segunda-feira, 27 de abril de 2015

O Romance do Gramático


Ficção, história, pedagogia e atualidade
no enciclopédico O Romance do Gramático
de Ernesto Rodrigues

Norberto Veiga


Nada consola mais o autor de um romance do que a descoberta de leituras
em que não havia pensado, e que os leitores lhe sugerem.
Umberto Eco, Porquê «O Nome da Rosa», Difel, Lisboa, 1984, pág. 11.

Começo este breve apontamento sobre o enciclopédico romance de Ernesto Rodrigues, O Romance do Gramático (Gradiva, 2011), tecendo alguns comentários sobre os elementos paratextuais que o compõem e que estão intimamente relacionado entre si, laborando para formar um todo harmonioso em que acabou por se traduzir o livro.
Assim, segundo creio, encontramos na obra seis paratextos, a saber: O título, a “Notícia” (5-10), a epígrafe (11), o “Parecer” (141-144), estes na primeira parte da obra; as “Advertências” (149-150) e, por fim, o “Argumento” (151-156).
Todos estes elementos concorrem para a estrutura, fortemente programada, da obra, mas são também significativos, segundo Genette[1], cumprindo capitais funções para a descodificação da mensagem que o autor quer transmitir ao leitor. O título do romance cumpre a missão de apresentar, desse logo, o assunto [Genette, 1997: 76]. Contudo a identificação não é completa, mesmo tendo em conta a capa do livro, na qual aparece a página de rosto da obra de Fernão de Oliveira. Desta feita, só com a leitura da epígrafe, retirada da Gramática da Linguagem Portuguesa, é que o leitor pode, sem margem para dúvidas, descodificar o título [cf. Genette, 1997: 144-160]
Ato contínuo, encontramos o que para mim é o principal paratexto, “Notícia” (5-10). Começo por referir que, na minha ótica, o romance O Nome da Rosa[2] de Umberto Eco é o hipertexto, segundo Gérard Genette, Palimpsestes, desta obra de Ernesto Rodrigues. Desde logo, pelo recurso ao manuscrito e à efabulação que o mesmo permite estabelecer entre realidade e ficção, tornando, assim, a narrativa verosímil [cf. Eco, 1980: 11-21]. É, pois, neste elemento paratextual que o autor/narrador explica e introduz o leitor no texto. Aqui são audíveis ecos autobiográficos do escritor: “Eu tinha, como Fernando, vinte e cinco anos” (p. 10). Este texto informa o leitor do tempo histórico do romance, que é o século XVI, e, ainda, do protagonista do mesmo (o gramático Fernão de Oliveira). Saliento, de novo, o valor matricial deste paratexto para todo o romance, pois cria a ilusão de que, em pleno século XX (tempo da escrita), o autor/narrador recebe um documento entregue pela personagem feminina na Hungria, que vai ser, apenas, atualizado. Ora, esse manuscrito vai materializar-se na parte consubstancial do romance, intitulada Recto / Index.
A primeira parte do livro termina com o paratexto “Parecer”, que, segundo creio, serve dois desígnios: o primeiro, certificar a historicidade da ação narrada, uma vez que, na época, todos os livros tinham de ter o parecer prévio do censor[3]; o segundo facilita a construção ficcional da obra, a nível da legitimação do pergaminho, pedra-angular da primeira parte do texto. Termino com a referência à desconstrução textual do manuscrito, servindo-me das próprias palavras do autor: “Pareceu-me ser necessário advertir que o Autor usa de uma ficção que não é poesia e fingimento.” (141, sublinhado meu)
Passando aos dois paratextos da segunda parte, encontramos, a seguir ao subtítulo «Uma História Mal Contada» e da referência espácio-temporal «1510-1581, Lisboa, Portugal», o paratexto “Advertências”, que inicia com a citação de Filippo di Strata: “É virgem esta pena, a imprensa, meretriz.” (149) É um parecer favorável à publicação do livro; note-se posição contrária do censor no “Parecer” da primeira parte da obra. Destaco, ainda, a cristalizada forma, usada pelos censores do século XVI: “Este livro é digno de se imprimir, e o autor mostra nele muito engenho e muita erudição nas ciências humanas.” (149) [cf. Os Lusíadas] Abro um pequeno parênteses para realçar a posição do autor sobre a obra, que vai na senda da que defendo, “tela e figura desfazem-se, ao tocá-las visão única.” (150) Assim, a “tela”, segundo creio, corresponde à primeira parte da obra e a “figura” à segunda, que apenas associadas fazem sentido, formando uma acabada obra, ou, nas palavras do autor, “visão única”. (150) Julgo, também, interessante registar que essa unidade é fortalecida pela existência destes dois “pareceres”, pois, se a primeira parte termina com um não que parece definitivo, a segunda inicia com um sim que tudo promete, restabelecendo, assim, a unidade do fio narrativo.
Por último, encontramos o elemento paratextual “Argumento” (151-156), que legitima, contextualiza, esclarece e encerra as questões escalpelizadas nos textos anteriores, que tenho vindo a dilucidar.

Arrumadas as questões paratextuais, passo a apresentar a minha proposta de “leitura” deste romance tão enciclopédico e “culto”[4]. Para o efeito, decidi estabelecer oito tópicos, que enumero: 1. romance fortemente estruturado, 2. romance histórico, 3. unidade na diversidade, 4. ficção versus realidade, 5. pendor pedagógico, 6. presente da escrita, 7. louvor e defesa da Língua Portuguesa, 8. jornada humana.

1. Como já tive ensejo de referir, O Romance do Gramático de Ernesto Rodrigues é uma obra fortemente organizada tanto a nível da estrutura externa como interna. Assim, externamente, a primeira parte ‒ que responde pelo título de “Recto/ Index”, situando-se a intriga, em termos de espaço e tempo, em 1532, em Bled, na Eslovénia ‒ é composta por quinze capítulos, mais os paratextos mencionados acima. A segunda por sete passos que reenviam a memória cristã do leitor para as estações da via-sacra de Jesus identificando a existência terrena, neste caso, a vida de Fernão de Oliveira, como um rol de trabalhos e canseiras, onde a única certeza possível é a da morte, ou, como assevera o autor, a “Queda”, último capítulo do livro. Esta queda, com ressonâncias de Camus, que representa metaforicamente a derrota do homem na luta contra as forças visíveis e invisíveis do planeta, é personificada, no romance, pelo gramático Fernão de Oliveira, que por sinédoque representa todo o ser humano. Corroboram esta leitura as seguintes passagens do texto: “Porque o justo cairá sete vezes, verdade é que ele não era tal, se mais vezes não caiu.” (159); “Porque o justo cairá sete vezes [cf. Provérbios 24:16] verdade é que nenhum deles era tal, se mais vezes não caíram.” (227, sublinhado meu) Constata-se, assim, que há uma evolução do primeiro passo para o último, isto é, passa-se do individual para o coletivo, ou melhor, do “eu” para o “nós”. Daí que se entenda, agora, que Oliveira representa, no final da obra, todos os mortais.
Quanto à estrutura interna, ela é assegurada pelos vários paratextos, escalpelizados atrás. A primeira parte inicia com os conselhos ao leitor no apartado “Notícia” e a segunda em “Advertências”, seguida de “Argumento”, que funciona como leitmotiv da última parte.

