segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Cozinha económica e sopa dos pobres


Associação Mutualista por excelência, o Montepio Geral celebra, em 2015, 175 anos de banca e bem-fazer. Nos anos 40 do século XIX, vigoram os cedo inconsequentes fourierismo e blanquismo, emergem ideias comunistas e de um socialismo proudhoniano, que recusam a especulação capitalista face à miséria galopante, à mendicidade que atingiu ex-militares da guerra civil de 1832-1834 e frades expulsos dos seus conventos, enquanto a prostituição começa a ser denunciada na literatura de António Pedro Lopes de Mendonça (Scenas da Vida Contemporanea, 1842). Entrando pelos anos 50, este vai proclamar «a gratuitidade do crédito, a organização do crédito pelo trabalho, a republicanização da propriedade, o associativismo» (Maria Manuela Tavares Ribeiro, “Teorias e Teses Literárias de António Pedro Lopes de Mendonça”, Revista de História das Ideias, 2, 1979, p. 39). Acredita, sobretudo, «no poder das ideias regeneradoras, e na influência das doutrinas humanitárias» (Memorias de Litteratura Contemporanea, 1855, p. IX). Pergunta-se: «O que é a Fraternidade? // É a organisação do trabalho pela lei do amôr: é a liga do individuo aos encargos da sociedade: é o sacrificio da pessoa á associação: é a morte de todo o egoismo. O principio para conseguir tudo já está descoberto – é a Associação.» (Ver minha edição de O Século de A. P. Lopes de Mendonça: O Primeiro Jornal Socialista, 2008, p. 38.)
Eis, grosso modo, o quadro ideológico e pauperismo crescente em que nasce o Montepio Geral, também mecenas das letras, e, agora, de Cozinha Económica em Portugal, um pesado, louvável, útil volume de 454 páginas em papel couché e bom gosto gráfico desde a capa dura às guardas, separadores e ilustrações, que, trazendo a assinatura de Armando Fernandes, dedica as partes III e IV a testemunhos, opiniões e receitas de associados e clientes da instituição, num inesperado ar de família. Seguem-se glossário e longa bibliografia.
Partiu a ideia de um opúsculo de 22 páginas (de Luís de Sousa, que só descobrimos na bibliografia, com apelido duplicado), Mutualismo, conferência realizada na Associação Comercial de Angra do Heroísmo, em ano definidor do Estado Novo (1933), em que outros títulos breves surgiram: Severino Costa, Mutualismo (Viana do Castelo), e, mais importante, Álvaro Reis Gomes, Mutualismo (Funchal), comunicação proferida no Montepio Madeirense, em que elogia Ferreira de Castro, animador da ‘Semana do Mutualismo’ no lisboeta O Século, dito «escritor ilustre e profundamente humano – o mais profundamente humano de todos os nossos escritores […]». O aproveitamento que Salazar fez das instâncias assistencialistas dava azo a outra conversa; são fraco lenitivo, embora esbatam tensões sociais, no abismo que desiguala povos, hoje.
Não sendo obra sobre o mutualismo em geral, e sobre o Montepio, em particular, discorre Armando Fernandes, nas partes I e II, sobre “A economia na cozinha através dos tempos” e “Cozinhas económicas em Portugal”. Além, faz-se um percurso do pré-histórico ao 25 de Abril: é uma prosa estimulante, transcendendo a alimentação, para descer a comportamentos e atitudes. Alicerçado em alguns clássicos, vemos como o fogo, símbolo das paixões e do espírito, purifica e regenera, escande a civilização, como demonstram trabalhos junto de povos primitivos, na passagem do cru ao cozido.
História sucinta, serve-se o autor de variedades antropológicas e da especialidade gastronómica, a par de ementas literárias (nem todos os autores portugueses são registados na bibliografia), compondo moldura suficiente de uma das nossas práticas maiores, a que outros investigadores trarão achegas. Para a mesa faustosa dos Filipes (1605), eu gostava de ter visto citado um mais completo balanço, segundo Fastigínia, que editei (2011). Mas um gosto pessoal não faz primaveras…
A principal novidade é, contudo, a parte II, sobre formas de hospitalidade, em que sobressaem as misericórdias (entretanto, muito estudadas), as cozinhas económicas e as sopas da caridade ou dos pobres.  
O ponto de partida é este, como escrevi em Ensaios de Cultura, no prelo: «Importa deslindar um universal humano no fenómeno particular, seja na religião do consumo, no culto das vedetas, na cozinha de um país, como operavam os sistemas simbólicos de Claude Lévi-Strauss, que organizava a relação entre a Cultura, universal, invariável, e as culturas.»
De facto, a cozinha económica, historiada desde 1872, lá fora, e, entre nós, desde 1891, no Porto, é mais do que a «cozinha de um país», embora pudéssemos abordar esta na base de ementas registadas a p. 162-166, assentes na massa, arroz, grão, feijão. O mérito do estudioso deve ser salientado, no recurso às fontes documentais do Continente e Ilhas, de que beneficiam, também, as sopas de inúmeras instituições, alfabetadas (em Bragança, com estatutos aprovados em 1922). Autónomas ou integradas, nelas sobressaem personalidades, sendo mais conhecido o Padre Américo. Não vá sem lembrar o tratado sobre a sopa (p. 183-186).
Trabalhos em curso sobre assistencialismo, mesmo arquitectónico, não poderão fugir a este balanço, qual retrato da depressiva condição lusitana nos séculos XIX e XX, que o Estado caucionou, no seu próprio interesse. O quadro sociológico actual não difere muito, com a diferença de que a fome atinge camadas mais vastas, novos grupos sociais e transnacionais.

O presidente António Tomás Correia e o administrador Carlos Beato, entre outros responsáveis do Montepio Geral, entenderam o significado de proposta que, honrando Armando Fernandes, nos enriquece, e faz olhar de maneira diferente para o que nos rodeia.  

Dicionário do estômago



Vem o Outono e dá-nos para apetecer mesa demorada, uns acepipes que combatam tristezas de nação em piloto automático, como se não precisássemos de governo, nem de orçamento. O tempo arrefece, mas ao bacalhau constipado (também eu começo a ficar) prefiro um bacalhau da bruxa de Valpaços, que ignorava existisse: afinal, diz Virgílio Nogueiro Gomes no agora saído do forno Dicionário Prático da Cozinha Portuguesa (Marcador, 2015), também há coelho da bruxa de Valpaços…
Eu gostava que ele me explicasse estas e outras bruxarias que alegram o estômago, mas muito faz Amigo ao prender-me em manhã de São Martinho – há, também, um bacalhau de São Martinho, madeirense – à substância dessas páginas, onde tanto se aprende, e tanta nostalgia sobe de entradas entre aba e zurrapa. Como se não bastasse, oferece-nos, a mim e a Teresa, o Dicionário… e um cozido, no restaurante Nobre, da macedense Justa Nobre. Acompanhá-lo por outros templos do bom gosto é sempre um prazer, luxo que nem aos deuses antigos (além da ambrósia) era concedido.
Ora, além de um dicionário da especialidade, torna-se, aqui e ali, enciclopédia, além de receituário. Reconheço a olha-podrida, informo-me sobre o abade de Priscos, e mal sabia eu que, na semana seguinte, iria provar ouriços de castanha de Eurico Castro (p. 263-264), no novel restaurante bragançano A Porta, aí onde houve caserna militar, se bem me lembro – e Rui Caseiro confirma.
Não será de somenos o amoroso cuidado em fixar vocábulos, comes e bebes transmontanos, incluindo formas populares (larego, reco, pita, pito…). Em próxima edição, aceitará as segundas frequências, em filhó / filhós, grão-de-bico / ervanço (afora garoulo, gravanço), míscaro / níscaro, e biqueiro contraposto a boa boca. Pedindo referência, na Bibliografia ou no verbete sobre covilhetes de Vila Real, à reunião de textos Os Covilhetes, do nosso caro Elísio Amaral Neves, reedição do Grémio Literário Vila-Realense, que, diz-me A. M. Pires Cabral, já esgotou.

