domingo, 16 de julho de 2023

A edição crítica da princeps d’Os Lusíadas


Os 450 anos d’Os Lusíadas foram celebrados com a edição crítica da princeps (1572), que Rita Marnoto vinha anunciando em artigos de 2021-2022, um dos quais no JL: «Qual é a edição princeps de Os Lusíadas? Um ponto final» (n.º 1336, 15-12-2021). Agora, numa exposição informadíssima, clara e serena, narra-se aventura que deveria suscitar mais do que um ruidoso silêncio.

O vol. I divide-se em três partes: Problema Crítico; A Bibliografia Textual; A Edição Princeps de Os Lusíadas / Estudo Bibliográfico. Anotada a tradição manuscrita, mas sem manuscrito de tipografia do Poema, historia-se a tradição impressa, desde as «dòs ediciones» segundo Manuel de Faria e Sousa, no séc. XVII, e, a partir de Oitocentos, as siglas distintivas Ee/S, E/D, mais comuns do que A e B (no séc. XX) ou, para dois estados de impressão de uma única edição, OCTVO e OCTAVO (Jackson 2003): se esta sigla não vinga, ela serve aos que continuam a defender E/D (bico do pelicano para a nossa direita, Dextra, e 1.1.7 = «Entre») como princeps, da qual derivaria a mais corrigida Ee/S (bico para a esquerda, Sinistra, e 1.1.7 = «E entre»). Para obviar a alguma excepção (exemplar na British Library: bico à esquerda e «Entre»), André B. Penafiel (2022) olha ao caractere itálico ou romano que abre cada estância e prefere Italic edition (Ee) e Roman edition (E). Marnoto analisa esta peculiar diferença.

Ora, há 200 anos, já aflorava a hipótese de uma contrafacção, nomeando-se depois a oficina de Andrés Lobato (1585), nome que vem de Tito de Noronha (1880) a João Luís Lisboa (2014), mas eu não arrisco. À medida que iam sendo conhecidos novos exemplares, as diferenças gráficas eram tais, que se justificava a suspeita. No início do séc. XX, as edições de Epifânio da Silva Dias e José Maria Rodrigues, seguidos por Hernâni Cidade, equilibram a contenda, ao preferirem Ee/S, próximos de um critério-base da ecdótica, o de lectio difficilior potior, que Aquilino, Sena ou Aguiar e Silva não reconhecem. A variante mais difícil será simplificada por outros: «Portugues Cipião» de Ee/S vira «Portugues Capitam» em E/D (8.32.3); Mercúrio, «Filho de Maia», troca-se em «Filho de Maria» (2.56.2). Dos 29 exemplares analisados por Jackson parecia emergir a precedência desta lectio facilior e a ideia de que, enquanto se imprimia E/D, iam sendo introduzidas emendas (variantes de estado tipográfico). Quatro erros técnicos comuns a todos os exemplares demonstrariam ter havido uma só edição. Não: são deslizes paratextuais, que denunciam imitação. Sobrepondo as imagens respeitantes a esses quatro erros, Marnoto evidencia dissemelhanças na configuração tipográfica. Importa, pois, atentar em diferenças substanciais «no plano da produção e na análise da materialidade dos exemplares» (p. 60), e, aqui, é fundamental estudar o papel, e não só nas marcas de água. Face a 11 especímenes, João Ruas (2009) concluiu que os papéis de E/D seriam de entre 1573-1581, senão mais tarde. Conhecendo a fortuna, desde 1548 até 1594-1595, da gravura frontispicial, estranha-se o seu mau decalque na alegada princeps E/D.

A segunda parte obedece aos preceitos da crítica textual: recolhe testemunhos – 39 exemplares, dando notícia de mais cinco – que analisa e autentica, para os comparar e hierarquizar, assim concorrendo para a ideal copy do Poema, também nas suas imperfeições (curiosa a gralha ‘rata’, em vez de ‘rota’, pois rima com ‘frota’, corrigida em E/D, 1.29.8). A investigação na área da Bibliografia, de que emergem autores pouco conhecidos entre nós, é acompanhada de um conhecimento prático em tipografia e linguagens do livro. Há que distinguir edição, estado tipográfico, variantes editoriais, e como, no curso da impressão, já se desapertavam as ramas utilizadas, recolocando o material nos caixotins. A modesta casa de António Gonçalves, decerto com uma só prensa, não guardava as fôrmas, e, à luz de uma edição em continuum de emendas, não se compreenderia substituir centenas de iniciais de oitavas de itálico para redondo, que nenhum problema levantavam.

A terceira parte visa concluir «pela existência de duas matrizes materialmente distintas» (p. 123). Trabalhando o maior número de exemplares conhecidos até hoje, por mediação e, sobretudo, de visu, Marnoto divide-os em dois grupos bibliográficos – Ee/S e E/D –, e pratica o que antes teorizara, contrapondo logo a Jackson factos incontrovertidos na posição de cabeça e pé de página, incluindo aqui o reclamo, no número de canto em cabeça de página, a foliação, e nos caracteres, além de outros erros afinais comuns. Sobrepondo várias páginas dos dois grupos, é inquestionável a diferença de moldes. O mesmo faz sobrepondo os frontispícios, alvará (com 33 e 34 linhas, o que suscita lição sobre a mancha do texto e uso do componedor) e licença da Inquisição (frei Bartolomeu dançando no espaço). Esmiúça inúmeras diferenças, que provam distinta matriz. E assim no início do Poema, nas cabeças e pés de página, nas fontes, variantes de texto e de algarismos, nas capitulares e ornamentos (menor nitidez em E/D), etc. Importam, decisivas, as ligaduras, sendo três exclusivas de E/D: as, is, sp, esta com altíssima percentagem. Compulsadas 17 obras em latim, castelhano e vulgar do prelo de António Gonçalves, afirmo que, entre 1568 e 1574, nunca ele se serviu dessas três ligaduras. 

Instrutiva é outra lição sobre a origem do itálico e romano utilizados e quem seriam os gravadores das fontes. O apartado final descreve cada um dos 39 exemplares – 16 de Ee/S, 8 de E/S, 15 mistos ou de outra procedência –, que dividiu em homogéneos (pertencentes a uma das edições) e heterogéneos (de configuração mista ou alheia a ambos os grupos). O volume encerra com seis pontos-chave que contrastam nas duas edições.

O vol. II contém a ideal copy segundo 17 exemplares ou partes de exemplares de Ee/S, acompanhada de um aparato. A quinta parte dá a Bibliografia citada.

É um trabalho impressionante de minúcia e rigor, trocando a especulação pelo factual. Em vésperas de quinto centenário do nascimento de Camões, a seriedade destas quase mil páginas deveria convocar um debate não menos sério, sem ideias cristalizadas, atento aos desafios que os prelos de Quinhentos nos levantam.

 

Luís de Camões

OS LUSÍADAS

Edição Crítica da Princeps

por Rita Marnoto

Centre International d’Études Portugaises (Genève), 514 + 458 pp.      


Ernesto Rodrigues

JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, 12-VII-2023

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