domingo, 1 de março de 2015

Política, Finança, Jornalismo

Retomando prática em que terei sido pioneiro ‒ ser o autor a falar da sua obra, que deve conhecer minimamente ‒, apresento, agora, o meu quinto romance, Passos Perdidos (na Âncora Editora, sob comando de um prático experimentado, António Baptista Lopes), agradecendo a generosidade de espaço mais do que centenário a que retorno, e rogando um olhar sereno dos leitores e eleitores que me ouvem, ou lêem, sobre um ano decisivo nas nossas vidas. A democracia definha; o Estado de direito é subvertido por serviços secretos ‒ que reconhecem as ilegalidades em que incorrem. Serei breve, para dar azo a debate que gostava seguisse estas palavras, dedicadas a Amigo que o sofrimento retém em casa: Amadeu Ferreira.
Quando três personagens sobem a escadaria da Assembleia da República, vencem o detector de metais e caem no salão-corredor exibindo seis painéis a óleo sobre tela de Columbano que retratam 22 heróis pátrios desde o século XIII, não podemos deixar de pensar, também, que os designados Passos Perdidos são uma imagem acusadora dos últimos dois séculos (desde 1821), em que o desleixo dos eleitos está longe de rivalizar com «os visionários D. Henrique e filho Afonso», e com aquele pequeno milhão de Quatrocentos, que deu novos mundos ao mundo. Eis o cerne do problema, qual chaga aberta no Portugal contemporâneo ‒ eleitos e sistema eleitoral, sobre que tanto se fala, sem proveito, e que o voto soberano não deveria caucionar.
Duzentos e trinta deputados, ah!, se magníficos, seria música de esferas, senão puro maná; mas nem um filme sobre 12 magníficos faríamos, o que leva a perguntar da desrazão de alimentar sujeitos além dos 180, como prevê a Constituição. Já agora, esta, que começou a ser redigida há 40 anos, pode ser facilmente depurada.
Várias soluções estão previstas no diálogo entre dois estagiários de 24 anos, que representam a posição da juventude face à partidocracia. Desde a epígrafe, tirada da Arte de Furtar, alerta-se para amálgama entre Política e Razão de Estado, ambas reduzidas aos interesses mesquinhos de sujeitos privilegiados, e sem elevação, que se eternizam.
Conviria, diz a jornalista estagiária ‒ não somos todos estagiários da vida? ‒, «abrir os partidos à sociedade, a candidaturas independentes, como nas autárquicas, antes que a sociedade os encerre em si mesmos». Não desejo o fim dos partidos; estes é que, sem a qualidade exigível, não podem ser senhores de um destino colectivo. Mais: votando em partido, e em círculo nacional, devemos poder votar num candidato da nossa preferência, e não forçados a eleger os que são postos à boca do tacho, seja, nos primeiros lugares da lista. Entendo que a eleição uninominal só aterroriza inseguros, autocratas, que não merecem a confiança do eleitorado.
Argumenta-se que reduzir a Assembleia a 180 significa, além de demagogia (como, se está previsto na Constituição?), ferir a proporcionalidade e reduzir a nada regiões do interior. Ora, a regra histórica é a desproporcionalidade, que só muda no grau ‒ e já nem falo de troikas e comissários europeus não-eleitos, que governam as nossas vidas. Entretanto, acautelem presença digna das regiões, começando por abolir a disposição constitucional que proíbe partidos regionais. Por que razão um partido do Chiado, alegadamente nacional, há-de disputar percentagens vergonhosas, e não se admitir uma força declaradamente regional?
Na Lírica de João Mínimo, há um poema, datado de Coimbra, Dezembro de 1820 ‒ em vésperas de entrarmos no regime demo-parlamentar que nos governa ‒, em que Almeida Garrett, aludindo aos deputados, os avisa de que os olhos do mundo e dos portugueses estão sobre eles e que devem tremer do julgamento que prestaram: «tremei; que um Deus ouviu, que ouviu a patria, / Que os seculos vindouros vos aguardam; / E no recto provir, ou gloria, ou mancha, / Com sêllo eterno vos espera a fama.» O século XIX, todavia, vai rir-se de eleitos que não eram melhores que os de hoje. Lembro um candidato madeirense à «dobadoura parlamentar», que já projectava lei, cujo artigo primeiro permitia «a todo o belleguim eleitural o poder mamar na vacca do estado, sem pagar direitos de mercê, nem contribuição alguma».
O deputado dividia-se, então, em janota e pé-de-boi. Aquele, jovem e vestindo à parisiense, luneta, «tem ordinariamente desde a edade legal até aos quarenta annos». Tenho um assim, sem luneta, mas sexy. Prima por chegar tarde, sentar-se, vaguear pela sala, cumprimentar repetidas vezes, complacente para as galerias. O janota representa-se «ordinariamente a si e à sua toilette». No seu «borboletismo», vai de partido em partido: «Os maldizentes chamam a isso falta de carácter, elasticidade de consciência, frouxidão política, moléstia de S. Bento, etc.»
O segundo, respeitável, «verdadeiro pae da pátria», parece mais velho do que esta, é um pé-de-boi, gebo parlamentar, calva semicircular ou chinó. Move-se entre «dois colarinhos monumentaes», usa «colete de rebuço descommunal», grave, sossegado, roncando, se dorme, e, acordado, prefere ‘ordem’, enquanto a janotagem grita ‘apoiado’. «O deputado pé de boi representa o seu voto.» Mas essa de ‘pai de pátria’ intrigava um tal Silva Costa, que cito da Gazeta Literária (1867): «Dizem que o deputado é um pae da pátria… ora tendo a pátria tantos paes, dá uma ideia pouco favorável da virtude de sua mãe. Isto é lógico. Que um pae tenha muitas filhas, é natural, comprehende-se: mas que uma filha tenha muitos paes… não há explicação possível… sem offender a moral.» Quanto a essa imagem, dou outros exemplos­ de Latino Coelho a Ramalho, de Eça a Teixeira de Queirós ‒ na minha edição de A Queda Dum Anjo, que começou a sair em folhetim há 150 anos, e foi primeira inspiração…
Há outro aspecto, gravoso: a promiscuidade entre finança e política, que desencadeia a acção do romance. Com efeito, um banco de investimento quer vender projecto de lei a deputado democrata-cristão há 40 anos sem intervenção no plenário da Assembleia da República. Nunca saberemos que projecto de lei é esse, porque o fundamental está alhures, para não dizer além da lei. Como se chega ao desplante de invadir a Casa da Democracia com intenções viscosas? E justificar esse silêncio de túmulo, vivido, afinal, entre chantagem de colega deputada e lembrança de amor único, talvez perdido?
Neste universo de sambenitos, figuras secundárias tornam-se mais importantes do que julgaríamos, e talvez esse deputado não seja tão estúpido como ressalta da enunciação de um jovem narrador, perdido em custoso amadurecimento, fruto de família desagregada. Mas é a vingança que tudo move, apoiada em razão antiga ou recente, e confunde deputada da oposição, não sem vitimar esse eleito janota, mais calhado para passerelles de moda. Desvela-se a morte parlamentar de extrema-esquerda inconsequente (gostaria de me enganar, e que a esquerda estivesse menos fragmentada), mas também sai criticado um partido nem carne nem peixe... Certo é que os partidos não olham para dentro de si mesmos, nem percebem que o povo não é parvo ‒ com a diferença de que tem menos benesses e se revoltará, um dia. Perguntada se vota, responde a jornalista:
«‒ Nestas múmias?
‒ Não me lembre o Museu Britânico...
‒ Deixem-me rir… Quem os conhece? Para os anos que exercem, e matérias tão sensíveis, onde é que estudaram? Ou só eles é que não precisam de estudar? Trocava lá a praia por indivíduos que não inspiram confiança…
‒ …Que, se pudessem, comiam-na viva, qual lagosta das águas territoriais portuguesas.
‒ Lá isso, acredito. Quando posso, vou aos museus.
‒ Como eu. ‒ Enfim: também sou pouco de museus. ‒ E se fosse obrigatório?
‒ Votar? Sem alterações de fundo, nas atitudes e nas escolhas? Sem saber donde lhes vem o dinheiro, quando deviam ser modelos de transparência? Porque seria melhor a ditadura dos partidos, que se encostam ao próprio interesse?»
A abstenção é já um aviso. 
Discursos inócuos ou repetitivos reflectem outros tantos passos perdidos que a Constituição e legislaturas fracas não transformaram. Aproveito para inscrever em ficção uma das pérolas dos anais parlamentares, lançada por senhora que conheci na juventude: «O meu medo é o do inconseguimento… o inconseguimento de eu estar num centro de decisão fundamental a que possa corresponder uma espécie de nível social frustracional derivado da crise.»
Se a glosa do camiliano A Queda Dum Anjo é evidente, será menos o único e longo discurso de João Félix Filostrato, adaptado de outro, do futuro chefe progressista José Luciano de Castro, em 1865. Ou seja: as boas intenções deslizando da tribuna parlamentar ficam sempre em águas de bacalhau. E, claro, não podemos continuar nisto. Reflexão sobre a democracia em semana pascal ‒ seja, entre os próximos dias 1 e 9 de Abril ‒, esta fábula política é, todavia, salva, no final, por um bem enredado discurso amoroso. O que São Bento tem de chorrilho e lábia inútil, tem a saudade amorosa de recato e grata consequência. E, sendo estagiários da vida, resta-nos gozar a felicidade…
Gostava de assinalar outros pormenores da vida nacional que não ficam nas entrelinhas: a acção deletéria dos meios de comunicação (em particular, da televisão), quando podiam ser escola de virtude, de esclarecimento, de humilde busca da verdade, sempre fugidia; a excessiva opinião que os inunda, encabeçada pelos filósofos da bola em sua língua de trapos; a trivialidade de figurinos e figurões, heróis do efémero (que substituirão, um dia, os painéis de Columbano), face aos quais, além da democracia e do Estado de direito, também o país-nação definha.

