terça-feira, 17 de março de 2026

Golpe de Estado: sinopse e desenvolvimento

 

Golpe de Estado é um romance político que mergulha o leitor nos bastidores do poder, onde ambição, manipulação e extremismo se entrelaçam.

Quando um poderoso oligarca promete resolver a dívida externa do país, o que parece ser um gesto patriótico revela-se uma estratégia calculada para minar o governo e capturar o poder. Desmascarado, passa a financiar movimentos neonazis e a fomentar um golpe de Estado. Mas há quem resista: um tradutor e escritor policial segue pistas improváveis, enquanto um inspector determinado traz à superfície crimes do passado capazes de derrubar esta teia.

Num crescendo de tensão, a narrativa expõe as engrenagens da desinformação e o avanço de agendas radicais – remigração, insegurança, nacionalismo identitário –, revelando como a democracia pode ser corroída por dentro.

Misturando distopia política, história de amor e investigação criminal, este tríptico romanesco combina ritmo cinematográfico, diálogos incisivos e uma escrita intensa que não abdica da emoção.

Golpe de Estado é uma leitura actual, provocadora e inquietante – um romance que desafia, alerta e prende até à última página.

[Contracapa]



 

Alegando assumir a dívida externa do país, um oligarca mina a acção do governo. O projecto de reversão democrática falha, não o apoio a grupos neonazis que ensaiam um golpe de Estado, contrariado por deduções de um tradutor e autor policial. Num terceiro momento, esse mentor investe no monopólio da desinformação: entre ataques à Esquerda, corrobora as bandeiras da extrema-direita – remigração, insegurança, nacionalismo identitário –, mas crimes antigos levam um inspector a cortar a cabeça desta hidra.

Dezenas de personagens convivem neste tríptico romanesco, alertando para a ascensão de um extremismo sem valores, qual Polifemo de um só olho, impondo a sua verdade, única. Quando a democracia formal se tornar eufemisticamente iliberal, os bárbaros – afirmadas ‘pessoas de bem’ ou ‘verdadeiros patriotas’, no desprezo das minorias e de quem é contra – entraram na cidadela.

Sem o jogo das relações interpessoais, contudo, este romance seria um libelo. Distopia política, história de amor e solução detectivesca organizam-se em narrativas de primeira e terceira pessoas segundo montagem cinematográfica apoiada em diálogos vivos, onde a brevidade e secura do verbo não rasuram as emoções que nos alimentam.      

 

Um narrador-protagonista conta, na primeira pessoa, como Nelson C., director e proprietário do semanário digital Última Hora, acolitado pelo chefe de redacção Bernard De Vasconcelos, chantageia o governo de coligação tripartida, servindo-se do ministro das Finanças, a quem oferece entrada em casa eufemisticamente dita de massagens, um segmento de vasto império. Simultaneamente, promete saldar a DÍVIDA EXTERNA (título da primeira parte, primeiro golpe), impondo medidas draconianas: reduzir a pressão da água, a potência da luz, o fluxo de gás e a velocidade dos transportes públicos, nestes triplicando o preço dos bilhetes; um imposto sobre os bens de consumo; decuplicar o estado policial; e uma série de abusos legais, para recreio dos tudólogos. Visa, afinal, a presidência do Banco nacional.

Não olha a meios, seja mandar matar o ministro da Juventude e Desporto ou o redactor César Ruiz, responsável pelas páginas de Cultura e alegado autor do folhetim Os vendilhões da pátria. Mata-se em causa própria, fazendo crer vingança do Estado, a fim de criar uma atmosfera constrangedora de governação também promíscua na relação sentimental do primeiro-ministro com a líder do segundo partido coligado. Em síntese, «O novo governador do Banco nacional arrastou secretário e guarda-costas: detentor de parte substancial da dívida externa do país, está nas suas sete quintas, após obrigar à demissão do primeiro-ministro (por razões de saúde, segundo comunicado), a que se alcandorou, acumulando, o ministro das Finanças. Em dois meses, minaram o governo e o país.» 

O narrador, estagiário de 25 anos redactor de Lazer e Entretenimento, percebe, através da namorada, Eugénia Santos, estagiária em escritório de advogados, que partem daqui as leis governamentais decididas por Nelson C.; cumpliciado com a designer Eulália Sepúlveda, que o reconhece da comum orfandade em internato, e temendo má sorte, passam-se ao jornal da deputada Giselle Santos Brown, onde, com aquele mesmo título, sai noveleta-denúncia, que desfaz os projectos do predador.

Esta parte decorre entre 3 de Janeiro e 15 de Março. A segunda, “Golpe de Estado”, sucede entre 17 de Março e 1 de Maio, ou a reincidência de um perdedor apoiando neonazis, cujas contradições teóricas (História nacional colectora de imigrantes, ao contrário do que julgam) e práticas (tráfico e prostituição de estrangeiras) aquele narrador, em terceira pessoa, desvela, numa prosa mais dialogada.

Começa com a perseguição do líder do grupo 1128, Marco, a duas imigrantes indocumentadas da Crimeia ocupada, Larysa mãe e Larysa filha, de oito anos. Mal saídas de comboio matinal, avenida fora, aquela abandona a filha a um transeunte que volta a casa do passeio. É Gonçalo Santos, autor de policiais reconhecido (ver a emoção da jovem Teresinha e pais), que se socorre do amigo João Meneses – médico, detentor de clínicas associado a uma viúva nórdica, Ingrid –, para consulta à menina. Ingrid Larsen conhece Gonçalo Santos de nome, enquanto tradutor do seu pai, relação que se cimenta até ao final da obra, entre redescoberta do amor, feitos de gratidão e de generosidade no campo da saúde.

