quarta-feira, 28 de Maio de 2014

«A Casa de Bragança» na Feira do Livro de Lisboa, sábado, 31 de Maio


Convido amigos e leitores de «A Casa de Bragança» para uma conversa e autógrafos no Pavilhão B38, sábado, 31, a partir das 16,30h. Estarei na melhor companhia: Amadeu Ferreira e Teresa Martins Marques, também autores da Âncora Editora.

segunda-feira, 21 de Abril de 2014

CESÁRIO VERDE INTEGRAL?


Leio, no Diário Digital:
«A obra integral de Cesário Verde, pela primeira vez fixada, com a produção poética revista e ordenada, a biografia organizada e a correspondência anotada, pelo catedrático Ricardo Daunt, é apresentada em Lisboa.
A obra é apresentada na quarta-feira às 18h30 na FNAC do Vasco da Gama, em Lisboa, por Ricardo Daunt, catedrático da Universidade de S. Paulo, e pela professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Annabela Rita, anunciou a Embaixada do Brasil.»
Desejaria que a minha colega, e, antes dela, o organizador brasileiro conhecessem o inédito de Cesário que publiquei no «Actual» do Expresso em 18 de Julho de 2009. Donde, esta edição da DinaLivro NÃO é integral.

sábado, 12 de Abril de 2014

Gente do Norte


Gente do Norte ou A História de Vila Rica (1977), de Leonel Brito, é uma docuficção em renovada sintaxe, que faz deste filme pequena obra-prima em menos de uma hora.
Na linha de experiências de Manoel de Oliveira ou João César Monteiro, o pós-Abril trouxe um interesse crescente pelas manifestações populares (cultura intersomática ou social) maioritariamente centradas no Alentejo e em Trás-os-Montes, bem como por casos de cooperativa, de pequena e grande empresa ou fábrica, em que pulsava o voto de uma democracia alargada.
No exemplo transmontano, tínhamos Oliveira e co-realizadores em O Acto da Primavera (1962), seguindo-se Alfredo Tropa, Pedro Só (1971), Festa, Trabalho e Pão em Grijó de Parada (1973), de Manuel Costa e Silva, e Falamos de Rio de Onor (1974), de António Campos. Sucederam Trás-os-Montes (1976), de António Reis e Margarida Cordeiro, Máscaras (1976), de Noémia Delgado, e Argozelo ‒ À Procura dos Restos das Comunidades Judaicas (1977), de Fernando Matos Silva.
Ora, neste ano, uma nova cinematografia emerge com Leonel Brito: não é só o trabalho de campo, de décadas, que vultos eminentes da filologia e das ciências sociais já tinham operado na região, acrescidos de musicólogos ‒ que o mesmo realizador segue em Encomendação das Almas (1979), onde também não falta o inquérito; nem tão-só um esboço de ficção, a caucionar o folclore, embora pequenas histórias, geralmente dramáticas, se encaixem na diegese. É, a par disso, um lento olhar picado do alto da serra, único a abarcar a grandeza de uma paisagem, rude e tirânica («Entra nos olhos e não sai mais», dizia Torga, no Diário XIII, que só essa tirania aceitava), da qual se desce ao indivíduo comum, para, lenta, a focalização abrir à comunidade – e, nessa alternância, contar-se a história económica, social, religiosa e política de Torre de Moncorvo, ‘vila rica’ de minério e regra legionária à sombra do templo, agora afrontada por anseios legítimos do retornado, emigrante, camponês, asilado, estudante.
Se o sociológico reforça uma etnologia que, a mais das vezes, se quedava na descrição, a novidade está em que, nesse alternar de paisagem física e humana (e, dentro daquela, entre uma grandiosidade e a típica casa decadente; e, dentro desta, entre sujeito e grupo), se abisma uma narrativa, circulando entre carpires na igreja e passagem do féretro na praça, com cena final do comboio ironicamente partido para segunda morte ou fim da linha, enquanto não chega terceira (prenunciada no casario da barragem do Pocinho), quando a beleza da Vilariça, decisiva no alardo de D. João I, ficar submersa por outra barragem. A praça, entre indiferente e expectante, pode ser a última esperança de sobrevida; percebe-se uma estratificação social; a menina ceguinha, suas rezas e vinho fino, são de um tempo revoluto; quem tem unhas toca guitarra, mas a desertificação é inelutável, mau grado a iniciativa de retornados ou emigrantes. O risco do jogo em feira ou taberna é improdutivo; as minas são, regularmente, notícia de futuro. Este filme ‒ no que estuda, documenta, deixa de nostalgia ‒ torna-se, sobretudo, um desafio…
…Também narrativo, cuja sintaxe ou montagem importa relevar. Há um texto (excelente, de Rogério Rodrigues; neutramente lido, para melhor sobressair a melopeia da frase, assente em discretas repetições) que vai a par ‒ como a vida vai a par do baptismo e do casamento, da festa e do baile, da igreja e da feira, do rio e da linha do Sabor, acontecendo, em cada momento desses, um sobressalto. Este dá-se, ainda, na mudança de planos (e, nestes, quem percebe logo vir aí um açude vertendo-se em catarata?) ‒ numa sequência de quem conhece o seu chão ‒, na batida musical de José Mário Branco, nos depoimentos bem gravados, quando o som era um bico d’obra no filme português… O cenário sai cumulado na fotografia de Elso Roque, cujo esplendor é via real para uma obra-prima. 