2. O leitor mais distraído não terá dificuldades em nomear este romance de “histórico”, mesmo tendo em conta toda a carga subjetiva que o adjetivo transporta. Creio que o objetivo do autor passa por criar um esboço o mais nítido possível do primeiro gramático português e, desta forma, reabilitar a imagem, por vezes, tão maltratada pela investigação histórico-literária, de Fernão de Oliveira. Outra razão que poderá ser convocada é o facto de ambas as partes/histórias se situarem cronologicamente no século XVI, um século a todos os títulos significativo. Outro elemento histórico encontra-se na alusão do ataque Otomano à Hungria que foi previsto por Sá de Miranda, introdutor do soneto em Portugal. (18) Este acontecimento é relatado com mais pormenor na página 55, na qual se enaltece a luta contra o infiel, que queria tomar a Hungria. Assinalo, ainda, as várias referências ao Concílio de Trento e à sua ação no mundo religioso e a figura do Infante Santo Fernando cativo em Fez, por razões de Estado, que, sem dúvida, enformam historicamente a obra. (20)
Todo o “Argumento” da segunda parte tece um retrato de Lisboa que é atual, embora se reporte ao passado (152). Também, a narração do processo (187) que a Inquisição moveu a Fernão de Oliveira (sendo tudo falso e as testemunhas orquestradas contra ele), para além do indubitável valor histórico, pode ser lida como uma cáustica crítica à administração da justiça nos tempos hodiernos.
Nomeio, por último, não querendo ser exaustivo, a grande peste que assolou Lisboa, em 1569 (narrada no sexto passo, 207), onde encontramos expressões como “grande mortandade” e “Se conto assim é porque fugi, fui mau, sobrevivi.” (208), que, segundo penso, remetem para a primeira parte do poema “Nós” de Cesário Verde.

3. A estrutura bífida do romance pode ser deduzida numa primeira leitura, até porque o escritor não se cansa de o repetir em várias passagens.
Como já referi acima, o romance apresenta duas partes: a primeira intitulada “Recto / Index” e a segunda denominada “Verso / Uma História Mal Contada”, onde a ficção anda de mãos dados com a realidade/verdade histórica. Registe-se o facto de o dominicano que veta o lançamento do livro “Recto / Index” ser o mesmo que narra o “Verso / Uma História Mal Contada,” segunda parte da obra. No entanto, a mão do copista, ou melhor, do autor, é visível ao longo da narrativa, como patenteia o excerto seguinte: “Digo que a escrevo aos vinte e cinco anos, com factos históricos que só ocorreram depois, e um amigo, Duarte Nunes, acabado de nascer (em 1530?), completará, se quiser”. (139) Neste capítulo, que é o último da primeira parte, narrado na primeira pessoa, Fernão de Oliveira fala, em jeito de autobiografia, das obras que já publicou. (139) Quero, também, destacar a preocupação do gramático em escrever “este discurso em romance” (idem), o que enalteceria e ajudaria a Língua Portuguesa a autonomizar-se e a impor-se, definitivamente, ao Latim. (139, 40) Veja-se, a este propósito, o discurso parentético sobre a sua obra A Arte da Navegação, que passo a citar: “Perdeu-se; mas também era em latim…” (140)
Outro argumento que posso convocar para a unidade da obra cumpre-se nesta passagem da segunda parte do romance: “Do que Fernando dá nota […] no recto de um manuscrito, que desejava nosso primeiro romance em prosa.” (154, sublinhado meu) Não será difícil passar o determinante do plural para o singular, corroborando, em meu juízo, o “estratagema” do manuscrito e toda a sua envolvência, como atrás demonstrei. Acrescento, apenas, que estas e demais passagens escalpelizam a intenção, a sageza e a ars deste soberbo escritor/romancista que é Ernesto Rodrigues.
Encerro este tópico carreando mais três exemplos. O primário diz respeito à menção de um filho que Oliveira não conheceu, com que termina a primeira parte do texto: “Com este manuscrito de Index, encontrava-se roupa de mulher – a qual guardava (Deus da Salvação!) sinal evidente do filho que ele não conheceu.” (144) A chave deste mistério o leitor só a encontrará no final da segunda parte. Também as referências às missões em que partira Fernando de Oliveira são idênticas em ambas as partes, a saber: preferia ruas de Castela à cela lusitana, fuga amorosa e razões de Estado em missão secreta (154). O derradeiro segmento textual que convoco encontra-se na página 170, quando se relata a história do crocodilo que emprenhou uma jovem: “Não seria ele o crocodilo? Judite, a mulher formosa? E labirinto, aquele labirinto e romance da sua vida, que sumulou em poucos dias de Setembro de 1532, como diz?” Este excerto, para além de estabelecer a ligação com a primeira parte do romance, apresenta-nos, igualmente, traços autobiográficos do protagonista da obra.

4. Todo o romance, e por defeito o histórico, assenta na simbiose entre realidade e ficção, tornando, desta forma, o texto verosímil e a intriga mais apelativa e interessante para o leitor. Digamos que à ficção cabe a função de embelezar e suavizar (semelhante à mitologia nas epopeias) os dados ou a verdade histórica. É, sem dúvida, desta luta titânica que germinam os grandes e imortais romances.
Dado que sobre a vertente/realidade histórica já me pronunciei, o meu enfoque centrar-se-á, agora, na ficção. Atendendo ao que já foi escrito, não devem subsistir dúvidas de que estamos na presença de um romance autobiográfico. A obra assenta na tríade: Eu / Fernão / Laura. (cf. Petrarca) Estranharão, porventura, o pronome pessoal. No entanto, o escritor/Ernesto Rodrigues desvela-se na obra nas múltiplas alusões aos seus dados biográficos, que, como são deveras conhecidos, dispensam-me a obrigação de os apresentar.
Outro dado ficcional, de grande relevância para a organização interna da primeira parte do romance, materializa-se na figura do “cristo do ano”. Neste momento, o narrador, recorrendo à ironia, apresenta-nos uma outra visão de Cristo, que nos traz à memória o capítulo III de A Relíquia, de Eça. Refira-se, a este propósito, que o autor se revela um profundo conhecedor do texto bíblico, nas várias referência, citações e alusões que dele faz, associadas à figura de Cristo [cf., a título de exemplo, as páginas 36, 45, 47, 48 e 92]. Cristo, ou melhor, os vários concorrentes ao concurso “cristo do ano”, é-nos apresentado como um simples humano que vagueia em alto mar em vez do deserto até à “queda definitiva”. Também, o cristo-político, que chega com a sua assessora e o seu guarda-costas (60), configura uma alusão clara e sarcástica à prática democrática quotidiana. A Igreja e os seus dirigentes também não são poupados, quando lemos: “Cristãos, é certo, mas nada apostólicos.” (143)
Refiro, de seguida, alguns dados que auxiliam o leitor a desfazer a teia urdida, de forma ficcional, pelo autor, quando divulga as datas da biografia de Fernão de Oliveira (139).

No capítulo catorze, “Índice”, que pode ser lido como o desenlace da primeira parte, o relator desfaz o tecido, qual Penélope, que tecera no início e revela ao leitor que tudo não passou de uma ficção: “Ficámos num ah. O leitor, perplexo, que não era para menos. Fora enganado.” (130) Este tópico é retomado no início da segunda parte, corroborando o que afirmamos acima sobre a unidade da obra, em que o narrador interpela diretamente o leitor, à semelhança de Garrett nas Viagens…, ao afirmar: “Eu avisei-te, leitor.” (149) O autor/narrador, no seu intuito de codificar o texto, para de certa forma ofuscar a lente, joga com a escrita, afirmando: “se não escondesse, entre anátemas ao leitor, é que a minha vida não faria sentido.” (185)
Outro aspeto ficcional que enriquece o texto encontra-se nas razões que presidiram à saída de Portugal de Fernão de Oliveira, uma vez que, sendo múltiplas, não são claras. Para além das três, já referidas, menciono, ainda, vigiar a Europa que fazia concorrência a Portugal, em especial na arte de marear. (154)
O derradeiro aspeto ficcional que indico prende-se com o censor que redigiu o “Parecer”. Parece-me que, para acentuar mais a ficção, o leitor é conduzido ao pensamento de que este censor poderá ser o mesmo Frei Bartolomeu Ferreira que escreveu o parecer de Os Lusíadas e que, segundo reza a lenda, teria um gosto literário apurado, caso raro nessas funções, tendo salvado vários livros da Inquisição, no século XVI. Por fim, no sétimo passo, o narrador, ao referir-se, de forma condoída, ao conceito de fim da pátria, em 1580 (225), reafirma, dando a palavra a Fernão de Oliveira, que o que permanece é a escrita e, dentro desta, sobretudo a ficção: “A ficção consegue esse milagre. Transformou-me no que não tive coragem de ser, por cobardia, dando-me, pouco antes de morrer, a coragem de me salvar aos olhos de dois amigos.” (226)