Num misto de corrosivo social e relações oblíquas, entre logros e acentos policiários, julgo que se lê com prazer este romance-divertimento, embora sério nas questões elencadas e na lição moral que dele se evola. Desejo que as frentes política, financeira e jornalística não distraiam das decisivas (para bem e para mal) relações familiares em jogo, que tudo determinam, ora mostrando a mesquinhez da inveja, ora pacificando insofridos corações, em final feliz; enfim, quem me dera fosse degustado ‒ na ironia, na sugestão, em cada um dos vocábulos longamente estudados ‒, fosse saboreado, dizia, o ritmo que imprimi a este, não raro evanescente, não raro cru, monumento verbal. A par de ingredientes da velha escola folhetinesca ‒ origens enigmáticas de filhos entregues à roda, irmãs gémeas, formas de reconhecimento, amor omnia vincit ‒, estas páginas querem-se interventivas, sim, na chaga aberta do nosso sistema político; acima de tudo, porém, é meu sonho que elas sobrevivam no voto que me orienta, seja, enquanto consciência da literatura. Está aberto o debate. 

[Apresentação, pelo autor, de Passos Perdidos, no dia 25 de Fevereiro, na Livraria Ferin, Lisboa.]  

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Passos Perdidos

Caríssimos: o romance Passos Perdidos é lançado logo, às 18,30h, na Livraria Ferin, Rua Nova do Almada. 
Amanhã, 26, às 14h, tenho Baptista-Bastos na Faculdade de Letras de Lisboa (Anfiteatro II), para conversa com os alunos sobre jornalismo, crónica, etc., e apresentação de 'Lisboa em Baptista-Bastos' (também na Âncora Editora).
Sejam bem-vindos! 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

À memória de Luísa Dacosta

Luísa Dacosta – nome civil: Maria Luísa Saraiva Pinto dos Santos – nasceu em Vila Real (16 de Fevereiro de 1927), cujo «tempo, longe» evocou em 2004[1]:

«Houve um tempo, em que uma montanha azul, de um azul amassado com violetas, fechava o horizonte do quintal, mesmo quando empoleirada na japoneira – seu mastro de aventuras – sonhava entre o perfume das rosas e dos lilases. Longe, na infância...
Na minha primeira infância o mundo não existia, fora dos mapas ou do globo terrestre. Não havia telefone, nem rádio, nem televisão. Só os grandes liam o jornal e lhe recortavam o «Pim Pam Pum» às quintas-feiras. Assim, às vezes no meio do sonho ou das leituras, que a prendiam, quando estirada no ramo da japoneira, pensava no que a esperaria para lá do Marão, quando saísse do confinamento, aconchegante, da cidadezinha, onde todos se conheciam e ninguém era anónimo, nem mesmo os pobres. […] O que haveria para lá do Marão? Segundo o primo Jorge, que já tinha ido ao Porto, pouca coisa: mais casas e mais ruas. Só?! – estranhara. Não podia acreditar. O primo Jorge, companheiro de brincadeiras, devia estar enganado e olhara apressadamente. Mesmo no Porto, sabia pelo pai, havia ópera e concertos. Na altura o seu compositor preferido era Grieg, porque um primo tocava ao piano a canção de Solveig e o que a tentava eram outros horizontes mais vastos e uma liberdade, que poria fim àquela estreiteza, ritual e repetitiva, de todos os anos. Natal, Janeiras, Reis, matança do porco, S. Brás, onde as namoradas compravam «ganchas» – que imitavam o báculo do santo – para o «seu» rapaz. Seguia-se o Carnaval e a festa do colégio. Depois da mi-carême, vinha a Páscoa, o folar e o enterro, anual, do Senhor. O Santo António, dia da cidade, trazia a feira anual e maior, com barracas, circo e fogo-de-artifício farto e, logo depois, a dos pucarinhos de Bisalhães, pelo S. Pedro. Com o Verão havia música no coreto do Jardim da Carreira e faziam-se preparativos para as férias na Póvoa de Varzim. No regresso, começava a cheirar a compotas e a marmelada. Aproximava-se o dia de mortos e o cerimonial ostensivo (a que se juntava alguma rivalidade) de candelabros de prata e flores, no cemitério. Por último chegavam os magustos, o fuminho das castanhas às esquinas, a festa dos estudantes no primeiro de Dezembro. Depois o Natal voltava. Àqueles rituais, felizes, misturavam-se uns laivos de tragédia, pouca: as lembranças da pneumónica, que tinha morto alguns familiares, que não conhecera, e as da primeira guerra do século, que mais a tocara, porque logo no liceu tinha tido um professor de Francês, gaseado da guerra de 14. Mas essas tragédias, já passadas, anulavam-se diante da heroicidade do Carvalho Araújo, com estátua na Avenida, e do «Milhões», tantos alemães matara!, que até o próprio Presidente da República-general tinha de lhe jazer a continência, quando ele desfilava com o 13, o nosso regimento. Também havia ecos da guerra de Espanha, já que alguns se tinham oferecido para combater pela república. E estava tudo mais próximo, porque já havia rádio. […] E, além disso, havia o anjo da guarda, a quem se rezava todas as noites. Sentia-se a salvo. E toda se concentrava na ida para o liceu e na liberdade que haveria para lá da montanha azul, dum azul amassado com violetas.» (p. 162-164)

Seguiu para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1944), onde concluiu Histórico-Filosóficas. Integrada no grupo de renovação cristã Metanóia, casa (1949) com o respectivo animador, Fernando de Macedo Ferreira da Costa (morre em 2006, com 78 anos), um cooperativista – e preso político – fundador do Instituto António Sérgio (1976), de quem tem quatro filhas. Separam-se em 1968.

