o necrológio em que tão bem salientou a sua intransigência, que lhe valeu perseguições amargas. / A senhora Tá. Dê. Vê., Gró Etel, em solteira.// […].

  1. 5. Aspecto menos edificante, que pudéramos tratar no momento ou no quadro das relações, é o das supressões, trocas e rasuras de dedicatória. A matéria é dolorosa. Se um novo amor apaga antigo, ainda vá: «À Isabel, sempre.» era retórica do coração; mas ser ingrato para a generosidade de dezasseis camponeses, sem os quais «não teria sido escrito este livro», Levantado do Chão (Lisboa, 1980), custa a admitir. Some-se a terceira parte: «À memória de Germano Vidigal e José dos Santos, assassinados.», única mantida por José Saramago. É, também, um caso singular de redução.
Uma das mais divertidas cabe a Cela, após rasura do nome de Víctor Ruiz Iriarte em La Familia de Pascual Duarte: «Dedico este libro a mis enemigos, que tanto me han ayudado en mi carrera[7].» Retiramos do diário madrileno ABC outra, significativa: Heidegger dedicou Ser e Tempo “A Edmund Husserl, com admiración y amistad”[8]. Não era caso para menos, se lhe ofereceu a sua cátedra. Em 1941, já Heidegger membro do partido nazi, e Husserl perseguido por ser judeu, suprimiu-a na quinta edição. Outros acrescentam-na, de edição para edição, à medida que nascem, por exemplo, filhos. 

  1. 6. Aqui chegados, vimos o protector secular em figura de dedicatário, requerendo discurso à altura, eloquente, figurado; se possível, motivador do que lhe é oferecido, seja por qualidades declaradas, seja por heroicidade, ainda que de empréstimo. Não se imagina quão presente está, assim, o conde de Oeiras e marquês de Pombal. Daí, a lista dos títulos de glória, que envolvem o nome do ilustre: Manuel de Galhegos tem que os reduzir em Templo da Memoria: poema epithalamico nas felicíssimas bodas do Excelentíssimo Sr. Duque de Bragança e de Barcellos, Marquez de Villa-Viçosa, Conde de Ourém, etc…(Lisboa, 1635), e o mesmo João Soares de Brito, em Apologia em que se defende a poesia do príncipe dos poetas de Hespanha Luís de Camões, no canto IV, da estancia 67 a 75, e canto I, estancia 21; e responde ás censuras de um critico destes tempos. A João Rodrigues de Sá Menezes, cavalheiro da Ordem de Santiago, Camareiro-mor d’el-rei D. João IV, etc., etc… (Lisboa, 1641). A prática é corrente.
 Quando se lhe atribuem méritos no próprio texto, porque o inspirou ou facilitou, essa espécie de co-autoria envaidece um e segura o outro, inclusive, nas relações entre literatos, cujas invejas fuzilam. Em era inquisitorial, a dedicatória representa segurança, tença, emprego; contra eventual castigo público, significa reconhecimento e molde de integração. Se necessário, acaricia-se inquisidor, qual obrou livreiro com Os Lusíadas do grande Luís de Camoens, Príncipe da poesia heróica. Commentadas pelo licenciado Manuel Corrêa. Dedicadas ao doutor D. Rodrigo d’Acunha, inquisidor apostólico do Sancto Officio de Lisboa. Por Domingos Fernandes, seu livreiro (Lisboa, 1613).
Convém olhar a destinações especiais: entidades civis, como em Frei Luís de Sousa, Vida de Dom Frei Bertolameu dos Martyres… (Viana [do Castelo], 1619), «À Câmara e Governo da Notável Vila de Viana»; feminina, para lá de Nossa Senhora: v. g., «Á Illvstrissima / Senhora Dona Lvisa / Covtinha, Condessa do Sabvgal, &c.», em Duarte Pacheco, Epitome da Vida Apostolica, e Milagres de S. Thomas de Villa Nova, […]» (Lisboa, 1629); familiar: seja filial, como em Os Novíssimos do Homem, ou conjugal, como em El-Rei Junot (Lisboa, 1912), de Raul Brandão, «A Maria Angelina», já reverenciando avô em Os Pescadores (Paris, 1923): «À memória de meu avô, morto no mar»; discipular, “Ao Mestre Columbano”, no Húmus (Porto, 1917).
Impresso ou manuscrito, é um jogo de reciprocidades, que o editor substitui, no século XVIII, ao afixar na portada as suas insígnias e permitindo-se dedicatórias, timidamente assumidas nos séculos anteriores. Neste trânsito da aristocracia para o livre comércio, não isento de enganos e roubos em tiragens e contrafacções, entreabre-se a questão dos direitos de autor, que revê a propriedade literária, em vigor desde Quinhentos.
A dedicatória pode, agora, reduzir-se ao mínimo – algumas trazem água no bico, tal a secura de «A Eça de Queiroz // Machado de Assis // 16-4-92», em exemplar de Quincas Borba –, a misteriosas iniciais e personagens, ou nome não identificado, mesmo aleatório, e, até, desaparecer. Este «degré zero» não significará, parafraseando G. Genette (p. 126), que ninguém merece esta obra ou que a obra não merece ninguém? Isso não impede que obras-primas da literatura mundial primem por essa ausência…