5. Outra característica que ressalta à vista, da leitura desta obra, é o seu pendor moralizante ou pedagógico, sempre orientado para a positividade da vida. O narrador começa por afirmar: “A dúvida marcou-me.” (17) E acrescenta: “Tem de haver razão forte para se continuar na mentira.” (17) A importância destas sentenças prende-se com a filosofia de vida que podem dar ao leitor, auxiliando a sua autognose e o conhecimento do mundo em que vive. Na página 28, encontramos: “Tem cada homem seus caprichos; e, se pudermos, não sejamos infelizes.” Aliás, a procura da felicidade é o ideal de todo o ser humano. A felicidade associada à tranquilidade e à paz de espírito auxiliam a caminhada terrena, como lemos nesta passagem: “É injusto não viver tranquilo.” (51) E como “Nunca sabemos para que funções estamos guardados.” (88), “Não podemos ser tão mudáveis.” (65), e, para a consecução desse desígnio, “A velha amizade, o melhor caminho”. (64)
 Noutros momentos regista-se a desilusão do autor com a postura e a mentalidade dos seus concidadãos, que tendem a valorizar o que é estranho: “É prática antiquíssima ir buscar fora o que não há dentro.” (36) Tudo isto são consequências da liberdade em que vivemos e que deve ser continuamente repensada e defendida: “Tê-la-íamos, à liberdade, sem tantas imposições?” (57) Encontram-se, ainda, conselhos relacionados com os livros, isto é, o alimento do espírito: “O amor vai bem na falta de livros. Cresce em prazer.” (67); e, também, “Onde falta pão faltará livro.” (88)
Para concluir, arrolo: “É muito antiga esta miséria portuguesa de não saber dar lugar às virtudes, nem engradecer honrosos pensamentos, antes acanhá-los em modas, e desprezá-los, contentando-se da glória de seus passados.” (167) Esta afirmação em jeito de desabafo, ao estilo de Saramago, enfatiza a realidade portuguesa, tanto passada como presente, visto que somos tão eficazes a reconhecer e a louvar os de fora como a rebaixar os de dentro. Só deste modo se pode compreender o desabafo do narrador: “A vida é triste; nem sermos bons nos alegra por dentro.” (185)

6. É um lugar-comum afirmar que o escritor escreve para o presente, embora o tema, a ação do romance verse sobre o passado ou o futuro. O mesmo se infere das palavras de Umberto Eco: “Haverá algum escritor que escreva apenas para as gerações futuras? Não, nem pode sequer afirmá-lo porque, como não é Nostradamus, só pode conceber os leitores futuros a partir do modelo daquilo que sabe dos contemporâneos.” [Eco, 1984: 41]
Ora, com este romance, Ernesto Rodrigues quer filar a mente dos seus contemporâneos e auxiliá-los na sua via-sacra terrena, como vimos no apartado anterior, para que os mesmos se tornem cidadãos mais cônscios, conscientes dos seus direitos e deveres. Desta forma, o leitor não estranhará o facto de se criticar, sempre com ironia, predicado do autor, o aproveitamento que as pessoas fazem da vida nos dias de hoje, que jogam golfe e desperdiçam o tempo nestas e noutras distrações mundanas, em vez de se dedicarem a causas mais nobres e que deem sentido à existência: “Além do termalismo, estes metem bolas em buracos verdes e disputam-se canoas, com afogamentos à mistura. É uma forma de passar a vida.” (52, sublinhado meu) Note-se o verbo passar, que me parece ser sinónimo de gastar/perder a vida, ao invés de a ganhar, salvando-se a si e ao próximo.
Outro exemplo de que o escritor está preocupado com o presente da escrita pode ver-se na referência que faz às lutas intestinas entre os membros da Igreja, que, pelo poder, tudo realizam até matar e abandonar quem lhes possa fazer frente. “O provincial, setentão, conquistara o lugar a troco de subornos. Leiloaram almas, uma a uma, e, bom, em cinquenta anos de nenhuma oração rezada de cabo a rabo, vira desertar uns para o Céu, outros para o século, chantageando restantes. Sem amigos. O que esperava? Fazer-se cortesão. Cuidar imagem. Subir ao céu possível.” (78) Isto se poderia dizer, sem trocar vírgula, da política portuguesa atual, como o leitor, facilmente, deduzirá. Nem eu concebo retrato mais sagaz e acabado da sociedade contemporânea. A denúncia e a condenação da homossexualidade e dos abusos execráveis pelos membros da Igreja, que infelizmente estão na ordem do dia, encontram-se forjadas nestas linhas: “O adjunto concedia-lhe favores carnais. «Carne de sua carne», e riam.” (79) A intemporal aliança e cumplicidade entre a política e religião é aflorada em várias passagens; cito esta, a título de exemplo: “fosse um mártir da fé ou cativo por razões de Estado. Fé e política irmanavam-se.” (134,5) A administração da justiça e o comportamento dos magistrados davam/dão mau exemplo ao estrangeiro, repercutindo-se esse facto, de forma negativa, nas relações de Portugal com outros países: “Disto se segue que muitos dos nossos infelizes compatriotas, mareantes e mercadores, entre aqueles e outros povos, sofrem ofensas por falta de cautela dos magistrados deste reino, cuja prudência por modo algum atende aos negócios externos.” (201)
Contudo, esta aguarela portuguesa só fica completa com as tintas da ignorância e da desinformação, porque o saber é encarado como um perigo para quem governa, que não gosta de ver questionado o seu poder discricionário. Esta postura remete-nos para as palavras, sempre atuais, de D. Miguel, na obra Felizmente Há Luar!, de Luís Sttau Monteiro: “Sonho com um Portugal próspero e feliz, com um povo simples, bom e confiante, que viva lavrando e defendendo a terra, com os olhos postos no Senhor. […] Não concebo a vida, Excelências desde que o taberneiro da esquina possa discutir a opinião d’el-rei, nem me seria possível viver desde que a minha opinião valesse tanto como a de um arruaceiro.”[5]
 O tríptico completa-se com as cores do silenciamento e da uniformização, isto é, do pensamento único, ou melhor, da rejeição do mesmo, sendo preferível seguir as ideias do “chefe” de forma acéfala, muito em voga na atualidade. Tal como lemos no romance: “Tudo se faz para que um homem não duvide. A pensar no bem de quem?” (134); “O latim é útil, se traz o silêncio dos ignorantes e a mastigação corre de boca em boca fechada.” (107, sublinhado meu)
A terminar esta parte, apresento, à guisa de conclusão, este excerto que sintetiza o pensamento do autor sobre o assunto, que corroboro: “Nós somos criação divina, não criadores. Partes de uma obra que nos pede louvor, sem a interrogar. Viver rotinas educa-nos a acção e desbota as cores fabulosas da imaginação, que não é ofício próprio de quem reza para o mesmo lado.” (162)