É uma deambulação extraordinária pelo que alimenta a lusofonia, das Áfricas ao Brasil, de Goa a Macau. Enquanto sobressaem ementas para uma cozinha regional (a começar nas açordas), surpreende a qualidade medicinal de alguns produtos, o esclarecimento do que tanto aprecio e cuja composição desconhecia (caso dos peixinhos da horta), bem como designações incomuns, que não encontramos facilmente em vitrina doceira: colchão de noiva, espera-maridos, malacuecos, melindres, pata de veado, tecolameco… Livro a consumir sem moderação.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O presente, “futuro do passado”, no aliciante romance A Serpente de Bronze, de Ernesto Rodrigues


Só nos resta acomodarmo-nos ao mundo tal como ele é, ou, então, lutarmos
individualmente pela própria salvação[1].
Marguerite Yourcenar

A sanção do crítico não é o sentido da obra, mas o sentido do que dela diz[2].
Roland Barthes


Começo este apontamento sobre o inquietante romance de Ernesto Rodrigues, A Serpente de Bronze, asseverando que se trata de uma obra fortemente organizada a nível da sua estrutura externa. Desde logo, pela divisão em quatro partes, que, segundo creio, se podem subdividir em dois andamentos, uma vez que na primeira e na segunda partes se narra uma ação, localizada, temporalmente, no século XX; e na terceira o narrador oferece-nos, pela voz de uma personagem da primeira história, uma intriga, deslocada do tempo da escrita, localizada no século XVI e seguintes. Na quarta parte, com apenas dois capítulos, apresenta-se o desenlace das duas ações: o capítulo 15 da ação presente e o 16 da pretérita.
A I parte decorre de junho a outubro (relato da viagem até à Hungria), a segunda em outubro (onde se relatam os acontecimentos político mais relevantes deste país.) A terceira parte começa em 4 de maio de 1578, dia da batalha de Alcácer Quibir, e, percorrendo os séculos vindouros, termina com a evocação da revolução dos cravos de 1974.
Em primeiro lugar, farei uma breve descrição dos conteúdos de cada parte para, num segundo momento, abordar as temáticas e os motivos presentes no romance.
Na primeira parte, subordinada ao título “Relação breve da aventurosa viagem até Budapeste”, que lembra os títulos da Peregrinação e dos seus congéneres dos séculos XVI e XVII, o narrador/autor afirma, sem ambages: “Como leio num cronista”, indicando, ab initio, o seu modus faciendi, que se apresenta como a sombra de outro texto; como lembra Barthes, “o texto tem necessidade da sua sombra: essa sombra é um pouco de ideologia, um pouco de representação, um pouco de sujeito: fantasmas, bolsos, rastos, nuvens necessárias: a subversão tem de produzir o seu próprio claro-escuro”.[3] Esta relação entre texto e sombra é tão intensa que, por vezes, o leitor tem dificuldade de a descontinuar, de tal forma o autor/narrador intrinca as duas.
De seguida, o narrador foca-se na primeira pessoa, ao afirmar: “Indo agora por terras de Espanha montanhosas” (13), para, logo de seguida, se equiparar a Vasco da Gama numa primeira referência a Os Lusíadas, sombra principal deste romance de Ernesto Rodrigues, ao afirmar: “Cometendo a Europa num trem leve, por vias nunca ousadas”. (16) O narrador, continuando na esteira de Camões, narra um consílio dos deuses na gare de l’Este de Paris (16), onde um velho toma o lugar de Júpiter. Baco e Marte são nomeados pela expressão “um deles” e Vénus por “uma mulher”. É, ainda, em Paris que ocorre o hipotético crime que atormentará as personagens até Budapeste. O que é mais espantoso é que, depois, a narrativa vai apresentando motivos que legitimam esta hipótese, uma vez que todas as personagens tinham os seus motivos para praticar o crime.
Significativo, também, é o nome das personagens e, ainda, o facto de só aparecerem no segundo capítulo, qua passo a elencar: Deus, também nomeado por capitão; Perna de Aço, que deve o apelido a uma perna artificial; Longa Vida, mulher que vendia receitas para durar até aos duzentos anos; Pé de Flor, mulher que vendia flores na rua; e o Outro, que, em certas passagens, pode ser identificado com o autor.
            No terceiro capítulo, a sombra dominante é a da Peregrinação, detetando-se, ainda, uma referência histórica à Nau Santiago e ao ano de 1585. As personagens, no capítulo quatro, saem de Paris, passam pela Alemanha e chegam a Viena, onde Perna de Aço é apontado como o principal suspeito pelo crime de Paris. O capítulo cinco é dominado pelo interrogatório de Perna de Aço, narrado a posteriori pelo próprio aos demais companheiros, na manhã do dia seguinte. Esta parte termina com mais um mistério, um cadáver feminino encontrado no Danúbio, sendo os suspeitos, de novo, as personagens do romance.
Na segunda parte, intitulada “Os acontecimentos de Outubro”, os protagonistas encontram-se na Hungria. O narrador aproveita para refletir sobre os trágicos acontecimentos que enformaram a revolução húngara de 1956. As personagens, num passe de mágica, regressam ao passado e perdem-se na confusão dos acontecimentos e manifestações. Ato contínuo, narra-se o que sucedeu no dia 15 de março de 1848, elencando o narrador todas as atrocidades cometidas neste momento em nome da revolução. Alude-se, de seguida, à segunda grande guerra nestas palavras: “Viena bombardeada pelos americanos e Budapeste libertada pelos soviéticos.” (104)
A terceira parte, que responde pelo título “Um príncipe das sombras”, é, como já referi, composta por uma ação independente localizada no passado histórico de Portugal, visto que se centra no tratamento da figura do rei D. Sebastião e do que sucedeu após Alcácer Quibir. O príncipe/Sebastião é acompanhado por duas personagens: Diogo Bernardes, “escrivão” do Príncipe, e Alonso, que pode representar os mercenários, vindos de toda a Europa para auxiliar o Rei na empresa africana. A intriga prossegue com a narração dos trabalhos e privações no cativeiro. Convém, desde logo, referir que Camões, “o velho poeta”, é, à semelhança do que acontecia na outra intriga, uma sombra contínua, chegando mesmo a dialogar com o Príncipe. A peregrinação do príncipe e de Diogo, uma vez que Alonso fenece, é-nos relatada de forma elíptica: chegam de barco a Cádis, ficando aí muito tempo, depois a Lagos, e, a 25 de junho, a Oeiras, e, por fim, a 14 de julho, ao Terreiro do Paço, onde se falava castelhano, numa alusão ao domínio filipino. A fusão da ficção com a realidade é, como se constata, uma constante nesta parte, saindo reforçada no capítulo dez com a narração do relato, em analepse, do que aconteceu pelo norte de África, em vinte anos de cativeiro. Esta referência temporal convoca à memória do leitor a obra de Garrett Frei Luís de Sousa e a figura do Romeiro. A ficção, ou melhor, a sombra, é corroborada pelo autor/narrador, ao asseverar que o diálogo, apresentado na p. 128, é cópia de um documento encontrado no arquivo de Simancas. Ato contínuo, o narrador passa a fazer crítica literária ao refletir, com propriedade, sobre a dedicatória d’Os Lusíadas. No capítulo 11, o Príncipe assiste a um auto-de-fé em Beja no ano de 1619, a que se seguiu depois, em Lisboa, uma representação de uma companhia de teatro espanhola, onde se fazia um apanhado, muito crítico, da história de Portugal e dos seus reis (146). No capítulo 14, a ação continua em Lisboa, onde se narram as diversas reuniões secretas para acabar com o domínio filipino. Nesta empresa, sobressaem os conspiradores (Príncipe, Diogo Bernardes e Manuel dos Santos) (134). O episódio narrativo da sucessão do duque de Bragança ao domínio filipino, inspirado, segundo creio, no capítulo XI da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes (159), que decorreu sem derrame de sangue, facilmente reenvia a memória do leitor para o que aconteceu na revolução dos cravos, em 25 de abril de 1974, interligando os dois momentos históricos.
Só na p. 185 é que o leitor toma conhecimento do narrador insuspeito desta ação, que é uma das personagens da primeira história, Pé de Flor. O narrador sente a necessidade de voltar ao tempo da escrita para contextualizar melhor o tempo da história, uma vez que, ato contínuo, Pé de Flor prossegue a narração.
