quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo


Dois sacanas invadem redacção
de jornal e disparam contra quem
desenha liberdade. Crime tão
soez não tem desculpa de ninguém.

Claro, há uns bandidos em aplausos,
mas não se mostram, té ao dia em
que, fanáticos, são eles os maus,
os tristes crendo virgens no Além.

Chora, Democracia, quantos não
salvas, por medo, liberalidade.
Em lágrimas, sê dura, ou é vão
criar, ser tolerante. Alguém há-de

convencer terroristas que não é
o mesmo existir e viver com
os outros, cujo Deus também é bom ‒
nem melhor nem pior do que Maomé.

Quem não estiver de acordo, vá embora;
cuspir na sopa dada de bom grado
define sacripantas. Rua! Fora!
(Por favor, segurança. Obrigado.)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Doces da nossa vida


Em dia de Natal, delicio-me a ler Virgílio Nogueiro Gomes, Doces da Nossa Vida. Segredos e Maravilhas da Doçaria Tradicional Portuguesa (Marcador, 2014). A página cheira bem, cada fotografia é de apetite. Seguindo conselho ‒ «Comam doces, mas não abusem.» (p. 218) ‒, não perco este pastel de nata, com vontade de segundo. Não tenho pão de ló, dormidos e económicos; ganchas e pitos só em Vila Real. Marmelada ainda provo; baunilha, também: há 40 anos, era uma tentação, e até escrevi “Elogio da baunilha”, saído em Poemas Porventura (1977).  Vai longe o tempo em que nos comboiávamos chupando rebuçados da Régua; hoje, torta de laranja, toucinho do céu, um de vários pudins, dão toque de gulodice a almoço farto.
Dessas maravilhas fala o especialista, em capítulos breves e bibliografia mínima, umas luzes de ficção, nomes próprios e antigamentes convocados («Lembro-me bem de despertar cedo», etc. [p. 79]), enquanto escorre matéria de História Social e Económica, enquadrando a História da Alimentação em que Virgílio Gomes se fez mestre.
Epígrafe inicial ‒ no «tributo a todas as gerações de escravos, cujas tarefas, e sofrimentos, contribuíram para a produção de açúcar» ‒ remete-nos para o doce inferno de António Vieira. O Autor refere, em 1628, 235 engenhos no Brasil; no ano seguinte, 346; e, do Jesuíta, cita frase destinada aos colonos (p. 16). Aproveito estes lembretes e alargo a prosa.
Peça fundamental da nossa economia, o escravo negro atravessa, desde o primeiro carregamento destinado a Lisboa, em 1443, os ciclos da pimenta, do açúcar e do tabaco, do oiro e diamantes, do algodão e do café. Três séculos e cinco milhões de escravos depois, o Brasil apresentava-se minimamente povoado. Em 1811, ainda desembarcavam no Rio mais de 22 mil.
Entre 1600 e 1670, o Brasil recebera 350 mil escravos negros. Em 1600, a demografia brasileira somava 30 mil brancos a 120 mil escravos, quando 200 engenhos produziam 600 mil arrobas anuais de açúcar, sendo mais de 400 engenhos e 2 milhões de arrobas em 1670. «Para um dos grandes engenhos eram precisos de 150 a 200 negros, empregados nos canaviais, corte das lenhas para fornalha, transportes e labutação da fábrica.» Conclusão: «É indubitável que ao açúcar se deve o desenvolvimento da escravatura no seio da civilização moderna. Sem negros não havia açúcar; isto foi prolóquio do século XVII», escreveu J. Lúcio de Azevedo (Épocas de Portugal Económico. Esboços de História, 4.ª ed., 1978, p. 258 e 228). Ou, em palavras de Vieira epistológrafo, «Sem negros não há Pernambuco» (carta de 12-VIII-1648 ao marquês de Nisa), seja, fábricas de açúcar. Três Sermões do Rosário (Décimo Quarto, Vigésimo, Vigésimo Sétimo) retratam a violência de um negro processo civilizacional, contra que se ergue a voz de alguém não quimicamente branco. Vejamos o primeiro, de 1633, ainda não era sacerdote.
Pregado «à Irmandade dos Pretos de um Engenho» baiano, reconhece-se um «contínuo e grande trabalho» ou «contínuo trabalho e exercício» de dia e de noite, em terra que «pode parecer desterro, cativeiro e desgraça, e não é senão milagre e grande milagre!»: embora «oprimidos dos trabalhos», estes não são mais «insofríveis» que os de Cristo na cruz.
A justificação dos mistérios dolorosos, que, na falta do rosário completo, devem rezar os pretos baptizados, leva o pregador à descrição do Inferno laboral, uma das primeiras e mais vivas em Vieira: «E que cousa há na confusão deste Mundo mais semelhante ao Inferno, que qualquer destes vossos engenhos, e tanto mais, quanto de maior fábrica? Por isso foi tão bem recebida aquela breve e discreta definição de quem chamou a um engenho de açúcar doce inferno. E verdadeiramente quem vir na escuridão da noite aquelas fornalhas tremendas perpetuamente ardentes, as labaredas que estão saindo a borbotões de cada uma pelas duas bocas ou ventas, por onde respiram o incêndio; os etíopes ou ciclopes banhados em suor, tão negros como robustos, que subministram a grossa e dura matéria ao fogo, e os forcados com que o revolvem e atiçam; as caldeiras ou lagos ferventes com os cachões sempre batidos e rebatidos, já vomitando espumas, já exalando nuvens de vapores mais de calor, que de fumo, e tornando-os a chover para outra vez os exalar; o ruído das rodas, das cadeias, da gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo sem movimento de tréguas, nem de descanso; quem vir enfim toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilónia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança de Inferno.» De súbito, uma visão: «Mas se, entre todo esse ruído, as vozes que se ouvirem forem as do rosário, orando e meditando os mistérios dolorosos, todo esse inferno se converterá em paraíso, o ruído em harmonia celestial, e os homens, posto que pretos, em anjos.»
Outra surpresa é citar O Prato de Arroz Doce (1862; p. 34), de António Augusto Teixeira de Vasconcelos (que foi secretário do administrador ou governador civil de Bragança), título estranho, e melhor documento sobre a Patuleia (1846-1847), a nossa última guerra civil. Figura central é o tio de D. Rosa e D. Ana, José Alves, miguelista empedernido, mas sincero e generoso – nisso opondo-se a um João Silveira, pai daquelas, tão venal quanto liberalengo oportunista. Contra ventos e marés, em campos opostos, Álvaro Pereira e Simão da Lapa recuperarão a amizade ameaçada pela dupla guerra política e amorosa, reconfortando-se, personagens e leitores, com o singular arroz doce daquela menina.
Já com a mão na massa, volto à especialidade com que abre, “Aletria”. Evoquei este meu primeiro amor em colóquio vila-realense, ora editado no n.º 61 da revista Tellus, onde também Virgílio Gomes colabora. Terminei essas memórias de infância com receita deste, que já fizera levantamento miúdo da gastronomia no romance A Casa de Bragança (2013). Pago-lhe com presente modesto, a cumprir no próximo almoço: receita em tratado de cozinha na Biblioteca Nacional de Nápoles (in José Leite de Vasconcelos, Textos Arcaicos, 5.ª ed., 1970, p. 99) mostra ser a aletrja já conhecida em Portugal no século XV. Quando nela penso, invade-me um aroma a sobremesa de Natal, literatura e gratidão aos Pais.