«Pobre ingénua, tonta! que ainda tinha festejado, na rua, o fim da Segunda Guerra Mundial, já na faculdade, em Lisboa, mas não ainda totalmente consciente do holocausto, da sua dimensão e profundidade, como se aquela fosse a última e definitiva Guerra e trouxesse, de imediato, a sonhada democracia. Era tão nova e estava tão cheia de esperança, como um balão de menino acabado de encher! Novas amizades, o piano da Rosário, que a ajudava a estudar, os concertos em S. Carlos, as exposições, o contacto com o cristianismo renovado da «Metanóia», que apagava os medos do inferno e do pecado e trazia, como «O Cristianismo e a Mensagem Evangélica» de Joaquim Alves Correia, a figura humaníssima de Cristo, que, desde o colégio, julgara só um martirzinho e não o pregador de uma nova doutrina de amor e perdão e de uma nova concepção de Deus, sem inimigos, e pai de misericórdia. Estava cheia de esperança. Havia toda uma vida a viver: o casamento, viagens, o nascimento das filhas...» (p. 164-165)

Estreia-se na Árvore. Folhas de Poesia (vol. II, primeiro fascículo, 1953, p. 17-19; último número, apreendido pela Censura) com dois curtos fragmentos de Fevereiro de 1951 sob o título “Comboio”, que anunciam a simbiose futura de crónica e ficção em moldura intimista. Três contos sobre as «almas-mortas» transmontanas fazem a estreia em livro, com Província (1955).
Professora do então ensino preparatório, para que elabora antologias e sobre que reflecte nos anos 70, citemos ainda, para melhor entender alusões veladas de A. J. Saraiva:

«O tempo, porém, corria inexorável com o seu cortejo de aflições e perdas: a prisão política do marido, esperanças murchas e a emurchecer, perdas: a morte do pai, mais tarde a da tia e a venda da casa, o corte das raízes. O tempo da alegria tinha passado, com a separação de pessoas e bens, mais tarde o divórcio, o seu corpo ainda enxuto, de lua amassada com azeitona, duas vezes recusado. Começava uma solidão, feroz, de quase quarenta anos, que só as aulas e vagas escritas, pouco vendáveis, tinham preenchido. E a tudo isso viera juntar-se a morte da mãe e depois a da filha mais velha (pode-se enterrar uma filha?) e aquela certeza de que o mundo não era liberdade, beleza e amor, mas injustiça, guerra, fome, tortura, vozes prisioneiras e sufocadas por censuras políticas, cada vez mais sujeitas a uma economia, sem moral, numa paisagem a desagregar-se em lixo e poluição.» (p. 165-166)  

 Na metade dos anos 60 a que respeita esta correspondência, sobressai a crítica e ensaísta, presente em quatro publicações principais: Gazeta Musical e de Todas as Artes, Gazeta Literária, O Comércio do Porto, Seara Nova. Vão em nota às cartas os respectivos trabalhos[2], com que se alarga, seja para Saraiva, seja para Luísa Dacosta, bibliografia ainda por completar.

[L. D. faleceu, em 15 de Fevereiro de 2015, em Matosinhos.
Transcreve-se introdução a António José Saraiva e Luísa Dacosta: Correspondência, Lisboa, Gradiva, 2011.]


[1] Luísa Dacosta, “Os lugares e o tempo”, Houve Um Tempo, Longe. Vila Real de Trás-os-Montes na Obra de Luísa Dacosta, introd., selecção e notas de José António Gomes, Porto, Edições Asa, 2005, p. 162-169.
[2] Acrescem os seguintes, na Seara Nova, onde já assina colaboração significativa na década anterior: “Garrett e a Geração Neo-Garrettiana de 1890 / Um colóquio com a presença do ensaísta Augusto da Costa Dias”, n.º 1411, Maio de 1963, p. 122-123, 138; “Dois colóquios com a presença de Mestre Aquilino Ribeiro”, n.º 1412, Junho de 1963, p. 150-151; “Ainda os colóquios no Porto”, n.º 1413, Julho de 1963, p. 178-179, 195; [“Colóquio com Ferreira de Castro”], n.º 1429, Novembro de 1964, p. 347-348; “Crónica de Verão”, n.º 1441, Novembro de 1965, p. 344. De tom diverso é “Um destino para Amélia”, Colóquio. Revista de Artes e Letras, n.º 35, Outubro de 1965, p. 54-55.
Para síntese da obra da Autora, transcreve-se o verbete de Ernesto Rodrigues emBiblos. Encilopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, 2, Lisboa/São Paulo, Editorial Verbo, 1997, col. 1-2:
Quase esquecida na Província (1955)  das «almas mortas» transmontanas, que lhe merecem três contos, temos Luísa Dacosta (1927-2015), estreada com Árvore (1953). Essa homenagem ao passado retorna em Lá Vai Uma, Lá Vão Duas... (1992), enquanto, num segundo momento, o ensaísmo e a crítica se impunham à professora, de cujos artigos saiu Notas de Crítica Literária (1960). Aí estão as predilecções poéticas da adolescência que lhe tocam a prosa – Sá de Miranda, Tolentino, Cesário, acrescentados de Pessanha e Cecília Meireles, que lhe ensinaram a usar «muitas vezes a plavra pelo som, pela visualidade, pela cor, pela textura, peso ou leveza» –, sem olvidar um Raul Brandão tutelar (que prefacia e com quem comunga «a adesão afectiva, uma raiz de sonho e ua visão pictural da realidade») com seu par em Irene Lisboa, cronista descendente de Fernão Lopes[2]. É desta linhagem a também cronista de A-Ver-o-Mar (1980) ou Morrer a Ocidente (1990) – díptico sobre a «evolução e morte da pesca artesanal e da faina do sargaço numa comunidade ribeirinha».

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro

Alternativos ao livro, jornal e revista, ora absorvendo-os, ora inspirando-os, temos suportes quais sejam almanaques, álbuns e leques. Mais raros, bilhetes-de-visita, folhas de hera, mortalha, objectos de cerâmica ou bolsas e malas de senhora. Os livros de visitas de certas instituições, caso de museus, as carteiras de lembranças e do viajante, têm afinidades com o álbum. Lembro alfabetos bordados e lenços de namorado, que relevam da tradição popular ou subsidiam travo folclorista de artistas cultos; ou os antigos livros de curso e, agora, as fitas de curso, em que os finalistas guardam memórias universitárias de amigos, colegas, professores.

