sábado, 12 de Abril de 2014

Gente do Norte


Gente do Norte ou A História de Vila Rica (1977), de Leonel Brito, é uma docuficção em renovada sintaxe, que faz deste filme pequena obra-prima em menos de uma hora.
Na linha de experiências de Manoel de Oliveira ou João César Monteiro, o pós-Abril trouxe um interesse crescente pelas manifestações populares (cultura intersomática ou social) maioritariamente centradas no Alentejo e em Trás-os-Montes, bem como por casos de cooperativa, de pequena e grande empresa ou fábrica, em que pulsava o voto de uma democracia alargada.
No exemplo transmontano, tínhamos Oliveira e co-realizadores em O Acto da Primavera (1962), seguindo-se Alfredo Tropa, Pedro Só (1971), Festa, Trabalho e Pão em Grijó de Parada (1973), de Manuel Costa e Silva, e Falamos de Rio de Onor (1974), de António Campos. Sucederam Trás-os-Montes (1976), de António Reis e Margarida Cordeiro, Máscaras (1976), de Noémia Delgado, e Argozelo ‒ À Procura dos Restos das Comunidades Judaicas (1977), de Fernando Matos Silva.
Ora, neste ano, uma nova cinematografia emerge com Leonel Brito: não é só o trabalho de campo, de décadas, que vultos eminentes da filologia e das ciências sociais já tinham operado na região, acrescidos de musicólogos ‒ que o mesmo realizador segue em Encomendação das Almas (1979), onde também não falta o inquérito; nem tão-só um esboço de ficção, a caucionar o folclore, embora pequenas histórias, geralmente dramáticas, se encaixem na diegese. É, a par disso, um lento olhar picado do alto da serra, único a abarcar a grandeza de uma paisagem, rude e tirânica («Entra nos olhos e não sai mais», dizia Torga, no Diário XIII, que só essa tirania aceitava), da qual se desce ao indivíduo comum, para, lenta, a focalização abrir à comunidade – e, nessa alternância, contar-se a história económica, social, religiosa e política de Torre de Moncorvo, ‘vila rica’ de minério e regra legionária à sombra do templo, agora afrontada por anseios legítimos do retornado, emigrante, camponês, asilado, estudante.
Se o sociológico reforça uma etnologia que, a mais das vezes, se quedava na descrição, a novidade está em que, nesse alternar de paisagem física e humana (e, dentro daquela, entre uma grandiosidade e a típica casa decadente; e, dentro desta, entre sujeito e grupo), se abisma uma narrativa, circulando entre carpires na igreja e passagem do féretro na praça, com cena final do comboio ironicamente partido para segunda morte ou fim da linha, enquanto não chega terceira (prenunciada no casario da barragem do Pocinho), quando a beleza da Vilariça, decisiva no alardo de D. João I, ficar submersa por outra barragem. A praça, entre indiferente e expectante, pode ser a última esperança de sobrevida; percebe-se uma estratificação social; a menina ceguinha, suas rezas e vinho fino, são de um tempo revoluto; quem tem unhas toca guitarra, mas a desertificação é inelutável, mau grado a iniciativa de retornados ou emigrantes. O risco do jogo em feira ou taberna é improdutivo; as minas são, regularmente, notícia de futuro. Este filme ‒ no que estuda, documenta, deixa de nostalgia ‒ torna-se, sobretudo, um desafio…
…Também narrativo, cuja sintaxe ou montagem importa relevar. Há um texto (excelente, de Rogério Rodrigues; neutramente lido, para melhor sobressair a melopeia da frase, assente em discretas repetições) que vai a par ‒ como a vida vai a par do baptismo e do casamento, da festa e do baile, da igreja e da feira, do rio e da linha do Sabor, acontecendo, em cada momento desses, um sobressalto. Este dá-se, ainda, na mudança de planos (e, nestes, quem percebe logo vir aí um açude vertendo-se em catarata?) ‒ numa sequência de quem conhece o seu chão ‒, na batida musical de José Mário Branco, nos depoimentos bem gravados, quando o som era um bico d’obra no filme português… O cenário sai cumulado na fotografia de Elso Roque, cujo esplendor é via real para uma obra-prima. 