[Nota: Vimos este filme, ontem, 11 de Abril, na Cinemateca, ao lado de Leonel Brito.]           

terça-feira, 11 de Março de 2014

Tertúlia literária


Ernesto Rodrigues anima tertúlia sobre os seus 40 anos de vida literária, cujos últimos títulos são o romance histórico A Casa de Bragança e o conjunto de poemas Do Movimento Operário e Outras Viagens.
O encontro tem lugar no dia 19 de Março, quarta-feira, a partir das 14 horas, na Livraria Caixa dos Livros, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.  

domingo, 9 de Fevereiro de 2014

D. Fernando I, segundo duque de Bragança

Fora a carta de foro dada no arraial de Ceuta, em 20 de Fevereiro de 1464, era de Cristo; Pero de Alcáçova, que a escrevera, entregou cópia a um parente meu, Afonso Roiz, ou Rodrigues, e, a rogo do duque, recado para vir mostrá-la em pessoa, obrando aquela fala breve.
A história dirá quem era esse Afonso Rodrigues, e antepassados. Quem sou eu, do mesmo nome, cujos últimos dias talvez venham escondidos num fio da sua meada.
Foi há 550 anos; não imaginava que, na indefinição de criança em calções, sandálias lestas, o passado viria acariciar-me, exigindo este discurso.

Saudava, agradecido, D. Fernando I, segundo duque de Bragança, na estátua de bronze, sobre três blocos rectangulares de granito em assento leve, rodeada de folhame. Em cota leve, flectia ligeiramente a perna direita, espada embainhada e oblíqua, fincada, rígida, à esquerda, com determinação; e, entreaberta na mão direita, a carta foraleira, que oferecia, confiado, à cidade. Miudamente, observava as cotoveleiras, joelheiras, o cabelo grisalho caindo sobre as orelhas, e franjado na testa, com duas rugas verticais, fundas. A comissura dos lábios era grave. O neto de D. João I, rei ínclito que renovara o castelo – filho do primogénito D. Afonso, primeiro duque de Bragança −, mostrava-se firme, teso como a dignidade.
Eu assistira à inauguração, em 1964, ganapo ainda, enroscado nos pilares de ferro em que assentava um dos cinco candeeiros. Tinha oito anos, nada sabia de nós. Lembro-me da formatura de senhores, que escureciam o dia, e, talvez por isso, menina vestida de branco, um loiro anelado, da minha idade, sobressaía na manhã fresca, oferecendo salva de prata.
Agora, vinha aqui todos os dias, a casa dos avós, cada vez mais tristes, por mim, sentia. Antes, repousava no rectângulo de pedra frente à estátua, que dois bancos em voo semicircular enquadravam. Alternava verde; à direita, a pousada de São Bartolomeu, onde sonhava descansar, um dia; em fundo, o ronronar do Rio Fervença, sucedendo galos, cães, poalha de vozes… Nas tardes de sol, árvores e duque estampavam-se na tela muralhada.
Ao tempo, D. Fernando I e eu ouvíramos outros discursos embalados em patriotismo – civis, militares, religiosos; exaltados telegramas de cumprimentos e saudações, martelados de stop, à imagem de um país sem iniciativa.