O almanaque funde em si jornal, revista e livro: é notícia do momento ou da História e criatividade recentes; anuncia-se reflexão prospectiva, quando não falso profetismo; e dá corpo ao ano a vir. Pela quantidade dos materiais, sua utilidade diária, é um vade-mécum indispensável junto de espíritos conscientes da vertigem civilizacional, ansiando por verdades digeridas e universais.
Eça, fantasista na recriação das suas origens – «Conta uma velha lenda talmúdica que, nas vésperas do Dilúvio, [...]» –, faz o elogio destes compêndios anuais no prefácio aoAlmanach Encyclopedico para 1896 (no de 1897, publicaria “Adão e Eva no Paraíso”): trouxera a ideia de França e vinga junto de António Maria Pereira. José Sarmento, que o editor escolhe «para colaborar com Eça de Queiroz num almanaque à maneira do Hachette», descreve essas manhãs de 1895, no 3.º andar da Rua da Trindade, e como, «por essa ocasião, arrastavam por cima da mesa de trabalho as provas do seu último romance A Cidade e as Serras, [...]».
É interessante ler este romance à luz do «redobrado enternecimento» que ao almanaque vota, porquanto ele «nos habilita a que vivamos bem, na larga vida social e espiritual», e «com doces facilidades, na vida pequenina e caseira». Opondo à «altiva ciência das escolas» uma ciência «certa», «útil», «amorável», «franca», «sadia», «natural», Eça discute a própria obra e, por analogia, louva o alcance de diligência editorial tão democrática. De facto, vê aí um guia religioso e civil, atribuindo-lhe «o desejo carinhoso de que, além de bons católicos, sejamos bons cidadãos». Os jornais de cada manhã inspiram-se nele para nos lembrarem o santo da hora ou a disposição das marés.
Este sentimento vivia-se, por certo, desde os anos 50 e 60, quando, dizia Júlio César Machado, «vinham mais almanachs ao mundo que crianças»[1], e os balanços bibliográficos atendiam cada vez mais à irrupção almanaqueal. Colha-se José Simões Dias n’A Folha (n.º 6, 1869, p. 42), sobre o «anno litterario de 1868»:
«O almanack representa um papel importante na litteratura moderna. É uma incyclopedia annual. O commercio, a estatistica, a sciencia em todos os seus ramos, a arte em todos os seus generos; criticas, poeticas, mechanicas, dramaticas, que sei eu? todas as creações do homem ahi tem o seu logar. Para o futuro, quando se quizer organisar a historia do seculo XIX não será preciso mais do que a bibliotheca dos almanaks.»
Tinham saído vinte em 1868; referem-se quarenta e sete em 1873, ano em que Alberto Pimentel arrisca falar de “Epidemia em Lisboa”: «Há três meses que Lisboa está lendo... almanaques[2].» Para 1880, vemos publicitados doze – durante o terceiro quadrimestre – só n’O Primeiro de Janeiro de 1879.
A pré-história desta modalidade assenta, entre nós, «na tradição da astrologia hebraica» em que se inserem os manuscritos ‘almanaques portugueses de Madrid’, «assim chamados por estarem incluídos no Códice 3 349 da Biblioteca Nacional daquela cidade», e que seriam, para Luís de Albuquerque, talvez da primeira metade de Trezentos. É um misto de calendário, astronomia, astrologia, geografia e tábuas solares. Impresso, com tábuas astronómicas acaso úteis à marinharia portuguesa, foi o Almanach Perpetuum (1496) de Abraão Zacuto, mas depressa, nos medos da pátria, a erudição nascente vira vaticínio, superstição e delírio interpretativo. Se a preocupação recreativa perdura na generalidade dos casos, houve esse tempo em que o espírito científico oscilou entre astronomia e astrologia hebraica, de que decorria um calendário e a própria geografia. A história destes livros, que atingem regularmente as centenas de páginas e podem tirar seis mil exemplares[3], é, pois, mais antiga e em busca, sempre, de um modelo.
Impõe-se, nos descaminhos de um D. Sebastião ou sob a Monarquia Dual, uma literatura de sinais – em pessoas e nas feras, nas entranhas da terra e, sobretudo, no céu –, que, se passa por diaristas atentos (caso do Memorial de Pero Roiz Soares, de 1566 a 1628), inunda pasquins afixados, prognósticos sempre úteis em tempo de guerra, repertórios, lunários e folhas ou folhinhas[4] do ano, estas com grande fortuna editorial em Setecentos. Um exemplo soberbo é Thesovro de Prvdentes, do matemático Gaspar Cardoso de Sequeira, sucessivamente tirado à luz entre 1612 e 1702, com o seu prognóstico e lunário perpétuo. Mas quem gostar de signos e efeitos sobre a agricultura, dos cuidados a ter com a saúde, de jogos de cartas, de medições astronómicas e relógios, entre outros motivos, tem aí lição demorada. Alguns são anunciados nas gazetas.
A reacção iluminista desce-nos ao chão de homens; sugere a necessidade da informação objectiva, como naquela, redigida por José António Garrido, Lista curiosa e guia dos litigantes, em que se dá noticia dos tribunaes e magistrados que ha n’esta côrte de Lisboa, e ruas onde moram..., 1745, a qual, no entender de Brito Aranha, «é a primeira tentativa no genero, que se fez em Portugal». Passando da toga à sotaina e ao burel, temos o Diario / Ecclesiastico / para / o Reino de Portugal / Principalmente para a Cidade / de Lisboa / Para o Anno de 1791, / Terceiro Depois do Bissexto, / Ordenado / Pela Congregação do Oratorio / de Lisboa. Ainda restringe o destinatário, que será, depois, militar, pedagogo ou gastrónomo; mas o receptor alarga-se com «um Mappa Civil e Litterario que deveria conter as noticias do nascimento, empregos e habitações das pessoas principaes de que se compunham os Estados d’estes reinos, Tribunaes ou Juntas de Administração da Justiça, Arrecadação da Fazenda, e outras particulares noticias», nos termos de alvará 22 de Março de 1781 oferecido por D. Maria I à Real Academia das Ciências.
Entregue a vários editores, a começar pelo livreiro francês Reycend – que deserta com as tropas de Junot, em 1808 –, o Almanach de Lisboa (1782-1824) perfaz 29 volumes. O Almanach das Musas (partes I, II, III, IV, Lisboa, 1793) acrescenta literatura – neste caso, poesia da Nova Arcádia – e uma nova configuração, firmando vertente lírica que resiste no modesto Borda d’Água[5]. Ocorre-nos a caracterização de Andrée Crabbé Rocha sobre o Cancioneiro Geral enquanto «gigantesco almanaque rimado com que Garcia de Resende brindou o Rei Venturoso»[6]... Mas, na falta de espaço para largas prosas, será pela poesia que alguns sobrevivem.
Abrangente é o também lisboeta Almanach / Para o Anno / de / 1796, com nomes, profissões e residência dos que entre nós tinham algumas responsabilidades. Respeitadas hierarquias, procede-se à lista dos membros da Casa Real; do corpo diplomático; dos ministros; das casas titulares (por ordem alfabética, com datas de nascimento e morada); das escalas eclesiásticas; da marinha, exército e governadores; dos estabelecimentos literários qualificados para a censura de livros; da Universidade e seus professores; das academias; dos professores régios; das tipografias e livrarias; dos médicos; da administração pública, Justiça, Inquisição, alfândegas, cônsules; dos negociantes em Portugal e no Brasil; fechando pela Academia das Ciências.
O que nestes títulos concorre é, por um lado, o carácter informativo – prático e doméstico − que determina estas publicações, em que importa o juízo do ano[7], e, por outro, a concorrência ou exclusividade de profissões, actividades, ideologias, localidades, regiões, etc., que animam variedade e enciclopedismo hoje dificilmente abarcáveis, não incompatível com a especialização – do campo militar (Almanach do Exercito, Lisboa, 1874, 1875) ao tauromáquico e culinário –, além de uma procurada originalidade, e mais se tem um autor-editor. Temos, assim, o Almanach Portuguez(1825), para as repartições públicas; o Almanach / Lusitano / Do Anno de 1837, com juízo do ano, efemérides diárias e lunário, métodos agrícolas, datas de nascimento dos monarcas portugueses e actual família real; o Estatistico de Lisboa (dez, entre 1837 e 1853); um Almanach Administrativo, Mercantil e Industrial no Rio de Janeiro (1844, 24 vols. em 1867); um, já incluindo anúncios a publicações, Almanak Popular / Para / O Anno de 1849 (Lisboa, 1848); Almanach do Operario (Lisboa, 1853); o breve eVerdadeiro / Almanach Legitimista / Para o Anno de 1854. / Redigido / por / Um Legitimista Lisbonense (Porto, 1853), numa episódica coabitação ideológica com oAlmanak Democratico que José Félix Henriques Nogueira (também responsável pelodo Cultivador) edita para os anos de 1852 a 1857[8]; o de Litteratura (para 1855, Lisboa). Misto de Mappa de Portugal Antigo, e Moderno (2.ª ed., rev. e aum., 3 tomos, Lisboa, 1762-1763), do padre João Baptista de Castro, e Almanach de Lisboa, é oAlmanach de Portugal para 1855 1856, incontornável nas estatísticas (populações, frequência escolar...) para lapsos cronológicos anteriores, além de se constituir álbum de celebridades do tempo e notícia sobre preços de transportes e no teatro, etc. Já o grande almanaque da nossa história editorial iniciara um longo percurso de redacção entre 1850 e 1931. Mas ao carácter recreativo, instrutivo, antológico e participativo do Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro – Eça pensaria nele ao curar do seu – falece o pormenor estatístico desse Almanach de Portugal...
A década de 60 é polifacetada, e, também, com picos paródicos: temos almanaques lisboetas dos Pesos e Medidas (1860), das Cacholetas (1862-1866), Postal (1864), para Rir (1865), das Damas (para 1865), do Lavrador para o Anno de 1866 (1865; de João Félix Pereira), Familiar (1866-1867), Eclesiástico (1868), da Saude, para o Anno de 1869 (do mesmo J. Félix Pereira), Patriótico e Anti-Iberico para 1869, «illustrado com seis gravuras symbolicas» (Viriato, Milagre de Ourique, D. João I, o Condestável, o Cardeal-Rei, D. João IV; largamente publicitado no Diário de Notícias, desde 4-VIII-1868), e reeditado, ecoando o espírito do D. Jaime ou a Dominação de Castela, já a desoras, como certo Nicolau Tolentino ou o cabrion da Literatura de hoje. Almanaque para 1868, também eco «tardio da Polémica» coimbrã[9]
Não colhe poucas hossanas Guiomar Torresão ao lançar o Almanach das Senhoras para Portugal e o Brasil (Lisboa, 1871-1928) – a respectiva subscrição fechava em Junho de cada ano e publicita uma dezena de outros; podia adquirir-se junto de representantes espalhados pelo país –, com, desde o inaugural (ainda sem a publicidade que há-de açambarcá-lo), colaboração de Camilo Castelo Branco, extensa carta polémica de Herculano em 1873 e nomes em vista: Castilho, A. A. Teixeira de Vasconcelos, Bulhão Pato, João de Deus, Pinheiro Chagas, Maria Amália Vaz de Carvalho, Alice Moderno e, entre outros, Júlio César Machado, que o celebra em folhetim do Diário de Notícias (19-XII-1872), enquanto cura da poética destes livrinhos[10]. Dezenas de senhoras portuguesas, brasileiras e mesmo espanholas comparecem (são metade dos cavalheiros) à chamada; releve-se Amélia Janny, biografada no limiar desse ano.
Editores-livreiros exploram o filão: no Porto, Cruz Coutinho com o Propheta Universal para o anno de 1872, e um bónus de Manuel Roussado; Junqueiro sente-se algo perdido no Almanach da Livraria Internacional para 1874 (Porto, 1873), que Alberto Pimentel dirige a instâncias do editor Ernesto Chardron: aí pontificam António Augusto Teixeira de Vasconcelos, D. António da Costa, Camilo, Guiomar Torresão, Júlio César Machado, Ana Plácido escondida em Lopo de Sousa, Oliveira Júnior, Pinheiro Chagas, Rangel de Lima, Sousa Viterbo, Tomás Ribeiro e A. F. de Castilho. David Corazzi também não fica quieto: é seu o Almanach Ilustrado da Empresa Horas Romanticas (Lisboa, 14 vols. de 1874 a 1888)[11]. Na capital, importa o Almanach dos Palcos e Salas (1889-1920; 1925-1928), onde, no de para 1911, Mário de Sá-Carneiro inseriu “Beijos”; e, afora a Parceria A. M. Pereira para 1891 – os da Revista Ilustrada eAntonio Pedro, com retrato do actor, composições teatrais e literatura diversa –, teremos, ainda, o Almanach Bertrand para 1900 e seguintes. Jornais ou revistas associam-se a partir de 80: Almanach Illustrado d’«O Occidente» (Lisboa, 1880); do «Diário Illustrado», 1882; do «Antonio Maria» para 1882do «Diário de Noticias» para 1886. Do de Ponte de Lima (1907-1927) a Évora, referenciamos inúmeros, deixando de remissa os esperançados no mercado brasileiro, caso do Almanak Familiar para Portugal e Brasil para 1869 (Braga, 1867?), que reúne nomes conhecidos deste lado.