[Nota: Vimos este filme, ontem, 11 de Abril, na Cinemateca, ao lado de Leonel Brito.]           

terça-feira, 11 de Março de 2014

Tertúlia literária


Ernesto Rodrigues anima tertúlia sobre os seus 40 anos de vida literária, cujos últimos títulos são o romance histórico A Casa de Bragança e o conjunto de poemas Do Movimento Operário e Outras Viagens.
O encontro tem lugar no dia 19 de Março, quarta-feira, a partir das 14 horas, na Livraria Caixa dos Livros, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.  

domingo, 9 de Fevereiro de 2014

D. Fernando I, segundo duque de Bragança

Fora a carta de foro dada no arraial de Ceuta, em 20 de Fevereiro de 1464, era de Cristo; Pero de Alcáçova, que a escrevera, entregou cópia a um parente meu, Afonso Roiz, ou Rodrigues, e, a rogo do duque, recado para vir mostrá-la em pessoa, obrando aquela fala breve.
A história dirá quem era esse Afonso Rodrigues, e antepassados. Quem sou eu, do mesmo nome, cujos últimos dias talvez venham escondidos num fio da sua meada.
Foi há 550 anos; não imaginava que, na indefinição de criança em calções, sandálias lestas, o passado viria acariciar-me, exigindo este discurso.

Saudava, agradecido, D. Fernando I, segundo duque de Bragança, na estátua de bronze, sobre três blocos rectangulares de granito em assento leve, rodeada de folhame. Em cota leve, flectia ligeiramente a perna direita, espada embainhada e oblíqua, fincada, rígida, à esquerda, com determinação; e, entreaberta na mão direita, a carta foraleira, que oferecia, confiado, à cidade. Miudamente, observava as cotoveleiras, joelheiras, o cabelo grisalho caindo sobre as orelhas, e franjado na testa, com duas rugas verticais, fundas. A comissura dos lábios era grave. O neto de D. João I, rei ínclito que renovara o castelo – filho do primogénito D. Afonso, primeiro duque de Bragança −, mostrava-se firme, teso como a dignidade.
Eu assistira à inauguração, em 1964, ganapo ainda, enroscado nos pilares de ferro em que assentava um dos cinco candeeiros. Tinha oito anos, nada sabia de nós. Lembro-me da formatura de senhores, que escureciam o dia, e, talvez por isso, menina vestida de branco, um loiro anelado, da minha idade, sobressaía na manhã fresca, oferecendo salva de prata.
Agora, vinha aqui todos os dias, a casa dos avós, cada vez mais tristes, por mim, sentia. Antes, repousava no rectângulo de pedra frente à estátua, que dois bancos em voo semicircular enquadravam. Alternava verde; à direita, a pousada de São Bartolomeu, onde sonhava descansar, um dia; em fundo, o ronronar do Rio Fervença, sucedendo galos, cães, poalha de vozes… Nas tardes de sol, árvores e duque estampavam-se na tela muralhada.
Ao tempo, D. Fernando I e eu ouvíramos outros discursos embalados em patriotismo – civis, militares, religiosos; exaltados telegramas de cumprimentos e saudações, martelados de stop, à imagem de um país sem iniciativa.

A Casa de Bragança, Lisboa, Âncora Editora, 2013.

sexta-feira, 24 de Janeiro de 2014

Algumas Leituras (1)

José de Sainz-Trueva, O Lento Arder das Coisas (Âncora Editora, 2013)