A Casa de Bragança, Lisboa, Âncora Editora, 2013.

sexta-feira, 24 de Janeiro de 2014

Algumas Leituras (1)

José de Sainz-Trueva, O Lento Arder das Coisas (Âncora Editora, 2013)

Foi em 18 de Junho de 1981, numa breve recensão do semanário lisboeta Tempo, que pela primeira vez me debrucei sobre poesia madeirense. Em causa estava Ilha 2, lançada com algum estrondo em restaurante da estação do Rossio, sob a égide do então governante e poeta João Carlos Abreu. De Ilha 1 (1975) só conhecia lisonjeiro parecer de Pedro Tamen no Expresso (1-III-1975; nas suas páginas, em 5-X-2002, analisei Giampaolo Tonini, Poeti Contemporanei dell’Isola di Madeira, culminando 31 anos de atenção à lírica e cronística ilhoas), que referia a «qualidade média da recolha»; se, no volume de 1979, ainda ocorriam fragilidades, pude ser mais generoso, e, para o poeta que agora nos interessa, relevei «o rigor quase cruel de José de Sainz-Trueva».
Crueldade filia-se, para mim, não no théâtre de la cruauté sobre que discorre A. Artaud nos anos 30, mas na prosa sadiana, cujos excessos estão contidos numa gramática de relações fria e lúcida, em maquinaria narrativa cumprida à risca, sem cedências ao melodrama fácil, a estilizações de indisfarçado kitsch. É, pelo contrário, uma ética do estilo (se este é o homem, como dizia Buffon), longe de mimetismos tolos ou de exercício escolar, esquartejado a compasso, como se o artista fosse um magarefe.
Partes desse processo, e um dos principais factores distintivos em arte, ritmo e melodia fazem-se conquista dificultosa. Isso mesmo foi explicado por João de Deus no seu jornal O Bejense (7-XI-1863), quando houve que combater a mera versificação compassada do D. Jaime (1862), de Tomás Ribeiro, que o versificador-mor Castilho queria no ensino, em vez d’Os Lusíadas. Na prosódia sucinta da presente selecção, e antes que as «coisas» se fundam em matéria lírica, convém sentir que o «lento arder» é, primeiro, de uma voz, e que a nossa deve segui-la na orientação de um olhar conformado à subtil combustão de cesuras, rimas toantes, aliterações, tudo tão discreto, como se nem déssemos pela pontuação reduzida ao interrogativo, que humedece esta regular filigrana venosa. Sem cair no abuso retórico, perfila-se uma escassez variamente assumida, instigada por inspiração vigilante, precisa, cruel. Resistem, contudo, dúvidas de entoação (e decorrentes vazios, a preencher), quando hesitamos em associações vocabulares ou num simples encavalgamento. Nesta maranha, afora ritmos, recrescem os sentidos.    
Com José de Sainz-Trueva – escrevi, depois, quer no JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias (10-III-1992), face aos parcos textos de Ilha 3 (1991), quer no prefácio de Ilha 4 (1994; ano em que dele edito, n’O Escritor, 4, “O Amor Cativo”) –, «a impressão é de música longínqua: o versilibrismo fluido, de rimas internas, corrobora a placidez do búzio ‘sumarento’, com que efabular ‘arte nova intacta’, poesia ‘sem adorno / despida / cativa rosa ávida’.» E acrescentei, coligando História, discurso, efeito: «Há um ‘submerso / rumor’ onde a própria fome adquire ‘infinita pureza’». Estes versos são de novo coligidos; minhas sínteses, sobre tão poucos exemplos, julgo que definitivamente caucionadas.
Retornando em Ilha 5 (2008), «sempre em pequenas doses, sem pathos, descritivista e fotógrafo da ilha» (como escrevi no prefácio), estranhei, nos nossos raros encontros, que ele se não desse, inteiro, em volume largo, a tais alturas subia percurso de que, afinal, eu só conhecia atalhos. Num sorriso esquivo, ele adiava. Daí, a surpresa desta reunião, para que dois amigos o e me convocam.