Na quarta parte, “Epílogo e melodia”, composta pelos dois capítulos finais, o leitor toma conhecimento de que tudo aquilo se resumiu a uma operação policial de espionagem de larga escala. No capítulo 16, o Príncipe é associado a Camões, quando salva o livro a nado num ribeiro. (208) Refere-se, ainda, o terramoto de 1755, que é posto em paralelo, uma vez mais, com 1974, realçando-se, no presente, a satisfação da liberdade. No final do romance, dá-se a simbiose das ações do livro, ao afirmar-se que Alonso era um agente espanhol e Camões um agente português em Goa. Este facto, entre outros, torna A Serpente de Bronze um misto de romance histórico e policial. Constato, também, que, para o autor, os escritores funcionam como agentes ao serviço do país servindo de embaixadores do mesmo, como “o senhor De Queiroz, outro agente” (217), utilizando e divulgando a língua, o maior tesouro das nações.
No epílogo, Camões desce do pedestal, e serve de cicerone ao casal formado por Vénus e o Outro, guiando-os por Lisboa, nos primeiros dias de liberdade, após a revolução dos cravos.
Passo, ato contínuo, a descortinar os motivos pelos quais vale a pena ler este aliciante romance, começando pelas citações e relações intertextuais, isto é, pelas sombras, que enformam o texto de Ernesto Rodrigues.
1. Em termos de ressonâncias literárias, como já referi, a figura de proa é, como não é de estranhar num autor clássico, Camões. Aliás, várias são as ocorrências em que o texto do épico é apropriado pelo narrador, uma vez que não é identificado. Assim, este romance, se outro valor não tivesse, só pelo facto de nos “obrigar” a reler a epopeia nacional seria, como o leitor concordará, mais que suficiente para atestar a sua importância. O próximo diálogo é travado com Mendes Pinto e a sua Peregrinação, cujo incipit aparece na p. 61. Esta interlocução permite ao narrador levar o leitor a interrogar-se sobre o roteiro exterior ou físico e à questionação interior que todo o ser humano, quer queira quer não, acaba sempre por fazer com maior ou menor consciência disso.
A interseção do autor/narrador é desvelada na p. 31, onde se nomeiam os intertextos do romance: “Desfiz-me da pasta e entreguei Jornada d’El-Rei D. Sebastião à África a Perna d’Aço; Itinerário, do Padre Jerónimo Lobo, a Longa Vida; História Trágico-Marítima a Pé de Flor; Os Lusíadas, em edição escolar, ao capitão, quedando-me eu com passos selectos da Peregrinação”. Para além destes, aparece, ainda, a referência a João de Barros das Décadas e várias alusões a Gil Vicente.
A voz de Saramago, em Que Farei com Este Livro, ressoa na p. 184 traduzindo as tristezas e dores de alma da mãe de Camões quando o viu regressar da Índia, velho, abatido e sorumbático. A referência a vários pintores, na p. 99, reforça o diálogo entre a literatura e as outras artes, em especial, a pintura. A citação de Ovídio “Nubila tempora!” (100) confirma o clima conturbado que se vivia em Budapeste aquando da revolução.
A apologia do saber e o carinho pelos livros são uma constante no romance. Dou como exemplo o facto de Frei Manuel dos Santos chegar ao cativeiro com livros para o Príncipe e Diogo Bernardes (cf. 136). E mais adiante pode ler-se que “Isto dizia Bernardes, que trazia ensebada a Compilaçam. Sebastião esquecera Os Lusíadas e o outro livro em Tânger.” (147) Registe-se que este apreço pelos livros, ou melhor, pela literatura, estava, também, patente na primeira intriga, como se referiu acima.
2. Outro manancial inesgotável do romance são as máximas e sentenças que, associadas a uma fina ironia, enformam a Paideia do autor. Comecemos, então, pela ironia presente em “que bem escreve certa gente!” (13), referindo-se à descrição de um cronista, mas que não pode deixar de ser lida como uma alfinetada à atualidade. Encontramos, de seguida, o trivial “- Quem te avisa teu amigo é.” (69). E numa alusão ao empós 25 de abril censura: “Nasciam partidos e jornais como moscas.” (101) O valor do estudo e do trabalho é-nos relembrado tendo como modelo a seguir Camões, “Engenho e honesto estudo era, pelos vistos, o que faltava aos poetas de aviário. Luís Vaz sabe isso.” (131) Aos céticos aconselha-se a leitura destes versos do épico: “Não me falta na vida honesto estudo, / Com longa experiência misturado, / Nem engenho, que aqui vereis presente, / Cousas que juntas se acham raramente.” (Lusíadas, X, 154) A próxima sentença parece ser talhada para os tempos hodiernos, confirmando, assim, a verdade e a atualidade da literatura: “Ilusórios que são os discursos, quando não conhecemos a quem nos dirigimos!” (133)
O próximo incentivo é para aqueles que nunca desistem perante as dificuldades e conseguem fazer das fraquezas forças: “Vence-se uma vez, perde-se na seguinte. Só fica humilhado quem não reflete. E quem, aparelhando-se a batalha, o poeta critica são os traidores e os fracos.” (149) Este encorajamento à persistência e à labuta intelectual encontra-se cristalizado em “Mas não se é velho enquanto se não morre” (180). Depois, numa alusão materialista da vida, que ninguém pode derrogar, escreve: “quem perde quer recuperar. E parece ser esta a única diligência enquanto cá andamos.” (187) Todavia, o narrador termina com a constatação de que, “Afinal, nunca saímos do mesmo lugar. Isso é que é trágico.” (217) É esta insatisfação, inerente ao ser humano, que nos leva em demanda de uma nova Índia sempre por achar associada à loucura sebástica de que falava Pessoa, para no fim concluir, com algum desalento, que afinal não saímos do mesmo lugar. Mas a única atitude possível é, sem dúvida, seguir o conselho de Torga no poema «Viagem», “Em qualquer aventura, / O que importa é partir, não é chegar.”
3. Passemos, agora, a dilucidar as questões estilísticas que enformam a ars do escritor Ernesto Rodrigues, começando por realçar a técnica narrativa que foi, ouso afirmar, o precursor do romance moderno, ao narrar mais do que uma intriga no mesmo romance e, sobretudo, na utilização de uma espécie de enjambement de uns capítulos para os outros, prendendo, desta forma, o interesse e a atenção do leitor. Veja-se, a título de exemplo, “Já desarvoravam, quando veio tropeçar neles um acontecimento extraordinário” (71). Este segmento textual, com que termina a primeira parte da obra, tenta o leitor a continuar a leitura e a seguir, qual investigador, as pistas que o narrador de forma latente lhe vai fornecendo.
Associado com este encontramos, logo no início do romance, o recurso à captatio benevolentiae presente em “Como a história continuava não o poderia imaginar. E o leitor também não. Mas já vamos ver.” (15) Este recurso é recorrente em outros momentos da obra, do qual damos, apenas, mais um exemplo: “Sigamos o frade, deixando ambos entregues aos cuidados de um grupo singular, não sabemos se religiosos se conspiradores.” (139, sublinhado meu)
Estritamente relacionado com este procedimento encontramos a interpelação ao leitor, que nos lembra o Garrett das Viagens, presente em “no que eu e o benigno leitor estaremos por certo de acordo.” (36) E, ainda, “Descansado o leitor quanto ao estilo do nosso protagonista, que em Tânger melhorara, vamos então até ao Terreiro do Paço ainda sem cavalos, para onde as autoridades convocaram as manifestações oficiais de homenagem ao Poeta” (147).
Outro traço distintivo do estilo do autor é a simbiose entre o narrador e o autor, tornando-se ao leitor difícil, em certas passagens, identificar qual a voz que lhe fala, como confirmamos neste segmento textual: “Pensávamos nós, autor, que o mesmo se desse com Perna d’Aço, quando nos metemos a narrar a continuação desta História.” (103) Convém realçar o facto de o vocábulo História estar grafado com maiúscula, apresentado, em meu juízo, um duplo significado, ou seja, a intriga que está a ser narrada ou a história real que ensombra todo o romance, sendo este o objetivo do autor/narrador.
A nível da linguagem usa e abusa de alguns registos de língua, como é o caso do calão e da gíria, acompanhando, deste modo, o pulsar da sociedade e a plasticidade da língua. Vejamos, como exemplo, alguns segmentos textuais: “um gajo atira-se para a frente” (14), “a puta não era menos transparente” (16). Encontramos, de novo, estes vocábulos na p. 19, “puta” e “gajas”. E, por fim, para não enfadar o leitor, apresento mais um: “- Foda-se lá a gaja!” (51). Penso que estas emancipações literárias entroncam no deslumbramento que o país vivia nos anos subsequentes à implementação da democracia, em que todos os exageros eram permitidos e a literatura, espelho/sombra da sociedade, não ficava de fora, como o atesta um grande número de obras desse período. Convém, no entanto, realçar que Ernesto Rodrigues, nas obras supervenientes, não ficou refém destes hábitos, optando, isso sim, por um estilo mais sóbrio sempre associado a uma atitude inconformada e reflexiva, como defende Marcel Cressot: “Cada época tem os seus hábitos e gostos: o escritor pode submeter-se a eles, total ou parcialmente, ou retomar uma tradição abandonada, ou ainda manifestar uma atitude de inconformismo.”[4]