Mas aqueles anos 70 (o Jornal do Comércio anuncia oito almanaques para 1871) – em que os melhores autores de novo se deixam encandear por este «acontecimento’ literário; talvez, mesmo, um género, como se diz para a revista – não esquivam notações disfóricas sobre a prática de almanaque. Há o exemplo, sempre corrosivo, do das Caricaturas (1874-1876, de Rafael Bordalo Pinheiro); ou de Urbano Loureiro, que dos Ortigões (para 1878, Porto) almanaqueava com alvos facilmente reconhecíveis; sobretudo, dava-se conta da infinidade de propostas e excessos não especificados – a leva, por exemplo, de poetastros, repetição de textos segmentados sem critério – que calhavam em ironia ao que fora propósito de Alexandre de Castilho. Entende opinião n’A Revolução de Setembro de 8-XI-1876: «Talvez digam que são os almanachs que, depois dos romances à Ponson – onde os personagens morrem quatro ou cinco vezes – tem servido e servem para fazer nascer o gosto da leitura em certas classes.»
De fácil manuseio, preços de venda correntes apesar de algumas tiragens elevadas e fuga aos direitos autorais, saltam, aqui e ali, pepitas inesperadas, concorrendo para as sempre incompletas obras de multímodos oitocentistas: pensamos, não propriamente num Almanach de Litteratura para 1855, mas no Almanak para a Democracia Portugueza, 1870, no Almanach Investigador Util e Recreativo para 1877(Júlio César Machado...), no do Trinta, de 1879 a 1888, no da Republica, que se pretende «almanaque de propaganda democrática» e onde Eça assinou “O Inverno em Londres” (1890), no Litterario e Charadistico – que postumiza Antero (1892) –, noAlmanach a Batalha para 1893 e 1894, 1892, ou, ainda de Lisboa, no Almanaque do Mundo (de 1908 a 1914), no Democrático para 1908 – colaborado por Teófilo, Junqueiro, Gomes Leal, Ana de Castro Osório, o qual vem juntar-se à tensão que precipita o regicídio de 1 de Fevereiro –, no da Luta, de 1910 e 1991, etc. Fora dos grandes centros, o mais importante será o Almanaque de Ponte de Lima (1907-1980; edição irregular e com lacunas), com páginas interessantes de ‒ olhando ao de 1924, 6.º ano ‒ missiveiros como Bulhão Pato, João Penha, Teixeira de Queiroz, Camilo, Fialho, Trindade Coelho, ou versos de Dantas e Junqueiro…Abre um inédito Domingos Tarrozo, “O Almanaque e o moderno movimento literário” (p. 5-9).  “Utilidade do almanach” é contada no Litterario e Charadistico para 1881 (p. 16), a propósito do advogado e futuro Presidente Lincoln, que salva alegado homicida de testemunhos que o terão reconhecido à luz da lua. Mostrando um almanaque, verificou-se que «N’essa noite não houve luar»...
Propôs-se o Almanach de Lembranças para 1851 – fundado por Alexandre Magno de Castilho (1803-1860) – dar uma série de apontamentos e servir de agenda, melhor, «estimular com a leitura a curiosidade» da gente nova e pouco instruída, ou que não lia. Que «a variedade deleita», e aprecia menos termos técnicos do que vinhetas e gravados, provava-o essa «conhecida enciclopediasinha popular» – «Eu conhecia o mundo da poesia pela assidua e conscienciosa leitura do Almanak de lembranças», confessou Cândido de Figueiredo[12] – de mais de 300 páginas, e reedições sucessivas, 16 mil exemplares no de 1854, duplicando no de 1857, em que se obra edição para Portugal e Ultramar, seguindo outra para o Brasil.
A colaboração provinda de três frentes geográficas enriquece o imaginário de curtos textos que escondem, sempre, um autor, cada vez mais no feminino, em diálogo com o responsável. Este, por seu lado, rastreava durante o ano, na Imprensa periódica, o que pudesse interessar. Entremos na intimidade do nosso almanaqueiro, Alexandre Magno de Castilho:
«Da unica vez que tive o gosto de o ver no escriptorio, encontrei-o com centos de jornaes deante de si, e sua filha com uma grande thesoura na mão:
– Estamos a fazer o almanach! – disse-me ele.
Marcavam á margem da folha, durante o anno, todos os jornaes em que encontravam noticia que lhes agradasse; depois, no tempo competente, iam-se áquella tarefa, e [...] engendravam, d'aquelles papeis cortados, o mais curioso e entretido almanach, e uma das empresas mais lucrativas do tempo[13]
Registava as festas móveis, estações do ano, eclipses, dias de grande e pequena gala ligados à família real, mercados e feiras, tabelas dos incêndios, signos. A cada dia, com suas efemérides, sucediam histórias, poemas, etc. O êxito foi tremendo, porque ainda em 1853 se reeditava este volume inaugural de cerca de 350 páginas, como se daria com outros, entre 1886-1890 seguidos de um suplemento autónomo. Fazemos uma ideia mais completa da respectiva matéria se compulsarmos o índice de 349 páginas relativo aos 27 volumes do já então designado Novo Almanach... para o lapso de 1872-1898. Eis as secções: anedotas e chistes; antologia portuguesa (trechos escolhidos de poetas e prosadores); arqueologia e arquitectura; antiguidades (coisas do passado, comemorações...); artes e artistas; contos, apólogos e lendas; educação e ensino; epigramas e sátiras; geografia (viagens e descrições); etnografia (costumes, tradições, superstições e trovas); gravuras; História; homens e damas ilustres; lembranças (factos e notícias dos tempos modernos); linguagem portuguesa (etimologias, locuções, anexins); miscelânea; moral e religião (santos e varões ilustres da Igreja); mitologia e lendas fabulosas; pensamentos, máximas e conceitos; prosas literárias (portuguesas e brasileiras); ciências naturais (receitas e indicações úteis); poesia. Segue lista dos inúmeros colaboradores, onde figuram os melhores autores nacionais.
Já Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro para 1855 – a impressão conhecerá diversas tipografias –, inaugura, no de 1859, apartado de publicidade, a fechar paginação. O de 1862 vem coordenado por sobrinho homónimo do fundador, Alexandre Magno de Castilho / Tenente da Armada (1835-1871), e por António Xavier Rodrigues Cordeiro / Bacharel em Direito: este, no de 1871, elogia o finado director a abrir o Novo Almanach de Lembranças Luso-Brazileiro para o anno de 1872, em primeiro ano, numa prática a repetir com os mortos ilustres, de que se dava retrato. Brasileiros convivem com lusitanos: Gonçalves Dias, em 1873; Álvares de Azevedo e Castro Alves (1878), José Feliciano de Castilho (1880), Guilherme Braga (1881), Gonçalves Crespo (1885), José de Alencar (1889), Júlio César Machado (1891), o tão colaborante F. Gomes de Amorim (1893), João de Deus (1897; depois de, no de 1896, o poeta ter sido matéria para Eça de Queirós), D. João da Câmara (1909); etc. Morto Rodrigues Cordeiro em 11-XII-1896, o de 1898 teve direcção de sobrinho, mantendo-se, até ao fim, sob a responsabilidade da família, excepto no derradeiro.
Longevo (1850-1931, para o ano seguinte), inspirador do Almanach de Lembranças(1858), do Almanach de Lembranças Luso-Indiano (1865, 1907), de Nova Goa, ou doAlmanaque de Lembranças Madeirense (no n.º 1, para 1908, três sonetos de Camilo Pessanha), teve derradeiro rebate, e caloroso, na colectânea poética de Alberto de Serpa, Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro, logo acompanhado do Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, 1954, edição privada, onde, a poema do autor, se reúnem outros que, agradecendo os do primeiro almanaque, lhe enviaram Carlos Drummond de Andrade, Campos de Figueiredo, Régio, Francisco Costa, Manuel Bandeira, Ribeiro Couto, Pedro Homem de Melo.
Ora, desde 2006, o Grupo 6 do Clepul, capitaneado por Vania Chaves, abalançou-se a compulsar os 82 volumes da colecção, já matéria em palestras e colóquios, e de que saem, agora, os balanços mais alentados. Foi primeiro objectivo rastrear a produção feminina, cujo catálogo, editado pela BNP, com aquela assinam Isabel Lousada e Carlos Abreu.
A Apresentação de ambas corrobora aspectos que já enunciei, e traz a novidade de inaugurar este Catálogo uma Colecção Senhoras do Almanaque, em que teremos escritos de algumas colaboradoras devidamente biobibliografadas.
Mostra, depois, como as ‘Senhoras’ são chamadas por Alexandre Magno Castilho a ombrear com os ‘Autores’, em reiterados elogios às mulheres, cuja presença, aliás, não é tão inclusiva noutras publicações do tempo, mesmo nas de destinação feminina. A pouco e pouco, entrevê-se, também entre as senhoras, uma distinção social, que faz com que, para surpresa nossa, tenhamos aí a mãe de Jorge de Sena ou familiares do bibliotecário eborense Cunha Rivara.
Nos três primeiros anos, elas não colaboram; e, se o número de textos, entretanto, cresce, fica muito aquém dos assinados por homens, sendo que parte dessa produção é de autoras falecidas. Certo é que, à medida que conhecemos novos suportes, urge rever um cânone epocal. Maioria de poemas, menos prosa e bastantes passatempos tipificam essa presença. Salvo algum ano excepcional, as lusitanas estão mais presentes que brasileiras e africanas.
Conscientes da diversa geografia que pode acompanhar um nome e da diferente assinatura que uma entidade pode comportar, de escritos com várias assinaturas, de iniciais problemáticas, da sobreposição do nome de solteira e casada, de identificações incompletas, de nomes gralhados, de pseudónimos, são registados 1277 nomes. Mesmo aceitando casos insolúveis ‒ que as apresentadoras vão exemplificando, como salvaguarda de critérios lógicos ‒, teremos, assim, cerca de 1300 autoras, das quais é fácil extrair ouro de qualidade, como logo na oitava que abre o catálogo.
Assinaladas colaborações provenientes de 21 estados brasileiros, o grupo 6 veio trabalhando, paralelamente, com investigadores do Rio Grande do Sul, cuja presença no ALLB deu outro volume organizado por Vania Chaves, saído em Porto Alegre, pela Gradiva Editorial: O Rio Grande do Sul no Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro. Acompanha CD com poesia e prosa sul-riograndenses, aquela fixada e anotada por Vania Chaves e Beatriz Weigert, esta ‒ onde salientamos António Maria do Amaral Ribeiro, minhoto emigrado ‒ por Vania Chaves e Isabel Lousada. Laborioso trabalho de recolha e digitação é devido a Carla Francisco, Laura Areias, Maria José Madruga, Maria José Meira, Rosa Cristina Gautério, Gabriela Silva, Maria Manuel Marques, Mires Batista Bender, Nathália de Jesus Macedo, Simão Fonseca, Viviane Herchman. Ainda, a nossa malograda Filipa Barata, de quem tanto esperávamos.
O balanço das duas introduções, por Mara Ferreira Jardim e Vania Chaves, e dos 18 estudos críticos está feito pelo prefaciador, Aldyr Garcia Sclee, que, como nós, prefere ‘a poetisa’, em vez de ‘a poeta’. Estas são dez, contra 156 senhores, e vá de enumerar os temas regionais, religiosos e outros, que os estudiosos retomam páginas à frente.
No seu segundo texto, Vania Chaves delimita essa produção do Rio Grande do Sul após o almanaque para 1857; desaparece em 1919 e tem só mais uma presença em 1932. Os trabalhos excluem análise de passatempos. Convoca, já, Anália Vieira do Nascimento, mestra no acróstico ‒ não é a única ‒, sob cuja lírica se debruça Ana Maria Lisboa de Mello.
De família letrada, colaboradora entre 1871 e 1893, esta hugoliana de tonalidades finisseculares e prática de verso em álbuns, dedicatária de muitos, pede reunião em volume. Do irmão Damasceno Vieira, com outra recepção e peso, cura Beatriz Weigert, analisando miudamente alguns poemas, indo até ao caligrama. Estes irmãos ressurgem nos textos de Gabriela Silva, Laura Areias, Mauro Póvoas ­ ‒ sobre Damasceno crítico literário ‒, bem como em Maria Eunice Moreira, que presta atenção às demais vozes femininas, em prosa e verso, para concluir da negligência a que, com duas excepções, foram votadas as mulheres na história literária regional.
As intermediações, sejam imigrantes (por Artur Vaz), seja um cônsul (por Maria da Conceição dos Santos Silva), podem levantar questões interessantes sobre uma presença de facto portuguesa… É o caso do Anónimo Portuense, dizendo em soneto de 1879: «Do pátrio Douro que deixei tão cedo,».
Outros trabalhos versam aspectos salientes na produção sulina ou biografam personalidades. Estão, além, lembranças, cidades, poemas de morte, luto e memória, mitologia greco-romana, registos de cultura popular; aqui, Alfredo Ferreira Rodrigues, Bernardo Taveira Júnior, Andradina de Oliveira, Tomé Mendes e, ai de nós, uns tantos anónimos.
Quem diria, há uns anos, que aqueles voluminhos enfileirados no Clepul iam resultar, para já, nestes alentados volumes… A devoção dos nossos colegas revela qualidades insuspeitadas em assinaturas que nos obrigam, assim, a uma lenta revisão do meio século romântico até ao primeiro terço de Novecentos. Outros resultados vêm a caminho. Inclinemo-nos perante esta investigação ‒ e tanto esforço que reúne as margens do Atlântico.                  