Foi em 18 de Junho de 1981, numa breve recensão do semanário lisboeta Tempo, que pela primeira vez me debrucei sobre poesia madeirense. Em causa estava Ilha 2, lançada com algum estrondo em restaurante da estação do Rossio, sob a égide do então governante e poeta João Carlos Abreu. De Ilha 1 (1975) só conhecia lisonjeiro parecer de Pedro Tamen no Expresso (1-III-1975; nas suas páginas, em 5-X-2002, analisei Giampaolo Tonini, Poeti Contemporanei dell’Isola di Madeira, culminando 31 anos de atenção à lírica e cronística ilhoas), que referia a «qualidade média da recolha»; se, no volume de 1979, ainda ocorriam fragilidades, pude ser mais generoso, e, para o poeta que agora nos interessa, relevei «o rigor quase cruel de José de Sainz-Trueva».
Crueldade filia-se, para mim, não no théâtre de la cruauté sobre que discorre A. Artaud nos anos 30, mas na prosa sadiana, cujos excessos estão contidos numa gramática de relações fria e lúcida, em maquinaria narrativa cumprida à risca, sem cedências ao melodrama fácil, a estilizações de indisfarçado kitsch. É, pelo contrário, uma ética do estilo (se este é o homem, como dizia Buffon), longe de mimetismos tolos ou de exercício escolar, esquartejado a compasso, como se o artista fosse um magarefe.
Partes desse processo, e um dos principais factores distintivos em arte, ritmo e melodia fazem-se conquista dificultosa. Isso mesmo foi explicado por João de Deus no seu jornal O Bejense (7-XI-1863), quando houve que combater a mera versificação compassada do D. Jaime (1862), de Tomás Ribeiro, que o versificador-mor Castilho queria no ensino, em vez d’Os Lusíadas. Na prosódia sucinta da presente selecção, e antes que as «coisas» se fundam em matéria lírica, convém sentir que o «lento arder» é, primeiro, de uma voz, e que a nossa deve segui-la na orientação de um olhar conformado à subtil combustão de cesuras, rimas toantes, aliterações, tudo tão discreto, como se nem déssemos pela pontuação reduzida ao interrogativo, que humedece esta regular filigrana venosa. Sem cair no abuso retórico, perfila-se uma escassez variamente assumida, instigada por inspiração vigilante, precisa, cruel. Resistem, contudo, dúvidas de entoação (e decorrentes vazios, a preencher), quando hesitamos em associações vocabulares ou num simples encavalgamento. Nesta maranha, afora ritmos, recrescem os sentidos.    
Com José de Sainz-Trueva – escrevi, depois, quer no JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias (10-III-1992), face aos parcos textos de Ilha 3 (1991), quer no prefácio de Ilha 4 (1994; ano em que dele edito, n’O Escritor, 4, “O Amor Cativo”) –, «a impressão é de música longínqua: o versilibrismo fluido, de rimas internas, corrobora a placidez do búzio ‘sumarento’, com que efabular ‘arte nova intacta’, poesia ‘sem adorno / despida / cativa rosa ávida’.» E acrescentei, coligando História, discurso, efeito: «Há um ‘submerso / rumor’ onde a própria fome adquire ‘infinita pureza’». Estes versos são de novo coligidos; minhas sínteses, sobre tão poucos exemplos, julgo que definitivamente caucionadas.
Retornando em Ilha 5 (2008), «sempre em pequenas doses, sem pathos, descritivista e fotógrafo da ilha» (como escrevi no prefácio), estranhei, nos nossos raros encontros, que ele se não desse, inteiro, em volume largo, a tais alturas subia percurso de que, afinal, eu só conhecia atalhos. Num sorriso esquivo, ele adiava. Daí, a surpresa desta reunião, para que dois amigos o e me convocam.

Composições dos 20 anos até à sessentena reunidas em O Lento Arder das Coisas (2013), vislumbra-se uma comunidade de valores em nomes próprios – da literatura (Rimbaud, Edmundo Bettencourt…) às artes plásticas renascimentais e contemporâneas–, em epígrafes, títulos feitos expressões (arte de amar, esplendor na relva, o bicho harmonioso, chuva oblíqua, sinais de fogo), no branco entre vocábulos, em finais de verso monossilábicos, na sua geografia de eleição. Cada item poderia convocar outros cultores. Releve-se, todavia – explícito, já no interdito, entre ditos (no coração do dia / respiração do dia, peso afectivo de Setembro, etc.) –, Eugénio de Andrade, cuja força imagética espartanamente coroada acolheu gerações. Sobrepaira atmosfera da Poesia 61, na recuperada dignidade da linguagem; vai-se, entretanto, muito além da heterogeneidade encontrada no suplemento «Juvenil» (inaugurado em 4-V-1957) do Diário de Lisboa, onde se reflectiam as vanguardas dos anos 60, em comunhão, ainda que distante, com as preocupações sociais do tempo, também por razões censórias. Ora, no horizonte mais vasto da soma de Sainz-Trueva, alguns riscos surpreendem-me.
Assim, ao anunciar-nos «outra face / da ilha / a recortada e só / onde os homens / choram» – de encontro a proposta minha dirigida ao natural da «ínsula de lava e funcho», no sentido de «cavar nesta ilha para se enraizar» (1994), com que melhor se tornaria universal –, agrada-me um novo olhar sobre o geralmente ignorado regime de colonia, dura existência enterrando «as pernas / até aos joelhos». Reencontramos a sua cristalização numa espécie de ex-voto, «jovem colono / gravado a buril». Esse voto, como é qualquer transposição artística, significa nova condição para os homens?
A nossa permanência plasma-se numa subjectividade que importa escandir devagar, nela detectando, quiçá, através das coisas, «o lento arder do tempo» em «terra chã». Uma hipótese, ou périplo, de leitura faz suceder as estações da vida, mas sem que alguns componentes do elemento ‘fogo’ deixem de queimar, mesmo sob geada.
Enquanto assistimos à retoma de estruturas, mesmo após corte nas ligações sintácticas – como se os motivos do azulejo buscassem harmonia, não forçosamente simetria («Só pode o corpo / […] // o corpo pode outro / corpo pode»); enquanto o olhar do sujeito se faz resvés, rente, rasante, em enumerações substantivas ou conclusão aqui inesperada, ali suspensa, sendo uma das traves-mestras metaforizar a caligrafia do fazer poético, «a mais pura luz / do desejado / verso»; enquanto isso, transitamos do «som da manhã» ao Verão, à «mestiça luz da tarde»; do Outono à «sombra da sombra» e à neve do fim, num tal disseminar de lugares, coisas, sentimentos, sensações, que se requer alguma distribuição morfológica, como se estivéssemos perante fragmentos, poeira, «poalha de oiro», em suma, num «casulo de oiro» ou «casulo / da memória». Teríamos, no rápido inventário da ordem do ‘arder’, nome e verbo: ardor, brasa, brilho, cal, carvão, chama, cinza, clarão, combustão, esplendor, farol, faúlha, febre, lava, lume, luz, sol, vulcão; acesa, incandescente, incinerada; abrasar, aquecer, queimar.