São, ainda, de distinguir o recurso à adjetivação dupla e tripla, “o seu gesto, alto, severo e soberano” (15), às inúmeras interrogações retóricas: “Para quê correr atrás da mulher e suas razões?”, ou “Porque somos feitos assim?” (18), que continuamente interpelam o leitor e o levam à introspeção. Nem outro propósito, segundo creio, tem toda a escritura de Ernesto Rodrigues, que, na senda de Umberto Eco, defende: “O escritor pretende revelar ao próprio público aquilo que ele deverá querer, mesmo que não o saiba. Ele pretende revelar o leitor a si mesmo.”[5]  Outra inovação do escritor, em termos estilísticos, é o facto de, à semelhança de Eça, criar novos vocábulos: “connosco esplanadou” (27).
A técnica do autor atinge o auge nos esplendorosos diálogos, onde experimenta algumas inovações, recentemente introduzidas no idioma português por Saramago: “O individuo babuja Hum hum como quem diz A esta dava-lhe eu o chá e eu aprovo de beiço…” (14) A utilização do discurso direto sem as suas marcas formais, dois pontos e travessão, parece-me, como já referi, ser influência de José Saramago. Os diálogos são tão empolgantes que o leitor, num primeiro momento, não se dá conta de que quem está a dialogar são duas personagens do século XVI, como acontece na p. 62, onde os intervenientes são Fernão Mendes Pinto e Vittoria Farnese.
O derradeiro apesto sobre esta questão prende-se com o facto de o autor associar a literatura ao cinema tanto no ritmo como nos planos, como corroboramos em “Deixemos, pois, desenrolar-se o espetáculo a certos títulos degradante; aceleremos a fita para mostrar como, terminado, os seis se reuniram e brindaram a uma boa chegada, que os astros apontavam para Maio” (171). Esta associação é uma constante no romance, obrando, também, para prender o leitor ao texto.
4. O quarto apartado deste texto aborda a interseção temporal verificada na obra A Serpente de Bronze, visto que há um cruzamento entre o presente da escrita (século XX) e o presente da narração (século XVI). Aliás, o século áureo, a todos os níveis, da nação portuguesa continuará a figurar na obra narrativa do escritor - veja-se, a título de exemplo, O Romance do Gramático, de 2011[6]. Esta distanciação histórica permite ao narrador inscrever um outro tempo no tempo da escrita, por um lado, e demonstrar que, afinal, a sociedade atual enferma dos mesmos defeitos do passado, e, por outro, sendo que, da constatação, resulta o facto do abatimento e ressentimento presente por não termos tido a capacidade de aprender com os erros do passado. Esta ligação é acentuada na p. 77, onde se lê, “Mais: às duas da manhã desse 24 de Outubro, assistindo à queda definitiva da estátua de Estaline, soube-se que carros soviéticos tinham entrado em Alcácer Quibir, perdão, em Budapeste.” (77) Relembro que este processo é em tudo semelhante ao utilizado por Manuel Alegre no livro Atlântico (1981)
5. Passo, agora, a pronunciar-me, de forma sucinta, sobre o sugestivo título do romance que se escora no ambivalente mito da serpente, corroborado na epígrafe da obra retirada do livro dos Números. Aliás, no fragmento bíblico está bem patente a dupla função/significação da serpente, ou seja, o bem, a redenção e a salvação; e o mal, a dor e o sofrimento configurados na morte do povo provocada pelas mordeduras das serpentes.
É do senso comum que a serpente está associada à fecundidade, representada pela serpente Ouroboros, que devora a própria cauda e renasce, qual fénix das próprias cinzas, para uma vida melhor. Ora, com esta conotação positiva encontramos, desde logo, na imagem da capa uma alusão às serpentes na fotografia que representa uma estação de caminhos de ferro. Esta associação é clarificada pelo narrador ao afirmar: “as serpentes metálicas descansando ali no cais” (18). Como facilmente se intui, as serpentes/comboios simplificam as ligações e a comunicação entre os povos, realçando o seu lado positivo.
Por outro lado, a serpente pode representar o mal, ou melhor, o perigo, sendo facilmente associada à Medusa, quando lemos: “Ao lado, bastando-lhe tirar fora a mão, anelava uma donzela de serpes tranças dormindo, que lhe apetecia afagar.” (188) Esta outra face da serpente encontra-se, também, na imagem da capa, representada pelas duas figuras femininas desnudadas, com ressonâncias bíblicas. No mesmo sentido podem ser interpretadas as seguintes passagens: “Longa Vida viu, num breve sonho, cabeças de serpentes bem pesadas tomando posições nos altos e em cruzamentos vitais.” (85) E, na continuação, “os pobres humanos, só de nelas porem os olhos, viam-se de membros presos.” (86) Aqui, numa explícita alusão aos atiradores a quem é dado o mesmo poder de Medusa, paralisar quem os olha/afronta.
Por último, penso que esta serpente de bronze poderá ser uma alusão sarcástica ao muro de Berlim, que acabaria por cair no mesmo ano do lançamento deste romance, em 9 de novembro de 1989, que, tal como os cabelos de Medusa, era fatal para quem dele se aproximava.
6. Por último, compilo as reflexões sobre o país, o mundo e o homem, que atravessam todo o romance. Começando pelo país, é curioso verificar que Portugal é associado, de forma sarcástica, à “Ilha da boa vida”, onde Veloso e Leonardo (personagens d’Os Lusíadas) gozam umas merecidas férias. (cf. 175) Esta visão disfórica do país expressa por Ernesto Rodrigues aproxima-o, em minha opinião, do sentir de Alexandre O’Neil, quando declarou: “Portugal uma questão que eu tenho comigo mesmo.” Não restam dúvidas aos leitores da obra de Ernesto Rodrigues que uma das suas preocupações essenciais é com o país e seu devir. Logo, só congregando esforços e vontades se conseguem alcançar os grandes desígnios, pois “Pátria dividida não oferece novidade” (13). O entusiasmo do narrador/autor é tanto que se mostra preocupado com a comunicação entre os representantes e os representados, como se lê: “a ele capitão desafiava mandasse alguém, ou fosse ele de corpo inteiro, verificar o que as centrais de propaganda e desinformação espalhavam nas pobres almas, tão carecidas de verdade e sã doutrina quanto do bife e batatas fritas”. (37, sublinhado meu)
            A hipocrisia religiosa é-nos apresentada na p. 40, numa enumeração das relíquias sagradas que lembra a Relíquia de Eça e o procedimento de Teodorico, com toda a crítica que lhe está subjacente. Vejamos, agora, a opinião do autor/narrador sobre a atualidade: “- Mas qual domina: a cultura ou a política? Deus aspirou para longos voos: - Na Idade Média não havia dúvidas: a religião católica unificava-nos. A cultura substitui-a depois, mas hoje também esta perdeu impacto frente a algo de caótico que, grosseiramente, se reduz à política.” (54, sublinhado meu) Ato contínuo, critica-se a barbaridade que é, em pleno século XX, o ataque à cultura configurado na queima dos livros, que recupera os procedimentos obsoletos da Inquisição, “Por mim, não via que houvesse aí revolução: Puchkine, Tolstoi, Techekov, Dostoievski e Gogol ardiam: estas manchas brilham sempre mais em qualquer cataclismo da História, diga-se ele puro ou anti-burguês. O prazer a que, escrevendo na sua língua, eles se tinham entregado, estava a ser queimado, entre abraços e pálinka, iluminando a noite de memórias arrepiantes.” (78)  
            Como se comprova, o leitor está constantemente a ser convidado à reflexão, pois o intuito do autor é levá-lo a questionar/repensar o presente a partir do passado, quando ao confrontá-lo com estas palavras: “- A Europa dorme. Esqueceram-se dos húngaros…” (95) Hoje, diríamos dos sírios, dos afegãos… Noutro passo, oferece a oportunidade de se refletir sobre a escravatura, “montanhas negras de homens, que também podiam ser colocados no Brasil, florescente mercado de trabalho” (177). O último aviso que nos deixa, em jeito de futurismo, prende-se com o facto de o país importar tudo, destruindo, desta forma, o seu aparelho produtivo: “Tornara-se já um hábito mandar vir de fora alimentos e não seremos nós a praticar contra isso.” (207)
Creio que se compreenderá melhor, agora, a citação de Marguerite Yourcenar que serve de epígrafe a este trabalho, uma vez que o mesmo é revelador de que o escritor Ernesto Rodrigues não só não se conforma com o mundo em que vive fazendo da vida uma luta permanente pela sua salvação, mas também labora através da sua escrita (tanto em prosa como em verso) para a salvação do outro/leitor.