[Mensageiro de Bragança, 1-I-2015.]      

  

Comidas conversadas



22 de Novembro: almoço de excepção, no Restaurante Nobre ‒ da macedense Justa Nobre ‒, em Lisboa, para lançamento de António Manuel Monteiro, Comidas Conversadas. Memórias de Herança Transmontana, com que Virgílio Nogueiro Gomes decidiu inaugurar a Colecção Gastronomia & Cultura na Âncora Editora. Sem longos discursos, e sessão de autógrafos no fim, tivemos um sábado de encher peito e alma, bebendo, no meu caso, além de um Consensual, as «conversas gastrófilas» (p. 146) do Embaixador Francisco Seixas da Costa e especialistas convidados, em cujos roteiros cabem alguns restaurantes disseminados por esta obra magnífica.
Onze capítulos bem fornidos abrem com alheiras de Mirandela, tabafeias e vilões, larotas e azedos, encerrando com hino ao azeite, que dará passagem ‒ assim esperamos ‒ a romance protagonizado pela… oliveira, que já tratou em crónica e livro. António Monteiro equilibra a prosa entre rememoração, saber académico («Como agrónomo que sou», p. 114), fundas pesquisas histórico-etimológicas e receituário, em que experiência de viageiro e provador, bibliografia apurada ‒ saliento uso da dicionarística ‒ e testemunhos de quem mete a mão na massa, ou informantes, são decisivos em cada «comida conversada» (p. 101).  O poder evocativo faz emergir uma tal riqueza lexical, que o glossário é bem-vindo para a maioria dos leitores ‒ sem solução, já, na montanha de fonemas de “Uma carambina alustrada” (p. 104-109), que recoloca o problema da leitura ‘fonética’ desde Mau Tempo no Canal, e que também pratiquei em Várias Bulhas e Algumas Vítimas (1980). Temos ficcionista.
Cuscos de Vinhais, urtigas (gostei da fórmula «ler urtigamente», p. 137), polvo, vegetais diversos, elogio do bacalhau e do castanheiro, vinhos e doçuras, eis outras tentações que pedem demora, como esta longa reunião prandial que chamou outros convivas: o editor António Baptista Lopes, Amadeu Ferreira e filhos, Licínio Martins (da Multitipo, que imprime qualidade aos livros), Nuno Aires, Teresa Martins Marques, Maria do Loreto, Natália Praça, António Ramos Preto e mulher, Rogério Rodrigues e família do autor, também grão-mestre, justificadamente, da Confraria de Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-Montes e Alto Douro, entre dezenas que não caberiam aqui. Venham mais simpósios destes.


