Golpe de Estado é
um romance político que mergulha o leitor nos bastidores do poder, onde
ambição, manipulação e extremismo se entrelaçam.
Quando um poderoso oligarca promete
resolver a dívida externa do país, o que parece ser um gesto patriótico
revela-se uma estratégia calculada para minar o governo e capturar o poder.
Desmascarado, passa a financiar movimentos neonazis e a fomentar um golpe de
Estado. Mas há quem resista: um tradutor e escritor policial segue pistas
improváveis, enquanto um inspector determinado traz à superfície crimes do
passado capazes de derrubar esta teia.
Num crescendo de tensão, a narrativa
expõe as engrenagens da desinformação e o avanço de agendas radicais –
remigração, insegurança, nacionalismo identitário –, revelando como a
democracia pode ser corroída por dentro.
Misturando distopia política, história
de amor e investigação criminal, este tríptico romanesco combina ritmo
cinematográfico, diálogos incisivos e uma escrita intensa que não abdica da
emoção.
Golpe de Estado é
uma leitura actual, provocadora e inquietante – um romance que desafia, alerta
e prende até à última página.
[Contracapa]
Alegando
assumir a dívida externa do país, um oligarca mina a acção do governo. O
projecto de reversão democrática falha, não o apoio a grupos neonazis que
ensaiam um golpe de Estado, contrariado por deduções de um tradutor e autor
policial. Num terceiro momento, esse mentor investe no monopólio da
desinformação: entre ataques à Esquerda, corrobora as bandeiras da
extrema-direita – remigração, insegurança, nacionalismo identitário –, mas
crimes antigos levam um inspector a cortar a cabeça desta hidra.
Dezenas
de personagens convivem neste tríptico romanesco, alertando para a ascensão de
um extremismo sem valores, qual Polifemo de um só olho, impondo a sua verdade, única.
Quando a democracia formal se tornar eufemisticamente iliberal, os bárbaros –
afirmadas ‘pessoas de bem’ ou ‘verdadeiros patriotas’, no desprezo das minorias
e de quem é contra – entraram na cidadela.
Sem
o jogo das relações interpessoais, contudo, este romance seria um libelo.
Distopia política, história de amor e solução detectivesca organizam-se em
narrativas de primeira e terceira pessoas segundo montagem cinematográfica
apoiada em diálogos vivos, onde a brevidade e secura do verbo não rasuram as
emoções que nos alimentam.
Um narrador-protagonista conta, na
primeira pessoa, como Nelson C., director e proprietário do semanário digital Última
Hora, acolitado pelo chefe de redacção Bernard De Vasconcelos,
chantageia o governo de coligação tripartida, servindo-se do ministro das
Finanças, a quem oferece entrada em casa eufemisticamente dita de massagens, um
segmento de vasto império. Simultaneamente, promete saldar a DÍVIDA EXTERNA
(título da primeira parte, primeiro golpe), impondo medidas draconianas:
reduzir a pressão da água, a potência da luz, o fluxo de gás e a velocidade dos
transportes públicos, nestes triplicando o preço dos bilhetes; um imposto sobre
os bens de consumo; decuplicar o estado policial; e uma série de abusos legais,
para recreio dos tudólogos. Visa, afinal, a presidência do Banco
nacional.
Não olha a meios, seja mandar matar o
ministro da Juventude e Desporto ou o redactor César Ruiz, responsável pelas
páginas de Cultura e alegado autor do folhetim Os vendilhões da pátria.
Mata-se em causa própria, fazendo crer vingança do Estado, a fim de criar uma
atmosfera constrangedora de governação também promíscua na relação sentimental
do primeiro-ministro com a líder do segundo partido coligado. Em síntese, «O
novo governador do Banco nacional arrastou secretário e guarda-costas: detentor
de parte substancial da dívida externa do país, está nas suas sete quintas,
após obrigar à demissão do primeiro-ministro (por razões de saúde, segundo
comunicado), a que se alcandorou, acumulando, o ministro das Finanças. Em dois
meses, minaram o governo e o país.»
O narrador, estagiário de 25 anos
redactor de Lazer e Entretenimento, percebe, através da namorada, Eugénia
Santos, estagiária em escritório de advogados, que partem daqui as leis
governamentais decididas por Nelson C.; cumpliciado com a designer
Eulália Sepúlveda, que o reconhece da comum orfandade em internato, e temendo má sorte, passam-se ao jornal
da deputada Giselle Santos Brown, onde, com aquele mesmo título, sai
noveleta-denúncia, que desfaz os projectos do predador.
Esta parte decorre entre 3 de Janeiro e
15 de Março. A segunda, “Golpe de Estado”, sucede entre 17 de Março e 1 de
Maio, ou a reincidência de um perdedor apoiando neonazis, cujas contradições
teóricas (História nacional colectora de imigrantes, ao contrário do que
julgam) e práticas (tráfico e prostituição de estrangeiras) aquele narrador, em
terceira pessoa, desvela, numa prosa mais dialogada.
Começa com a perseguição do líder do
grupo 1128, Marco, a duas imigrantes indocumentadas da Crimeia ocupada, Larysa
mãe e Larysa filha, de oito anos. Mal saídas de comboio matinal, avenida fora,
aquela abandona a filha a um transeunte que volta a casa do passeio. É Gonçalo
Santos, autor de policiais reconhecido (ver a emoção da jovem Teresinha e
pais), que se socorre do amigo João Meneses – médico, detentor de clínicas associado a uma
viúva nórdica, Ingrid –, para consulta à menina. Ingrid Larsen conhece Gonçalo
Santos de nome, enquanto tradutor do seu pai, relação que se cimenta até ao
final da obra, entre redescoberta do amor, feitos de gratidão e de generosidade
no campo da saúde.