[1] “Os Almanachs. Carta a Lopes de Mendonça”, O Biographo (Lisboa), 8-VIII-1856; reproduzido no Diário de Notícias, 19-XII-1872. Em folhetim deste, 1-X-1880, já salienta a «moderação louvável» no campo editorial.
[2] Fotografias de Lisboa [1874], Lisboa, Frenesi, 2005, p. 125-130 [125]. Inicialmente, “Os Almanachs”, O Primeiro de Janeiro, 14-IX-1873. Prossegue: «O almanaque, como compensação providencial dos estragos do oídio e do filoxera, é uma nova produção que vem equilibrar, no comércio português, a escassez das vindimas. // Eu ando desconfiado de que é por essa razão que os alamanaques surdem à hora em que as uvas deviam aparecer abundantemente, entre verduras, nos plateaux das melhores mesas. // [..]. // Se não houvesse a caudal dos almanaques, ainda nos restava a castanha. Mas nós somos uma raça anémica, dispéptica, e não podemos digerir a castanha. Resta-nos pois digerir o alamanaque. Daqui o luxo que os coordenadores procuram dar a essas variegadas brochuras. Há concorrência; é preciso agradar.» O tom cresce em ironia.
[3] Tiragem «garantida pela autoridade competente», diz o Almanach da Agência Primitiva de Anúncios para 1871.
[4] Ver, só para Coimbra, entre 1567 e 1913, almanaques, folhinhas, repertórios e calendários perpétuos, em Armando Carneiro da Silva, “Almanaques e Folhinhas Conimbricenses”, Arquivo de Bibliografia Portuguesa (Coimbra), 1, 1955, p. 13-23, 136-145, 239-252. Balanço de 1567 a 1913. A «folhinha» e «prognósticos» à venda estão em Jerónimo Baía, “Jornadas de Lisboa para o Alentejo”, Fénix Renascida..., Lisboa, 1746, p. 277, 365.
[5] A designação «Borda d’agua» para tal «repertorio» já está em A. Garrett, “San Martinho”, Lírica de João Mínimo, cit. em Lírica Completa, Lisboa, Arcádia, 1971, p. 90, poema de Novembro de 1820. Uma dúzia de bordas d’água são registados na Biblioteca Nacional, desde O Verdadeiro Borda d’Água (Coimbra, 1848?-1973) até a O Verdadeiro Almanaque Borda d’Água, desde 1934, com estas secções, em 2006: apresentação, calendário, fases da Lua, tabelas das enchentes e vazantes das marés, da influência da Lua na agricultura, o texto temático “Anjos”, visibilidade e influências dos planetas, diz-se que (mescla de informação, conselhos de tipo vário, crítica social), “Ritmos e Ciclos” (ciclos astrológicos e conselhos adequados), festas e feiras. Cf. António Corrêa d’Oliveira, A Minha TerraIV. Vida de Lavrador, 1916, p. 31: «ÓLunario, ó Borda d’Agua, / Lidos á beira do lume!»  
[6] Jacinto do Prado Coelho, dir., sv. “Cancioneiro Geral”, Dicionário de Literatura, I, 3.ª ed., Porto, Liv. Figueirinhas, 1979, p. 145. 
[7] No juízo do Borda d’Água – Almanach Familiar e Nacional para 1888 − entre as épocas memoráveis ligadas à Igreja e monarquia, o cômputo eclesiástico, festas móveis, estações do ano, feriados, bênçãos matrimoniais, eclipses, dias com proibição de espectáculos, calendário, mercados e feiras, agricultura e jardins, tarifário do caminho-de-ferro americano e dos ascensores mecânicos de Lisboa – será este o mais feliz do século: Portugal vai ter colheitas agrícolas nunca vistas, excedente vinícola e feijão muito bom, má batata, a melhor produção de azeite dos últimos 50 anos, pastos abundantes para gado que, devido ao frio, não engordará, e vacina contra as bexigas.  
    [8] Os índices do Almanak Democratico para 1852 até 1857, Lisboa, Typographia Social, 1851 a 1856 – bem como do Almanack do Cultivador, igualmente editado por José Félix Henriques Nogueira –, estão na Obra Completa deste, tomo II, Lisboa, INCM, 1979, p. 422-425. Além, colaboraram Castilho, Herculano, A. Lima, A. P. Lopes de Mendonça, A. Rodrigues Sampaio, A. X. Rodrigues Cordeiro, F. G. de Amorim, Palmeirim, entre outros. A vasta matéria do próprio H. Nogueira vem reproduzida na mesma edição, tomo I, 1976.
[9] Alberto Ferreira e Maria José Marinho, Bom Senso e Bom Gosto [...], 2.ª ed., Lisboa, INCM., IV, 1989, p. 259.
[10] Alguns dos folhetins aí insertos saem em Á Lareira, 1872, mas não “Os almanachs”, último do ano. Em 1-X-1880, distingue o passado destes substitutos das «antigas folhinhas de porta» – «Nos almanachs não se via d’antes senão amor», ou «os almanachs comiam amor como quem come pão! Era de mais!» – da «moderação louvável» de agora; em 25-XI-1880 e 21-I-1881, elogia, respectivamente, as melhorias do Arsejas e do Almanach Comercial, onde se encontram nome e «morada de toda a gente da alta e da baixa, de todas as profissões e categorias».
    [11] Mário Viana, “David Corazzi: um editor português do século XIX”, Revista da Biblioteca Nacional, s. 2, 5 (2), Jul.-Dez. de 1990, p. 109-132. Corazzi editou oAlmanach do Horticultor, 4 vols., 1879, 1882, 1883, 1886.
[12] Homens e Letras. Galeria de Poetas Contemporaneos, Lisboa, 1881, p. 127 e 24, respectivamente.
[13] Júlio César Machado, A Vida Alegre (Apontamentos de Um Folhetinista), Lisboa, 1880, p. 59.