7. A defesa da língua Portuguesa é uma questão que atravessa todo o romance e o seu elogio ou ataque é colocado nos lábios de vários personagens. Assim, encontramos várias posições, desde logo, a de Fernão de Oliveira, que a sustentava abnegadamente, em pleno tribunal da Inquisição, combatendo a posição desta, que defendia a ideia de que “a nossa língua é um empecilho; maior, só mesmo quem a mastiga.” (181) Perante esta tese, é impossível não pensar nos ataques que, de forma mais ou menos velada, se fazem, no presente, à língua de Camões. Lembro, ainda, o grande enfoque que se tem dado ao Inglês nos últimos anos, mais parecendo que basta sermos proficientes nessa língua. Ouçamos, de novo, em jeito de reflexão final, o autor: “Eu juraria que quem folga de ouvir língua estrangeira na sua terra não é amigo de sua gente, nem conforme à música natural dela.” (180)
Outra agressão, em minha opinião, que deixou marcas insanáveis na Língua Portuguesa, aconteceu com o último acordo ortográfico, agora em vigor, e no pouco cuidado que os teóricos manifestaram perante as sensibilidades do idioma pátrio. Esta atitude parece-me mais consentânea com a da Inquisição, referida antes. Talvez seja por essa ordem de razões que o autor Ernesto Rodrigues não segue a nova ortografia.
Saliente-se, ainda, o interesse e a valorização das letras pelos cidadãos, pois os nobres da época deixaram de convidar João de Barros por este não os citar nas suas Décadas. (cf. 191, 2) O assunto não pode sem mais atual, uma vez que os elogios, por norma, se fazem por interesse e não por mérito. Este episódio traz-nos à memória os decassílabos do canto V, estância 97, d’Os Lusíadas, “Sem vergonha o não digo: que a razão / De algum não ser por versos excelente / É não se ver prezado o verso e a rima, / Porque quem não sabe arte, não na estima.”[6]
Na senda desta inquietação encontramos este exemplo: “Fernando contou de Júlio César, que, embora clemente, despediu «um legado consular, por lhe escrever em uma carta um icsi por epsi».” (202) De seguida, desabafa: “E agora tem-se tão pouco respeito ao bom ou ao mau escrever…” (202) Creio que, se o leitor encontrasse estas palavras descontextualizadas, não teria dificuldade em atribuí-las ao presente, tal é a sua atualidade. Foi por estas e outras semelhantes atitudes que o protagonista da obra padeceu, como se depreende da leitura, em dois momentos, os suplícios do Santo Ofício, sendo vítima da inveja, da religião e do tempo, que o odiavam pelas suas ideias vanguardistas para a época.
Apresento um outro exemplo que ilustra o pioneirismo do gramático Fernão de Oliveira, no qual defende a ideia de se escrever como soa (cf. 194). Esta proposição é, hoje, a pedra de toque da linguística moderna e do novo acordo ortográfico. Por último, refiro esta citação: “alimentava-se de pão e tinta.” (216) ‒ confirmando a grande afeição que Fernão de Oliveira/Ernesto Rodrigues dedicam à Língua Portuguesa.

8. A peregrinação terrestre sempre esteve associada ao sacrifício e ao cumprimento de regras e preceitos. Desde o fardo bíblico ‒ “comerás o pão com o suor do teu rosto” (Gen. 3,19) ‒ até aos nossos dias, a vida terrena é feita de trabalhos e canseiras que só podem ser suavizados pela disciplina e pelas regras, estando o ser humano em constante devir.
Assim, o homem é ajudado pela disciplina e pelos ensinamentos que adquire sentado à mesa de trabalho, imitando São Jerónimo: “onde erguera estante breve para imitar São Jerónimo.” (123) Conclui-se, deste modo, que o labor intelectual é austero, duro e sem distrações supérfluas.
No capítulo “Final”, verificamos que o homem é transformado pela caminhada: “Olhando para trás, estes dias são eternidade, e o que vejo está um pouco antes, na juventude feita dúvida, naqueles olhos que não louvei bastante, quando se entrefechavam no supremo prazer que só o amor admite.” (133) Estas palavras podem remeter o leitor para os versos “caminhante não há caminho faz-se caminho ao andar”, de António Machado. No entanto, o percurso cultural e moral do homem é atribulado e feito de dúvida e de conhecimento: “Eu duvidava, não de Deus, ainda” (48) Nesse itinerário, o homem dispõe da ajuda da mulher que lhe prepara a fuga para o levar para longe e amá-lo, sem intrigas, invejas (63) e longe dos enredos civis e religiosos. (64) A mulher, ou melhor, o cristo-mulher inspirado na figura bíblica de Judite, não é mais do que um instrumento da justiça divina para o bem e para o mal. (134)
 A caminhada é árdua, mas o homem/narrador não se dá por vencido; “Eu estive lá. Saí derrotado, mas não vencido.” (154) Creio que estas palavras partilham da filosofia de vida do velho Santiago de O Velho e o Mar de Ernest Hemingway, que afirma: “Um homem pode ser destruído, mas não derrotado.”[7] O narrador/autor, para não claudicar, exercitava uma disciplina férrea que o subjugava: “A disciplina custava-lhe, como a todos nós.” (162) Próximo do fim declara, num tom mais intimista e até confessional, que amou e que nunca prejudicou terceiros, e, por isso, segue em paz com a sensação de dever cumprido, embora se queixe da indiferença de que é difícil libertarmo-nos: “Vou pacificado, mártir ou santo de circunstância. Cada um dirá de mim parte dos seus receios.” (140)

Termino esta proposta de leitura convocando, em minha defesa, as palavras de Eduardo Lourenço: “O crítico é o leitor que se crê autorizado a decidir por imaginar ter descoberto os critérios, os pontos de referência, o sistema capazes de introduzir uma ordem no caos da criação.”[8]
Nem outro foi o meu propósito, sempre norteado pela sentença de Sá de Miranda: “Quantos os ledores, tantas as sentenças.”






[1] GENETTE, Gerard, Paratexts: Thresholds of Interpretation, Cambridge University Press, 1997.
[2] ECO, Umberto, O Nome da Rosa, Difel, Lisboa, 1980.
[3] Refiro o exemplo do parecer de Os Lusíadas, que poderá ter funcionado como modelo para o autor, visto que é o mesmo frei (Bartolomeu Ferreira) que assina os dois “documentos”.
[4] ECO, Umberto, Porquê «O Nome da Rosa», Difel, Lisboa, 1984. Na página 35 desta obra, podemos ler: “Só me apercebi disso dois anos mais tarde, justamente ao tentar encontrar uma explicação para o facto de o livro também ser lido por pessoas que não podem naturalmente gostar de livros tão «cultos».”  
[5] MONTEIRO, Luís de Sttau, Felizmente Há Luar!, Areal Editores, 1999, pág. 69.
[6] Camões, Os Lusíadas, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Júlio da Costa Pimpão. Apresentação de Aníbal Pinto de Castro. ICALP, Ministério da Educação, Lisboa, 1989, pág. 147.
[7] HEMINGWAY, Ernest, O Velho e o Mar, Tradução de Jorge de Sena, Livros do Brasil, Lisboa, S. d., P.109.
[8] LOURENÇO, Eduardo, O Canto do Signo Existência e Literatura, Editorial Presença, Lisboa, 1994, P. 21.

sábado, 14 de março de 2015

Da Lacailândia lusa, ou a ficção como verdade

Parabéns por um tão raro discurso nesta casa. Tudo isto é ficção, a que se rende realidade.
Ernesto Rodrigues, Passos Perdidos