Essa manhã, contudo, com ataques país
fora do partido de extrema-direita Alto! assente em grupelhos supremacistas, é
ensaio para algo maior, mais perigoso, anunciado por outras perseguições.
Superintende um apelido agora completo, e significativo: Nelson Camarilha.
Gonçalo começa a perceber isso ao ler, em semanário, textos codificados de
incitação à luta armada assinados por Maria Marcês Faustina, uma comunista
ex-companheira de faculdade, agora ideóloga neofascista.
A narrativa conta as suas diligências
para alertar as autoridades, em especial, o director nacional da polícia e o
secretário-geral do Serviço de Informações de Segurança. Fá-lo através da amiga
e influente Joana Pessanha, separada de João Meneses, enfim colocando o país de
sobreaviso contra um golpe de Estado. Confirmam-se as deduções de Gonçalo
Santos, que explicará o seu raciocínio em jantar na casa de João e Joana, de
novo reunidos, a que acorrem aqueles responsáveis e o Presidente da República.
“Manipulação” vai de 20 de Outubro a 1 de Novembro, ou
como comprometer David Brown na morte de uma adolescente, Amanda, filha dos
separados Bernard Alvarez de Vasconcelos (filha que não vê há 14 anos) e Olívia
de Vasconcelos (antiga aluna de David), neta de Camarilha, que prefere o genro
à filha, e Elisabeth, que não acredita no crime. A montagem é perfeita, com
prisão, julgamento por tenro juiz (no final, corajoso) e termo e residência do
ex-docente universitário, cuja filha, Giselle, e o filho adoptivo Victor
Guimarães, inspector da Judiciária, vão salvar.
Sobrepõe-se a guerrilha da
desinformação em várias frentes, alimentada por Bernard e pelo jornalista Lucas Evangelista (de
facto, Gabriel Martim), filho de Camila Evangelista, técnica de saúde. Esta
personagem revela-se em modo diferido, tardio, percebendo-se, então, a sua
importância no entrecho. Mais presente, Bianca Ruiz, secretária de Camarilha e
sobrinha do assassinado jornalista César Ruiz, tem a sua história e um
desígnio, felizmente atalhado por Victor Guimarães. O passado de ambos,
conhecido de Camarilha e David Brown, é revelado por este.
Uma adolescente estrangeira, também
sequestrada em quinta, aparece morta. Ainda desaparecida Amanda, a amiga de
escola Andrea, filha de Alice Norton, sente-se cúmplice, com remorsos, e
sucida-se. Somam-se ataques à Esquerda das vaidades alegadamente representada em David
Brown; juntam-se à festa de demolição de carácter os nacionalistas de
Camarilha, quase sempre intermediado pelo também traficante de droga Bernard
Alvarez, promotor da trama, melhor, tramóia.
A pouco e pouco, a investigação
policial transmitida a Giselle Brown equilibra o enredo, resolve a equação em
risco com uma atenta dona Celestina, vizinha
de Lucas Evangelista, ilumina a conspiração e seus motivos,
celebra-se sentença judicial (reunindo em almoço Eulália Sepúlveda, etc.), até
ao desenlace frente à campa de Eduardo Guimarães, colega de David Brown…
Está aprazado almoço natalício com
Victor e Bianca, Giselle e
David Brown, o
cunhado Gonçalo Santos e
mulher Ingrid, a há muito afastada filha Eugénia Santos e namorado-narrador,
«modesto organizador destas prosas». Giselle e Ingrid vão surpreender David com
o regresso da esposa separada, assim espelhando a conjugação João Meneses e Joana Pessanha, por
arte de Gonçalo Santos.
Ameaça-nos um reino ubuesco desde a
primeira palavra, evocando o MERDRE de Alfred Jarry. É um retrato cru e triste
de país leiloado, de interior vazio, vendido às praias, que, apesar dos
esforços tentaculares e criminosos de figurantes radicais, entra nos eixos,
evitando mais sangue e cumprindo justiça. Do mundo inconsequente dos artistas à
política de alcova, da promiscuidade entre judiciário balofo e um polícia corrupto, da violência mobilizadora ao
comentário unívoco (mas cómico, na dona Gardénia, no professor Zandinga), da
encenação religiosa ao jornalismo enganoso vai um passo – e o abismo logo ali.
A moral esconde-se na linguagem
hipócrita, censória, exclusiva (mais sensível no tocante à raça e ao
género, à distinção entre bons e maus patriotas), alfobre de insultos
ideológicos e baixos instintos. Em defesa de um 25 de Abril dignificador, que
um estilo irónico e partidário acompanha, vela-se pela liberdade em segurança e
combate-se o retrógrado: «Uma deputada do Alto! não conseguia calar a fúria,
fervendo em bocas baixas, e, pedindo a palavra, considerou a necessidade de
manter a mulher em casa, mãe e educadora, ser corpo amável ao dispor do marido,
libertando os empregos, donde viria sustento suficiente.»
Nos meus romances, há um processo de
vida dos mesmos romances: a visão oblíqua, à Escher, que nos obriga a um
lento recentramento. Não devemos tirar conclusões imediatas, pois o que parece
não é. O foco incide
sobre todos, mas só ilumina a
verdade muito à frente. O caso mais evidente é a tensão entre
Bianca Ruiz e Victor Guimarães. No final, águas ideológicas separadas, faz-se justiça.
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