Bragança, 15 de setembro de 2015
Norberto Veiga



[1] YOURCENAR, Marguerite, A Obra ao Negro, Lisboa, Dom Quixote, 9.ª ed., 2009, p. 211.
[2] BARTHES, Roland, Crítica e Verdade, Lisboa, Edições 70, 1997, p. 64 (1.ª ed., 1966).
[3] BARTHES, Roland, O Prazer do Texto, Lisboa, Edições 70, 1997, p. 72 (1.ª ed., 1973).

[4] CRESSOT, Marcel, O Estilo e as Suas Técnicas, Edições 70, Lisboa, 1980, pág. 305.
[5] ECO, Umberto, Porquê «O Nome da Rosa», Difel, Lisboa, 1984, pág. 42.
[6] Sobre esta obra, veja-se, VEIGA, Norberto, “Ficção, história, pedagogia e atualidade no enciclopédico “O Romance do Gramático” de Ernesto Rodrigues, in http://ernestorodrigues.blogspot.pt/, em 13/09/2015 ou http://norbertoveiga.blogspot.pt/, em 14/09/2015

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O Romance do Gramático


Ficção, história, pedagogia e atualidade
no enciclopédico O Romance do Gramático
de Ernesto Rodrigues

Norberto Veiga


Nada consola mais o autor de um romance do que a descoberta de leituras
em que não havia pensado, e que os leitores lhe sugerem.
Umberto Eco, Porquê «O Nome da Rosa», Difel, Lisboa, 1984, pág. 11.

Começo este breve apontamento sobre o enciclopédico romance de Ernesto Rodrigues, O Romance do Gramático (Gradiva, 2011), tecendo alguns comentários sobre os elementos paratextuais que o compõem e que estão intimamente relacionado entre si, laborando para formar um todo harmonioso em que acabou por se traduzir o livro.
Assim, segundo creio, encontramos na obra seis paratextos, a saber: O título, a “Notícia” (5-10), a epígrafe (11), o “Parecer” (141-144), estes na primeira parte da obra; as “Advertências” (149-150) e, por fim, o “Argumento” (151-156).
Todos estes elementos concorrem para a estrutura, fortemente programada, da obra, mas são também significativos, segundo Genette[1], cumprindo capitais funções para a descodificação da mensagem que o autor quer transmitir ao leitor. O título do romance cumpre a missão de apresentar, desse logo, o assunto [Genette, 1997: 76]. Contudo a identificação não é completa, mesmo tendo em conta a capa do livro, na qual aparece a página de rosto da obra de Fernão de Oliveira. Desta feita, só com a leitura da epígrafe, retirada da Gramática da Linguagem Portuguesa, é que o leitor pode, sem margem para dúvidas, descodificar o título [cf. Genette, 1997: 144-160]
Ato contínuo, encontramos o que para mim é o principal paratexto, “Notícia” (5-10). Começo por referir que, na minha ótica, o romance O Nome da Rosa[2] de Umberto Eco é o hipertexto, segundo Gérard Genette, Palimpsestes, desta obra de Ernesto Rodrigues. Desde logo, pelo recurso ao manuscrito e à efabulação que o mesmo permite estabelecer entre realidade e ficção, tornando, assim, a narrativa verosímil [cf. Eco, 1980: 11-21]. É, pois, neste elemento paratextual que o autor/narrador explica e introduz o leitor no texto. Aqui são audíveis ecos autobiográficos do escritor: “Eu tinha, como Fernando, vinte e cinco anos” (p. 10). Este texto informa o leitor do tempo histórico do romance, que é o século XVI, e, ainda, do protagonista do mesmo (o gramático Fernão de Oliveira). Saliento, de novo, o valor matricial deste paratexto para todo o romance, pois cria a ilusão de que, em pleno século XX (tempo da escrita), o autor/narrador recebe um documento entregue pela personagem feminina na Hungria, que vai ser, apenas, atualizado. Ora, esse manuscrito vai materializar-se na parte consubstancial do romance, intitulada Recto / Index.
A primeira parte do livro termina com o paratexto “Parecer”, que, segundo creio, serve dois desígnios: o primeiro, certificar a historicidade da ação narrada, uma vez que, na época, todos os livros tinham de ter o parecer prévio do censor[3]; o segundo facilita a construção ficcional da obra, a nível da legitimação do pergaminho, pedra-angular da primeira parte do texto. Termino com a referência à desconstrução textual do manuscrito, servindo-me das próprias palavras do autor: “Pareceu-me ser necessário advertir que o Autor usa de uma ficção que não é poesia e fingimento.” (141, sublinhado meu)
Passando aos dois paratextos da segunda parte, encontramos, a seguir ao subtítulo «Uma História Mal Contada» e da referência espácio-temporal «1510-1581, Lisboa, Portugal», o paratexto “Advertências”, que inicia com a citação de Filippo di Strata: “É virgem esta pena, a imprensa, meretriz.” (149) É um parecer favorável à publicação do livro; note-se posição contrária do censor no “Parecer” da primeira parte da obra. Destaco, ainda, a cristalizada forma, usada pelos censores do século XVI: “Este livro é digno de se imprimir, e o autor mostra nele muito engenho e muita erudição nas ciências humanas.” (149) [cf. Os Lusíadas] Abro um pequeno parênteses para realçar a posição do autor sobre a obra, que vai na senda da que defendo, “tela e figura desfazem-se, ao tocá-las visão única.” (150) Assim, a “tela”, segundo creio, corresponde à primeira parte da obra e a “figura” à segunda, que apenas associadas fazem sentido, formando uma acabada obra, ou, nas palavras do autor, “visão única”. (150) Julgo, também, interessante registar que essa unidade é fortalecida pela existência destes dois “pareceres”, pois, se a primeira parte termina com um não que parece definitivo, a segunda inicia com um sim que tudo promete, restabelecendo, assim, a unidade do fio narrativo.
Por último, encontramos o elemento paratextual “Argumento” (151-156), que legitima, contextualiza, esclarece e encerra as questões escalpelizadas nos textos anteriores, que tenho vindo a dilucidar.

Arrumadas as questões paratextuais, passo a apresentar a minha proposta de “leitura” deste romance tão enciclopédico e “culto”[4]. Para o efeito, decidi estabelecer oito tópicos, que enumero: 1. romance fortemente estruturado, 2. romance histórico, 3. unidade na diversidade, 4. ficção versus realidade, 5. pendor pedagógico, 6. presente da escrita, 7. louvor e defesa da Língua Portuguesa, 8. jornada humana.