Vamberto Freitas

Numa das recentes apresentações deste seu romance, de título e significado inevitavelmente polissémicos, Passos Perdidos, Ernesto Rodrigues traçou dois fios condutores da trama ficcional por ele urdida – o diálogo com algumas obras canónicas portuguesas, com Camilo Castelo Branco (A Queda De Um Anjo) e Eça de Queirós (O Primo Basílio) em primeiro plano, e ainda alusões ou citações de alguns outros ficcionistas e poetas, com Camões ao centro e logo nas primeiras páginas através de versos mais do que pertinentes aqui (Os bons vi sempre passar/no mundo graves tormentos), e depois a também inevitável “realidade” política que desde há décadas subverte todo o projecto que foi a Revolução de Abril de 1974, ou melhor dito, todo o liberalismo ou democraticidade que saiu da nossa guerra civil de Oitocentos. Não há qualquer “ansiedade de influência” nestes gestos do autor, mas sim a continuidade que uma grande Tradição literária e discursiva nunca deixa de provocar nas melhores obras de arte que partem de uma mesma língua e/ou geografia de afectos e comunidades imaginárias, e sobretudo de identidades partilhadas. Um escritor sem memória histórica terá muito pouco ou nada a dizer a outros num acto de criação, por mais “artifício” que se lhe reconheça. Palavras cruzadas também requerem algum conhecimento vocabular e noções de cultura geral, mas são de todo vazias e significam absolutamente nada. Alguma ficção pós-modernista, a partir doa nos 70, tinha pouco mais do que o umbigo próprio para descrever ou auto-mortificar-se, a sua comédia raramente passando das patéticas biografias reinventadas e da confusão que é estar-se vivo sem uma ideia de rumo pessoal ou comunitário, ou então fechado no egoísmo de rapazes e raparigas privilegiadas nas sociedades ocidentais. Pouco já os lêem, depois de passados os quinze minutos de fama e estrelato. Aliás, também os anos de suposta ou falsa inocência social do pós-Guerra já passaram, foram implacavelmente desmontados neste últimos tempos, estando de regresso, creio, a arte literária que tem a sociedade como tema, que volta a ser a fonte de beleza e interpretação, de ideias e reflexões, e na qual só se distingue a forma se o conteúdo a merecer. A arte literária é, sempre foi, esse gesto à procura do diálogo, a estética oferecida como afirmação ou sugestão do estado ou da condição humana, vivida e testemunhada num determinado lugar e tempo. “Política e literatura” é o mesmo que dizer “sociedade e literatura”, e em língua portuguesa as obras primas de ficção, a partir do século XIX, a partir precisamente dos dois nomes insistentemente convocados por Ernesto Rodrigues nesta sua obra, Camilo e Eça, estabeleceram as suas temáticas e, até, o seu olhar, quase sempre pela sátira pura, a paródia, a fábula carregada de humanidade.
Esqueçamos a trama de Passos Perdidos – uma tentativa de corrupção legislativa na que ainda chamamos “a casa da democracia” por parte de determinados interesses financeiros – e destaquemos alguns momentos, dizeres e personagens que giram em volta da Assembleia da República e arredores, especialmente políticos, banqueiros e jornalistas, o triângulo de tudo e todos que fazem da vida pública o meio principal de levitação, horizontal quase sempre, aos céus, à glória e ao enriquecimento por “qualquer meio necessário”. Os personagens do romance são poucos,  mas necessariamente todos relacionados por laços secretos e de sangue, de sugas-várias, ou por outras prosmicuidades nas quais a cama é de somenos importância e honradez, na maior parte dos casos. Um autor com a formação académica e intelectual e a obra literária ou de investigação de um Ernesto Rodrigues não podia construir uma narrativa “política” da nossa actualidade que não fosse esta. Para além do referencial muito português atrás referido, digamos que o romance funciona não somente como uma espécie de súmula do muito quanto já foi dito e escrito ao longo de quase toda a nossa história nacional, como ainda partilha afinidades com outros escritores e obras além-fronteiras. Não sendo Passos Perdidos um romance futurista ou sobre o totalitarismo histórico, não deixa de fazer lembrar um George Orwell, particularmente o do já tão clássico como profético 1984 – a corrupção semântica generalizada de um simples vocábulo e ainda mais das linguagens em tudo referentes às sociedades e seus “negócios” resulta da corrupção generalizada de quem tem o poder de fazer, refazer, dizer e redizer as acções de quem governa simplesmente para se governar, o poder pelo poder (freudianamente entendido), a noção de civismo ou de “comunidade” uma qualidade – uma “fábula” – nunca lembrada pelos servidores dos seus patrões, ou pelos trepadores da glória pessoal, sem um mínimo de ética ou pudor. Dir-me-ão que assim sempre foi, e provavelmente sempre será. Responderei que os que constituem bolsas de resistência ao descaramento e comportamento atávico de governantes e outros agentes poderosos das finanças que se escondem por detrás de linguagens, uma vez mais, corrompidas, portanto sem qualquer sentido transmissor da verdade e muito menos do bem comum, tal como se tem tentado defini-lo desde o Iluminismo, serão sempre os escritores, os sucessores dos antigos “cronistas” que adivinhavam o analfabetismo dos seus senhores mandantes para, tantas vezes entre linhas e em metáforas brilhantes, avisarem as gerações vindouras da canalha a quem serviam, e tinham de servir. Nem todos são Velhos do Restelo, e antes fossem no que diz respeito ao sentido de nação ou pátria. A beleza deste género de literatura também reside aí – a confirmação de que a imperfeição humana nunca deixa de ir aos seus extremos, que a riqueza de uns é a opressão e vitimização de todos os outros, e cabe precisamente à arte não esquecer a dialéctica da história em busca de uma síntese racional, que poderíamos ainda redefinir simplesmente como “decência cívica”. A longa epígrafe deste romance vem de a Arte de Furtar,“Dos que furtam com unhas políticas”. Uma sátira política tem as suas regras: o riso é cruel, é “o pisar e repisar da vítima”, como diria entre nós José Martins Garcia. Só que a “vítima” somos nós, os que não lêem juntamente com os que lêem sofisticados romances como este. Atravessamos os Passos Perdidos rumo às sessões plenárias com os que para lá vão, sentam-se sem nada dizer anos fora, alguns os predadores e predadoras profissionais, outros os “borboletas” da moda, hoje em dia em estilo fino e próprio, conforme a vontade Armani e afins, a comédia humana uma encenação que vem de longe, os narradores recorrendo a discursos de séculos passados, nestas páginas comicamente repescados como se originais ou corajosos fossem, as suas generalidades dirigidas a todos e a ninguém. Tal e qual – é só ligarmos o telejornal num dia qualquer.
“Sodomizaram-no?” – pergunta em entrevista uma jornalista ao deputado conservador e  que durante quarenta anos não abrira boca, a propósito de outro colega seu, mas cujas andanças estão em causa. “Ele não sabia – deduz o narrador do momento – o que isso era, pois o vocábulo não frequentava o hemiciclo (ao menos, a horas decentes), não subira à tribuna de honra nem o recordava dos códigos, audições ou debates, logo, não constava do diário das sessões, cujo vocabulário mais terso ele registava em caderninhos azuis de folhas quadrículas, na falta de palavras cruzadas, que se recusaria a buscar na Imprensa profana, com que os colegas adormeciam. Na capa, inscrevera DLP, que julgavam dicionário da língua portuguesa; era, sim, da lábia parlamentar”.
Passos Perdidos é essa narrativa meio clara meio obscura, um jogo de sombras e espelhos entre todos os seus personagens, e muito especialmente uma interpelação sobre o que constitui ou não a nossa identidade, pessoal e colectiva. Quem somos, e que povo somos?  De onde veio esta geração em tempos já pós-modernos e pós-revolucionários, que nos governa e assalta como se nada tivessem aprendido do passado, como se história tivesse sido totalmente apagada, ou pelo menos nunca aprendida? “Corrupção” ainda quer dizer alguma coisa entre nós? Será que os teóricos literários mais radicais têm razão quando falam já numa idade pós-humana, não se referindo, supõe-se, exclusivamente às tecnologias hiper-avançadas que parecem fazer de nós meros instrumentos de quem as detém e mobiliza na luta pela supremacia absoluta? Ernesto Rodrigues já viu e viveu muito mundo para além do país da sua nascença, já muito escreveu sobre história e discurso público, que também dão pelo nome de “jornalismo” e “política”. Este seu romance é uma outra transfiguração de todos esses saberes e percursos, os nossos próprios dias projectados em literatura, que é sempre o testemunho mais duradouro e, sim, verdadeiro.
__________
Ernesto Rodrigues, Passos Perdidos, Âncora Editora, Lisboa, 2014.