  1. Não é o caso do manuscrito, mesmo se alguns adquirem a importância do impresso, ou lhe são superiores, se caligraficamente retrabalhados por autor ou artista emérito. Em manuscrito, é-se escritor; autor, no impresso – que, muitas vezes, só existe como pessoa na interposta dedicatória. Mas em manuscrito também se cria uma identidade e se confere autoridade ao texto – seja embora entre nome próprio e fingido, ou entre dois fingidos acrescidos de nome próprio, Tomé Pinheiro da Veiga. Assim é na “Dedicatória” sobre a amizade de Fastigínia (1605; Lisboa, 2011), reiterando uma autoficção: Fr. Pantaleão, que houve achamento das histórias, dirige-se a Jorge Calepino.
A história manuscrita talvez comece em 1418, quando se inicia a redacção de Dos Benefícios, pelo infante D. Pedro (1994), que até 1433 frei João Verba refundiu como Livro da Vertuosa Benfeytoria, contendo no fol. 1r: «Muy alto príncipe, de grande poderio, e muyto honrado e prezado senhor iffante Eduarte, primogénito herdeyro dos reynos de Portugal e do Algarve» –, e prosseguindo até 2r, antes da tavoa. Por 1437-1438, D. Duarte compõe o Leal Conselheiro e extensa carta à rainha D. Leonor, sua mulher
Na fronteira do manuscrito potenciando impresso está “Incendio” (1914), soneto autógrafo de Augusto Santa-Rita, reproduzido no Catálogo de Um Seleccionado Leilão de Manuscritos, Autógrafos e Fotografias (p. 113), realizado em Lisboa (13-XII-2008). Interessa a particular autodedicatória, «A mim mesmo», que alegraria G. Genette: «[…] je ne vois manquer, dans cet ensemble un peu déviant, et sans doute ludique, que l’autodédicace, ou dédicace à l’auteur par l’auteur lui-même» (p. 25).
Posto o que, desde finais de Setecentos, lá fora[9], e, em Portugal, desde, ao menos, os anos 40 de Oitocentos, de A. F. de Castilho e A. P. Lopes de Mendonça a Camilo, é fácil encontrar a fórmula repetida contaminando frontispícios, qual um de António Augusto Teixeira de Vasconcelos, em exemplar de A Ermida de Castromino (Lisboa, 1870): «Ao seu excellente amigo / Conego Lima / em testemunho de affectuosa saud.e / offerece / A. A. Teixeira de Vasconcellos». Troca-se o poder ou sangue azul pela nobreza de coração e de carácter. O copista quase desaparece; e, mau grado discurso pobre, comove a letra de intelectuais que quase vimos viver
Os cuidados a haver não são poucos, a tal ponto uma dedicatória nos compromete. É rara a dedicatória que exprima o máximo de consideração ao negar-se a dizê-la, por escrito; veja-se Antero, em exemplar dos seus Sonetos (1861) oferecido ao dilecto Alberto Sampaio: «Para o meu amigo Alberto, não são necessarios cavacos na primeira pagina d’este livro[10].» No calor da Questão Coimbrã, escreve Castilho a Camilo, em 20-I-1866: «Ramalho Ortigão remetteu-me um exemplar do seu opusculo precedido d’um oferecimento muito cortez. Ainda o não pude lêr. Mas se é como me informão em termos urbanos, hei-de tomar conhecimento d’elle, e responder ao autor. Seria confundil-o com os Theophilos e Antheros, [...].» (Costa, 1924: 47). Dois dias depois, nova carta e transcrição de dedicatória: «Ao seu inegualável mestre o Ex.mo Sr. Antonio Feliciano de Castilho em testemunho de lealdade litteraria offerece respeitosamente o auctor.» (p. 48) Em ar de balanço, Castilho concluirá, nesse 22-I-1866, que «as palavrinhas melifluas do offerecimento» escondiam «o rancor de um malcreado»! E a estocada: «Era o Ramalho a desfarçar o Ortigão.» (p. 49)