1. Como já tive ensejo de referir, O Romance do Gramático de Ernesto Rodrigues é uma obra fortemente organizada tanto a nível da estrutura externa como interna. Assim, externamente, a primeira parte ‒ que responde pelo título de “Recto/ Index”, situando-se a intriga, em termos de espaço e tempo, em 1532, em Bled, na Eslovénia ‒ é composta por quinze capítulos, mais os paratextos mencionados acima. A segunda por sete passos que reenviam a memória cristã do leitor para as estações da via-sacra de Jesus identificando a existência terrena, neste caso, a vida de Fernão de Oliveira, como um rol de trabalhos e canseiras, onde a única certeza possível é a da morte, ou, como assevera o autor, a “Queda”, último capítulo do livro. Esta queda, com ressonâncias de Camus, que representa metaforicamente a derrota do homem na luta contra as forças visíveis e invisíveis do planeta, é personificada, no romance, pelo gramático Fernão de Oliveira, que por sinédoque representa todo o ser humano. Corroboram esta leitura as seguintes passagens do texto: “Porque o justo cairá sete vezes, verdade é que ele não era tal, se mais vezes não caiu.” (159); “Porque o justo cairá sete vezes [cf. Provérbios 24:16] verdade é que nenhum deles era tal, se mais vezes não caíram.” (227, sublinhado meu) Constata-se, assim, que há uma evolução do primeiro passo para o último, isto é, passa-se do individual para o coletivo, ou melhor, do “eu” para o “nós”. Daí que se entenda, agora, que Oliveira representa, no final da obra, todos os mortais.
Quanto à estrutura interna, ela é assegurada pelos vários paratextos, escalpelizados atrás. A primeira parte inicia com os conselhos ao leitor no apartado “Notícia” e a segunda em “Advertências”, seguida de “Argumento”, que funciona como leitmotiv da última parte.

2. O leitor mais distraído não terá dificuldades em nomear este romance de “histórico”, mesmo tendo em conta toda a carga subjetiva que o adjetivo transporta. Creio que o objetivo do autor passa por criar um esboço o mais nítido possível do primeiro gramático português e, desta forma, reabilitar a imagem, por vezes, tão maltratada pela investigação histórico-literária, de Fernão de Oliveira. Outra razão que poderá ser convocada é o facto de ambas as partes/histórias se situarem cronologicamente no século XVI, um século a todos os títulos significativo. Outro elemento histórico encontra-se na alusão do ataque Otomano à Hungria que foi previsto por Sá de Miranda, introdutor do soneto em Portugal. (18) Este acontecimento é relatado com mais pormenor na página 55, na qual se enaltece a luta contra o infiel, que queria tomar a Hungria. Assinalo, ainda, as várias referências ao Concílio de Trento e à sua ação no mundo religioso e a figura do Infante Santo Fernando cativo em Fez, por razões de Estado, que, sem dúvida, enformam historicamente a obra. (20)
Todo o “Argumento” da segunda parte tece um retrato de Lisboa que é atual, embora se reporte ao passado (152). Também, a narração do processo (187) que a Inquisição moveu a Fernão de Oliveira (sendo tudo falso e as testemunhas orquestradas contra ele), para além do indubitável valor histórico, pode ser lida como uma cáustica crítica à administração da justiça nos tempos hodiernos.
Nomeio, por último, não querendo ser exaustivo, a grande peste que assolou Lisboa, em 1569 (narrada no sexto passo, 207), onde encontramos expressões como “grande mortandade” e “Se conto assim é porque fugi, fui mau, sobrevivi.” (208), que, segundo penso, remetem para a primeira parte do poema “Nós” de Cesário Verde.

3. A estrutura bífida do romance pode ser deduzida numa primeira leitura, até porque o escritor não se cansa de o repetir em várias passagens.
Como já referi acima, o romance apresenta duas partes: a primeira intitulada “Recto / Index” e a segunda denominada “Verso / Uma História Mal Contada”, onde a ficção anda de mãos dados com a realidade/verdade histórica. Registe-se o facto de o dominicano que veta o lançamento do livro “Recto / Index” ser o mesmo que narra o “Verso / Uma História Mal Contada,” segunda parte da obra. No entanto, a mão do copista, ou melhor, do autor, é visível ao longo da narrativa, como patenteia o excerto seguinte: “Digo que a escrevo aos vinte e cinco anos, com factos históricos que só ocorreram depois, e um amigo, Duarte Nunes, acabado de nascer (em 1530?), completará, se quiser”. (139) Neste capítulo, que é o último da primeira parte, narrado na primeira pessoa, Fernão de Oliveira fala, em jeito de autobiografia, das obras que já publicou. (139) Quero, também, destacar a preocupação do gramático em escrever “este discurso em romance” (idem), o que enalteceria e ajudaria a Língua Portuguesa a autonomizar-se e a impor-se, definitivamente, ao Latim. (139, 40) Veja-se, a este propósito, o discurso parentético sobre a sua obra A Arte da Navegação, que passo a citar: “Perdeu-se; mas também era em latim…” (140)
Outro argumento que posso convocar para a unidade da obra cumpre-se nesta passagem da segunda parte do romance: “Do que Fernando dá nota […] no recto de um manuscrito, que desejava nosso primeiro romance em prosa.” (154, sublinhado meu) Não será difícil passar o determinante do plural para o singular, corroborando, em meu juízo, o “estratagema” do manuscrito e toda a sua envolvência, como atrás demonstrei. Acrescento, apenas, que estas e demais passagens escalpelizam a intenção, a sageza e a ars deste soberbo escritor/romancista que é Ernesto Rodrigues.
Encerro este tópico carreando mais três exemplos. O primário diz respeito à menção de um filho que Oliveira não conheceu, com que termina a primeira parte do texto: “Com este manuscrito de Index, encontrava-se roupa de mulher – a qual guardava (Deus da Salvação!) sinal evidente do filho que ele não conheceu.” (144) A chave deste mistério o leitor só a encontrará no final da segunda parte. Também as referências às missões em que partira Fernando de Oliveira são idênticas em ambas as partes, a saber: preferia ruas de Castela à cela lusitana, fuga amorosa e razões de Estado em missão secreta (154). O derradeiro segmento textual que convoco encontra-se na página 170, quando se relata a história do crocodilo que emprenhou uma jovem: “Não seria ele o crocodilo? Judite, a mulher formosa? E labirinto, aquele labirinto e romance da sua vida, que sumulou em poucos dias de Setembro de 1532, como diz?” Este excerto, para além de estabelecer a ligação com a primeira parte do romance, apresenta-nos, igualmente, traços autobiográficos do protagonista da obra.

4. Todo o romance, e por defeito o histórico, assenta na simbiose entre realidade e ficção, tornando, desta forma, o texto verosímil e a intriga mais apelativa e interessante para o leitor. Digamos que à ficção cabe a função de embelezar e suavizar (semelhante à mitologia nas epopeias) os dados ou a verdade histórica. É, sem dúvida, desta luta titânica que germinam os grandes e imortais romances.
Dado que sobre a vertente/realidade histórica já me pronunciei, o meu enfoque centrar-se-á, agora, na ficção. Atendendo ao que já foi escrito, não devem subsistir dúvidas de que estamos na presença de um romance autobiográfico. A obra assenta na tríade: Eu / Fernão / Laura. (cf. Petrarca) Estranharão, porventura, o pronome pessoal. No entanto, o escritor/Ernesto Rodrigues desvela-se na obra nas múltiplas alusões aos seus dados biográficos, que, como são deveras conhecidos, dispensam-me a obrigação de os apresentar.
Outro dado ficcional, de grande relevância para a organização interna da primeira parte do romance, materializa-se na figura do “cristo do ano”. Neste momento, o narrador, recorrendo à ironia, apresenta-nos uma outra visão de Cristo, que nos traz à memória o capítulo III de A Relíquia, de Eça. Refira-se, a este propósito, que o autor se revela um profundo conhecedor do texto bíblico, nas várias referência, citações e alusões que dele faz, associadas à figura de Cristo [cf., a título de exemplo, as páginas 36, 45, 47, 48 e 92]. Cristo, ou melhor, os vários concorrentes ao concurso “cristo do ano”, é-nos apresentado como um simples humano que vagueia em alto mar em vez do deserto até à “queda definitiva”. Também, o cristo-político, que chega com a sua assessora e o seu guarda-costas (60), configura uma alusão clara e sarcástica à prática democrática quotidiana. A Igreja e os seus dirigentes também não são poupados, quando lemos: “Cristãos, é certo, mas nada apostólicos.” (143)
Refiro, de seguida, alguns dados que auxiliam o leitor a desfazer a teia urdida, de forma ficcional, pelo autor, quando divulga as datas da biografia de Fernão de Oliveira (139).