[Açoriano Oriental, 13-III-2015.]

domingo, 1 de março de 2015

Política, Finança, Jornalismo

Retomando prática em que terei sido pioneiro ‒ ser o autor a falar da sua obra, que deve conhecer minimamente ‒, apresento, agora, o meu quinto romance, Passos Perdidos (na Âncora Editora, sob comando de um prático experimentado, António Baptista Lopes), agradecendo a generosidade de espaço mais do que centenário a que retorno, e rogando um olhar sereno dos leitores e eleitores que me ouvem, ou lêem, sobre um ano decisivo nas nossas vidas. A democracia definha; o Estado de direito é subvertido por serviços secretos ‒ que reconhecem as ilegalidades em que incorrem. Serei breve, para dar azo a debate que gostava seguisse estas palavras, dedicadas a Amigo que o sofrimento retém em casa: Amadeu Ferreira.
Quando três personagens sobem a escadaria da Assembleia da República, vencem o detector de metais e caem no salão-corredor exibindo seis painéis a óleo sobre tela de Columbano que retratam 22 heróis pátrios desde o século XIII, não podemos deixar de pensar, também, que os designados Passos Perdidos são uma imagem acusadora dos últimos dois séculos (desde 1821), em que o desleixo dos eleitos está longe de rivalizar com «os visionários D. Henrique e filho Afonso», e com aquele pequeno milhão de Quatrocentos, que deu novos mundos ao mundo. Eis o cerne do problema, qual chaga aberta no Portugal contemporâneo ‒ eleitos e sistema eleitoral, sobre que tanto se fala, sem proveito, e que o voto soberano não deveria caucionar.
Duzentos e trinta deputados, ah!, se magníficos, seria música de esferas, senão puro maná; mas nem um filme sobre 12 magníficos faríamos, o que leva a perguntar da desrazão de alimentar sujeitos além dos 180, como prevê a Constituição. Já agora, esta, que começou a ser redigida há 40 anos, pode ser facilmente depurada.
Várias soluções estão previstas no diálogo entre dois estagiários de 24 anos, que representam a posição da juventude face à partidocracia. Desde a epígrafe, tirada da Arte de Furtar, alerta-se para amálgama entre Política e Razão de Estado, ambas reduzidas aos interesses mesquinhos de sujeitos privilegiados, e sem elevação, que se eternizam.
Conviria, diz a jornalista estagiária ‒ não somos todos estagiários da vida? ‒, «abrir os partidos à sociedade, a candidaturas independentes, como nas autárquicas, antes que a sociedade os encerre em si mesmos». Não desejo o fim dos partidos; estes é que, sem a qualidade exigível, não podem ser senhores de um destino colectivo. Mais: votando em partido, e em círculo nacional, devemos poder votar num candidato da nossa preferência, e não forçados a eleger os que são postos à boca do tacho, seja, nos primeiros lugares da lista. Entendo que a eleição uninominal só aterroriza inseguros, autocratas, que não merecem a confiança do eleitorado.
Argumenta-se que reduzir a Assembleia a 180 significa, além de demagogia (como, se está previsto na Constituição?), ferir a proporcionalidade e reduzir a nada regiões do interior. Ora, a regra histórica é a desproporcionalidade, que só muda no grau ‒ e já nem falo de troikas e comissários europeus não-eleitos, que governam as nossas vidas. Entretanto, acautelem presença digna das regiões, começando por abolir a disposição constitucional que proíbe partidos regionais. Por que razão um partido do Chiado, alegadamente nacional, há-de disputar percentagens vergonhosas, e não se admitir uma força declaradamente regional?
Na Lírica de João Mínimo, há um poema, datado de Coimbra, Dezembro de 1820 ‒ em vésperas de entrarmos no regime demo-parlamentar que nos governa ‒, em que Almeida Garrett, aludindo aos deputados, os avisa de que os olhos do mundo e dos portugueses estão sobre eles e que devem tremer do julgamento que prestaram: «tremei; que um Deus ouviu, que ouviu a patria, / Que os seculos vindouros vos aguardam; / E no recto provir, ou gloria, ou mancha, / Com sêllo eterno vos espera a fama.» O século XIX, todavia, vai rir-se de eleitos que não eram melhores que os de hoje. Lembro um candidato madeirense à «dobadoura parlamentar», que já projectava lei, cujo artigo primeiro permitia «a todo o belleguim eleitural o poder mamar na vacca do estado, sem pagar direitos de mercê, nem contribuição alguma».
O deputado dividia-se, então, em janota e pé-de-boi. Aquele, jovem e vestindo à parisiense, luneta, «tem ordinariamente desde a edade legal até aos quarenta annos». Tenho um assim, sem luneta, mas sexy. Prima por chegar tarde, sentar-se, vaguear pela sala, cumprimentar repetidas vezes, complacente para as galerias. O janota representa-se «ordinariamente a si e à sua toilette». No seu «borboletismo», vai de partido em partido: «Os maldizentes chamam a isso falta de carácter, elasticidade de consciência, frouxidão política, moléstia de S. Bento, etc.»
O segundo, respeitável, «verdadeiro pae da pátria», parece mais velho do que esta, é um pé-de-boi, gebo parlamentar, calva semicircular ou chinó. Move-se entre «dois colarinhos monumentaes», usa «colete de rebuço descommunal», grave, sossegado, roncando, se dorme, e, acordado, prefere ‘ordem’, enquanto a janotagem grita ‘apoiado’. «O deputado pé de boi representa o seu voto.» Mas essa de ‘pai de pátria’ intrigava um tal Silva Costa, que cito da Gazeta Literária (1867): «Dizem que o deputado é um pae da pátria… ora tendo a pátria tantos paes, dá uma ideia pouco favorável da virtude de sua mãe. Isto é lógico. Que um pae tenha muitas filhas, é natural, comprehende-se: mas que uma filha tenha muitos paes… não há explicação possível… sem offender a moral.» Quanto a essa imagem, dou outros exemplos­ de Latino Coelho a Ramalho, de Eça a Teixeira de Queirós ‒ na minha edição de A Queda Dum Anjo, que começou a sair em folhetim há 150 anos, e foi primeira inspiração…
Há outro aspecto, gravoso: a promiscuidade entre finança e política, que desencadeia a acção do romance. Com efeito, um banco de investimento quer vender projecto de lei a deputado democrata-cristão há 40 anos sem intervenção no plenário da Assembleia da República. Nunca saberemos que projecto de lei é esse, porque o fundamental está alhures, para não dizer além da lei. Como se chega ao desplante de invadir a Casa da Democracia com intenções viscosas? E justificar esse silêncio de túmulo, vivido, afinal, entre chantagem de colega deputada e lembrança de amor único, talvez perdido?
Neste universo de sambenitos, figuras secundárias tornam-se mais importantes do que julgaríamos, e talvez esse deputado não seja tão estúpido como ressalta da enunciação de um jovem narrador, perdido em custoso amadurecimento, fruto de família desagregada. Mas é a vingança que tudo move, apoiada em razão antiga ou recente, e confunde deputada da oposição, não sem vitimar esse eleito janota, mais calhado para passerelles de moda. Desvela-se a morte parlamentar de extrema-esquerda inconsequente (gostaria de me enganar, e que a esquerda estivesse menos fragmentada), mas também sai criticado um partido nem carne nem peixe... Certo é que os partidos não olham para dentro de si mesmos, nem percebem que o povo não é parvo ‒ com a diferença de que tem menos benesses e se revoltará, um dia. Perguntada se vota, responde a jornalista:
«‒ Nestas múmias?
‒ Não me lembre o Museu Britânico...
‒ Deixem-me rir… Quem os conhece? Para os anos que exercem, e matérias tão sensíveis, onde é que estudaram? Ou só eles é que não precisam de estudar? Trocava lá a praia por indivíduos que não inspiram confiança…
‒ …Que, se pudessem, comiam-na viva, qual lagosta das águas territoriais portuguesas.
‒ Lá isso, acredito. Quando posso, vou aos museus.
‒ Como eu. ‒ Enfim: também sou pouco de museus. ‒ E se fosse obrigatório?
‒ Votar? Sem alterações de fundo, nas atitudes e nas escolhas? Sem saber donde lhes vem o dinheiro, quando deviam ser modelos de transparência? Porque seria melhor a ditadura dos partidos, que se encostam ao próprio interesse?»
A abstenção é já um aviso. 
Discursos inócuos ou repetitivos reflectem outros tantos passos perdidos que a Constituição e legislaturas fracas não transformaram. Aproveito para inscrever em ficção uma das pérolas dos anais parlamentares, lançada por senhora que conheci na juventude: «O meu medo é o do inconseguimento… o inconseguimento de eu estar num centro de decisão fundamental a que possa corresponder uma espécie de nível social frustracional derivado da crise.»
Se a glosa do camiliano A Queda Dum Anjo é evidente, será menos o único e longo discurso de João Félix Filostrato, adaptado de outro, do futuro chefe progressista José Luciano de Castro, em 1865. Ou seja: as boas intenções deslizando da tribuna parlamentar ficam sempre em águas de bacalhau. E, claro, não podemos continuar nisto. Reflexão sobre a democracia em semana pascal ‒ seja, entre os próximos dias 1 e 9 de Abril ‒, esta fábula política é, todavia, salva, no final, por um bem enredado discurso amoroso. O que São Bento tem de chorrilho e lábia inútil, tem a saudade amorosa de recato e grata consequência. E, sendo estagiários da vida, resta-nos gozar a felicidade…
Gostava de assinalar outros pormenores da vida nacional que não ficam nas entrelinhas: a acção deletéria dos meios de comunicação (em particular, da televisão), quando podiam ser escola de virtude, de esclarecimento, de humilde busca da verdade, sempre fugidia; a excessiva opinião que os inunda, encabeçada pelos filósofos da bola em sua língua de trapos; a trivialidade de figurinos e figurões, heróis do efémero (que substituirão, um dia, os painéis de Columbano), face aos quais, além da democracia e do Estado de direito, também o país-nação definha.