Mau grado – felizmente – substantivo, como raros entre nós, é uma arte sensível, em trânsito da circunstância para a interioridade, que os parcos adjectivos e verbos de estado acentuam. Percebe-se a decomposição da eloquência, típica de outros autores madeirenses, em unidades menores, cuja concentração cumula leitor disponível. Entretanto, em cada estação, sinaliza-se recorte de outras; os passos mesclam-se de um tempo compósito, ardente, como se perseguíssemos um absoluto, que a condição lírica favorece. É um singular modo de vida, que esta bem-chegada poesia ilumina.

segunda-feira, 13 de Janeiro de 2014

À conversa, no programa AGORA, da RTP 2, em 12 de Janeiro:

http://www.rtp.pt/play/p1235/e140447/agora

José do Carmo Francisco (transportesentimental.blogs.sapo.pt) sobre A Casa de Bragança

Podia ter como título «A cidade suspensa» este misto de Natureza e Cultura, Geografia e Memórias, Pedras e Gerações, mistura viva a cruzar uma narrativa de 282 páginas. Seu autor, Ernesto Rodrigues (n.1956), parte de uma memória («catorze gerações desde 1014») e de uma concepção de literatura («murmurado afecto») para se declarar: «Para ti, leitor posto em assédio, construo bairro de letras, onde seja agradável passear; instalo outra casa de água viva, borbulhante, que refresque e alimente; ergo um castelo de enigmas, como na infância dos homens, disposto a ser conquistado». A narrativa é organizada por Afonso Roiz, homem que, entre outras aventuras, trouxe do arraial de Ceuta a carta de foral dirigida à nova cidade de Bragança em 20-2-1464. Aqui casaram D. Pedro e D. Inês no ano de 1353 mas já em 1351 o Infante tinha caído na simpatia do Povo: «Era muito amado dos povos e mais dos pobres, aos quais em 12 de Janeiro de 1351, garantia que, à sua saída do concelho, o pão fosse vendido ao preço de um mês antes da sua chegada.» Seu filho, D. João de Portugal e Castro, fica assim descrito: «Estar bem consigo mesmo, com os próximos e maiores, enfim, com Deus, é a primeira e sólida pedra no castelo a edificar que D. João de Portugal e Castro não soube esculpir. Em troca ganhou dor no coração, fundiu-se em lágrimas, fez-se deveras contrito, levou longe o verdadeiro arrependimento, que se perdeu em Espanha e, com ele, perdeu o reino.» Organizada em 3 grupos de 14 capítulos mais 4 textos (Prólogo, Desenlace, Enlace e Epílogo), esta aventura oscila entre o passado e o presente, entre Europa e África: «deslocaram-nos para Fez em 25 de Maio de 1438, um domingo luminoso, carregados de bagagens e alimentos. As bestas de carga eram magras, sem arreios decentes e chamar àquilo cilhas era favor, imundas como a inteligência dos nosso carrascos.» Em 5-6-1443 morre D. Fernando, o Infante Santo: «O próprio Lazeraque, depois de tanto o insultar como perro e cão, de lhe atirar à cara com restos de cuscuz, ao saber disto, falou, por uma vez verdade, dizendo que D. Fernando nunca mentiu e que pecado mortal estava em quem o abandonara.» No lance seguinte da aventura, em Alfama lembrando Fez, a mulher que vem com o narrador escolhe um vocabulário simples: «trégua, guarda, espora, bandeira, estribo, elmo, toalha, fato, banco, roca, bordar, frasco». O narrador fala de si («Estou velho e acabado. Há trinta e três anos perdi o último avô. Tenho sessenta e seis») lembrando uma frase que é uma divisa: «Quem teme a morte perde o prazer da vida». Aventura fascinante que não se explica em poucas linhas, este livro oscila entre Literatura e Jornalismo, entre dois tempos sociais (Quatrocentos / Século XXI) e também pessoais : «Este país que eu também sou, esteve à beira do abismo de ser grande, ao fechar Quatrocentos laborioso. Porque feneceu?» (Edição: Âncora Editora, Capa: Sofia Ferreira de Lima, Foto: Nuno Calvet)