  1. 1. Se a assinatura é fundamental, a par do nome de quem recebe (sem o qual há mero autógrafo, e, às vezes, incompleto[11]; agora, Deus, a Virgem Maria e os mortos não são convidados), lugar e data dir-se-iam convenientes; em última instância, só o lugar é prescindível. Outra condição é a legibilidade. Aproveita-se a folha de rosto para sintaxar, eventualmente, com o título, e mesmo, para as mais longas, a folha de guarda. É o caso das dez linhas, nítidas e separadas, que preenchem o recto da folha de protecção de Maria Benigna (1933), que o autor dedica ao já não Presidente, mas assim tratado em família, até, pelo menos, aos netos: «Ao Ex.mo Senhor Presi- / dente, Dr. Bernar- / dino Machado, / meu prezado sogro, / homenagem do / seu mais devotado / admirador, enter- / necidamente. / Aquilino Ribeiro / Lisboa Nov. 1933.» (Rêgo, 1981) Não há regra na escolha da lauda (de ‘laudare’, que serve para louvar dedicatário, impresso ou manuscrito).
Além dos exemplares contratualmente oferecidos ao autor e tradutor, há um certo número a remeter à crítica e autores ou amigos da editora. Maratona desagradável, segundo a fórmula ‘A / Para X com a admiração de Y’ – em que só a ‘admiração’ varia, eventualmente justificada em prosa breve –, treina-se este numa assinatura, que alguns saberão falsificar, depois de outros autógrafos forjados.
O negócio da dedicatória (às vezes, do simples autógrafo) é rendoso, mulplicando o preço.  

  1. 2. Daí, as sessões de lançamento e de autógrafos, com preço muitas vezes de favor. Ao lado de compras vultosas por organismos, para que também urge assinar dezenas de exemplares, ou de pedidos especiais e aquisições em circuito fechado (com a diferença de que empresas patrocinadoras não são um clube do livro, embora a qualidade gráfica do objecto melhore, sugerindo dedicatórias mais compassadas), temos as regulares sessões de lançamento e de autógrafos, abertas a todos, num ou vários locais, dentro e fora do país. A escolha do dia foge a constrangimentos sociais, caindo, sobretudo, numa terça ou quinta-feira. A sociedade do ‘croquete’ faz sala; a imaginação autoral ensaia a boa gramática. Em casos restritos, há repasto só para jornalistas.
No ciclo do livro, chega, um dia, a vez do alfarrabista, mesmo se algumas livrarias podem assegurar exemplares dedicados. As indicações de catálogo procuram valorizar exemplar dito «Com uma dedicatória autografada do autor», ou dita «expressiva», justificando, assim, os preços. Desde notícia em papel à Internet, a sedução desliza.