[Mensageiro de Bragança, 11-XII-2014.]             

domingo, 4 de janeiro de 2015

Do Movimento Operário e Outras Viagens, de Ernesto Rodrigues


Este livro de poesia é composto por quarenta poemas, elaborados como resposta aos estímulos das deambulações do poeta, como se infere da leitura do título “Outras Viagens”. Os topónimos poetizados por Ernesto Rodrigues são as cidades míticas que enformaram a sua cultura, nessa busca interminável do ser por ele próprio e, através dele, pelo outro, lato sensu, pelo homem em busca da sua felicidade, que o poeta só consegue descortinar pelo amor à língua, cultura e civilização.
A obra abre com a composição poética que dá título ao livro “Do movimento operário”, onde, para além de se fazer uma sentida homenagem ao honesto trabalho com o qual o Homem ganhará o pão, metaforizada no pai do poeta, se compara o ofício da forja, isto é, do ferreiro ao ofício cantante, ou seja, à ars poetica. Assim, para o eu lírico, o processo alquímico é análogo, pois, tal como o ferreiro domina e molda o ferro em brasa para dar forma aos mais belos e proveitosos utensílios, o poeta funde, molda e dá forma às palavras para escrever o verso mais perfeito que consiga auxiliar o leitor na sua autognose permanente.
O segundo poema é um soneto, embora a arquitetura estrófica não seja a canónica, uma vez que é composto por um dístico e três quadras, dedicado à mãe do poeta, onde se patenteia o carinho e a ininterrupta preocupação maternal. Parece-me que o dístico resultaria melhor no final, visto tratar-se da súmula do poema, funcionando, assim, como chave de ouro[1].
Os poemas deste livro podem agrupar-se, segundo creio, em dois grupos: o primeiro marcado pelo tom mais intimista, ou seja, mais lírico, presente nos sete sonetos e nas composições mais curtas, onde se ouve a voz dolorida do poeta murmurando com saudade as doces alegrias pretéritas; o segundo, e mais amplo, compreende o grande número de poemas narrativos, que, na minha ótica, se organizam em torno de duas realidades, significativas a todos os níveis para o poeta, a saber: Europa, e Portugal/Nação/Pátria.
No primeiro grupo, encontramos textos sobre topónimos da Hungria e de outras cidades e países da Europa, que enformaram culturalmente o poeta. Nestes poemas de grande fôlego o tom épico alterna com o lírico, facilitando a comunicação com o leitor.
O seguinte reúne poemas sobre o país, assunto de questionação constante pelo poeta, onde o tom épico secundariza, de vez, a voz lírica, nos quais o eu poemático assume, sem ambages, a atitude prometeica da poesia. Esta atitude leva-o a declarar abertamente o seu intento, que passa por provocar a reflexão no leitor e levá-lo à ação, para que, em conjunto, se possa construir um mundo melhor. Nem outra função pode ser cometida à poesia, a não ser inventar novas realidades a partir do real concreto.  
Permitam-me destacar o poema épico «Outra Pátria», em jeito de súmula do que afirmei. Esta composição apresenta a estrutura interna da epopeia, pois encontra-se dividido em quatro partes: proposição, invocação, dedicatória e narrações. Aqui, creio que o modelo é Camões, uma vez que as epopeias clássicas não apresentam, na sua estrutura interna, a dedicatória. Poema singular e fulcral na arquitetura do livro, onde imitador e imitado se confundem num derradeiro esforço de refundação da pátria, que, por incrível que pareça, continua numa austera, apagada e vil tristeza. Não falo nas aproximações estilísticas, realço, tão-só, os motivos e propósitos enunciados no incipit do poema: “A luz, a cor, o dom de minha terra / canto, no tempo mau em que navego.” [p. 50, sublinhado meu]. Resulta, também, feliz a decomposição dos versos da “proposição” em elementos, realçando, desta forma, o ritmo e a compreensão da leitura. A primeira estrofe da composição 4 da narração corrobora a ideia de privação e do abatimento que persiste em acompanhar o país, no presente, como se percebe pela interrogação com que termina a estrofe: “Que bravia sombra vem, / ronronante, levando-me por sobre / sonhos gastos de pátria tão pobre?” [p. 61]       