domingo, 5 de Janeiro de 2014

Inês de Castro e D. Pedro em Bragança



Os amores de Pedro e Inês ondearam pela cidade de Bragança, onde lhes nasceu o segundo filho, D. João de Portugal e Castro. Os historiadores da terra não o reivindicavam, por ignorância; mas, fazendo de Fernão Lopes bíblia (mal interpretada), contestam o casamento do mítico par, acto que não passaria de mera tradição. Na dúvida, um romancista casa quem bem entende; mal não lhe fica, todavia, fundar-se em documentos, como fiz em A Casa de Bragança (2013), resumindo no Mensageiro de Bragança (20 e 27 de Junho de 2013) quanto penso sobre esse sacramento e filho que urge resgatar. Vejamos novos elementos sobre tão falada união.

Nas 600 páginas do indispensável A Crise Nacional dos Fins do Século XIV. I. A Sucessão de D. Fernando (1960), Salvador Dias Arnaut começa por lembrar quanto escrevera em A Batalha de Trancoso (1947): «[…] cioso da independência, o povo aclamava rei em pensamento D. João, filho de D. Pedro e de D. Inês de Castro, infante que estava em Castela.» O meio-irmão D. João, mestre de Avis, «governaria o reino enquanto dele não pudesse tomar posse o infante D. João, preso em Toledo». Fernão Lopes não o nega; até veicula uma das versões para que o rei castelhano não o soltasse, sabendo «que os portugueses o mandaram chamar para lhe darem o trono» (1960, p. 1).