No capítulo catorze, “Índice”, que pode ser lido como o desenlace da primeira parte, o relator desfaz o tecido, qual Penélope, que tecera no início e revela ao leitor que tudo não passou de uma ficção: “Ficámos num ah. O leitor, perplexo, que não era para menos. Fora enganado.” (130) Este tópico é retomado no início da segunda parte, corroborando o que afirmamos acima sobre a unidade da obra, em que o narrador interpela diretamente o leitor, à semelhança de Garrett nas Viagens…, ao afirmar: “Eu avisei-te, leitor.” (149) O autor/narrador, no seu intuito de codificar o texto, para de certa forma ofuscar a lente, joga com a escrita, afirmando: “se não escondesse, entre anátemas ao leitor, é que a minha vida não faria sentido.” (185)
Outro aspeto ficcional que enriquece o texto encontra-se nas razões que presidiram à saída de Portugal de Fernão de Oliveira, uma vez que, sendo múltiplas, não são claras. Para além das três, já referidas, menciono, ainda, vigiar a Europa que fazia concorrência a Portugal, em especial na arte de marear. (154)
O derradeiro aspeto ficcional que indico prende-se com o censor que redigiu o “Parecer”. Parece-me que, para acentuar mais a ficção, o leitor é conduzido ao pensamento de que este censor poderá ser o mesmo Frei Bartolomeu Ferreira que escreveu o parecer de Os Lusíadas e que, segundo reza a lenda, teria um gosto literário apurado, caso raro nessas funções, tendo salvado vários livros da Inquisição, no século XVI. Por fim, no sétimo passo, o narrador, ao referir-se, de forma condoída, ao conceito de fim da pátria, em 1580 (225), reafirma, dando a palavra a Fernão de Oliveira, que o que permanece é a escrita e, dentro desta, sobretudo a ficção: “A ficção consegue esse milagre. Transformou-me no que não tive coragem de ser, por cobardia, dando-me, pouco antes de morrer, a coragem de me salvar aos olhos de dois amigos.” (226)

5. Outra característica que ressalta à vista, da leitura desta obra, é o seu pendor moralizante ou pedagógico, sempre orientado para a positividade da vida. O narrador começa por afirmar: “A dúvida marcou-me.” (17) E acrescenta: “Tem de haver razão forte para se continuar na mentira.” (17) A importância destas sentenças prende-se com a filosofia de vida que podem dar ao leitor, auxiliando a sua autognose e o conhecimento do mundo em que vive. Na página 28, encontramos: “Tem cada homem seus caprichos; e, se pudermos, não sejamos infelizes.” Aliás, a procura da felicidade é o ideal de todo o ser humano. A felicidade associada à tranquilidade e à paz de espírito auxiliam a caminhada terrena, como lemos nesta passagem: “É injusto não viver tranquilo.” (51) E como “Nunca sabemos para que funções estamos guardados.” (88), “Não podemos ser tão mudáveis.” (65), e, para a consecução desse desígnio, “A velha amizade, o melhor caminho”. (64)
 Noutros momentos regista-se a desilusão do autor com a postura e a mentalidade dos seus concidadãos, que tendem a valorizar o que é estranho: “É prática antiquíssima ir buscar fora o que não há dentro.” (36) Tudo isto são consequências da liberdade em que vivemos e que deve ser continuamente repensada e defendida: “Tê-la-íamos, à liberdade, sem tantas imposições?” (57) Encontram-se, ainda, conselhos relacionados com os livros, isto é, o alimento do espírito: “O amor vai bem na falta de livros. Cresce em prazer.” (67); e, também, “Onde falta pão faltará livro.” (88)
Para concluir, arrolo: “É muito antiga esta miséria portuguesa de não saber dar lugar às virtudes, nem engradecer honrosos pensamentos, antes acanhá-los em modas, e desprezá-los, contentando-se da glória de seus passados.” (167) Esta afirmação em jeito de desabafo, ao estilo de Saramago, enfatiza a realidade portuguesa, tanto passada como presente, visto que somos tão eficazes a reconhecer e a louvar os de fora como a rebaixar os de dentro. Só deste modo se pode compreender o desabafo do narrador: “A vida é triste; nem sermos bons nos alegra por dentro.” (185)

6. É um lugar-comum afirmar que o escritor escreve para o presente, embora o tema, a ação do romance verse sobre o passado ou o futuro. O mesmo se infere das palavras de Umberto Eco: “Haverá algum escritor que escreva apenas para as gerações futuras? Não, nem pode sequer afirmá-lo porque, como não é Nostradamus, só pode conceber os leitores futuros a partir do modelo daquilo que sabe dos contemporâneos.” [Eco, 1984: 41]
Ora, com este romance, Ernesto Rodrigues quer filar a mente dos seus contemporâneos e auxiliá-los na sua via-sacra terrena, como vimos no apartado anterior, para que os mesmos se tornem cidadãos mais cônscios, conscientes dos seus direitos e deveres. Desta forma, o leitor não estranhará o facto de se criticar, sempre com ironia, predicado do autor, o aproveitamento que as pessoas fazem da vida nos dias de hoje, que jogam golfe e desperdiçam o tempo nestas e noutras distrações mundanas, em vez de se dedicarem a causas mais nobres e que deem sentido à existência: “Além do termalismo, estes metem bolas em buracos verdes e disputam-se canoas, com afogamentos à mistura. É uma forma de passar a vida.” (52, sublinhado meu) Note-se o verbo passar, que me parece ser sinónimo de gastar/perder a vida, ao invés de a ganhar, salvando-se a si e ao próximo.
Outro exemplo de que o escritor está preocupado com o presente da escrita pode ver-se na referência que faz às lutas intestinas entre os membros da Igreja, que, pelo poder, tudo realizam até matar e abandonar quem lhes possa fazer frente. “O provincial, setentão, conquistara o lugar a troco de subornos. Leiloaram almas, uma a uma, e, bom, em cinquenta anos de nenhuma oração rezada de cabo a rabo, vira desertar uns para o Céu, outros para o século, chantageando restantes. Sem amigos. O que esperava? Fazer-se cortesão. Cuidar imagem. Subir ao céu possível.” (78) Isto se poderia dizer, sem trocar vírgula, da política portuguesa atual, como o leitor, facilmente, deduzirá. Nem eu concebo retrato mais sagaz e acabado da sociedade contemporânea. A denúncia e a condenação da homossexualidade e dos abusos execráveis pelos membros da Igreja, que infelizmente estão na ordem do dia, encontram-se forjadas nestas linhas: “O adjunto concedia-lhe favores carnais. «Carne de sua carne», e riam.” (79) A intemporal aliança e cumplicidade entre a política e religião é aflorada em várias passagens; cito esta, a título de exemplo: “fosse um mártir da fé ou cativo por razões de Estado. Fé e política irmanavam-se.” (134,5) A administração da justiça e o comportamento dos magistrados davam/dão mau exemplo ao estrangeiro, repercutindo-se esse facto, de forma negativa, nas relações de Portugal com outros países: “Disto se segue que muitos dos nossos infelizes compatriotas, mareantes e mercadores, entre aqueles e outros povos, sofrem ofensas por falta de cautela dos magistrados deste reino, cuja prudência por modo algum atende aos negócios externos.” (201)
Contudo, esta aguarela portuguesa só fica completa com as tintas da ignorância e da desinformação, porque o saber é encarado como um perigo para quem governa, que não gosta de ver questionado o seu poder discricionário. Esta postura remete-nos para as palavras, sempre atuais, de D. Miguel, na obra Felizmente Há Luar!, de Luís Sttau Monteiro: “Sonho com um Portugal próspero e feliz, com um povo simples, bom e confiante, que viva lavrando e defendendo a terra, com os olhos postos no Senhor. […] Não concebo a vida, Excelências desde que o taberneiro da esquina possa discutir a opinião d’el-rei, nem me seria possível viver desde que a minha opinião valesse tanto como a de um arruaceiro.”[5]
 O tríptico completa-se com as cores do silenciamento e da uniformização, isto é, do pensamento único, ou melhor, da rejeição do mesmo, sendo preferível seguir as ideias do “chefe” de forma acéfala, muito em voga na atualidade. Tal como lemos no romance: “Tudo se faz para que um homem não duvide. A pensar no bem de quem?” (134); “O latim é útil, se traz o silêncio dos ignorantes e a mastigação corre de boca em boca fechada.” (107, sublinhado meu)
A terminar esta parte, apresento, à guisa de conclusão, este excerto que sintetiza o pensamento do autor sobre o assunto, que corroboro: “Nós somos criação divina, não criadores. Partes de uma obra que nos pede louvor, sem a interrogar. Viver rotinas educa-nos a acção e desbota as cores fabulosas da imaginação, que não é ofício próprio de quem reza para o mesmo lado.” (162)