É, ainda, pertinente salientar que este carme é antecedido pelos poemas «Língua», em que lemos: “Eu comovo-me, povo, com teu fado, / a coragem de ser além de nós, / tão pequeno, já solo embarcado, / para longes contactos, uns após // outros – em sintonia cor e língua.” [p. 44]; «História de Portugal», no qual se revisitam os acontecimentos fundadores da nossa identidade como Nação; «Pátria», onde “Chão, Deus, água, valor, língua, / são quinas de Portugal” [p. 46]; «Rimas Pobres», em dois andamentos: no primeiro, o poeta apresenta um retrato mórbido do país, como se pode constatar pela primeira quadra: “A maldade tomou conta de nós. / Prometia baixar impostos; dar / emprego a milhares; ser correcto; / ajudar quem precisa, e avós.” [p. 47] A segunda parte encerra com um aviso e a convocação à não resignação dos leitores/eleitores, para que não embalem no falar melífluo dos governantes. “Mas, se fores // na conversa, em ti chorarás quanto / buscou evitar-te este meu canto.” [p. 47, sublinhado meu] O vate acredita na possibilidade de a poesia, “este meu canto”, ajudar a transformar o mundo e a tornar o ser humano mais cônscio; “Governo”, onde se faz uma crítica desvelada à emigração e se apela à pátria, adjetivada de amada, para que, tal como uma mãe, continue a sustentar os seus filhos: “O exílio // não é vocação ‒ pesa ‒, ó amada pátria: sê grande, mas em ti; cria bens;” [p. 48]. A composição «Outra Pátria» precede o poema «Democracia», um longo poema narrativo organizado em seis partes, no qual o poeta, recorrendo a adágios populares e a frases feitas, continua a pintar um quadro do país com cores esmaecidas, onde, apenas, é nítida a falta dessa mesma liberdade que dá título ao carme. O sujeito lírico chega ao ponto de a apostrofar: “Sê, democracia, igual aos que te desejam recta, cultivada.” [p. 64] Ato contínuo, o poeta continua a enumerar as desventuras da democracia, recorrendo, despojado das demais armas, à poesia como a derradeira salvação: “A ti cabe, amigo verso, tal / dedicatória (…) Por ti começa, verso, sermos outros.” [p. 65] Mas, e apesar destes desejos e incentivos para que a democracia seja o sol do país, a composição culmina de forma disfórica, como se pode constatar pela leitura destes versos: “Tens, ó democracia, sangue vil em ti. / Não digas, pois, que és democracia. Oh, / mas que de ilusões o homem se sacia…” [p. 68] 
Parece-me que este conjunto de poemas sob o signo da portugalidade apresenta três momentos. O primário, formado pelo conjunto de carmes que precedem «Outra Pátria», nos quais o poeta reflete sobre o país no passado, no presente e “sem futuro”. Por essa razão, ele propõe uma alternativa, seguindo no encalço de Camões, que passa por reedificar uma «Outra Pátria», acreditando que o canto/a poesia, como aconteceu com o épico, pode cumprir esse desígnio. Penso ser essa a inferência que se pode retirar da leitura da estrofe que encerra o referido poema: “Honrar quem nos comove: língua, chão, / dignidade; ser grande na incerta / lida de viver. Um poema não / faz muito ‒ mas é cais, casa, desperta / asas do sim, que dão cor ao lugar. / Um poema faz-se para criar.” [p. 61, sublinhado meu]
Os antepenúltimos poemas do livro, «Civilização» e «Cultura», reacendem a proposta de Pessoa na Mensagem. No entanto, o que em Pessoa era sonho, crença e esperança nesse quinto império capaz de redimir o país, é, no presente, para Ernesto Rodrigues, desalento, pois “A civilização é um mal sem cura; / sobrevivemos?” É, ainda, miséria e sujeição “dependência, necessidades falsas – sonho de verbo-acto, adjetivo, / quando a vida é nome pobre.” [p. 71] É, por fim, hipocrisia: “Cresce sociedade / no equilíbrio certo / entre o ser e o ter. (…) Morrem / povos famintos. Voam / palavras, que encobrem / os ares; e não vende / arte fora de moda”. [p. 74] A deceção é total, como se depreende da interrogação “Que mundo nos calhou, / tão desequilibrado?”
O livro de poesia Do Movimento Operário e Outras Viagens abre com um tom épico cantando as capacidades do homem que, transformando o mundo, pelo trabalho, se transforma. E finda com o registo lírico em tom autobiográfico no poema «Dono de mim, não perco nada. Séneca», e com a crença nas potencialidades da vida humana em «A vida não é uma linha; tem», onde as últimas palavras constituem um repto à não resignação do ser humano e à crença nas suas capacidades para transformar o mundo: “Faz / da dor teus pés de lã, rasgando lagos; / do riso, praia nua, que afago.”
Epilogando, este livro pode ler-se como uma sonata em três movimentos e em forma circular: o primeiro, onde se faz a apologia épica do trabalho; o segundo, onde ecoam algumas vozes resultantes da fadiga e do ceticismo emanados da espuma dos dias, para, no último andamento, reforçar, de novo, as capacidades individuais do ser humano.
[Segue Acordo Ortográfico]