Menos as cortes de Coimbra ou acusações de invasor (quando reinava a odiosa Leonor Teles ou, após 1386, se sentia no direito de reinar sobre o que era seu) do que os feitos de Nun’Álvares impuseram um rei de facto ‒ que pensara retirar-se para Inglaterra… ‒ contra um rei de direito, que a propaganda dizia tão bastardo quanto o mestre, aliás, amicíssimo do irmão mais velho. As crónicas de Lopes, criado de D. João I, não poderiam asseverar o contrário; a negação do casamento ia de si.
Esse filho de Bragança é protagonista das partes centrais (p. 71-216) da dissertação de Arnaut, interessando-nos, agora, a «discutida união de D. Pedro e D. Inês de Castro» (p. 5), à luz de novas sínteses. Não evoco a tradição, nem o romanceiro castelhano, João Baptista de Castro, José Hermano Saraiva, entre muitos que defendem casamento na igreja de S. Vicente ou noutra morada (Abade de Baçal), contra maioria indiferente ou passiva, que se limita a um digest de Fernão Lopes, por mim resumido nos artigos de Junho: «Na Crónica de D. João I, Fernão Lopes duvida da palavra do rei, que isso mesmo declarara, e fizera exarar, em Junho de 1360, em Cantanhede, perante a nobreza; e duvida, porque estranha que o monarca não soubesse a data certa de um momento tão importante na sua vida. […] estranhe-se que Fernão Lopes ignorasse a grande indiferença ao tempo na Idade Média.» Era este, já, o pensamento de João das Regras, a que responde Arnaut, após afirmar que «o infante quis casar com D. Inês»: «[…] não será natural que um homem esqueça a data do casamento quando este não marca o início de vida em comum? A ausência de datas precisas não militará antes a favor da veracidade do casamento?» (p. 102)
O grande Historiador escreve sobre essa relação mais de oitenta anos depois e não pode consumá-la em casamento. Já documento anterior a 1383 ‒ ainda sem as perturbações da sucessão fernandina ou de Aljubarrota ‒ é taxativo. No índice dos Portugaliae Monumenta Historica. Nova Série. Volume II / 2 / Livro de Linhagens do Conde D. Pedro (1980, p. 250), diz-se que Inês de Castro «cc.» [casou com] Pedro I, porque o título 21B14 reza: «Casou outra vez este rei dom Pedro com a ifante dona Enês, filha de dom Pedro de Castro, e fez em ela / o ifante don Johan / e o ifante dom Dinis / e a ifante dona Beatriz.» (volume II / 1, p. 217) Há segunda referência no título 21M13: «E filhou-a el Rei dom Pedro de Portugal em seeendo ifante, […].» (p. 217) Não se vê onde haja, neste «filhar», recusa da «categoria de esposa», como sugere Arnaut (p. 97).
Documento latino de 1 de Novembro de 1388 (que Arnaut dá em extratexto, ao lado da p. 72), devido a Frei Vicente Gonçalves, confessor de D. Dinis, diz que seu pai teve duas mulheres, Constança e Inês.
Antes do final de Trezentos, Pero López de Ayala (1332-1407), no cap. XIV da Crónica de Don Pedro Primero, ‒ contemporâneo do nosso D. Pedro I, a quem requer os assassinos de Inês ‒, justifica a morte desta «por quanto le decían [a D. Afonso IV] que el infante Don Pedro su hijo quería casarse con ella. […] E este Infante Don Pedro de Portugal amaba tanto a la dicha Doña Inés de Castro, que decía a algunos de sus privados que era casado con ella; e por esto el Rey Don Alfonso su padre fízola matar […].» Reacção de D. Pedro: «[…] e luego quisiera matar a los que fueron en el consejo de la muerte de Doña Inés, la cual decía entonces que fuera su muger legítima, que él avía casado con ella, aunque non lo osara decir por miedo del rey su padre: […].» (Ed. de Madrid […], s. d. [1931?], p. 114-115) Ayala pode aludir à declaração régia de Cantanhede; ou a um núcleo restrito de «privados». É evidente a conclusão de António Resende de Oliveira (“As vidas de D. Pedro e de D. Inês de Castro na historiografia medieval portuguesa”, online): «A presença constante da referência ao casamento do infante com D. Inês assegura-nos, pelo menos, que ele seria tido como facto adquirido nos círculos da corte portuguesa após a declaração do rei nesse sentido.» (p. 117) Ayala reforça esse sentimento, ele que, tendo lutado em Aljubarrota, ficou preso por um ano em Portugal.
Vem Fernão Lopes. Antes de, no cap. XXIX da Crónica de D. Pedro, lançar «razooens» contra casamento declarado pelo rei (cap. XXVII) e corroborado pelo bispo da Guarda e Estêvão Lobato (cap. XXVIII), declara, no cap. I, que D. Pedro «nom quiz mais casar, depois da morte de Dona Enes em sendo Iffante, nem depois que reinou», aceitando o em que Arnaut, Resendes e eu concordamos, a saber, que o casamento se efectuara. Resendes lembra como Fernão Lopes aduz «a semelhança do facto com o que ocorrera com o rei de Castela e Maria Padilha. Na realidade, se imitação houve, o imitador terá sido o rei de Castela, que elevou a amante a rainha apenas cerca de dois anos depois de D. Pedro o ter feito!» (p. 118)