  1. 3. Mas não é nesse frenesi que encontramos as melhores espécies. Reunir dezenas de formulários debitados em horas de tortura pessoal não é instrutivo: investe-se no formulário; evola-se muita hipocrisia, além de falsa admiração; resulta melhor quando no silêncio da dedicatória única. Nascem, deste modo, verdadeiros inéditos – seja poema, carta, etc. –, geralmente, à entrada do impresso, que também pode ser alterado na perspectiva de variantes. Há uma, curiosa, «dactiloscrita em folha adicionada ao interior da capa da publicação» de A. Cortez Pinto oferecida a Mário Saa, segundo Pereira (2010, p. 76), que rastreia centenas de dedicatórias a este dirigidas. A Livraria Antiquária do Calhariz anunciou, no 4.º Boletim Bibliográfico (Lisboa, 2008: 45), a 2.ª ed. de Do Tempo ao Coração (Lisboa, 1966), de David Mourão-Ferreira, «valorizada pela extensa dedicatória pelo autor, ao jeito de carta, a um casal de amigos pessoais. Esta edição é constituída por uma versão inteiramente nova do trecho incluído na página 29, sob o título de “Coração”.» Cada exemplar diverso completa a obra, mais evidente em exercícios antigos de Herberto Helder, corrigindo-se à mão, em exemplares impressos, na inspiração do momento: o momento da dedicatória é o de outra escrita. E interrogar-me sobre que dedicatórias manuscrevem dedicatários impressos: por exemplo, Aquilino Ribeiro Machado, em Arca de Noé, III Classe (1935), ou a filha Mariana Ribeiro Machado no Livro da Marianinha (escrito em 1962, editado em 1967), que o avô Aquilino lhe dedicou.
Não nos restrinjamos, contudo, aos suportes consabidos. Mostrei a vantagem de estudar almanaques, álbuns, leques, carteiras, objectos de cerâmica (Rodrigues, 1999: 37-64), onde também cristalizam dedicatórias. Reproduzidos em As Mãos da Escrita (Duarte, Oliveira, 2007: 344 ss), juntemos convites e menus, agendas, etc. A páginas 357-358, deparamos com diário dedicado, em 11. 4. 73, «À menina  Margarida Victória, “luz dos meus olhos” (como se dizia em tempos): […]», por V. Nemésio. Em exemplar de Ode ao Rio / ABC do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, 1965), com dedicatória manuscrita a Maria da Costa Parreira, já Nemésio inscrevera um «à memória de» cinco amigos, duplicando com oferecimento aos familiares.
Por outro lado, há deliciosos enigmas, como esta sequência em exemplar de Alfredo Cunha, Versos (Lisboa, 1900):

À Senhora gentil que estima tanto / os livrinhos de versos que lhe oferto, / que os larga, sem cuidado, em qualquer canto / e os deixa e perde em qualquer sítio incerto; / à Senhora, que as minhas obras de arte / trata com tão cruel desatenção, / que as abandona e esquece em qualquer parte, / qual saco ou mala de trazer na mão; / este exemplar, em duplicado, of’reço, / pedindo a Deus que o queira ter agora / melhor guardado e em maior apreço, / / e o não atire p’la janela fora! // O autor.

Mais doloroso é quando as relações azedam, e se rasga ou risca dedicatória. Se o livro é vendido com aquela (desde que não seja para instituições), degradando-se na rua, deve o dedicatário adquiri-lo e reenviá-lo ao ingrato, com segunda dedicatória…
Destinatários maiores eram, num tempo revoluto, certos editores, amigos dos seus autores. Foi o caso de Agostinho Fernandes, da Portugália Editora, como provam 28 dedicatórias reproduzidas no livro com que os netos o homenagearam (Santos, 22008). Luís Amaro, cujo Diário Íntimo (S. l., 32011) é alfobre de sinais amigos, tornou-se também, entre nós, dos principais dedicatários, com largas saudações do estrangeiro. Entre algumas de página cheia, realço as de Régio, e, destas, um desenho a cores de menina (Vila do Conde, Março de 1968) acompanhando texto contíguo ao título de Histórias de Mulheres. O poeta brasileiro Ribeiro Couto dedicou-lhe Dia Longo (Poesias Escolhidas): «A Luís Amaro, pai, parteiro e padrinho desta criança manhosa – artista de rara sensibilidade, amigo seguro, colaborador perfeito, com a gratidão do Ribeiro Couto / Lisboa, 24-X-1944.» Vergílio Ferreira dedicou-lhe exemplar da 3.ª edição de Mudança: «Ao Luís Amaro / que não sendo “pai” dos meus livros, é todavia quase “tio” ou “padrinho” pela assistência que lhes tem dado, / com o abraço amigo / do Vergílio Ferreira / Lxª, 5 Maio 969». Eugénio Lisboa fê-lo, de forma impressa, «colaborador» de José Régio. A Obra e o Homem (Lisboa, 1976) e, em dedicatória manuscrita na edição de 1987, «primus inter pares regianos». Em Uma Época no Inferno (1960), o tradutor Mário Cesariny de Vasconcelos considerou-o «introdutor portucalense / de Rimbaud», porque editado na Portugália, onde Amaro trabalhou entre Setembro de 1942 e Março de 1970. Com Luís Amaro fecha-se o círculo antigo do ‘protector’, não financeira ou politicamente forte, mas companheiro atento e generoso. Este ensaio é-lhe dedicado.