 Norberto Francisco Machado da Veiga








[1] O poeta discorda. A ‘chave de ouro’ está no princípio, nas origens, abre para a existência; os demais versos, ou passos de vida, justificam essa relação luminosa.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Literatura, sociedade e ironia em Passos Perdidos de Ernesto Rodrigues


Este confirmado romancista teve a coragem e a sageza de satirizar com grande mestria, acutilância e sentido de opalinidade histórica os tempos hodiernos, no geral, e os conluios que sempre se estabeleceram entre política e economia, em particular. Enresto Rodrigues revela ousadia ao abordar este tema premente na nossa sociedade e ao pôr a descoberto as teias que são urdidas no santuário da democracia e que têm enredado o país, desde as sementes de Abril até ao presente.
O título Passos Perdidos só é identificável pela fotografia do espaço homónimo do edifício da Assembleia da República que serve de capa ao romance. No entanto, este título é polissémico, uma vez que perdidos, ou melhor, gorados foram, também, os intentos dos corruptores.   
A obra abre com uma epígrafe retirada da Arte de Furtar, capítulo LX, “Dos que furtam com unhas políticas”, que dá, ab initio, o mote para a trama do romance e permite, segundo cremos, ao leitor inferir o tema a escalpelizar na obra.
Passos Perdidos erguer-se como uma obra fortemente estruturada, visto que é composto por dezasseis capítulos, agrupados em duas partes (cada uma com oito capítulos) ‒ note-se a simetria ‒, seguidos de um sucinto, mas elucidativo epílogo. Quanto à estrutura, o romance apresenta duas partes: a primeira subordinada ao título “A queda de um Anjo”, que, sem dúvida, faz ressoar na memória literária do leitor a obra homónima de Camilo. Outra ilação que o leitor facilmente estabelecerá prende-se com a associação de ambos os protagonistas. João Félix Filostrato é, de imediato, associado à imagem de Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda. Contudo, esta associação perde nitidez com o título da segunda parte do romance, “Redenção”, indicando, desde logo, uma inflexão de conduta em relação ao modelo literário adotado por Ernesto Rodrigues. Temos, então, uma queda mais metafórica do que real, uma vez que a mesma não passa de um subterfúgio para desvendar o ardil, por um lado, e assumir as responsabilidades pretéritas, por outro.
Que Camilo e Eça, nomeado na obra pelo título do romance O Primo Basílio (p. 101), são vultos a quem Ernesto Rodrigues presta contínua e apurada homenagem corrobora-o, para além do que já foi dito, o facto de a intriga do romance ser narrada, nos onze primeiros capítulos, em analepse pela personagem João Felix Exposto. Este narrador/personagem é fruto de uma relação da juventude do deputado João Félix Filostrato, que, também, ignorava este facto. O ritmo cadenciado e preciso da narrativa, mais uma vez a fazer lembrar os dois romancistas do século dezanove, e o desenrolar programado da história prendem o leitor ao texto.
O tempo da ação, à semelhança do que acontece na tragédia, é bastante concentrado em, apenas, nove dias. O narrador desfila diante dos nossos olhos, como se de uma representação teatral se tratasse, os acontecimentos que, efetivamente, vão sendo apreendidos pelo leitor.
Porquê literatura? Porque o romance está pejado de referências literárias tanto explícitas como implícitas. Permito-me, apenas, recordar, não querendo ser exaustivo: Camões, Bocage e Garrett. Termino com a alusão à “Lacailândia”, isto é, Portugal, onde ressoam ecos da obra A Montanha da Água Lilás de Pepetela. 
Todo o romance é um retrato irónico da sociedade atual, lembrando a arma mais eficaz de Eça. É patente a intenção do autor em desvelar a realidade portuguesa atual, recorrendo a truísmos e a provérbios, por vezes alterados, na senda de Saramago, para provocar no leitor a reflexão, durante o ato de ler, e levá-lo, como é apanágio do teatro épico, à ação, no final da leitura.
Concluímos, asseverando que Ernesto Rodrigues não ficou aquém dos dois modelos literários, que se propôs preitear neste seu livro, uma vez que as personagens de Passos Perdidos não destoam das que Camilo perpetuou, nos seus romances. Por outro lado, qualquer leitor mais atento desta obra não hesitará em apelidá-la de queirosiana, devido à forma como a realidade portuguesa atual, filtrada pela ironia, se encontra plasmada nele.

Norberto Francisco Machado da Veiga
Doutor em Literatura Portuguesa,
Universidade de Salamanca

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Vai uma cerveja, amigo?