[Apresentação de As Senhores do Almanaque Luso-Brasileiro e O Rio Grande do Sul no Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, Biblioteca Nacional de Portugal, 6 de Fevereiro de 2015.]

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Passos Perdidos

Convido para o lançamento do romance Passos Perdidos, no dia 25 de Fevereiro, às 18,30h, na Livraria Ferin, Rua Nova do Almada, 70-74, Lisboa.

Sinopse:
Um banco de investimento quer vender projecto de lei a deputado democrata-cristão há 40 anos sem intervenção no plenário da Assembleia da República. Quem é João Félix Filostrato? a que se deve esse silêncio? Em iniciativa mediada pela assessora do grupo parlamentar, Salomé - que promove encontro com o economista-chefe João Félix Exposto, Nádia e o estagiário João Félix, também narrador -, sobressai a jornalista Joana, por quem passa a história do eleito por Vila Franca e a solução de alguns enigmas. Na sombra, cresce deputada da oposição, cuja biografia se enlaça na deste. Como se organiza a queda de um anjo? Entre comportamentos oblíquos e identidades sempre esquivas, um deputado-borboleta da extrema-esquerda torna-se vítima de predadoras, e perdedoras, que visam vingança em várias frentes. 
Quase dois séculos de regime parlamentar e discursos inócuos ou repetitivos reflectem outros tantos passos perdidos que a Constituição de 1976 e legislaturas fracas não transformaram. Reflexão sobre a democracia em semana pascal, esta fábula política é salva, no final, por um bem enredado discurso amoroso.    