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[1] Maurice Couturier (1995: 45) não aceita esta diferença, pelo que escreve «dédicacer son livre», «dédicaçant son œuvre»…
[2] Lisboa: Três Sinais, 1999.
[3] «Guardo, por exemplo, o trabalho de um obscuro escritor angolano, Marcial Faustino, constituído apenas pela dsedicatória e três breves poemas. Uma nota, na contracapa, assegura tratar-se de um romance. O grosso da obra, cento e oitenta e sete páginas, é constituído pela dedicatória, certamente a mais longa da literatura universal. O autor começa por dedicar o livro ao “saudoso Presidente Agostinho Neto”, umas vinte e cinco páginas, explicando o motivo da sua devoção, e depois à esposa, trinta e tantas páginas, a cada um dos vinte e dois filhos e por aí fora. Interessantíssima, a dedicatória. Presumo que seja – e vejo nisto uma genial ousadia literária! – um romance disfarçado de dedicatória.» José Eduardo Agualusa, “Catálogo de sombras”, Tabacaria (Lisboa), n.º 11, Primavera de 2003: 83.
[4] Tudo vai dos respectivos manuscritos: ver Miranda, 1989: 153-155; já exclui a designação das églogas “Célia”, «Ao Infante Dom Luis”, em sete oitavas, “Andrés”, «Ao duque d’Aveiro. / Neto de el Rei dom João o segundo de Portugal», “Egloga Encantamento”, «A Dom Manuel de Portugal», em cinco oitavas.
[5] A raridade de duas versões, manuscrita e impressa, da dedicatória de Os Estrangeiros é tratada em Franco, 2005.
[6] Dedicatórias manuscritas de Sophia a amigos brasileiros – Manuel Bandeira, João Cabral de Mello (como escreve em duas, uma «no Primeiro de Maio [de 1961], dia do Trabalhador, com todos os seus versos na memória», Cleonice Berardinelli – são reproduzidas em Metamorfoses, 1, Rio de Janeiro: Cátedra Jorge de Sena / UFRJ, 2002, passim.
[7] Alargue-se Cela com Luís de Miranda Rocha, “As dedicatórias de ‘La Familia de Pascual Duarte’”, Diário de Lisboa, 17-XIII-1987, p. 26.
[8] “Dedicado a…”, ABC – ABCD (Madrid), 10-XI-2007. Some-se “Autorretrato com libros”, em La Nación (Buenos Aires), 10-V-2008, a propósito das relações intelectuais de Victoria Ocampo: Saint-John Perse deixou autógrafo de quatro páginas no seu livro de estreia.
[9] Justifica-se esta nota pela nacionalidade do dedicatário: «All’egregio e valoroso dipintore / Il Sig.r Francisco Vieira / in pegno / di amicizia e di stima / l’autore / Firenze 10. Ottobre / 1794». Giampaolo Maggi (1747-1823), Sannazaro / poemeto, Parma, 1794, dedicatória a Francisco Vieira, o Portuense.
[10] In Emília Nóvoa Faria, António Martins, A Paixão das Origens. Fotobiografia de Alberto Sampaio, Guimarães 2102 Capital Europeia da Cultura, p. 60.
[11] Quando só temos, sem assinatura, «Off. / O autor», típico em Machado de Assis. As dedicatórias deste são quase álgidas, sucintas e, mesmo, com as tão-só iniciais do nome. Há exemplos em José Mindlin, Uma Vida Entre Livros: Reencontros com o Tempo, 4.ª reimpressão, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008, p. 35-36. Uma neta deste, Lucia Mindlin Loeb, fotografou as mais impressivas em Para a Tão Falada Biblioteca José e Guita Mindlin: Dedicatórias, São Paulo, 2014 (ver O Globo ‒ 2.º Caderno, 7-IX-2014). Para outros brasileiros, p. 38-39 (longo manifesto manuscrito de Mário de Andrade para Antonio Candido), 40, 100-101 (de Drummond de Andrade), 110, 132. Na p. 26, exemplar da 1.ª ed. de O Mulato (1881), com duas linhas de Aluizio’ Azevedo [Aluízio de Azevedo] para Rafael Bordalo Pinheiro.