Conheço-te há mais de 40 anos. Foi em 1973 que começámos a “enfrentar-nos” nas páginas do Mensageiro de Bragança, onde ambos colaborávamos. A certa altura, fui obrigado a utilizar o pseudónimo José Valverde por sugestão do Padre Sampaio, já que tinha sido proscrito pelo Bispo de então e proibido de voltar a escrever para o jornal.
Durante dois meses contendemos no Mensageiro, tu contra um texto que eu havia publicado sobre a presidente da Academia do Liceu; eu, em resposta à tua crítica. Foram dias intensos.
Como te recordarás, criei o Grupo de Teatro Sequência e a nossa primeira atuação, realizada na Escola Comercial e Industrial, foi bem trabalhada e exigiu um grande esforço de toda a malta. A abertura consistia na leitura de alguns poemas de poetas transmontanos, seguindo-se a representação da peça que havíamos escolhido.
A tua crítica, publicada no jornal Ènié [1975], foi arrasadora. Na tua opinião, apenas se salvava a atriz principal. Tudo o resto foi tempo que o vento levou. Convém dizer que tu também tinhas uma companhia de Teatro, A Máscara, que dirigias. Vislumbro, aqui, uma ligeira dor de cotovelo…  
O Teófilo, cansado de nos aturar, e sendo amigo de ambos, decidiu agir e juntou-nos no Café Girassol, no Largo do Tombeirinho. Conversámos… Desde então, alimentamos uma amizade segura e cúmplice.
Envolvemo-nos em muitas atividades de cariz cultural, entre as quais destaco a publicação do boletim Amigos de Bragança [1984-1986], juntamente com o Teófilo, e cujo director era o Dr. Eduardo de Carvalho. Posteriormente, juntaram-se ao grupo o Jacob e o Jorge Morais, responsável pela fotografia e design.
Sendo eu Presidente do Clube de Bragança, celebrei com a autarquia diversos protocolos, com o então Presidente da Câmara, Eng. José Luís Pinheiro, um dos quais nos permitiu publicar doze números do boletim.
Antes, em 1981, foste para Budapeste, onde te mantiveste até 1986. A partir de 1983, trocámos intensa correspondência, o mesmo acontecendo quando regressaste e te instalaste em Oeiras.
Viveste muita coisa. Escreveste muitos livros. Muitos mais escreverás. Fizeste muita investigação, muitos ensaios. Progrediste muito na tua vida académica. Viajaste pelo mundo em trabalho e algum lazer. Foste condecorado, premiado, reconhecido, acarinhado…
Não esqueceste a tua terra, as tuas origens, e por ela tens feito mais, muito mais que o poder político ou a maior parte dos que aqui vivem, que se acomodaram ao ramerrame das suas vidinhas.
Nesse caminhar incessante, encontraste a mulher da tua vida, tua igual, com quem podes ser tu, em todas as tuas nuances.  
Aguardo, ansioso, poema novo que juntarei ao da Rua do Loreto, desta vez sem ironias, que os sonhos são para serem sonhados e eu continuo um sonhador.  
A vida dá muitas voltas e reviravoltas e quando precisei de ti, meu amigo, tu estiveste lá. São poucos, aqueles a quem posso chamar grandes amigos…
Vai uma cerveja, amigo?  

Bragança, 13 de dezembro de 2014

Marcolino Cepeda

[Na mesa-redonda da Jornada de 13 de Dezembro, sobre os 40 anos da Vida Literária de Ernesto Rodrigues.]

domingo, 14 de dezembro de 2014

40 Anos de Vida Literária

Os 40 anos da minha actividade literária fecharam com jornada na Biblioteca Municipal, promovida pela Câmara e Academia de Letras de Trás-os-Montes. Guardo em mim a presença de muitos desde logo, de amigos muito chegados há 47, 38 anos, e menos: José Mário Leite, Alcides Rodrigues, João Manuel Neto Jacob, Marcolino Cepeda, Hirondino Fernandes, Teófilo Valdemar, Mara Cepeda. Alberto Fernandes não quis falar e só ele poderia falar do editor que também fui. O Pai aguentou todo o dia, e foi aplaudido num momento de intervenção da Teresa. Presidente do município e quatro vereadores abrilhantarm o acto. Discretas, directoras do Teatro e do Museu do Abade de Baçal: Helena Genésio, Ana Maria Afonso. Vários escritores.
Após discursos de Hernâni Dias, Amadeu Ferreira, José Manuel Mndes e José Eduardo Franco este, à volta de Fernão de Oliveira e O Romance do Gramático , veio discurso meu. Segue:

Inaugurei a celebração de 40 anos de vida literária, hoje culminando em jornada para mim comovente, com o lançamento de colectânea de poemas ‒ Do Movimento Operário e Outras Viagens ‒ e do romance A Casa de Bragança. Ora, em final de capítulo deste, a propósito da justeza e bondade do rei D. Pedro para com a cidade, escrevi o seguinte: «Pão e vinho eram, nestas terras, meia mantença; a gratidão, vida inteira de transmontano, que no príncipe se revia.»
É de alma cheia, e reconhecido a esta terra, que me cumpre agradecer ao executivo municipal, relevando a interlocução da vereadora da Cultura e de Fátima Martins. Com esta trabalhara já no executivo do Eng. António Jorge Nunes, que também saúdo (grato pelo seu depoimento fílmico), sob cujo impulso nasceu a Academia, agora dirigida pelo querido Amadeu Ferreira, ausente por razões de saúde, mas bem coadjuvado pelo vice-presidente, que não se furtou a esforços para esta realização.
A ideia, contudo, desta selecta reunião partiu do realizador Leonel Brito, caucionada por Teresa Martins Marques. Esta sabe bem que sou avesso a tais comemorações. Nessa cumplicidade, moveu aquele montanhas, e gizou um programa de que só parcelarmente fui tomando conhecimento. Propus uma manhã, em que falassem duas autoridades: José Manuel Mendes, com quem estive na sua primeira direcção da Associação Portuguesa de Escritores, que ainda capitaneia, e, por razão de agenda, se fez substituir com um notável texto de síntese, e José Eduardo Franco, director de um centro de investigação (de que sou director-adjunto), cujo feito mais recente é a conclusão de um António Vieira em 30 volumes, em que aparece a nossa Academia de Letras como patrocinadora. Tendo ele escrito sobre o nosso primeiro gramático, editado a Gramática da Linguagem Portuguesa (1536) e recenseado O Romance do Gramático, que editei em 2011, estava calhado para um convite. Mas, entretanto, estava almoço combinado, no Solar Bragançano aonde, no fecho de A Casa de Bragança, também se dirigem as personagens ‒ que, às vezes, é bom imitar; e, para justificar esse pão e vinho, alargou-se a festa, na esperança de que a hora pós-prandial não faça adormecer a mesa-redonda.
Nesta, estão amigos chegados ‒ Pinelo Tiza, Alberto Fernandes, Teófilo Valdemar, Mara Cepeda, Marcolino Cepeda ‒, enquanto outros se viram incapacitados de acorrer, dada a brevidade na preparação do evento. Poderiam estar no documentário ‒ e nomes há que se repetem: Teresa Martins Marques, José Mário Leite, Neto Jacob, Hirondino Fernandes ‒, mas, no entretempo, o guião remeteu para o momento genesíaco de 1973 ‒ melhor, entre 1971 e 1974 ‒, sem prejuízo de um balanço factual e estético por Amadeu Ferreira e José Manuel Mendes. Como A Casa de Bragança fechava a cúpula de quatro decénios, versaram-na José Mário Leite ‒ amigo há 47 anos ‒, o editor António Baptista Lopes e quem, intelectual maior agora com 92 anos, me dá a honra de fartas conversas no Jardim da Estrela: José-Augusto França. Carlos Pires publicou os meus primeiros versos, aos 14 anos, no Mensageiro de Bragança; nesse 1971, troquei o Seminário de S. José pelo Colégio de S. João de Brito, conhecendo, entre leituras heteróclitas, Desidério Martins e a malta d’O Grupo, título de jornal, de que, hoje, só encontro António Ramos Preto e Alcides Rodrigues.
Estes, por quem me chegaram os dilectos Alberto Fernandes, Victor Rodrigues, António Augusto Coelho Alves, José Nobre, apanhei-os no então 7.º ano do Liceu Nacional, quando aqui ingressei, no 6.º ano, colega de José Mário Leite (abandonara o seminário) e Neto Jacob, que evoca a nossa equipa de andebol. Eu estava mais para xadrez, livros e jornais, nesse 1972 publicando, já, versos no Diário Popular, tal como Desidério Martins, com que nos vimos antologiados por Maria Alberta Meneres em O Poeta Faz-se aos Dez Anos (Assírio & Alvim, 1973). Neste ano, já dirigindo a página literária do Mensageiro de Bragança, estreei-me em livro, culpado do incómodo que vos dou.
Inconvencional teve apoios fundamentais: Domingos Neto, autor da capa, e Alcides Rodrigues, a quem ofereci texto-base, que (surpresa!), me devolveu há semanas. Meu Pai foi decisivo: 500 exemplares custavam sete mil escudos; pedi-lhe cinco contos, pois, entretanto, recuperei dois mil escudos, nas vendas, e assim paguei a quarto mosqueteiro, Frei Henrique Perdigão, chefe das máquinas nos franciscanos de Montariol, Braga.