Essa manhã, contudo, com ataques país fora do partido de extrema-direita Alto! assente em grupelhos supremacistas, é ensaio para algo maior, mais perigoso, anunciado por outras perseguições. Superintende um apelido agora completo, e significativo: Nelson Camarilha. Gonçalo começa a perceber isso ao ler, em semanário, textos codificados de incitação à luta armada assinados por Maria Marcês Faustina, uma comunista ex-companheira de faculdade, agora ideóloga neofascista.

A narrativa conta as suas diligências para alertar as autoridades, em especial, o director nacional da polícia e o secretário-geral do Serviço de Informações de Segurança. Fá-lo através da amiga e influente Joana Pessanha, separada de João Meneses, enfim colocando o país de sobreaviso contra um golpe de Estado. Confirmam-se as deduções de Gonçalo Santos, que explicará o seu raciocínio em jantar na casa de João e Joana, de novo reunidos, a que acorrem aqueles responsáveis e o Presidente da República.

“Manipulação” vai de 20 de Outubro a 1 de Novembro, ou como comprometer David Brown na morte de uma adolescente, Amanda, filha dos separados Bernard Alvarez de Vasconcelos (filha que não vê há 14 anos) e Olívia de Vasconcelos (antiga aluna de David), neta de Camarilha, que prefere o genro à filha, e Elisabeth, que não acredita no crime. A montagem é perfeita, com prisão, julgamento por tenro juiz (no final, corajoso) e termo e residência do ex-docente universitário, cuja filha, Giselle, e o filho adoptivo Victor Guimarães, inspector da Judiciária, vão salvar.

Sobrepõe-se a guerrilha da desinformação em várias frentes, alimentada por Bernard e pelo jornalista Lucas Evangelista (de facto, Gabriel Martim), filho de Camila Evangelista, técnica de saúde. Esta personagem revela-se em modo diferido, tardio, percebendo-se, então, a sua importância no entrecho. Mais presente, Bianca Ruiz, secretária de Camarilha e sobrinha do assassinado jornalista César Ruiz, tem a sua história e um desígnio, felizmente atalhado por Victor Guimarães. O passado de ambos, conhecido de Camarilha e David Brown, é revelado por este.

Uma adolescente estrangeira, também sequestrada em quinta, aparece morta. Ainda desaparecida Amanda, a amiga de escola Andrea, filha de Alice Norton, sente-se cúmplice, com remorsos, e sucida-se. Somam-se ataques à Esquerda das vaidades alegadamente representada em David Brown; juntam-se à festa de demolição de carácter os nacionalistas de Camarilha, quase sempre intermediado pelo também traficante de droga Bernard Alvarez, promotor da trama, melhor, tramóia.

A pouco e pouco, a investigação policial transmitida a Giselle Brown equilibra o enredo, resolve a equação em risco com uma atenta dona Celestina, vizinha de Lucas Evangelista, ilumina a conspiração e seus motivos, celebra-se sentença judicial (reunindo em almoço Eulália Sepúlveda, etc.), até ao desenlace frente à campa de Eduardo Guimarães, colega de David Brown…

Está aprazado almoço natalício com Victor e Bianca, Giselle e David Brown, o cunhado Gonçalo Santos e mulher Ingrid, a há muito afastada filha Eugénia Santos e namorado-narrador, «modesto organizador destas prosas». Giselle e Ingrid vão surpreender David com o regresso da esposa separada, assim espelhando a conjugação João Meneses e Joana Pessanha, por arte de Gonçalo Santos.       

 

Ameaça-nos um reino ubuesco desde a primeira palavra, evocando o MERDRE de Alfred Jarry. É um retrato cru e triste de país leiloado, de interior vazio, vendido às praias, que, apesar dos esforços tentaculares e criminosos de figurantes radicais, entra nos eixos, evitando mais sangue e cumprindo justiça. Do mundo inconsequente dos artistas à política de alcova, da promiscuidade entre judiciário balofo e um polícia corrupto, da violência mobilizadora ao comentário unívoco (mas cómico, na dona Gardénia, no professor Zandinga), da encenação religiosa ao jornalismo enganoso vai um passo – e o abismo logo ali.

A moral esconde-se na linguagem hipócrita, censória, exclusiva (mais sensível no tocante à raça e ao género, à distinção entre bons e maus patriotas), alfobre de insultos ideológicos e baixos instintos. Em defesa de um 25 de Abril dignificador, que um estilo irónico e partidário acompanha, vela-se pela liberdade em segurança e combate-se o retrógrado: «Uma deputada do Alto! não conseguia calar a fúria, fervendo em bocas baixas, e, pedindo a palavra, considerou a necessidade de manter a mulher em casa, mãe e educadora, ser corpo amável ao dispor do marido, libertando os empregos, donde viria sustento suficiente.»

Nos meus romances, há um processo de vida dos mesmos romances: a visão oblíqua, à Escher, que nos obriga a um lento recentramento. Não devemos tirar conclusões imediatas, pois o que parece não é. O foco incide sobre todos, mas só ilumina a verdade muito à frente. O caso mais evidente é a tensão entre Bianca Ruiz e Victor Guimarães. No final, águas ideológicas separadas, faz-se justiça.           

 

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