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo


Dois sacanas invadem redacção
de jornal e disparam contra quem
desenha liberdade. Crime tão
soez não tem desculpa de ninguém.

Claro, há uns bandidos em aplausos,
mas não se mostram, té ao dia em
que, fanáticos, são eles os maus,
os tristes crendo virgens no Além.

Chora, Democracia, quantos não
salvas, por medo, liberalidade.
Em lágrimas, sê dura, ou é vão
criar, ser tolerante. Alguém há-de

convencer terroristas que não é
o mesmo existir e viver com
os outros, cujo Deus também é bom ‒
nem melhor nem pior do que Maomé.

Quem não estiver de acordo, vá embora;
cuspir na sopa dada de bom grado
define sacripantas. Rua! Fora!
(Por favor, segurança. Obrigado.)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Doces da nossa vida


Em dia de Natal, delicio-me a ler Virgílio Nogueiro Gomes, Doces da Nossa Vida. Segredos e Maravilhas da Doçaria Tradicional Portuguesa (Marcador, 2014). A página cheira bem, cada fotografia é de apetite. Seguindo conselho ‒ «Comam doces, mas não abusem.» (p. 218) ‒, não perco este pastel de nata, com vontade de segundo. Não tenho pão de ló, dormidos e económicos; ganchas e pitos só em Vila Real. Marmelada ainda provo; baunilha, também: há 40 anos, era uma tentação, e até escrevi “Elogio da baunilha”, saído em Poemas Porventura (1977).  Vai longe o tempo em que nos comboiávamos chupando rebuçados da Régua; hoje, torta de laranja, toucinho do céu, um de vários pudins, dão toque de gulodice a almoço farto.
Dessas maravilhas fala o especialista, em capítulos breves e bibliografia mínima, umas luzes de ficção, nomes próprios e antigamentes convocados («Lembro-me bem de despertar cedo», etc. [p. 79]), enquanto escorre matéria de História Social e Económica, enquadrando a História da Alimentação em que Virgílio Gomes se fez mestre.
Epígrafe inicial ‒ no «tributo a todas as gerações de escravos, cujas tarefas, e sofrimentos, contribuíram para a produção de açúcar» ‒ remete-nos para o doce inferno de António Vieira. O Autor refere, em 1628, 235 engenhos no Brasil; no ano seguinte, 346; e, do Jesuíta, cita frase destinada aos colonos (p. 16). Aproveito estes lembretes e alargo a prosa.
Peça fundamental da nossa economia, o escravo negro atravessa, desde o primeiro carregamento destinado a Lisboa, em 1443, os ciclos da pimenta, do açúcar e do tabaco, do oiro e diamantes, do algodão e do café. Três séculos e cinco milhões de escravos depois, o Brasil apresentava-se minimamente povoado. Em 1811, ainda desembarcavam no Rio mais de 22 mil.
Entre 1600 e 1670, o Brasil recebera 350 mil escravos negros. Em 1600, a demografia brasileira somava 30 mil brancos a 120 mil escravos, quando 200 engenhos produziam 600 mil arrobas anuais de açúcar, sendo mais de 400 engenhos e 2 milhões de arrobas em 1670. «Para um dos grandes engenhos eram precisos de 150 a 200 negros, empregados nos canaviais, corte das lenhas para fornalha, transportes e labutação da fábrica.» Conclusão: «É indubitável que ao açúcar se deve o desenvolvimento da escravatura no seio da civilização moderna. Sem negros não havia açúcar; isto foi prolóquio do século XVII», escreveu J. Lúcio de Azevedo (Épocas de Portugal Económico. Esboços de História, 4.ª ed., 1978, p. 258 e 228). Ou, em palavras de Vieira epistológrafo, «Sem negros não há Pernambuco» (carta de 12-VIII-1648 ao marquês de Nisa), seja, fábricas de açúcar. Três Sermões do Rosário (Décimo Quarto, Vigésimo, Vigésimo Sétimo) retratam a violência de um negro processo civilizacional, contra que se ergue a voz de alguém não quimicamente branco. Vejamos o primeiro, de 1633, ainda não era sacerdote.
Pregado «à Irmandade dos Pretos de um Engenho» baiano, reconhece-se um «contínuo e grande trabalho» ou «contínuo trabalho e exercício» de dia e de noite, em terra que «pode parecer desterro, cativeiro e desgraça, e não é senão milagre e grande milagre!»: embora «oprimidos dos trabalhos», estes não são mais «insofríveis» que os de Cristo na cruz.
A justificação dos mistérios dolorosos, que, na falta do rosário completo, devem rezar os pretos baptizados, leva o pregador à descrição do Inferno laboral, uma das primeiras e mais vivas em Vieira: «E que cousa há na confusão deste Mundo mais semelhante ao Inferno, que qualquer destes vossos engenhos, e tanto mais, quanto de maior fábrica? Por isso foi tão bem recebida aquela breve e discreta definição de quem chamou a um engenho de açúcar doce inferno. E verdadeiramente quem vir na escuridão da noite aquelas fornalhas tremendas perpetuamente ardentes, as labaredas que estão saindo a borbotões de cada uma pelas duas bocas ou ventas, por onde respiram o incêndio; os etíopes ou ciclopes banhados em suor, tão negros como robustos, que subministram a grossa e dura matéria ao fogo, e os forcados com que o revolvem e atiçam; as caldeiras ou lagos ferventes com os cachões sempre batidos e rebatidos, já vomitando espumas, já exalando nuvens de vapores mais de calor, que de fumo, e tornando-os a chover para outra vez os exalar; o ruído das rodas, das cadeias, da gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo sem movimento de tréguas, nem de descanso; quem vir enfim toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilónia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança de Inferno.» De súbito, uma visão: «Mas se, entre todo esse ruído, as vozes que se ouvirem forem as do rosário, orando e meditando os mistérios dolorosos, todo esse inferno se converterá em paraíso, o ruído em harmonia celestial, e os homens, posto que pretos, em anjos.»
Outra surpresa é citar O Prato de Arroz Doce (1862; p. 34), de António Augusto Teixeira de Vasconcelos (que foi secretário do administrador ou governador civil de Bragança), título estranho, e melhor documento sobre a Patuleia (1846-1847), a nossa última guerra civil. Figura central é o tio de D. Rosa e D. Ana, José Alves, miguelista empedernido, mas sincero e generoso – nisso opondo-se a um João Silveira, pai daquelas, tão venal quanto liberalengo oportunista. Contra ventos e marés, em campos opostos, Álvaro Pereira e Simão da Lapa recuperarão a amizade ameaçada pela dupla guerra política e amorosa, reconfortando-se, personagens e leitores, com o singular arroz doce daquela menina.
Já com a mão na massa, volto à especialidade com que abre, “Aletria”. Evoquei este meu primeiro amor em colóquio vila-realense, ora editado no n.º 61 da revista Tellus, onde também Virgílio Gomes colabora. Terminei essas memórias de infância com receita deste, que já fizera levantamento miúdo da gastronomia no romance A Casa de Bragança (2013). Pago-lhe com presente modesto, a cumprir no próximo almoço: receita em tratado de cozinha na Biblioteca Nacional de Nápoles (in José Leite de Vasconcelos, Textos Arcaicos, 5.ª ed., 1970, p. 99) mostra ser a aletrja já conhecida em Portugal no século XV. Quando nela penso, invade-me um aroma a sobremesa de Natal, literatura e gratidão aos Pais.

[Mensageiro de Bragança, 1-I-2015.]