7. A defesa da língua Portuguesa é uma questão que atravessa todo o romance e o seu elogio ou ataque é colocado nos lábios de vários personagens. Assim, encontramos várias posições, desde logo, a de Fernão de Oliveira, que a sustentava abnegadamente, em pleno tribunal da Inquisição, combatendo a posição desta, que defendia a ideia de que “a nossa língua é um empecilho; maior, só mesmo quem a mastiga.” (181) Perante esta tese, é impossível não pensar nos ataques que, de forma mais ou menos velada, se fazem, no presente, à língua de Camões. Lembro, ainda, o grande enfoque que se tem dado ao Inglês nos últimos anos, mais parecendo que basta sermos proficientes nessa língua. Ouçamos, de novo, em jeito de reflexão final, o autor: “Eu juraria que quem folga de ouvir língua estrangeira na sua terra não é amigo de sua gente, nem conforme à música natural dela.” (180)
Outra agressão, em minha opinião, que deixou marcas insanáveis na Língua Portuguesa, aconteceu com o último acordo ortográfico, agora em vigor, e no pouco cuidado que os teóricos manifestaram perante as sensibilidades do idioma pátrio. Esta atitude parece-me mais consentânea com a da Inquisição, referida antes. Talvez seja por essa ordem de razões que o autor Ernesto Rodrigues não segue a nova ortografia.
Saliente-se, ainda, o interesse e a valorização das letras pelos cidadãos, pois os nobres da época deixaram de convidar João de Barros por este não os citar nas suas Décadas. (cf. 191, 2) O assunto não pode sem mais atual, uma vez que os elogios, por norma, se fazem por interesse e não por mérito. Este episódio traz-nos à memória os decassílabos do canto V, estância 97, d’Os Lusíadas, “Sem vergonha o não digo: que a razão / De algum não ser por versos excelente / É não se ver prezado o verso e a rima, / Porque quem não sabe arte, não na estima.”[6]
Na senda desta inquietação encontramos este exemplo: “Fernando contou de Júlio César, que, embora clemente, despediu «um legado consular, por lhe escrever em uma carta um icsi por epsi».” (202) De seguida, desabafa: “E agora tem-se tão pouco respeito ao bom ou ao mau escrever…” (202) Creio que, se o leitor encontrasse estas palavras descontextualizadas, não teria dificuldade em atribuí-las ao presente, tal é a sua atualidade. Foi por estas e outras semelhantes atitudes que o protagonista da obra padeceu, como se depreende da leitura, em dois momentos, os suplícios do Santo Ofício, sendo vítima da inveja, da religião e do tempo, que o odiavam pelas suas ideias vanguardistas para a época.
Apresento um outro exemplo que ilustra o pioneirismo do gramático Fernão de Oliveira, no qual defende a ideia de se escrever como soa (cf. 194). Esta proposição é, hoje, a pedra de toque da linguística moderna e do novo acordo ortográfico. Por último, refiro esta citação: “alimentava-se de pão e tinta.” (216) ‒ confirmando a grande afeição que Fernão de Oliveira/Ernesto Rodrigues dedicam à Língua Portuguesa.

8. A peregrinação terrestre sempre esteve associada ao sacrifício e ao cumprimento de regras e preceitos. Desde o fardo bíblico ‒ “comerás o pão com o suor do teu rosto” (Gen. 3,19) ‒ até aos nossos dias, a vida terrena é feita de trabalhos e canseiras que só podem ser suavizados pela disciplina e pelas regras, estando o ser humano em constante devir.
Assim, o homem é ajudado pela disciplina e pelos ensinamentos que adquire sentado à mesa de trabalho, imitando São Jerónimo: “onde erguera estante breve para imitar São Jerónimo.” (123) Conclui-se, deste modo, que o labor intelectual é austero, duro e sem distrações supérfluas.
No capítulo “Final”, verificamos que o homem é transformado pela caminhada: “Olhando para trás, estes dias são eternidade, e o que vejo está um pouco antes, na juventude feita dúvida, naqueles olhos que não louvei bastante, quando se entrefechavam no supremo prazer que só o amor admite.” (133) Estas palavras podem remeter o leitor para os versos “caminhante não há caminho faz-se caminho ao andar”, de António Machado. No entanto, o percurso cultural e moral do homem é atribulado e feito de dúvida e de conhecimento: “Eu duvidava, não de Deus, ainda” (48) Nesse itinerário, o homem dispõe da ajuda da mulher que lhe prepara a fuga para o levar para longe e amá-lo, sem intrigas, invejas (63) e longe dos enredos civis e religiosos. (64) A mulher, ou melhor, o cristo-mulher inspirado na figura bíblica de Judite, não é mais do que um instrumento da justiça divina para o bem e para o mal. (134)
 A caminhada é árdua, mas o homem/narrador não se dá por vencido; “Eu estive lá. Saí derrotado, mas não vencido.” (154) Creio que estas palavras partilham da filosofia de vida do velho Santiago de O Velho e o Mar de Ernest Hemingway, que afirma: “Um homem pode ser destruído, mas não derrotado.”[7] O narrador/autor, para não claudicar, exercitava uma disciplina férrea que o subjugava: “A disciplina custava-lhe, como a todos nós.” (162) Próximo do fim declara, num tom mais intimista e até confessional, que amou e que nunca prejudicou terceiros, e, por isso, segue em paz com a sensação de dever cumprido, embora se queixe da indiferença de que é difícil libertarmo-nos: “Vou pacificado, mártir ou santo de circunstância. Cada um dirá de mim parte dos seus receios.” (140)

Termino esta proposta de leitura convocando, em minha defesa, as palavras de Eduardo Lourenço: “O crítico é o leitor que se crê autorizado a decidir por imaginar ter descoberto os critérios, os pontos de referência, o sistema capazes de introduzir uma ordem no caos da criação.”[8]
Nem outro foi o meu propósito, sempre norteado pela sentença de Sá de Miranda: “Quantos os ledores, tantas as sentenças.”






[1] GENETTE, Gerard, Paratexts: Thresholds of Interpretation, Cambridge University Press, 1997.
[2] ECO, Umberto, O Nome da Rosa, Difel, Lisboa, 1980.
[3] Refiro o exemplo do parecer de Os Lusíadas, que poderá ter funcionado como modelo para o autor, visto que é o mesmo frei (Bartolomeu Ferreira) que assina os dois “documentos”.
[4] ECO, Umberto, Porquê «O Nome da Rosa», Difel, Lisboa, 1984. Na página 35 desta obra, podemos ler: “Só me apercebi disso dois anos mais tarde, justamente ao tentar encontrar uma explicação para o facto de o livro também ser lido por pessoas que não podem naturalmente gostar de livros tão «cultos».”  
[5] MONTEIRO, Luís de Sttau, Felizmente Há Luar!, Areal Editores, 1999, pág. 69.
[6] Camões, Os Lusíadas, Leitura, Prefácio e Notas de Álvaro Júlio da Costa Pimpão. Apresentação de Aníbal Pinto de Castro. ICALP, Ministério da Educação, Lisboa, 1989, pág. 147.
[7] HEMINGWAY, Ernest, O Velho e o Mar, Tradução de Jorge de Sena, Livros do Brasil, Lisboa, S. d., P.109.
[8] LOURENÇO, Eduardo, O Canto do Signo Existência e Literatura, Editorial Presença, Lisboa, 1994, P. 21.