Num misto de corrosivo social e relações oblíquas, entre logros e acentos policiários, julgo que se lê com prazer este romance-divertimento, embora sério nas questões elencadas e na lição moral que dele se evola. Desejo que as frentes política, financeira e jornalística não distraiam das decisivas (para bem e para mal) relações familiares em jogo, que tudo determinam, ora mostrando a mesquinhez da inveja, ora pacificando insofridos corações, em final feliz; enfim, quem me dera fosse degustado ‒ na ironia, na sugestão, em cada um dos vocábulos longamente estudados ‒, fosse saboreado, dizia, o ritmo que imprimi a este, não raro evanescente, não raro cru, monumento verbal. A par de ingredientes da velha escola folhetinesca ‒ origens enigmáticas de filhos entregues à roda, irmãs gémeas, formas de reconhecimento, amor omnia vincit ‒, estas páginas querem-se interventivas, sim, na chaga aberta do nosso sistema político; acima de tudo, porém, é meu sonho que elas sobrevivam no voto que me orienta, seja, enquanto consciência da literatura. Está aberto o debate. 

[Apresentação, pelo autor, de Passos Perdidos, no dia 25 de Fevereiro, na Livraria Ferin, Lisboa.]  

domingo, 4 de janeiro de 2015

Do Movimento Operário e Outras Viagens, de Ernesto Rodrigues


Este livro de poesia é composto por quarenta poemas, elaborados como resposta aos estímulos das deambulações do poeta, como se infere da leitura do título “Outras Viagens”. Os topónimos poetizados por Ernesto Rodrigues são as cidades míticas que enformaram a sua cultura, nessa busca interminável do ser por ele próprio e, através dele, pelo outro, lato sensu, pelo homem em busca da sua felicidade, que o poeta só consegue descortinar pelo amor à língua, cultura e civilização.
A obra abre com a composição poética que dá título ao livro “Do movimento operário”, onde, para além de se fazer uma sentida homenagem ao honesto trabalho com o qual o Homem ganhará o pão, metaforizada no pai do poeta, se compara o ofício da forja, isto é, do ferreiro ao ofício cantante, ou seja, à ars poetica. Assim, para o eu lírico, o processo alquímico é análogo, pois, tal como o ferreiro domina e molda o ferro em brasa para dar forma aos mais belos e proveitosos utensílios, o poeta funde, molda e dá forma às palavras para escrever o verso mais perfeito que consiga auxiliar o leitor na sua autognose permanente.
O segundo poema é um soneto, embora a arquitetura estrófica não seja a canónica, uma vez que é composto por um dístico e três quadras, dedicado à mãe do poeta, onde se patenteia o carinho e a ininterrupta preocupação maternal. Parece-me que o dístico resultaria melhor no final, visto tratar-se da súmula do poema, funcionando, assim, como chave de ouro[1].
Os poemas deste livro podem agrupar-se, segundo creio, em dois grupos: o primeiro marcado pelo tom mais intimista, ou seja, mais lírico, presente nos sete sonetos e nas composições mais curtas, onde se ouve a voz dolorida do poeta murmurando com saudade as doces alegrias pretéritas; o segundo, e mais amplo, compreende o grande número de poemas narrativos, que, na minha ótica, se organizam em torno de duas realidades, significativas a todos os níveis para o poeta, a saber: Europa, e Portugal/Nação/Pátria.
No primeiro grupo, encontramos textos sobre topónimos da Hungria e de outras cidades e países da Europa, que enformaram culturalmente o poeta. Nestes poemas de grande fôlego o tom épico alterna com o lírico, facilitando a comunicação com o leitor.
O seguinte reúne poemas sobre o país, assunto de questionação constante pelo poeta, onde o tom épico secundariza, de vez, a voz lírica, nos quais o eu poemático assume, sem ambages, a atitude prometeica da poesia. Esta atitude leva-o a declarar abertamente o seu intento, que passa por provocar a reflexão no leitor e levá-lo à ação, para que, em conjunto, se possa construir um mundo melhor. Nem outra função pode ser cometida à poesia, a não ser inventar novas realidades a partir do real concreto.  
Permitam-me destacar o poema épico «Outra Pátria», em jeito de súmula do que afirmei. Esta composição apresenta a estrutura interna da epopeia, pois encontra-se dividido em quatro partes: proposição, invocação, dedicatória e narrações. Aqui, creio que o modelo é Camões, uma vez que as epopeias clássicas não apresentam, na sua estrutura interna, a dedicatória. Poema singular e fulcral na arquitetura do livro, onde imitador e imitado se confundem num derradeiro esforço de refundação da pátria, que, por incrível que pareça, continua numa austera, apagada e vil tristeza. Não falo nas aproximações estilísticas, realço, tão-só, os motivos e propósitos enunciados no incipit do poema: “A luz, a cor, o dom de minha terra / canto, no tempo mau em que navego.” [p. 50, sublinhado meu]. Resulta, também, feliz a decomposição dos versos da “proposição” em elementos, realçando, desta forma, o ritmo e a compreensão da leitura. A primeira estrofe da composição 4 da narração corrobora a ideia de privação e do abatimento que persiste em acompanhar o país, no presente, como se percebe pela interrogação com que termina a estrofe: “Que bravia sombra vem, / ronronante, levando-me por sobre / sonhos gastos de pátria tão pobre?” [p. 61]       
É, ainda, pertinente salientar que este carme é antecedido pelos poemas «Língua», em que lemos: “Eu comovo-me, povo, com teu fado, / a coragem de ser além de nós, / tão pequeno, já solo embarcado, / para longes contactos, uns após // outros – em sintonia cor e língua.” [p. 44]; «História de Portugal», no qual se revisitam os acontecimentos fundadores da nossa identidade como Nação; «Pátria», onde “Chão, Deus, água, valor, língua, / são quinas de Portugal” [p. 46]; «Rimas Pobres», em dois andamentos: no primeiro, o poeta apresenta um retrato mórbido do país, como se pode constatar pela primeira quadra: “A maldade tomou conta de nós. / Prometia baixar impostos; dar / emprego a milhares; ser correcto; / ajudar quem precisa, e avós.” [p. 47] A segunda parte encerra com um aviso e a convocação à não resignação dos leitores/eleitores, para que não embalem no falar melífluo dos governantes. “Mas, se fores // na conversa, em ti chorarás quanto / buscou evitar-te este meu canto.” [p. 47, sublinhado meu] O vate acredita na possibilidade de a poesia, “este meu canto”, ajudar a transformar o mundo e a tornar o ser humano mais cônscio; “Governo”, onde se faz uma crítica desvelada à emigração e se apela à pátria, adjetivada de amada, para que, tal como uma mãe, continue a sustentar os seus filhos: “O exílio // não é vocação ‒ pesa ‒, ó amada pátria: sê grande, mas em ti; cria bens;” [p. 48]. A composição «Outra Pátria» precede o poema «Democracia», um longo poema narrativo organizado em seis partes, no qual o poeta, recorrendo a adágios populares e a frases feitas, continua a pintar um quadro do país com cores esmaecidas, onde, apenas, é nítida a falta dessa mesma liberdade que dá título ao carme. O sujeito lírico chega ao ponto de a apostrofar: “Sê, democracia, igual aos que te desejam recta, cultivada.” [p. 64] Ato contínuo, o poeta continua a enumerar as desventuras da democracia, recorrendo, despojado das demais armas, à poesia como a derradeira salvação: “A ti cabe, amigo verso, tal / dedicatória (…) Por ti começa, verso, sermos outros.” [p. 65] Mas, e apesar destes desejos e incentivos para que a democracia seja o sol do país, a composição culmina de forma disfórica, como se pode constatar pela leitura destes versos: “Tens, ó democracia, sangue vil em ti. / Não digas, pois, que és democracia. Oh, / mas que de ilusões o homem se sacia…” [p. 68] 
Parece-me que este conjunto de poemas sob o signo da portugalidade apresenta três momentos. O primário, formado pelo conjunto de carmes que precedem «Outra Pátria», nos quais o poeta reflete sobre o país no passado, no presente e “sem futuro”. Por essa razão, ele propõe uma alternativa, seguindo no encalço de Camões, que passa por reedificar uma «Outra Pátria», acreditando que o canto/a poesia, como aconteceu com o épico, pode cumprir esse desígnio. Penso ser essa a inferência que se pode retirar da leitura da estrofe que encerra o referido poema: “Honrar quem nos comove: língua, chão, / dignidade; ser grande na incerta / lida de viver. Um poema não / faz muito ‒ mas é cais, casa, desperta / asas do sim, que dão cor ao lugar. / Um poema faz-se para criar.” [p. 61, sublinhado meu]
Os antepenúltimos poemas do livro, «Civilização» e «Cultura», reacendem a proposta de Pessoa na Mensagem. No entanto, o que em Pessoa era sonho, crença e esperança nesse quinto império capaz de redimir o país, é, no presente, para Ernesto Rodrigues, desalento, pois “A civilização é um mal sem cura; / sobrevivemos?” É, ainda, miséria e sujeição “dependência, necessidades falsas – sonho de verbo-acto, adjetivo, / quando a vida é nome pobre.” [p. 71] É, por fim, hipocrisia: “Cresce sociedade / no equilíbrio certo / entre o ser e o ter. (…) Morrem / povos famintos. Voam / palavras, que encobrem / os ares; e não vende / arte fora de moda”. [p. 74] A deceção é total, como se depreende da interrogação “Que mundo nos calhou, / tão desequilibrado?”
O livro de poesia Do Movimento Operário e Outras Viagens abre com um tom épico cantando as capacidades do homem que, transformando o mundo, pelo trabalho, se transforma. E finda com o registo lírico em tom autobiográfico no poema «Dono de mim, não perco nada. Séneca», e com a crença nas potencialidades da vida humana em «A vida não é uma linha; tem», onde as últimas palavras constituem um repto à não resignação do ser humano e à crença nas suas capacidades para transformar o mundo: “Faz / da dor teus pés de lã, rasgando lagos; / do riso, praia nua, que afago.”
Epilogando, este livro pode ler-se como uma sonata em três movimentos e em forma circular: o primeiro, onde se faz a apologia épica do trabalho; o segundo, onde ecoam algumas vozes resultantes da fadiga e do ceticismo emanados da espuma dos dias, para, no último andamento, reforçar, de novo, as capacidades individuais do ser humano.
[Segue Acordo Ortográfico]