Em noite diluviana do mês de Maria, acolheu ele o noviço das letras, banqueteou-me em mesa austera, levou aos granéis de Inconvencional e ofereceu generosa cela. Revimo-nos 33 anos depois. Eu estava na Feira do Livro e contava a Vergílio Alberto Vieira essa primeira ida a Braga, quando a Teresa impôs subida. Boleados, dirigi-me à portaria: «Frei Perdigão ainda é vivo?» Eis uma frase camiliana. Camiliano é o início de A Casa de Bragança: «Eu tinha oito anos e nada sabia de mim.» Vejam o início de Mistérios de Lisboa: «Era eu um rapaz de catorze anos, e não sabia quem era.» Do frade eu guardava memória de ser de muitos dias. E o recepcionista, espantado: «Sim. Está além a conversar com umas pessoas.» A sala era obscura; eu estava em vésperas de um descolamento de retina. Vislumbrei um ainda poderoso frade, aos 69 anos, que, encerrada a gráfica, explorava o húmus do convento em ervas e medicinas do corpo. «Frei Perdigão?» «Sim. Quem me procura?» «Sou Ernesto Rodrigues.» «Não é de Bragança, pois não?» Ele não aceitava que aquele cinquentão substituísse retrato antigo, ousado como o menino do poema oitavo d’O Guardador de Rebanhos. «Sim, sou.» «Não me diga!» E desatou no elogio da obra e criança que, fora de horas, batera à porta do silêncio… Vivi cinco anos dentro das paredes de dois seminários, mas tive naquele frade o único abraço caloroso de um ministro do Céu. Não é pouco, se isso deram uns versos mal-educados, com palavras feias manchando os caracteres da tipografia divina.
Não se imagina, com efeito, o impacto desse livro na placidez de cidade perfilada atrás das autoridades civis, militares e religiosas, cuja moral defendiam legionários e informadores da Pide. Abria com “Poemas em café democrata”, referência ao Chave d’Ouro e às potencialidades, também estéticas, da democracia. Pasmo, aqui e ali, da virulência de juventude, cínica e politizada nos termos, mas, sobretudo, no desconcerto entre título e texto (v. g., “Poema a olhar uma cabra”). Como podia suportar um regime atrás das fragas – «e afinal a política está de cama», resumi – esses “Poemas em café democrata”, tanta desobediência e subversão? Passeavam-se Mário de Sá-Carneiro, Pascoaes e Régio, sugestões de José Gomes Ferreira, Eugénio de Andrade... Notava-se a queda para ‘histórias’, para uma narratividade que me persegue; tinha imagens fortes: a «espera destilada / e cinzenta da concepção», ou, encostados à Sé, vendo «Velha virgulada [que] passa na estrada». Os colegas abriam na p. 41, onde se fechava aventura de uma infeliz, socialmente explorada, a quem a hipocrisia chamava «puta reles». Era um crime de lesa-poesia, como descrever as dores de parto de um animal, abrindo naturalmente por «Tudo lhe doía», e, quando primeiramente saído no Mensageiro de Bragança, ser o padre Manuel Sampaio chamado à pedra pelo senhor bispo Manuel de Jesus Pereira… Eis um retrato, pálido embora, do quadro mental bragançano, nos idos de 70, e como a arte mexe com a opinião, altera comportamentos, derrui e reconstrói formas de expressão ‒ a começar numa capa insólita, que até se atrevia a dar lugar a um preto…
Sou um homem que acredita ‒ ou não estaríamos aqui; em segundo lugar, e fecho de discurso, faz-me bem provar gratidão ‒ à autarquia, à Academia, a Leonel Brito, ao editor do também último romance, Passos Perdidos, e da minha Biobibliografia em volume, bem como ao pessoal da Biblioteca, expondo livros que nela ficarão ‒, provar gratidão, dizia, pois, conclui personagem de romance inédito, «A ingratidão cria musgo no coração dos homens». É limpo e inteiro que agradeço tantas atenções.


Almoço no Solar Bragançano deixou-nos com água na boca: se não deixássemos a festa a meio, não havia mesa-redonda, moderada por António Tiza. O filme de uma hora ficará como documento mais importante sobre publicações desde 1969, como prova Biobibliografia ofertada aos presentes. Da Bibliografia expus parte, em cinco vitrinas. Sobre as primícias discorreramm Alcides Rodrigues, Carlos Pires, José Mário Leite, Frei Henrique Perdigão, Desidério Martins, Neto Jacob, Teresa Martins Marques, e, já em visões de conjunto da obra, José Manuel Mendes, Hirondino Fernandes e Amadeu Ferreira, enquanto José-Augusto França curou de A Casa de Bragança, o editor António Baptista Lopes descreveu relação antiga, desde Torre de Dona Chama (1994), e António Jorge Nunes falou da relação entre o autarca-presidente e o primeiro presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes. Auto-apresentação de Passos Perdidos encerrou tarde e jornada muito concorrida pela Imprensa.