Composições dos 20 anos até à sessentena reunidas em O Lento Arder das Coisas (2013), vislumbra-se uma comunidade de valores em nomes próprios – da literatura (Rimbaud, Edmundo Bettencourt…) às artes plásticas renascimentais e contemporâneas–, em epígrafes, títulos feitos expressões (arte de amar, esplendor na relva, o bicho harmonioso, chuva oblíqua, sinais de fogo), no branco entre vocábulos, em finais de verso monossilábicos, na sua geografia de eleição. Cada item poderia convocar outros cultores. Releve-se, todavia – explícito, já no interdito, entre ditos (no coração do dia / respiração do dia, peso afectivo de Setembro, etc.) –, Eugénio de Andrade, cuja força imagética espartanamente coroada acolheu gerações. Sobrepaira atmosfera da Poesia 61, na recuperada dignidade da linguagem; vai-se, entretanto, muito além da heterogeneidade encontrada no suplemento «Juvenil» (inaugurado em 4-V-1957) do Diário de Lisboa, onde se reflectiam as vanguardas dos anos 60, em comunhão, ainda que distante, com as preocupações sociais do tempo, também por razões censórias. Ora, no horizonte mais vasto da soma de Sainz-Trueva, alguns riscos surpreendem-me.
Assim, ao anunciar-nos «outra face / da ilha / a recortada e só / onde os homens / choram» – de encontro a proposta minha dirigida ao natural da «ínsula de lava e funcho», no sentido de «cavar nesta ilha para se enraizar» (1994), com que melhor se tornaria universal –, agrada-me um novo olhar sobre o geralmente ignorado regime de colonia, dura existência enterrando «as pernas / até aos joelhos». Reencontramos a sua cristalização numa espécie de ex-voto, «jovem colono / gravado a buril». Esse voto, como é qualquer transposição artística, significa nova condição para os homens?
A nossa permanência plasma-se numa subjectividade que importa escandir devagar, nela detectando, quiçá, através das coisas, «o lento arder do tempo» em «terra chã». Uma hipótese, ou périplo, de leitura faz suceder as estações da vida, mas sem que alguns componentes do elemento ‘fogo’ deixem de queimar, mesmo sob geada.
Enquanto assistimos à retoma de estruturas, mesmo após corte nas ligações sintácticas – como se os motivos do azulejo buscassem harmonia, não forçosamente simetria («Só pode o corpo / […] // o corpo pode outro / corpo pode»); enquanto o olhar do sujeito se faz resvés, rente, rasante, em enumerações substantivas ou conclusão aqui inesperada, ali suspensa, sendo uma das traves-mestras metaforizar a caligrafia do fazer poético, «a mais pura luz / do desejado / verso»; enquanto isso, transitamos do «som da manhã» ao Verão, à «mestiça luz da tarde»; do Outono à «sombra da sombra» e à neve do fim, num tal disseminar de lugares, coisas, sentimentos, sensações, que se requer alguma distribuição morfológica, como se estivéssemos perante fragmentos, poeira, «poalha de oiro», em suma, num «casulo de oiro» ou «casulo / da memória». Teríamos, no rápido inventário da ordem do ‘arder’, nome e verbo: ardor, brasa, brilho, cal, carvão, chama, cinza, clarão, combustão, esplendor, farol, faúlha, febre, lava, lume, luz, sol, vulcão; acesa, incandescente, incinerada; abrasar, aquecer, queimar.

Mau grado – felizmente – substantivo, como raros entre nós, é uma arte sensível, em trânsito da circunstância para a interioridade, que os parcos adjectivos e verbos de estado acentuam. Percebe-se a decomposição da eloquência, típica de outros autores madeirenses, em unidades menores, cuja concentração cumula leitor disponível. Entretanto, em cada estação, sinaliza-se recorte de outras; os passos mesclam-se de um tempo compósito, ardente, como se perseguíssemos um absoluto, que a condição lírica favorece. É um singular modo de vida, que esta bem-chegada poesia ilumina.

segunda-feira, 13 de Janeiro de 2014

À conversa, no programa AGORA, da RTP 2, em 12 de Janeiro:

http://www.rtp.pt/play/p1235/e140447/agora