A negação do casamento, retomando argumentação jurídica de João das Regras nas cortes de Coimbra, aprofunda-se na Crónica de D. João I, cuja legitimação tem de anular a do irmão mais velho, D. João de Portugal e Castro, e demais. A palavra de D. Pedro, até ao testamento ante mortem de 17 de Janeiro de 1367, onde declara que Inês «foy nossa molher», pouco lhe importa, talvez porque não cita sequer o filho mestre de Avis; a trasladação (em 1360? 1362? 1363?) para o soberbo monumento alcobacense nada significa; o sermão de exéquias do arcebispo de Braga, comparando-os a Abraão e Sara (união que aquele, por medo, escondia do faraó; o sermão é analisado em António Brásio, “Duas notas marginais ao problema do casamento de D. Pedro com D. Inês de Castro”, Anais. Academia Portuguesa da História, 12, 1962, p. 97-103), é tido por retórica inútil e, por isso, rasurado.
Acresce que Inês era comadre de Pedro, enquanto madrinha do primeiro filho de Constança, Luís, morto ainda bebé: seria impeditivo de casamento? Rui de Pina dirá que Inês aceitou ser madrinha sob reserva de consciência, «mujto contra sua vontade», nunca se considerando comadre, acrescenta pergaminho da Torre da Tombo ao texto da Crónica de Manizola (Biblioteca Pública de Évora), como se vê no padre A. Brásio (p. 104), que resume, na conclusão do seu trabalho: «É de crer, portanto, que o compadrio tenha sido considerado nulo, visto a madrinha não só dizer não ter tido vontade de o ser, mas positivamente ter alienado a sua vontade, o que tornou canonicamente nulo o seu acto, de toda a evidência.» (p. 112) Com ou sem dispensa papal (que não virá, quando requerida ao papa de Avinhão), não validara a mesma Igreja consórcio? Foi por subentenderem casamento, embora ‘ilegítimo’, que Regras e Lopes usaram outro argumento, decisivo, acusando D. João de Castro de ter acompanhado Castela em invasões fronteiriças.
Ao contrário do que escreve Resendes, a versão de Lopes ‒ pelo menos, no que toca ao casamento ‒ não foi «retomada nos séculos XV e XVI pelo autor anónimo de uma refundição da Crónica Geral de Espanha de 1344 efectuada cerca de 1469; por Rui de Pina, na sua Crónica de D. Afonso IV; pelo autor, também anónimo, da Crónica da Biblioteca Manizola […]», mau grado persistir noutros lugares. O mesmo Resendes concorda que o cronista desta adere à tese do casamento (p. 122, 124). A Crónica Geral de Espanha de 1344 diz: «[…] dona Ynes, a qual já dante tinha devulgado que era sua mulher. E assi fez coroar a ymagẽ de cima do moymẽto com de raynha, e poelo ygual do seu.» (IV, 1990, p. 539)
Rui de Pina estranha ter o rei declarado haver recebido Inês «por sua mulher por palavras de prezẽte» (Crónica de El-Rei Dom Afonso IV, 1653, p. 69r), não logo que subiu ao trono, mas três anos depois. Aduz evasivas e escusas de Pedro, justificando o assassínio pelo medo de que os irmãos dela dessem morte a D. Fernando, e lugar no trono a D. João de Castro. Subitamente, ao referir os irmãos, fala em… «cunhados» (p. 72r) ‒ no que ninguém reparou, incluindo Eugenio Asensio (Estudios Portugueses, 1974, p. 45).
A primeira poesia das cortes de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel ficou resumida nas “Trovas” que Garcia de Resende dedicou, no seu Cancioneiro Geral (1516), a quem «el Rey dõ Afonso quarto de Portugal matou ẽ Coimbra por o prinçipe dom Pedro seu filho a ter como mulher, […]» (V, 1973, p. 357). Aos filhos chama «yfantes» (p. 365), e «a fez alçar por rrainha, / sendo morta o fez por ley» (p. 366). Mais: «em todos seus testamentos / a decraron por mulher, / & por sisto melhor crer, / fez dous rricos moymentos / em quambos vereys jazer.» (p. 367)
Os casamentos em segredo, «escondidamente», eram comuns; faziam-se públicos, «de praça», num segundo momento. Arnaut (p. 11) aventa essa hipótese no de D. Fernando e Leonor Teles e no de D. João de Castro e Maria Teles. O pai destes teria obrado da mesma forma.
Se Inês era bisneta do braganção Chacim sepultado no mosteiro de Castro de Avelãs, já a filha Beatriz, viúva do castelão D. Sancho, teve filha casada com D. Fernando de Aragão, de que nasceu D. Leonor, mulher do nosso D. Duarte. Esta bisneta de Inês foi, assim, mãe de D. Afonso V, que deu foral à cidade.