 Norberto Francisco Machado da Veiga








[1] O poeta discorda. A ‘chave de ouro’ está no princípio, nas origens, abre para a existência; os demais versos, ou passos de vida, justificam essa relação luminosa.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Literatura, sociedade e ironia em Passos Perdidos de Ernesto Rodrigues


Este confirmado romancista teve a coragem e a sageza de satirizar com grande mestria, acutilância e sentido de opalinidade histórica os tempos hodiernos, no geral, e os conluios que sempre se estabeleceram entre política e economia, em particular. Enresto Rodrigues revela ousadia ao abordar este tema premente na nossa sociedade e ao pôr a descoberto as teias que são urdidas no santuário da democracia e que têm enredado o país, desde as sementes de Abril até ao presente.
O título Passos Perdidos só é identificável pela fotografia do espaço homónimo do edifício da Assembleia da República que serve de capa ao romance. No entanto, este título é polissémico, uma vez que perdidos, ou melhor, gorados foram, também, os intentos dos corruptores.   
A obra abre com uma epígrafe retirada da Arte de Furtar, capítulo LX, “Dos que furtam com unhas políticas”, que dá, ab initio, o mote para a trama do romance e permite, segundo cremos, ao leitor inferir o tema a escalpelizar na obra.
Passos Perdidos erguer-se como uma obra fortemente estruturada, visto que é composto por dezasseis capítulos, agrupados em duas partes (cada uma com oito capítulos) ‒ note-se a simetria ‒, seguidos de um sucinto, mas elucidativo epílogo. Quanto à estrutura, o romance apresenta duas partes: a primeira subordinada ao título “A queda de um Anjo”, que, sem dúvida, faz ressoar na memória literária do leitor a obra homónima de Camilo. Outra ilação que o leitor facilmente estabelecerá prende-se com a associação de ambos os protagonistas. João Félix Filostrato é, de imediato, associado à imagem de Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda. Contudo, esta associação perde nitidez com o título da segunda parte do romance, “Redenção”, indicando, desde logo, uma inflexão de conduta em relação ao modelo literário adotado por Ernesto Rodrigues. Temos, então, uma queda mais metafórica do que real, uma vez que a mesma não passa de um subterfúgio para desvendar o ardil, por um lado, e assumir as responsabilidades pretéritas, por outro.
Que Camilo e Eça, nomeado na obra pelo título do romance O Primo Basílio (p. 101), são vultos a quem Ernesto Rodrigues presta contínua e apurada homenagem corrobora-o, para além do que já foi dito, o facto de a intriga do romance ser narrada, nos onze primeiros capítulos, em analepse pela personagem João Felix Exposto. Este narrador/personagem é fruto de uma relação da juventude do deputado João Félix Filostrato, que, também, ignorava este facto. O ritmo cadenciado e preciso da narrativa, mais uma vez a fazer lembrar os dois romancistas do século dezanove, e o desenrolar programado da história prendem o leitor ao texto.
O tempo da ação, à semelhança do que acontece na tragédia, é bastante concentrado em, apenas, nove dias. O narrador desfila diante dos nossos olhos, como se de uma representação teatral se tratasse, os acontecimentos que, efetivamente, vão sendo apreendidos pelo leitor.
Porquê literatura? Porque o romance está pejado de referências literárias tanto explícitas como implícitas. Permito-me, apenas, recordar, não querendo ser exaustivo: Camões, Bocage e Garrett. Termino com a alusão à “Lacailândia”, isto é, Portugal, onde ressoam ecos da obra A Montanha da Água Lilás de Pepetela. 
Todo o romance é um retrato irónico da sociedade atual, lembrando a arma mais eficaz de Eça. É patente a intenção do autor em desvelar a realidade portuguesa atual, recorrendo a truísmos e a provérbios, por vezes alterados, na senda de Saramago, para provocar no leitor a reflexão, durante o ato de ler, e levá-lo, como é apanágio do teatro épico, à ação, no final da leitura.
Concluímos, asseverando que Ernesto Rodrigues não ficou aquém dos dois modelos literários, que se propôs preitear neste seu livro, uma vez que as personagens de Passos Perdidos não destoam das que Camilo perpetuou, nos seus romances. Por outro lado, qualquer leitor mais atento desta obra não hesitará em apelidá-la de queirosiana, devido à forma como a realidade portuguesa atual, filtrada pela ironia, se encontra plasmada nele.

Norberto Francisco Machado da Veiga
Doutor em Literatura Portuguesa,
Universidade de Salamanca