A data do casamento, para quem teve Inês como «sua molher lijdima» até três anos e meio, leva Arnaut a considerar que tinha de ser não depois de 1 de Janeiro de 1352. Para o situar em 1 de Janeiro de 1353, apoio-me no pós-nascimento de D. João (até 1352, inclusive; Frei Vicente Gonçalves di-lo anterior ao casamento; Arnaut, duvidando da declaração do frade, coloca o nascimento depois do casamento [p. 83]) e no resto da expressão donde Arnaut tira aquela conclusão: se, em Junho de 1360, se diz que D. Pedro casara «passa dhũuns sete años», e que a teve «por sua molher lijdima per huũ / dous / tres años / e mais ata o tẽpo da morte dessa doña Enes» (p. 74), porque não jogar com os dois anos, situando-o em 1353? A ama de João, Constança Garcia, e o marido, Gomes Rodrigues, moravam em Bragança, onde o menino «provavelmente» nasceu, e aonde teria voltado com estes, morta Inês em 7 de Janeiro de 1357.
Nas pazes que D. Afonso IV e o herdeiro Pedro cumprem, após a revolta de meses alimentada por este, entram já mercês doadas pelo rei ao neto João, «tratado por conde» (p. 76). «Dentro de meses, começa a aparecer tratado por infante na Chancelaria. […] // Em perfeita concordância com essa designação, D. Pedro, a 8 de Setembro seguinte [seja, de 1358], diz que D. Inês foi sua mulher: “E dona Enes de Crasto nossa molher”.» Cai, assim, por terra o cepticismo de Pina e quantos estranhavam (o próprio Arnaut se distrai, na p. 95!) que só confirmasse casamento três anos depois de governar… Mais: em 29 de Dezembro de 1358, a avó D. Beatriz, viúva de D. Afonso IV, trata os netos por infantes: «Pressente-se que no coração da rainha não havia distinção entre os filhos de Constança e os de Inês.» (p. 78) Aduzidos outros documentos, em que «infante» substitui o não mais citado «conde», a conclusão é óbvia: «Sem dúvida, que os filhos de Inês foram considerados oficialmente legítimos, a que correspondia chamarem-se infantes, muito antes da declaração de Cantanhede de 12 de Junho de 1360.» (p. 79) Infante se chama a si mesmo João, em cartas a criados seus, e assim o dizem D. Fernando ou os reis de Castela.
Essa declaração, e a confirmação, pelas duas testemunhas supracitadas, em Coimbra, a 18 (Fernão Lopes, tão cioso em criticar a incerteza de D. Pedro quanto à data do casamento, erra os dias dos depoimentos), são acompanhadas pela publicação de «bula do papa João XXII, de 18 de Fevereiro de 1325, que permitia a D. Pedro casar com parenta até determinado grau. D. João, D. Dinis e D. Beatriz, infantes de facto, passam a sê-lo, perante a lei do reino, de direito.» (p. 82-83). Em doações sucessivas, o rei lembra a mulher (p. 96).
As voltas de João das Regras, em que bebe Fernão Lopes, serão destratadas na prosa deste, ao fugir-lhe a mão para a verdade do… casamento: viu-se que D. Pedro «nom quis mais casar, depois da morte de Dona Enes em sendo Jffante, nem depois que reinou lhe prouve receber molher» (cap. I da Crónica de D. Pedro); como se fosse pouco, no cap. XLIII, lembra que, «depois da morte de Dona Enes, elRei, seemdo Iffante, nunca mais quis casar, nem depois que reinou quis receber molher». Em bom português, Fernão Lopes confirma o casamento[1].
Nas cortes de Elvas (24 de Maio de 1361), a disposição sucessória, segundo D. Pedro, reforçada «pela assembleia representativa da Nação» (p. 104), é clara: D. Fernando, D. João de Castro, D. Dinis. Fernão Lopes reconhece neste João «o mayor do reino» (Crónica de D. Fernando, cap. LXII) ‒ em bens, cavaleiro, monteiro, na gentileza ‒, com a vantagem de saber, pelo menos, assinar o nome. As mercês multiplicam-se até 1376. A década não termina sem o assassínio de Maria Teles, a que o meu romance dá outro braço. E a Fortuna vira, com exílio em Castela.
Morto D. Fernando, uma conclusão depressa se impõe: «Deste modo, o mestre quando, ainda em Dezembro [de 1383], tomou cargo de Regedor e Defensor do Reino, não o fez com intenção de vir a reinar, mas sim de substituir o infante, enquanto estivesse ausente.» (p. 176)

Eis súmula bastante para compreender uma legitimidade de infante bragançano nascida de casamento dos pais nesta cidade. Se a reiterada palavra de rei não bastasse (será mais credível a de compiladores?), a perpetuação post mortem da amada e o desvelo para com D. João de Castro serão mostras suficientes de quem, em palavra e gesto, foi tido pelo mais justiceiro dos reis. Se o estudioso perfila dúvidas, o romancista conjuga tradição e luzes que tira da bibliografia exposta. Provem outros o contrário.


[1] Quanto a «receber» mulher, e dito que Pedro teve Inês por «lídima mulher» nos últimos anos desta, significará que viveram juntos, mas não em vida de Constança, pois, aqui, seria na condição de amantes, o que o futuro legislador havia de condenar com penas severas. Tinha o Justo que ser incoerente?


[Mensageiro de Bragança, 26-XII-2013, p. 16-17.]